A maior parte das pessoas não gosta de museu. Ou é isso ou é que quem não gosta de museu gosta tanto de não gostar de museu que fica repetindo que não gosta de museu o dia todo, se escondendo atrás de colunas dóricas e redomas de vidro e projetando a voz como ventrÃloquo, e portanto parece muitos. A mesma coisa com quem não vê televisão; grande parte do senso de identidade duma pessoa que não vê televisão vem do fato de não ver televisão, é um hobby, uma carreira, uma parafilia, e ele vai dizer que não vê televisão a propósito de qualquer coisa, numa discussão sobre fé ou enquanto chora ouvindo Puccini. Outra coisa é o sujeito que gosta muito de repetir que não é nem de esquerda nem de direita, à s vezes logo quando se apresenta, ou no cartão de visitas; e claro, geralmente é de esquerda; ou pior monstro ainda, o sujeito cheio de nuanças, que não acredita em Bem e Mal, só nos dois misturados, embora eu não entenda muito como duas coisas podem vir misturadas se nem sequer existem, mas antes ao contrário devem sempre ser mencionadas numa vozinha sarcástica. Não sou particularmente fanático por pessoas que gostam de falar mal de coisas que ninguém nunca elogia explicitamente, como museus, assim em abstrato, tevê, dualidades radicais e simplistas, reality shows, "cult of celebrity" (quão imbecil, quão chatonildo é interromper uma fofoca sobre atrizes com bundas esquisitas exclamando WHO FUCKING CARES e reclamando do "culto à celebridade"?). São todas coisas que eu acho bacaninha, que defendo não-ironicamente e sem nenhum espÃrito de contrariedade - e ah, por falar nisso, sou a última pessoa viva que não fica repetindo que tem problemas com autoridade, aparentemente. Ou pelo menos nunca vi alguém dizendo explicitamente que se orgulha de não ter problemas com autoridade, que gosta de saber obedecer além de mandar. (Num contexto não-sexual, digo - ou a única obediência permissÃvel agora é a kinky?) Todo homem gosta de se imaginar fazendo parte do elenco de The Dirty Dozen. Talvez eu também, mas pára de se orgulhar disso que cansou um pouco, e tenho a impressão que vai continuar cansando até que apareça muita gente dizendo "eu não tenho problema em obedecer, obedeço mesmo", com o queixo erguido e o pênis flácido. O próximo passo é se orgulhar muito de dizer "sujeito dócil tá aqui", apontando para o próprio peito (se disserem "só até o momento que te provocarem, né?", sorrindo cumplicitamente porque é isso que geralmente se espera de quem diz a frase anterior com orgulho, você deve responder "não, pode provocar que eu não faço nada", sem piscadelas), além de "você vai gostar de me ver irritado", "eu rezo pra entrar em briga e depois rezo pra sair" e, finalmente, "eu tenho sangue de barata sim". Quer se orgulhar de uma coisa, se orgulha de algo de que ninguém mais se orgulha, né.
Posted by Alexandre S. at June 26, 2008 05:11 AM«sou a última pessoa viva que não fica repetindo que tem problemas com autoridade»
WHO FUCKING CARES???
Posted by: João André at June 26, 2008 09:46 AMIgual ao orgulho de não gostar de museu é o de detestar teatro. Mas, peraÃ, dá pra achar o contrário?
Posted by: Bruno at June 26, 2008 10:13 AMJá o meu pet peeve é com gente que lê um monte de fofoca sobre celebridade e fica tut-tutting a mídia porque publica um monte de fofoca sobre celebridade. (Mas eu resisto à tentação cafona de responder com "mas então num lê, cazzo", porque ela é só outra modalidade da mesma nhonha.)
Posted by: McNasty at June 26, 2008 10:41 AMSobre a parte WHO FUCKING CARES, eu gosto deste site:
http://www.idontlikeyouinthatway.com/
um abraço
Posted by: flavio at June 26, 2008 11:43 AMAdemais, perde-se pérolas do The Superficial como o troféu "Testiculos de Awsome".
Posted by: A. at June 26, 2008 11:55 AM(aqui: http://thesuperficial.com/2008/06/tim_mcgraw_personally_ejects_j.php)
Posted by: A. at June 26, 2008 11:59 AMAlexandre, você fica se orgulhando de não se orgulhar de coisas bobas, um monte de gente se orgulha disso. Ou seja, o problema não é se orgulhar de algo de que todo mundo se orgulha.
E o único orgulho bom é aquele que concorda comigo. O seu orgulho é legal.
E não, eu não vou dizer algo como "eu gosto de museus".
Posted by: Rafael at June 26, 2008 01:10 PMÉ incrÃvel. Os idiotas falam mal de TV. Mas todos os programas de TV são feito para eles.
Posted by: Devir at June 26, 2008 03:03 PMMuito bom. Já posso ver os adesivos: "EU LEVO DESAFORO PARA CASA, SIM", "ORGULHO DE SER MODESTO" ou, ao contrário, "PROUD OF BEING PROUD" (coisa, aliás, que o W. Makepeace T. já sabia) e, claro, "DETESTO ADESIVOS".
Posted by: mauro at June 26, 2008 06:30 PMPois é Alexandre...
Reflexões cada vez mais interessantes.
Fico feliz que, ao seu próprio modo, continue ignorando a polÃtica e indo à guerra. É como na defesa da monarquia, a um ano e meio atrás.
Posted by: Kael at June 28, 2008 08:12 PMo melhor do mês.
convém dividir a vida intelectual em três fases; a pré-intelectual, intelectual e pós-intelectual. na pré a gente não liga muito pra essas coisas. a intermediária é quando a gente descobre que "há muitos matizes entre o preto e o branco", que há que se desconfiar da mÃdia, que não dá pra chamar de música "isso que toca no rádio", etc. a maior parte dos intelectuais para nessa. e aà tem última fase que é meio que uma negação da fase intermediária.
talvez haja mais fases depois, eu não sei.
Posted by: bruno at June 29, 2008 07:40 PMVocê é coooool, Alexandre.
Posted by: Chatonildo at June 30, 2008 03:50 PMMeus orgulhos são bobos, sim, porém, limpinhos.
Posted by: marie tourvel at June 30, 2008 04:06 PMPor isso gosto de dizer que sou CRENTE. A pessoa toma um susto e sempre diz "não parece", porque não uso saia nem cabelão. Certos termos "proibidos" usados fora de contexto dão um curto-circuito na cabeça das pessoas. O processo inverso descrito por você. ;-)
Posted by: Norma at July 20, 2008 02:31 AM