September 29, 2008

Grandes Partidas da História

Geller x Spassky - Riga, 1965

Em 1965 os enxadristas russos Boris Spassky e Efim Geller jogaram uma partida na semifinal do campeonato mundial em Riga. Graças a algumas peculiaridades, essa partida logo se transformou numa das mais estudadas da história. Geller jogou com as brancas e a partida foi anotada da seguinte maneira:

1 d4 Nf6
2 c4 e6
3 Nc3 Bb4
4 Nf3 c5
5 e3 d5
6 a3 Bxc3+
7 bxc3

Nesse ponto, segundo testemunhas, Spassky passou o indicador de a5 a h5, delicadamente desviando dos próprios peões, e disse:

-O que passar desta linha é viado.

Isso foi anotado assim:

7 bxc3 a5-h5!


spassky2.JPG
A Linha Homossexual de Spassky


Geller olhou nos olhos de Spassky e disse "Ah, vai!", mas Spassky encolheu os ombros e disse "Você que sabe".

-Quer dizer então que isso tudo aqui é viado? - Geller disse, apontando as peças de Spassky.
-Não - Spassky explicou calmamente - Eu disse "tudo que passar daqui", não "tudo o que está aqui". Tem que passar desta linha. Neste sentido aqui.

Geller pensou um pouco e disse:

-Ah é, então eu também passo uma linha aqui - e passou o indicador de a4 a h4.
-Copião - Spassky disse - Não pode.

O juiz confirmou que não podia e chamou Geller de imitão também.

A partida prosseguiu:

8 Bb2 Nc6
9 Rc1

Nesse ponto Spassky pensou bastante e estendeu a mão para a rainha, mas no lugar de movimentá-la ele tirou do bolso um pincelzinho e um potinho de tinta e pintou bem na frente da rainha uma manchinha vermelha, dizendo:

-Está menstruada.

E voltou a colocar a rainha no mesmo lugar. Geller perguntou:

-Essa é a sua jogada?
-É.
-Ela está menstruada?
-E já não era sem tempo - Spassky disse, piscando o olho.

Isso foi anotado assim:

9 Rc1 Qmens!

E a partida prosseguiu:

10 Bd3 dxc4
11 bxc4 e5
12 dxe5

Com esse movimento o peão de Geller ultrapassou a Linha Homossexual de Spassky, e Spassky fez um grande estardalhaço rindo e dizendo "Iiiiiiiih! Iiiiiiiih! É viado! É viado!", até que o juiz o mandasse ficar quieto.


peãohomossexual.JPG
O Peão Homossexual de Geller e a Rainha
Menstruada de Spassky: posição clássica


Geller deu de ombros e pareceu não se importar com isso, mas para o resto da vida passou a ser importunado por repórteres que perguntavam "porque ele preferia jogar com peões homossexuais". "Foi o início", escreveu Geller em suas memórias, "da grande provação da minha vida."

A partida terminou quando, no movimento seguinte, Spassky disse "IIIIhhh, o sanguinho da menstruação tá escorrendo, iiiiih, quanto sanguinho, isto aqui é sanguinho, se pisar aqui pega AIDS", enquanto pintava com o pincel toda a coluna D de vermelho. O juiz foi obrigado a reconhecer que isso dava uma vitória incontestável a Spassky.

Isto foi anotado assim:

12 dxe5 d1-d8aids!

Uma das partidas mais controversas da história, Geller x Spassky se tornou também numa das preferidas dos estudantes de xadrez, que a partir dela desenvolveram jogadas hoje consideradas clássicas como o Quadrilátero Homossexual de Polgar e o Laguinho de Aids de Nakamura.

Posted by Alexandre S. at 06:39 PM | Comments (22)

September 25, 2008

God Almighty

Vi isso quando fui no Carrefour em frente de casa.

istoehighfivesrpresidente.jpg

E coloquei no Extended Entry porque não queria essa imagem enfeiando a página principal do meu blog.

Começo dizendo que não conheço revistas brasileiras, tenho nojo de jornalismo de modo geral e principalmente de pessoas que conhecem as filiações políticas de revistas e a que grupos a revista tal pertence, etc. Portanto, o tom geral dessa capa me surpreende um pouco e fiquei parado no Carrefour fazendo cara de nojo enquanto segurava minha garrafa de vinho e meu inocente bis.

Mas sério. Não dá a impressão que o jornalista responsável pela capa ouviu a frase, disse "Muito boa, senhor presidente!", rindo e cofiando o bigode, e depois estendeu uma mão para um high-five hesitante e nunca respondido?

O pior é que esse tipo de gente provavelmente adorou o discurso do Colbert na frente de George Bush, rindo e dizendo que "isso sim que é jornalismo, o resto é puxa-saquice"; e daí vem e faz isso.

Eu, ao contrário, nunca achei que jornalismo tivesse que ser necessariamente oposição - acho uma noção boboca, defendida cinicamente por pessoas que apenas por acaso estão na oposição e que a descartam assim que não estão mais.

Mas pausa para apreciar uma vida tão protegida, tão abençoada, que a política nacional só me chega quando bato os olhos nela via revistas no caixa do Carrefour.

Posted by Alexandre S. at 04:40 PM | Comments (15)

September 24, 2008

Kirk, não Bertrand

Comprei ontem "The Essential Russell Kirk, Selected Essays", e fiquei lendo até de madrugada. O trecho aí embaixo, que traduzi porque sou meigo, porque sou bom, porque trabalho incansavelmente pela educação de um país abestalhado de pagodeiros, é tirado da introdução, escrita pelo próprio, de um dos seus livros de contos de fantasma.

"Numa era de decadência da crença religiosa, pode a ficção sobrenatural ou preternatural, com suas raízes no mito e na percepção transcendente, ser outra coisa melhor do que uma diversão ou um absurdo? O domínio persistente de teorias materialistas e mecanicistas de ontem na ciência natural convence a maior parte das pessoas que, se elas encontraram fenômenos inexplicáveis - bom, elas devem ter se enganado. Como seria possível perceber uma alma penada se é claro que não existem almas penadas para serem percebidas?

Pense em George Orwell. Em 1931 ele escreveu para um amigo 'sobre um fantasma que eu vi no cemitério de Walberswick.' Ele descreveu o encontro em vários detalhes, incluindo um mapa da igreja e do cemitério. Mas concluiu, 'Presumivelmente uma alucinação.' Fantasmas não combinavam com a negação algo beligerante de Orwell da possibilidade da vida eterna. No entanto ele teria gostado de acreditar. E o que é uma alucinação? Lendo a carta de Orwell, lembrei de um conhecido meu que explicava várias ocorrências espantosas numa casa como sendo 'entropia'. O que é entropia?, perguntei. 'Ah, coisas desse tipo.' Um termo científico lhe bastava.

A maior parte das pessoas hoje em dia continua a compartilhar da tensa rejeição de Orwell aos fenômenos 'psíquicos'. Uma aficionada inglesa dos contos de fantasma nos informa durante um tempo considerável que a história de fantasmas morreu: Sigmund Freud matou a coitada. A sabedoria começa e termina com Freud.

Mas é verdade? As teorias de C.G.Jung sobre fenômenos psíquicos se diferenciavam radicalmente das de Freud. Experiências pessoais surpreendentes converteram Jung, da sua crença prévia de que tais fenômenos eram 'projeções inconscientes' subjetivas, para a sua convicção posterior de que 'um enfoque exclusivamente psicológico' não é o suficiente para estudar os fenômenos psíquicos da variedade fantasmagórica. E não é de estranhar! Porque, quando Jung estava hospedado numa casa de campo inglesa, apareceu abruptamente no seu travesseiro 'a cabeça de uma velha cujo olho direito, arregalado, me encarava. A metade esquerda do rosto, incluindo o olho, estava faltando. Saltei da cama e acendi uma vela' - e nesse ponto a cabeça desapareceu."

Qualquer filósofo que escreva contos de fantasma nas horas vagas merece ser lido e amado. Ninguém pode imaginar Karl Marx fazendo isso, presumo?

Incidentalmente, se Olavo de Carvalho escrevesse contos de fantasma nas horas vagas, resistindo à tentação de mencionar esquerdistas pelo espaço de quinze ou vinte páginas, a Terra conheceria tamanho equilíbrio do yin e do yang que uma brisa perfumada desceria das estrelas até as minhas narinas de mandarim cansado e sensual, e durante semanas nenhum filhote de passarinho cairia do seu ninho, e nenhum rio transbordaria; e para coroar tudo eu faria uma pequena dança de gratidão no meu quarto. Amém.

Posted by Alexandre S. at 03:19 PM | Comments (18)

September 12, 2008

Maria Ozawa Nua

Me parece que pessimistas exageram a tendência humana a Evitar Reconhecer Fatos Desagradáveis. Essa tendência existe, admito, mas é balanceada pela tendência a Se Preocupar à Toa; coisa que pessimistas-que-gostam-de-esfregar-fatos-desagradáveis-na-sua-cara raramente levam em conta.

Muitos de nós escolhemos cedo na vida um shtick, uma persona, um conjunto de idéias e atitudes, por oposição ao que achamos que a maioria das pessoas têm, principalmente para sentir orgulho de ser o completo oposto de todo mundo. Comigo essa idéia sempre foi a de que Todos os Outros São Bárbaros, Só Eu Sou Civilizado. Essa idéia me faz levantar da cama com algum vestígio de energia. Mesmo quando encontro pessoas que parecem civilizadas, encontro um jeito de me convencer de que elas são civilizadas de um jeito errado. Gostam das coisas certas pelo motivo errado, ou do subgrupo das coisas erradas dentro das coisas certas. Ou elas próprias são, simplesmente, erradas.

Também tenho a tendência a achar, ao contrário do pessimista, que as pessoas Se Preocupam à Toa; que o vulgo é pessimista, porque muito nervosinho. O pessimista acha que está meio sozinho no pessimismo dele, e que o vulgo Não Quer Encarar os Fatos. Seu shtick é que Todos os Outros São Covardes Intelectuais, Só Eu Tenho Coragem Intelectual.

É o tipo que acusa os outros de usarem a religião "como muleta". E alegremente se põe a tentar chutar a muleta dos outros, se desapontando um pouco por não derrubar velhinhas no chão de concreto da realidade dura e fedida da caatinga do ateísmo.

Mas como isso começa? Qual o motivo de escolher esse shtick e não outro? Digamos, ele era criança e chocou a irmã superfresca com algum fato desagradável qualquer - que a atriz favorita dela tinha lêndia ou algo assim. Se esse foi um momento muito gostoso por causa da cara de eca que a irmã fez, ele pode querer repetí-lo ao longo da vida toda.

É isso? Não acho de todo ruim: dá para entender que esfregar uma coisa feia na cara de uma pessoa muito fresca possa dar prazer, e que você fique todo orgulhoso de ser O Sujeito que Faz Isso. Mencken era assim. Para ele a humanidade inteira era composta de pessoas fracas demais para encarar de frente as verdades doídas que só o Sábio de Baltimore, mais uns cinco ou seis superhomens como Beethoven e Conrad, enfrentavam. (Vivo sentindo vergonha por eles. Fato desagradável por fato desagradável, o inferno é mais doído e desagradável que qualquer reles materialismo.)

(Abro outro parêntesis para dizer que sempre acho engraçado que ateus militantes deixem perceber, através da sua retórica orgulhosa e saltitante, que consideram seu ateísmo um sintoma de coragem. Para mim o ateísmo sempre foi um sintoma de lack of nerve, como se ateus fossem como esses funcionários de banco que aparecem em alguns filmes de roubo, os quais durante o assalto, todo mundo deitado lá no chão com as mãos na cabeça cochichando sobre como escapar dali, começam a gritar "VAMOS TODOS MORRER! VOCÊS NÃO PERCEBEM? VAMOS TODOS MORREEEEER!!", até que alguém os esbofeteie. Sim, sim - estou dizendo que "Caaaaalma" é a melhor resposta filosófica ao ateísmo.)

Me parece que frequentemente esse tipo de gente passa a admitir como verdade só aquelas teorias que causam um efeito de repulsa nos outros; para ele, se algo tem duas explicações possíveis, a explicação real deve ser necessariamente a mais feia. E se não for, vamos torcer pra que seja, né?

Acho que o que estou tentando dizer é que "a busca pela verdade" é um termo pomposo demais para alguém que se fixou na atitude de uma criança mastigando de boca escancarada para enojar a irmã sensível.

Além disso, ateus, discretamente lhes chamo a atenção para o fato de que muletas não servem para que as pessoas "não enfrentem a verdade de cara". Digo, pensem bem.

Posted by Alexandre S. at 12:53 AM | Comments (77)

September 10, 2008

Cartinhas dos Leitores

Estou escrevendo para a revista Metrópole desde, acho, o ano passado. O último número que recebi pelo correio veio com essa carta que está aí embaixo.

soulsocrates2.jpg

Eu tinha escrito: "Nunca vi um aluno com talento para alguma coisa real se envolver com política estudantil. Um aluno com talento para medicina vai se ocupar de medicina, um com talento para física vai se ocupar de física, e um com talento nenhum vai se ocupar de organizar e chatear todos os outros."

Bom, insisto nisso. E se eu fosse procurar exemplos desse último caso poderia mencionar exatamente Milton Santos e Glauber Rocha, se soubesse que se envolveram em política estudantil e vencesse minha repulsa de digitar esses nomes.

O terceiro aí eu não mencionaria - mas só porque não sei quem é e pela aura que o nome emana também não quero saber.

Posted by Alexandre S. at 09:23 PM | Comments (20)

September 03, 2008

Napoleon says to take off your coat

O esforço intelectual de apreender toda a ciência jurídica é o mesmo de se manter acordado durante o discurso de um senador paraibano.

Se todo mundo acha que há trabalhos manuais inumanos, por que ninguém acha que há trabalhos intelectuais inumanos? Algum dia robôs liberarão a mente humana da necessidade de tomar conhecimento de qualquer artigo ou inciso da CF/88? Qual a diferença em termos de felicidade humana entre ler qualquer artigo ou inciso da CF/88 e trabalhar numa mina de enxofre? Onde está o Sebastião Salgado para tirar fotos cheias de pathos e luz e sombra de advogados frequentando varas cíveis, comendo pastel de palmito etc?

Sinal de que alguém é idiota: quando vê alguém acordando por volta do meio-dia, ele diz, "Bom dia!", e meio segundo depois, "Aliás, bom dia não, boa tarde!". (Jesus Cristo começou a desconfiar de Judas exatamente por causa disso.)

É provavelmente um defeito meu, mas não consigo achar graça de piadas que se baseiam na fraternidade causada pela ignorância. Metade dos filmes e todas as sitcoms são assim: um gordinho que faz cara feia quando o vizinho esnobe diz que vai passar a noite lendo Guerra e Paz, e de latinha de cerveja na mão diz que também vai passar a noite lendo, explicando depois, com cara de high five: "...o catálogo da Victoria's Secret".

Correndo no Ibirapuera hoje de manhã me ocorreu que o ideal da forma física masculina é chegar a um ponto em que, se houvesse rumores de que você é o novo ator que vai fazer o papel de James Bond, as pessoas talvez protestassem, mas não gargalhassem.

No Ibirapuera, me alongando naquela cerquinha perto da estátua do porquinho, havia como sempre um grupo de cinco ou seis homens trintões, quarentões e cinquentões, se alongando e conversando. Imaginei que deviam estar conversando sobre "o Schumacher", ou sobre algum jogador brasileiro de futebol qualquer que joga na Europa e a que pessoas assim aludem com familiaridade e sem preâmbulo ("o Mirandinha", "o Coquinho", etc). Quem foi que disse "esporte, a alta cultura dos sem imaginação"? Paulo Francis.

Posted by Alexandre S. at 11:58 AM | Comments (16)