Sinto falta de quando eu sabia com certeza qual o meu gênero preferido de literatura, que geralmente indicava o ângulo pelo qual eu via o mundo. No início eu queria ler principalmente histórias de aventura, e a idéia de aventura era uma espécie de religião para mim. Ainda é, na verdade, e a simples menção de Fu Manchu me provoca uma crise de nostalgia durante alguns minutos, me fazendo colar a testa à janela olhando esperançosamente a paisagem noturna – esperando o quê, precisamente? Que Si Fans escalem o meu prédio para me atacar com correntes e naginatas? Na verdade não sei que espécie de aventura eu quereria viver agora, quando o conforto e o sossego se tornaram tão importantes para mim; minhas sonecas, meu chocolate, as séries que estou baixando; e além disso os aventureiros da vida real me parecem pífios, eu não querendo levar a vida de uma Alexandra David-Neel ou de um Richard Burton, mesmo se isso fosse possível neste século aqui.
Depois fiz dez anos e meu gênero predileto passou a ser o policial, e a vida de um detetive cerebral e excêntrico era a única que valia a pena ser vivida. Continuo achando isso, tentando encontrar algum jeito de aplicar os dotes de um detetive excêntrico à vida banal, memorizando placas, digamos, ou resolvendo puzzles, mas sentindo muita falta de uns assassinatozinhos bonitos.
Dos treze até os dezessete, horror era o meu gênero preferido. Eu queria escrever histórias de horror, e escrevi - um romance sobre uma maligna universidade de magia negra frequentada nos sonhos, contra a vontade do pobre protagonista, e outro sobre o fato de que Jesus Cristo ainda estava crucificado (nunca havia sido retirado da cruz) no monte Gólgota, cercado e vigiado por uns anjos altos e compridos que o torturavam. E ficava contente quando encontrava num sebo um livro de horror vitoriano ou eduardiano especialmente difícil de encontrar.
Entrei num período um tanto bobo, um tanto retardado, aos dezenove, em que tudo o que me interessava era a violência, principalmente a violência heróica - não aquela chamada em jargão jornalístico de “gratuita” - e nenhuma história que não envolvesse uma briga, um duelo, me interessava muito. Nessa época fiquei um pouco fortinho, um pouco, vá lá, e aprendi um pouco de boxe, de jiujitsu e de kung fu; cinco anos de kung fu do estilo wing chun, não que eu jamais tenha sido muito bom nisso; e nunca entrava numa sala sem examinar todos os homens presentes, me perguntando se havia alguém ali que pudesse me vencer numa briga, e sempre achando, tola e adoravelmente, que não. É a época em que escrevi pior na minha vida, por algum motivo.
Aos vinte e três anos entrei numa fase em que me considerava um esteta, um decadentista, blablablá; Huysmans era o meu escritor favorito, junto com Oscar Wilde, suponho; e, para falar a verdade, a série da BBC baseada em Brideshead Revisited era uma influência também, me fazendo andar devagar pelos gramados da Cidade Universitária, com as mãos nos bolsos, cantarolando a musiquinha da introdução e sofrendo do mesmo complexo de aristocrata arruinado que Poe, Baudelaire e Lovecraft tinham. Foi nessa época que criei Quaresmeiras Roxas. Acho que saí dessa fase de esteta do tipo fim do século XIX mais ou menos três ou quatro anos atrás; embora, como também é verdade com relação às outras fases, eu não tenha saído dela de todo.
Durante todo esse tempo, todas essas fases, continuava lendo livros de outros gêneros ou de gênero nenhum, mas sempre havia um gênero, ou um assunto, no qual me fixava; e eu sinto falta de ter um assunto, um assunto só, no qual me fixar. Acho a vida do não-especialista, do não-monomaníaco, chata, murcha. Fico procurando metodicamente assuntos ou hobbys ou gêneros de literatura para que eu possa entrar numa próxima fase monomaníaca, mas minhas tentativas são muito deliberadas e não dão em nada além de entusiasmos de dois ou três dias. E se eu me tornar, eu me pergunto, maníaco pela arte da luta com bengalas? Hein? Não seria bacana? E se eu aprender russo? Ou talvez isto, ou talvez aquilo? Gosto de muitas coisas, e passo alguns dias interessado num novo assunto; mas passa, e já não entro em fase nenhuma. Não me vejo como escritor de gênero, nem mesmo cômico; não quero ser horrendamente sério nunca, mas não quero ser engraçado sempre. E embora me veja escrevendo ocasionalmente um policial ou uma história de fantasma, nunca quereria agora me tornar um escritor predominantemente disso ou daquilo.
Alguns anos atrás passei a achar que Deus queria não só que eu escrevesse – porque sempre achei, desde pequeno, que Deus quer que eu escreva, um pensamento que vem sempre acompanhado de tons heróicos wagnerianos - mas que fizesse uma segunda, misteriosa coisa. O que quer que fosse essa segunda coisa, ela se casaria perfeitamente com literatura: ou eu escreveria sobre essa coisa, percebe, ou aprender a fazer essa coisa me faria melhor escritor, do mesmo modo que artistas marciais chineses acreditam que aprender os princípios de uma arte faz com que você aprenda os de todas as outras (meu sikung no kung fu achava que ter estudado wing chun por muitos anos o havia tornado melhor calígrafo, e vice-versa). De modo que procuro por essa segunda coisa, estudando possibilidades e não me fixando definitivamente em nenhuma, porque depois de algum tempo de entusiasmo – esgrima! mulheres! roupas! vinho! viagens! observação de pássaros! – por coisas que tenho a certeza que não devia levar tão a sério na minha idade, passo a ter a certeza de que não é isso, mas outra coisa qualquer.
A tudo isso o que subsiste é uma vaga mas bastante intensa nostalgia da aventura; uma aventura que ou Deus algum dia vai colocar na minha frente, de alguma forma óbvia – toma, eu queria ouvir com todas as letras, segura esta espada, Gram, Durendal, Excalibur, Joyeuse; é isto que você tem que fazer – estou ouvindo a musiquinha heróica proto-wagneriana de novo - ou, uma outra possibilidade, claro: que eu me enganei, que não existe essa segunda coisa que Deus quer que eu ache, essa segunda arte na qual eu seria um mestre ou essa aventura que eu viveria. Que o que eu sinto é o que o que todo mundo sente, afinal - a nostalgia de uma aventura vagamente sonhada quando criança e que nunca se cumpriu, que a rigor não tem como se cumprir no mundo real, se você parar pra pensar, e sentida com maior ou menor consciência por todo homem de meia-idade gordinho e responsável. E além disso um certo nojo da vida adulta normal, na qual, enquanto ainda posso, eu cuspo.
Talvez seja isso. Mas ah, por uma Rainha em nome da qual eu pudesse desafiar pessoas a duelos, ou qualquer outra coisa igualmente irreal e vagamente ridícula aos seus ouvidos ensebados de hoi polloi! Amém.
Posted by Alexandre S. at August 23, 2008 03:55 PMTenta a filatelia.
Posted by: Oseia at August 23, 2008 06:57 PMEu acho que o que você quis foi mandar um recado aos detratores: "Olha, eu nunca falei isso por aqui, mas, er, eu luto kung fu, viu? Pois é".
Posted by: evaldo at August 23, 2008 08:25 PMEssa sua fase de esteta do tipo fim do século XIX de até mais ou menos três ou quatro anos atrás, da qual você mesmo diz não ter saído de todo, é, de todas, a minha preferida.
Posted by: tiago a. at August 23, 2008 08:48 PMAdorei esse texto. Eu me sentia exatamente assim antes de me converter ao cristianismo. Exatamente. Escrevia, e sabia que faria isso a vida inteira, mas também sabia que faltava "aquilo" que sustentaria e daria sentido a tudo.
Dá para sentir sua sinceridade aqui mais que em outros textos, Alexandre. Que Deus o abençoe e se revele em plenitude, é meu desejo para você.
Posted by: Norma at August 23, 2008 11:06 PMUau. Sou uma leitora silenciosa do seu blog. Na verdade,gosto muito dos seus textos desde os tempos do Digestivo Cultural. Mas nunca imaginei que eu fosse algum dia me identificar com um deles. Aconteceu hoje. Este desejo por uma aventura, que vai se modificando lentamente ao longo do tempo também me acompanha. E me faz ter uma queda por histórias com personagens femininas "guerreiras". A princesa e o cavalheiro. Mulan. Kill Bill.
Ei, me visite no meu humilde blog, quando puder: coisasqueeuacho.blogspot.com
Há um autor de livros de Direito que afirma que a monogamia vitalícia, na sociedade capitalista, exerce uma função muito própria garantir aos homens a sobrevivência nas doenças e na velhice. Que a família exerce, assim, nas sociedades em que há pouco excedente social, uma função insubstituível. Mas que numa sociedade com um sistema eficiente de seguridade social, este pode fazer economicamente as vezes da família, e a tendência é que vedações sexuais percam força, e que a proteção jurídica da monogamia vitalícia seja substituída pela da monogamia sucessiva (Fábio Ulhoa Coelho. Direito e Poder. São Paulo: Saraiva, 1992, pgs. 4 e ss.). Talvez, não sei, Alexandre, mas talvez, o que você descreve seja uma espécie de monogamia literária sucessiva, olha a viagem, e que você troca de gêneros e de hobbies como os homens e mulheres de sociedades com boa previdência social trocam de família e de amigos. Mas delírios acadêmicos à parte, eu acho que Deus te manda uma Rainha. A gente pede, o cara escuta, e depois fica lá em cima, rindo da nossa cara, vendo o circo pegar fogo, ou, no caso dos eternos aventureiros, os moinhos pegarem fogo
Posted by: Maria at August 24, 2008 12:16 PMque post massa!
dude, eu passei anos sendo uma vítima do rock. apaixonado por bandas, tocando em algumas, gastando dinheiro, indo pra lá e pra cá com essa paixão toda. aí um ano atrás comecei a achar tudo muito medíocre e idiota, essa coisa de ser "artista", de se levar tão à sério assim. bah, fiquei perdido sem saber pra onde ir de repente. a única coisa que fazia sentido era fazer piada de tudo, pensei em me tornar um stand-up comedian, mas pra isso teria que ser mais velho. ninguém é muito engraçado aos 27 anos.
tb acho chato a vida que passeia por tudo e não focaliza em nada. a vida sem esse teorzinho maníaco deprime. mas sei lá, escolher é complicado pra caralho. e eu não acredito em deus. aí piora, eu acho, porque pra mim não tem masterplan nenhum. enfim, boa sorte na busca aí. eu vou continuar lendo. :)
Posted by: mairena at August 24, 2008 04:21 PMParabéns Alexandre! Você conseguiu escrever suas memórias sem nunca ter sido nada. É a grafia sem o bio. Nossa época é realmente muito curiosa...
Posted by: at August 25, 2008 12:20 AMnoffa, que venenosa!
Posted by: mairena at August 25, 2008 04:50 AMOi Alexandre.
Vim avisar que enfant morreu, mas eu sobrevivo aqui: http://leftthebuilding.wordpress.com
Se arriscas, favor atualizar seus links e feeds, please.
Beijo
Oseia, já tentei. E numismática também. Evaldo, bah, são todos uns coverdões. Tago, eu dou graças por não existir internet antes que eu entrasse nessa fase, porque os meus blogs das fases anteriores me matariam de vergonha. (E feliz aniversário!). Norma, muito obrigado. É uma possibilidade, eu sei. Kelly: e a Buffy? E, ah, mudando um pouco de assunto: o Dr Jou, hein? Também fui tratado por ele e the old fellow me curou da sinusite. Maria, é muito possível: eu sou muito infiel a livros, abandonando vários na metade porque um deles começou a piscar pra mim da estante. Mairena: ah, existe um masterplan, existe sim... Anônimo: Não, você está errado - tenho a certeza que você consegue pensar nuns cinco ou seis adjetivos que definem o que eu sou. Ana! Estava achando que o meu computador estava ruim. Abraços a todos, voltem sempre.
Posted by: Alexandre at August 25, 2008 06:21 PM"Coverdões" e "Tago" é grafia de quem está escrevendo, de lente de contato, depois da 3a Old Speckled Hen.
Posted by: Alexandre at August 25, 2008 06:24 PM"Não me vejo como escritor de gênero, nem mesmo cômico; não quero ser horrendamente sério nunca, mas não quero ser engraçado sempre."
About bloody time.
Posted by: Dude at August 25, 2008 09:10 PMOlá, Alexandre. Gostei muito do texto. Diferente dos outros, que gosto também - mas esse gostei um tantinho mais. Me deu saudade da adolescência (quem diria) e dos livros da Agatha Christie ;-)
Posted by: anna O. at August 27, 2008 03:56 AMProvocou uma emoçãozinha aqui e talz...
Posted by: Tiago Lopes at August 27, 2008 10:00 AMEsta aventura não se cumprirá neste mundo. Você será um eterno buscador jamais satisfeito. A satisfação total e imperecível só será alcançada no além-túmulo. Parabéns garoto você está descobrindo o verdadeiro sentido da transcendência. Mas ainda há que passar pela sua lição de trevas, pois a vida é um eterno atravessar da linha da sombra
Posted by: Vinícius de Oliveira at August 27, 2008 10:11 PMAlexandre, acho que talvez você seja um guerreiro. Poderia ter sucesso na carreira militar ou se tivesse procurado a legião estrangeira francesa.
Posted by: Fábio Henrique at August 28, 2008 08:32 AM