June 29, 2008

O fantasma de Nabokov é singularmente bobo

Meus pais voltaram de Portugal com livros, um podômetro e o exemplar de junho da revista Ler - na qual há coisas muito interessantes, entre elas uma foto de Saramago em que ele parece um avozinho chateado porque a filha não o deixou dar uma volta sozinho. Fiquei com pena de Saramago de todas as vezes que falei mal dele.

Mas como sou uma pessoa negativa e mesquinha, me deixe me concentrar no texto que gostei menos: José Eduardo Agualusa escrevendo como se fosse o fantasma de Vladimir Nabokov.

Por algum motivo, esse Nabokov, no céu, escreve num estilo completamente não-Nabokoviano - Agualusa não podia se esforçar um pouco para fazer uma paródia? - com umas generalizações de bom coração (sobre Obama: "É de novo Kennedy, de novo King, de novo o sonho a arrebatar a grande América. E o que seria da América sem o sonho?"), e umas menções aleatórias a lepidópteros. De fato você só percebe que é o fantasma de Nabokov porque há menções pro-forma a lepidópteros, ao Palace Hotel em Montreux e ao scrabble com alfabeto cirílico. Mas essas menções a coisas Nabokovianas logo desaparecem porque ele está muito interessado em falar sobre, entre todos os assuntos, Barack Obama.

E Nabokov gosta de Obama, né? Porque Nabokov era boa gente, né? Olha só:

"A Obama cumpre ainda reconhecer outro enorme mérito: recusou sempre ser um negro profissional, e isto num país onde uma larga porcentagem dos políticos de origem africana fez carreira explorando o remorso do homem branco."

Nabokov aparentemente não leu o livro de memórias de Obama, cujo subtítulo é "Uma História de Raça e Herança"; quer dizer, nem eu, claro, mas os trechos que li via Steve Sailer foram o suficiente para que eu saiba que Obama é completamente obcecado com raça. E nunca mais o levasse a sério. Sempre que falam de Obama lembro da reação histérica que ele diz que teve quando a avó, branca, que sustentava a família, ficou com medo de um mendigo negro. Obama, com uns 16 anos, acorda e ouve os avós conversando:

"Her lips pursed with irritation. 'He was very aggressive, Barry. Very aggressive. I gave him a dollar and he kept asking. If the bus hadn't come, I think he might have hit me over the head."

Segundo Sailer, o avô esquerdinha de Obama se recusou a levar a avó de carro ao trabalho, porque seria "moralmente errado". Quando ela sai da sala ele explica tudo para Obama:

"He turned around and I saw that he was shaking. 'It is a big deal. It's a big deal to me. She's been bothered by men before. You know why she's so scared this time. I'll tell you why. Before you came in, she told me the fella was black.' He whispered the word. 'That's the real reason why she's bothered. And I just don't think that right.'

"The words were like a fist in my stomach, and I wobbled to regain my composure. In my steadiest voice, I told him that such an attitude bothered me, too, but reassured him that Toot's fears would pass and that we should give her a ride in the meantime. Gramps slumped into a chair in the living room and said he was sorry he had told me. Before my eyes, he grew small and old and very sad. I put my hand on his shoulder and told him that it was all right, I understood.

"We remained like that for several minutes, in painful silence. Finally he insisted that he drive Toot after all, and I thought about my grandparents. They had sacrificed again and again for me. They had poured all their lingering hopes into my success. Never had they given me reason to doubt their love; I doubted if they ever would. And yet I knew that men who might easily have been my brothers could still inspire their rawest fear."

Coloquei em negrito as partes que considero especialmente afrescalhadas. Ou, para falar a verdade, hipócritas; não acredito nelas um instante, e minha reação ao ler isso é dizer "Ah, vai". E depois Nabokov ainda vem dizer que Obama "recusou sempre ser um negro profissional". Sure, pops.

Ê, Nabokov, mas viu. Que a campanha do Obama tenha chegado até o céu me chateia muito.

Posted by Alexandre S. at June 29, 2008 10:38 PM
Comments

Gostei da coluna de Filipe Nunes Vicente sobre "literatura de caça grossa", porque não li nada no gênero (fora "As Caçadas de Pedrinho", that is) e porque a simples menção destes nomes me parece poética:

"As grandes narrativas de caça grossa são um género desprezadíssimo em Portugal. Os melhores autores não estão publicados: Selous, Ruark, Corbett, Capstick, Pease, Roosevelt."

Hein? Que tal? "Selous, Ruark, Corbett, Capstick, Pease, Roosevelt." Se você não sente a poesia disso, está morto.

Ele diz também que Corbett escreveu um livro chamado "Man-Eaters of Kumaon" (1944, Oxford India Paperbacks 2004). MAN-EATERS OF KUMAON! Queria ler.

Posted by: Alexandre at June 30, 2008 08:29 PM

Mas sério, se Agualusa queria escrever defendendo Obama, por que meter Nabokov no meio? O que tem uma coisa com a outra? Especialmente num texto tão não-nabokoviano? Até agora não entendi.

Ganhei "O Cemitério de Raparigas", do Miguel Esteves Cardoso, e "Alfreda ou A Quimera", do Vasco Graça Moura. E também um livro de crônicas do Lobo Antunes, do qual gostei especialmente disto:

"O pai da minha mãe não era um homem, era um centauro, metade avô e metade aparelho para ouvir."

Talvez coloque aqui outros trechos que gostei mais.

Posted by: Alexandre at June 30, 2008 08:36 PM

Só esta, de Lobo Antunes também ("Sinais Interiores de Riqueza"):

' Quando, em 25 de Dezembro de 1863, Victor Hugo escreveu, num dos seus cadernos:

" Sou um homem que pensa noutra coisa",

referia-se, é claro, a mim. Quando almoço com alguém, por exemplo, deixo um sorriso sentado no lugar e escapo-me, em bicos dos pés, para outra mesa do restaurante, a desenhar comboios e navios na toalha de papel, na esperança de partir, numa locomotiva ou num paquete de tinta, para longe de um mundo de saleiros, de garrafas de branco e de cabeças de pescada. Em pequeno, na época em que me tentavam ensinar o catecismo, tinha de Deus a ideia de um vertebrado gasoso: levei séculos a compreender que o vertebrado gasoso era eu.

O resultado disto é que observo os objectos do quotidiano com a estranheza do homem das cavernas; nunca fui capaz de mexer num vídeo, todas as manhãs me corto com a gilete, preencher um cheque é quase tão difícil como resolver um problema de torneiras do género "se um tanque tem 3 metros de lado, quanto tempo uma torneira que debita 7 decilitros por minuto", etc. Desesperei os instrutores, na tropa, a virar-me para eles, de espingarda carregada, perguntando:

- Como?

numa incompreesão sincera, e a surpreender-me de os ver atirarem-se para o chão berrando

- Desvia essa merda

numa angústia que ainda hoje não compreendo o motivo.

Talvez tenha herdado isto de um tio remoto, que num velório, espantado com a tristeza do viúvo, o consolou com uma palmadinha no ombro:

- Não penses mais na morte da bezerra.

Sou um homem que pensa noutra coisa, que tenta abrir a fechadura da porta com o cigarro e que fuma um molho de chaves por dia: se adoecer de cancro do pulmão será um canalisador a operar-me. As palavras grandiosas como Trabalho, Família, Dinheiro, atravessam-me sem me tocarem. Dá ideia que não sei viver com os que amo ou que rejeito o seu afecto: não é verdade. O que acontece é que, às vezes, enquanto me acariciam, estou a observar as cegonhas da mata do sótão da tia Madalena, ou na esplanada da Praia da Maçãs, ao lado do meu avô, a comer um sorvete de morango. E gosto das pessoas modestas porque os sinais interiores de riqueza me comovem.'

Já o resto da crônica não gosto, é de um lirismo quase retardado.

Posted by: Alexandre at June 30, 2008 08:54 PM

Sempre que falam em Obama penso nesses trechos em negrito. Sempre. Não dá.

Posted by: Alexandre at June 30, 2008 09:19 PM

Os dois últimos posts foram muito bons, mas dois "bobos" no título, um logo depois do outro? Não sei.

Posted by: MFA at June 30, 2008 10:24 PM

Agora todo título eu vou chamar alguém de bobo, MFA. ;>)

Posted by: Alexandre at June 30, 2008 10:41 PM

Fosse eu, não me preocuparia. Obama não vai ser eleito. E se for, vai ser assassinado. E se não for assassinado, vai tudo continuar como está.

Jendia, a política descobriu a estratégia da churrascaria. Põe apenas o número de carnes e garçons q impeça marginalmente q os clientes se rebelem e taquem fogo no lugar.

Tédio.

Posted by: Dr Plausível at June 30, 2008 11:01 PM

Eu não me preocupo, no sentido de que não acho que ele vá ser muito pior do que McCain (só um pouco). Mas o espetáculo dessa alma sebosa e lambecueca, e da onda de beatice que ela gera no mundo todo, e aparentemente no céu, gives me the shivers.

Posted by: Alexandre at June 30, 2008 11:36 PM

Temos que ver o lado positivo. Pelo menos ainda não usaram Imagine do John Lennon.

Ou já?

Posted by: Alexandre at July 1, 2008 06:30 AM

Um podômetro!

Posted by: mauro at July 1, 2008 10:24 AM

Alexandre,

Que livros seus pais trouxeram?

Posted by: Gabriel Trigueiro at July 1, 2008 12:28 PM

"The words were like a fist in my stomach, and I wobbled to regain my composure."

Que horror.

Posted by: Dude at July 1, 2008 06:33 PM

eu teria destacado o trecho "men who might easily have been my brothers". Tipo, oi?
Mas concordo com Permafrost, é McCain na cabeça. Não é questão de preferência minha - nem ligo, veja você - mas é o que vai acontecer mesmo.

Posted by: Linha at July 1, 2008 06:34 PM

"Alma sebosa e lambecueca." Falou e disse.

Posted by: Permafrost at July 1, 2008 07:10 PM

Então e a parte em que o avô do Obama diz que já é costume a avó ser importunada? E pelos vistos com igual grau de violência, caso contrário ele não diria que a única diferença agora era o assaltante ser negro. Dessas vezes anteriores, o avô também não a ajudou porquê? Para a ensinar a ser mais tolerante para com os brancos? Um amigão, aí.

Posted by: Mariana at July 2, 2008 05:42 AM
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