August 14, 2008

Beppe Modenese

Todo mundo na rua tem cara de burro, e embora eu goste de pensar que talvez não sejam, que secretamente aquele homem com cara de personagem de Luis Fernando Veríssimo middle management boa praça homme moyen sensuel o Agnaldo do RH seja um especialista em Virgílio, quem é que eu estou enganando, né?

Mas semana passada estava passeando com a minha cocker de noite quando vi dois sujeitos de trinta e poucos anos que não pareciam burros, e fiquei olhando embestado. Os dois eram carecas e estavam de jeans e malhas de lã, um deles uma malha cinza e o outro azul, e andavam devagar com as mãos nos bolsos e conversando baixinho, e não tinham nada de extraordinário na aparência além do fato de que não me faziam imediatamente achar que eram burros ou vulgares. Tentei ouvir a conversa mas sou meio surdo e não ouvi uma sílaba, o que provavelmente foi sorte, e fiquei olhando para eles se afastando e imaginando que eles conversavam sobre Henry James, de modo sensato, tranquilo, cultivado, ou pelo menos sobre os filmes de Jean Gabin, sei lá, enquanto a minha cachorra me dava trancos pra sair dali. Provavelmente eram só nerds, nerds brasileiros, uma variante murchinha de nerd que conhece bem menos de filmes e tal do que se espera de um nerd mas tem o mesmo grau de desajeitamento social - meu desapontamento com nerds brasileiros e seus conhecimentos vagos e desanimados já me levou várias vezes a pensar em criar uma faculdade para nerds -, mas durante alguns minutos fiquei imaginando como seria viver num mundo em que as pessoas que passam por mim na rua estão conversando sobre Henry James, de um jeito tranquilo e não falso - uma fantasia poderosa, até o momento em que sinto que num mundo desses eu nunca sentiria o prazer de me sentir superior aos outros, que eu sinto sim, claro, claro, todos os dias, e que se me vê na cara quando ando na rua. Seria estranho viver sem sentir isso o tempo todo - o que me sobraria?

Mesmo assim gosto de colecionar lembranças de pessoas que vi na rua e pareciam civilizadas. Geralmente são velhos, talvez por uma quedinha pró-velho que tenho se o velho está de banho tomado e não tem muita cara de vó mijada. Todo velho mais ou menos bem vestido que vejo fico achando que é um especialista em literatura húngara ou algo assim. No Brasil, não são muitos, o que faz com que me lembre de todos que vi: uma velhinha sentada num banco na frente de um sebo, numa galeria da Augusta, três semanas atrás, lendo um livro cuja capa não consegui ler (eu provavelmente me decepcionaria se conseguisse, eu sei); um velhinho que devia ter acabado de sair do chuveiro andando todo ereto pela Livraria Cultura da Paulista, de terno e gravata e bengala bonita e com um certo jeitão de campeão de esgrima de 1923 e antigo homme à femmes; uma senhora gordinha lendo Ítalo Calvino (O Visconde Partido ao Meio, não Seis Propostas para o Próximo Milênio, o segundo título podendo indicar uma reles necessidade acadêmica bocamoca) na mesa de um café na Praça Villaboim; e por aí vai. Às vezes penso em me aproximar de um velho desses, apertar a mão dele e dizer: "O senhor parece civilizado. Eu sei que não é, mas obrigado por parecer."

Posted by Alexandre S. at August 14, 2008 01:28 AM
Comments

Essa semana fui à Sala São Paulo ver a Nona sinfonia de Beethoven e estava cheio, cheinho de velhos assim. Sentei ao lado de um (que nem era tão velho) e fiquei toda feliz imaginando que na cabeça dele deviam se passar, sei lá, referências históricas, observações meio tradicionalistas e resmungonas sobre o maestro. Tenho fortes suspeitas de que ele tirou uma soneca no segundo movimento, mas permaneci firme até o fim e não olhei para o lado pra ter certeza. Às vezes a gente é que tem que se esforçar pra manter a imagem civilizada dos outros.

Alexandre, adoro seu blog (O ponto de exclamação a seguir contém um orgulhozinho meio tietagem de quem já leu todos os arquivos umas cinco vezes)!

E olá.

Posted by: Fernanda at August 14, 2008 03:54 AM

"Mesmo assim gosto de colecionar lembranças de pessoas que vi na rua e pareciam civilizadas."

O que me leva a Conrad:

A friend of mine returning from Italy had talked with a lady there who did not like the book. I regretted that, of course, but what surprised me was the ground of her dislike. 'You know,' she said, 'it is all so morbid.'

The pronouncement gave me food for an hour's anxious thought. Finally I arrived at the conclusion that, making due allowances for the subject itself being rather foreign to women's normal sensibilities, the lady could not have been an Italian. I wonder whether she was European at all? In any case, no Latin temperament would have perceived anything morbid in the acute consciousness of lost honour. Such a consciousness may be wrong, or it may be right, or it may be condemned as artificial; and, perhaps, my Jim is not a type of wide commonness. But I can safely assure my readers that he is not the product of coldly perverted thinking. He's not a figure of Northern Mists either. One sunny morning, in the commonplace surroundings of an Eastern roadstead, I saw his form pass by—appealing—significant—under a cloud—perfectly silent. Which is as it should be. It was for me, with all the sympathy of which I was capable, to seek fit words for his meaning. He was 'one of us'.

Posted by: Jorge Nobre at August 14, 2008 10:53 AM

"Às vezes penso em me aproximar de um velho desses, apertar a mão dele e dizer: 'O senhor parece civilizado. Eu sei que não é, mas obrigado por parecer.'"
HAHAHA. Muito bom.

No, metrô, em anos, encontrei menos de uma dezena lendo algo que prestasse. Em particular, lembro de um cara de uns 40 anos lendo um tijolo de obras completas de Shakespeare. Fiquei com um sorriso idiota estampado na cara por horas.

Posted by: luciano at August 14, 2008 12:34 PM

Tenho certeza, Alexandre, que deve existir, sim, um velhinho verdadeiramente civilizado. Inclusive um que lhe dirá: "obrigado, você também".

Posted by: Rafael at August 14, 2008 06:49 PM

Me lembrei agora de uma mulher de meia-idade que eu vi no trem, vestida com aquele desleixo que ao mesmo tempo é elegante (sabe aquele ar meio europeu, de quem usa as mesmas roupas, de altíssima qualidade, faz vinte anos?), sentada com a coluna bem reta e lendo Somerset Maugham em inglês. Fiquei morrendo de vontade de puxar conversa. Só resisti por uma questão de princípios, já que eu mesma odeio que estranhos fiquem caçando assunto comigo porque não têm nada para ler. Mas passei o resto do dia um pouco mais feliz porque vi alguém que realmente parecia ter classe.

Posted by: Alessandra at August 14, 2008 09:38 PM

Dia desses no metrô vi uma senhora loira, 40 e poucos anos, cabelos curtos e óculos bonitos, lendo, em pé, uma biografia da Jane Austen...


[Os comentários desse post pelo visto vão virar uma biblioteca especializada em registros de aparições de pessoas civilizadas ou aparentemente...]

Posted by: Marcio at August 15, 2008 08:41 AM

"O senhor parece civilizado. Eu sei que não é, mas obrigado por parecer."

Se fosse comigo, dava-lhe uma chapuletada na orelha pra deixar de ser insufferably patronizing.

Posted by: res obstat at August 15, 2008 11:49 AM

Inclusive, o que seria da civilização não fosse a bofetada?

Posted by: res obstat at August 15, 2008 12:33 PM

Ruim, Alexandre. Ruim e sacal.

A cada dois posts, um sobre piadinhas com superioridade? E o ar blasé forçado? Pfui. Se era para ter graça, já deixou de tê-la.

Posted by: trhrth at August 16, 2008 01:21 AM

Alexandre, você esqueceu de contar um detalhe importante da cena: estava frio. Só podia. Caso contrário, se fosse começo de verão, você corria o sério risco de se aproximar dos dois nerds e apanhá-los planejando uma viagem pra Bahia, e então todo seu esforço ia pro beleléu.
Num mundo civilizado, conversas tranquilas e sensatas sobre Henry James se misturam a dias ensolarados e frios, e chocolate quente em cafés com vista para os passantes na rua - todos bem-vestidos, bien sûr :-)

Posted by: anna O. at August 16, 2008 01:26 PM

Isso aqui virou uma espécie de Terapia de Grupo para pessoas esnobes.

Recuso-me a contar minha experiência de "teofania de classe & estilo" (...)

está muito 'in' por aqui esse tipo de coisa...

Posted by: Jorge at August 16, 2008 06:07 PM

Peço desculpas por citar o Roda Viva por aqui, mas como se trata do Francis achei que poderia valer a pena. Aqui está o link para uma entrevista com ele feita em 94. http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/35/francis/entrevistados/paulo_francis_1994.htm

Posted by: Cláudio at August 16, 2008 10:15 PM

Blé. Toda capa de livro que me esforço para enxergar nas vias públicas (porque eu não me contento com a imaginação) é de algum romance espírita psicografado. Desenganei faz tempo já. Mas em São Paulo, quem sabe, quem sabe...

Posted by: Norma at August 16, 2008 11:46 PM

O pedantismo excessivo é deselegante.

Posted by: Badá at August 17, 2008 09:40 AM

Eu achei engraçado como sempre.

Posted by: Fábio Henrique at August 20, 2008 08:34 AM

Sempre observei mulheres lendo mais que homens, isso em público. Dias atrás vi de uma só vez no ônibus dois homens lendo livros!! Tive a mesma vontade que você de dizer "vocês parecem civilizados..."

Posted by: Carla Cristina at August 22, 2008 08:52 PM

me chama atenção um velhinho que sempre vejo na faria lima por aí e por ali com uma sacolinha de pano da barnes & nobles.

Posted by: bruno at August 23, 2008 09:03 PM

Alexandre, pode ser que eu esteja errado, e até quero estar, mas dois homens de calça jeans e malhas de lã, carecas, caminhando juntos à noite, de mãos nos bolsos e falando baixo... (mode Paulo Silvino on) Doutor, isso são duas bichonas!

Posted by: Cássio at September 28, 2008 05:55 PM
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