November 30, 2008

Das Unheimliche, ou algo assim

Confesso que sempre sinto uma espécie de espanto - não, uma espécie de horror, um horror metafísico - quando encontro uma pessoa com uma opinião diferente da minha, por mais trivial que seja o assunto. Não gosta de chocolate? De Nero Wolfe? Do mar, de Woody Allen, do Império Britânico circa 1882? O sangue me foge da cabeça, correndo sabe Deus para onde, para os mamilos, os joelhos, que seja; minha boca se abre, meu perispírito se contrai, minha aura vai bater na lâmpada; não compreendo que possa existir tal abantesma, e meu primeiro impulso é livrar o mundo de criatura tão invertida, tão rabina, tão contrária aos princípios mais básicos da natureza que provavelmente enxerga na escuridão, fica cega à luz do dia, sente calor no vácuo do espaço, traz os órgãos internos pendurados na pele e não vê graça em paçoca. Sou muito bom em fingir que não estou em choque, e me orgulho muito do meu sorriso civilizado quando, na verdade, estou me segurando para não fazer xixi nas calças devido ao horror de ter sido apresentado a uma senhora que não gosta de cinema, ou a um garoto que adora Clarice Lispector. Ora, é como ser apresentado a um xaxim gigante que fala! Com óculos! Com um chapeuzinho e um cachimbinho! Quem dentre vocês apertaria a mão de xaxim do xaxim humano e ouviria suas opiniões de xaxim com uma aparência de urbanidade? Eu o faço todos os dias, trêmulo por dentro mas suave e polido por fora; e aqui confesso também que essa é a minha reação diante de muitas pessoas que comentam no meu blog, porque elas muitas vezes manifestam explicitamente o nojo do que é sagrado, como Deus e Chesterton ou um post meu qualquer - repito, qualquer post meu -, ou a qualquer um dos itens que considero manifestamente bons, como P.G.Wodehouse, cães, John Wayne, mousse de chocolate, musicais da MGM, pezinhos femininos e assim por diante; e apreço pelo que é horrendo, embora sobre isso seja melhor calar. Não compreendo, não compreendo que existam pessoas diferentes de mim, e se escrevo é para diminuir esse abismo medonho - em vão tentando fazer com que as pessoas fiquem cada vez mais parecidas comigo, post por post, mês por mês, old boy por old boy. Não acontece, eu sei, ou acontece num ritmo muito lento; mas mesmo assim prometo a mim mesmo que manterei o blog até que chegue o dia em que eu possa ler a minha caixa de comentários - e o mundo, e o mundo! - sem sobressalto ou asco; nem apagarei meu blog, nem minha espada dormirá na minha mão, até a completa alexandrinização da humanidade.

Posted by Alexandre S. at November 30, 2008 11:28 PM
Comments

Sabe, para ter o que gostamos precisamos trabalhar (para ter dinheiro).

O quanto abominamos o trabalho que mesmo assim fazemos é o tanto que gostamos do que queremos comprar.

Eu trabalho para poder comer bem, colecionar pornografia, comprar bons livros e, um dia, viajar para a França.

Clarice Lispector? Bem, você deve saber até melhor do que eu que qualquer biblioteca pública razoável tem alguns livros dela, que podemos ler de graça (em Brasília, todas as bibliotecas públicas têm tragédias gregas: É a marca do destino...). Então, ela é boa - para se ler de graça! Não vale a pena trabalhar para comprar um livro dela.

Se surgir um fã da Clarice, saiba que estou fazendo um bruto elogio: 90% dos escritores, eu só leio se for pago. E alguns eu prefiro antes pagar para outra pessoa ler do que ler.

Posted by: Jorge Nobre at December 1, 2008 02:18 AM

Was? du suchst? du möchtest dich verzehnfachen, verhundertfachen? du suchst Anhänger? — Suche Nullen!

Posted by: Dude at December 1, 2008 03:01 AM

Jorge Nobre, eu também acho que pornografia é um dos principais motivos que me levam a trabalhar, ou até mesmo a continuar vivendo.

Posted by: Fábio Henrique at December 1, 2008 06:50 AM

E eu também gosto de sodomia tântrica, além de João Ubaldo Ribeiro.

Ui!

Posted by: Fábio Henrique at December 1, 2008 07:50 AM

Beg to differ, Herr Alexander. Se todos gostassem, say, de Rex S., como se gosta do Agatha C., Nero W. talvez não fosse o mesmo. E há que se manter um certo arquear de sobrancelhas, não é? Aonde vai a superioridade, assim? Alexandrizar o mundo talvez significasse fazer com que ler Saramago fosse way too cool. O que seria, naturalmente, desastroso.

Posted by: mauro at December 1, 2008 08:59 AM

Chocolate, check. Mar, check. Woody Allen, check. Império Britãnico, check. Deus, check. Chesterton, check.

Clarice Lispector, uncheck.

Cães, check. Mousse de chocolate, check. Musicais da MGM, check. Pezinhos femininos, check.

Saramago, uncheck.

Nero Wolfe, P.G. Wodehouse, John Wayne, on hold.

Alexandrinização em estado avançado. Até mudaria meu nome, mas confudiria as pessoas que já me acham parecido com meu irmão.

Posted by: Guilherme T. B. at December 1, 2008 09:46 AM

O comentário sobre sodomia não é meu. Foi um farsante, haha.

Posted by: Fábio Henrique at December 1, 2008 10:23 AM

O Mauro foi ao ponto.

Num mundo de xaxins, as samambais destacam-se. E estão mais bem servidas. O verde em meio a todo aquele marrom falante...

Imagine se os xaxins fôssemos nós. Ha! Mundo cão.

Posted by: Carlos OMM at December 1, 2008 10:29 AM

Eu não sei o que eu acho que samambaias. Acho que não gosto muito não.

Posted by: pteridófita at December 1, 2008 10:36 AM

alexandre, me diga, gostar de clarice lispector é de mau gosto em qualquer idade ou apenas na adolescência?!?!

Posted by: gabi at December 1, 2008 01:22 PM

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Bem, há duas maneiras reconhecidas de se Alexandrinizar a Humanidade: através de guerras de conquista ou através de uma nova seita.

De minha parte, confesso-me Alexandrinizado; a começar pelo meu nome e a terminar pela concordância com a imensa maioria dos conceitos postados por aqui (alguns foram até roubados e repostados no orkut... Afinal a Verdade precisa ser levada às massas, certo? ;)

Como não tenho a menor vocação para guerreiro (sangue me enoja), prefiro me candidatar ao cargo de sumo sacerdote, que deve ser melhor pago, inclusive.

Os crentes da nova religião serão conhecidos como Xandões e levarão debaixo do braço um notebook positivo, com a toda a Palavra do ASS salva em um arquivo .doc conhecido como Obológui, que tal?

Precisamos bolar uma campanha de mkt e publicitária...

Ei, Alê! Vc é magro, cabeludo e barbudo? Gordinho e risonho?
Fotografaria melhor usando uma cartola de espinhos e vestindo uma túnica? Ou sentado no chão, de smoking, na posição flor-de-lótus?
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Posted by: Alexandre Fotógrafo at December 1, 2008 04:02 PM

"...como se gosta do Agatha C....". Acuda mamãe!

Posted by: mauro at December 1, 2008 04:31 PM

Oi Alexandre, mandei um recado para você no orkut, como sei que você não acessa lá muito... resolvi avisar por aqui. Beijo.

Posted by: Alessandra Tridente at December 2, 2008 12:03 AM

Bom, de minha parte com certeza você influenciou minha formação. Se não fosse você nunca teria descoberto Wodehouse e sem Wodehouse minha vida continuaria muito muito muito sem graça. Agora é apenas sem graça.
Abraço Lord.

Posted by: J. Alencar at December 2, 2008 08:50 AM

Não sei como o Saramago entrou na história. Mas se você gosta dele, Alexandre - do que duvodo -, jamais me alexandrizarás.

Posted by: Burke at December 2, 2008 09:52 AM

"Duvido", naturalmente.

Posted by: Burke at December 2, 2008 09:54 AM

go, silva, go!!!

Posted by: mairena at December 2, 2008 11:00 PM

Aqui ó Alexandre, pro senhor brincar um pouco:

http://www.cubeecraft.com/

Posted by: Constantine at December 3, 2008 01:37 PM

notebook positivo.
deus me livre disso.

Posted by: notebook positivo at December 4, 2008 01:55 AM

hegel mata a pau.

Posted by: bruno at December 4, 2008 11:40 AM

Estávamos indo tão bem... Woody Allen é o Didi Mocó que nasceu no primeiro mundo. Além do mais, fala se cuspindo.

Posted by: Cindy at December 4, 2008 07:52 PM

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Notebook Positivo, é só para os crentes que andam por aí vestidos igual segurança ou vendedor das Casas Bahia.

Os Vaios são destinados aos cardeais e o MacBook apenas ao intermediário entre o divino Alexandre e os Xandãos, uma espécie de vice-Alexandre eleito pelos cardeais em cerimônia secreta.

Alguém se arrisca a subir a montanha e voltar com duas tábuas de pedra(?) contendo os dez mandamentos?
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Posted by: Alexandre Fotógrafo at December 4, 2008 08:45 PM

Wow! Alexandre, I'll have what you're smoking!

Posted by: Pink Cadillac at December 4, 2008 11:38 PM

Alexandre, veja isto: http://lindabia.blog.uol.com.br/images/espelho.jpg
A sua cara.

Posted by: at December 5, 2008 11:13 AM

Alexandre, querido, no vácuo há transmissão de calor, não há de som. Sintetizando: você é um exemplo para os seus discípulos.

Posted by: Pedro at December 5, 2008 11:34 AM

Alexandre, deixa lá, continuo a amar-te tal como és, não mudes nadinha, nem uma virgulazinha do teu feitio.

Posted by: Miucha at December 8, 2008 12:19 AM

Só para provar que te amo em cada letrinha, repara bem que agora aqui não são 12.23 am e sim 03.23 am e estou a investir o meu tempo a ler os teus postezinhos adoráveis.
Beijo.

Posted by: Miucha at December 8, 2008 12:25 AM

O que te salva, Alexandre, é que você é engraçado mesmo. Parece um molequinho antigo, daqueles de calça curta e suspensórios, brilhantina no topete, arrumadinho e precoce, só que totalmente divertido.

Cães? Prepare-se para um ataque mortal de horror matafísico: odeio-os! Meu sonho é decapitar os mais latidores, ah isso seria lindo, aquele mar de sangue e nenhum latido após uns ganidinhos agônicos finais, aquelada cachorrada antes latidora agora com as malditas cabeças espalhadas pelo chão, minha espada pro alto, o fio vermelho a escorrer da lâmina pro meu braço em riste, a pingar do meu cotovelo pro chão no campo de batalha, hmmm, me arrepia de felicidade vertiginosa imaginar a cena, sinto-me um Dracula canino, vingativo e implacável.

Assim sendo a alexandrização parece inviável, embora eu me veja em muito muito muito do que você diz de si mesmo. Isso não é assustador? Digo, como podemos nos identificar com e ao mesmo tempo divergir tão drasticamente de uma mesma pessoa? Horror é isso. Desse jeito, como as gentes se gostarem? Simplesmente não dá. Hein?

E aí eu pergunto: dada a situação, Deus espera o que de nós? Como entender as pretensões do Santíssimo? Hmpf! Dá um tempo.

Eu até imagino o sacripanta-mor olhando pra Ele no dia do juízo e considerando: "Meu, sifu".

Posted by: janedoe at December 11, 2008 11:31 AM

Alexandre, em novembro de 2004 você deu o link pra uma gravação de "One for my baby" que eu não encontro mais de jeito nenhum. Agora o link me leva pro site da Telefônica em vez de pra um salão cheio de pessoas civilizadas e bem vestidas jantando com talheres de prata.
Será que você teria como repostar aquela música ou me dizer que gravação é aquela pra eu procurar (ou me enviar de algum jeito, sei lá)?
Quanto à alexandrinização, sou suspeita pra falar - estou comendo chocolate e vendo um filme do woody allen tudoaomesmotempo.

Posted by: Ju Perin at December 11, 2008 09:42 PM

Juperin, olha aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=rODeuywknwE
http://www.youtube.com/watch?v=Ykk3Fkwrgl8
http://www.youtube.com/watch?v=RnXXtzEFXNc
http://www.youtube.com/watch?v=IJC677BNKJw
....
Serve uma destas?

O Woody Allen é o realizador mais chato da história do cinema. John Wayne, sim, é bom. E o Alexandre é divertido mesmo. Uma vez ouvi uma entrevista dele perfeitamente hilariante numa rádio portuguesa.

Posted by: caramelo at December 12, 2008 01:51 PM

Ju, se não for nenhuma das versões que o Caramelo postou, manda um email pra asoaressilva2005@gmail.com que eu te mando a versão que está no meu iTunes.

Miucha, thanks a bunch. Abraços a todos, voltem sempre.

Posted by: Alexandre at December 12, 2008 04:20 PM

Nah, não é nenhuma dessas, mas muito obrigada, Caramelo. Especialmente pelo vídeo do Baryshnikov, e tal.
Não que essa música seja tão própria pra um ballet (eu acho) e que a coreografia seja mesmo tão boa mas, poxa. É o Baryshnikov.
Obrigada, Alexandre, mando o e-mail sim.

Quanto ao Woody Allen, gosto muito dele quando não está meramente correndo contra o relógio. De uns tempos pra cá parece que ele resolveu que sua meta é fazer filmes aos baldes vez de filmes ótimos e umas coisas meio estranhas têm aparecido. Viram Vicky Cristina Barcelona?

Posted by: Ju Perin at December 12, 2008 08:20 PM

Pode molhar as calças (característica, aliás, "muito sua"): foi uma das coisas mais ridículas que já li. Unicamente pelo fato de alguém no planeta gostar de John Wayne e "musicais da MGM". Ah, como adordo totalitário só de pensar na possibilidade de uma "alexandrinização da humanidade". Trabalhos forçados seria pouco, muito pouco. Mandaria construir pirâmides e calcularia para os blocos deslizarem, a fim de matar duzentas, trezentas pessoas de uma vez. Isso sim é bom.

Posted by: Dumbo at December 16, 2008 05:20 PM

rabinas? conheco uma muito interessante.

Posted by: sgold at January 7, 2009 08:46 PM
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