Ouvi dizer que há escritores com "preocupações", e os visualizo todos na forma de bustos de bronze com poderosas testas franzidas, mas realmente o que me interessa na literatura são detalhes - como a preceptora de Van que vinha dar aulas, três vezes por semana, "with a bagful of books and the tiny, tremulous poodlet (now dead) that could not be left behind. It had glistening eyes like sad black olives", ou ainda aquelas pedras escaldadas da varanda na primeira página d'O Primo Basílio. Mesmo em não-ficção a minha constituição mental naturalmente burraldina me impede de apreender abstrações e acabo me lembrando, às vezes por muitos anos, como detalhes da minha própria vida, com mais persistência do que muitos detalhes da minha própria vida, do tilintar das garrafas de água mineral junto à janela de um trem que está saindo da Gare du Nord para Moscou numa manhã de 1937, nas memórias de viagem de Sir Fitzroy MacLean ("the bottles of mineral water by the window clinked gently one against the other"), enquanto detalhes da situação política da época se me esquecem todos, escorrendo pelos ouvidos afora, aos borrifos.
Tenho sempre a impressão de que as hostes de visualizadores estão diminuindo e que estamos cercados por cérebros, grandes cérebros e pequenos cérebros, mas basicamente cérebros, sem olhos. E por falar nisso, com imensa alegria de finalmente poder mostrar num contexto apropriado que li esse livro, digo que, no capítulo sobre Imaginação do The Principles of Psychology, William James cita o psicólogo experimental alemão Gustav Fechner (cuja aparência de médico dermatologista, vereador-poeta e membro da academia pernambuquense de letras peço que confira aqui):
"I had begun by questioning friends in the scientific world, as they were the most likely class of men to give accurate answers concerning this faculty of visualizing, to which novelists and poets continually allude (...). To my astonishment, I found that the great majority of the men of science to whom I first applied protested that mental imagery was unknown to them, and they looked on me as fanciful and fantastic in supposing that the words "mental imagery" really expressed what I believed everybody supposed them to mean. They had no more notion of its true nature than a color-blind man, who has not discerned his defect, has of the nature of color. They had a mental deficiency of which they were unaware, and naturally enough supposed that those who affirmed they possessed it were romancing". (O próprio William James diz numa nota de pé de página: "I am myself a very poor visualizer.")
Bom, como pessoas dessas poderiam sentir prazer com o trêmulo poodlet de olhos de azeitonas tristes, ou (ouso falar com você, Machado de Assis?) as muitas descrições de Eça de Queirós? O que essas pessoas podem encontrar em literatura exceto filosofias, idéias, "preocupações", o tal do Zeitgeist? Consumismo em Don DeLillo - por Deus! E quais são mesmo essas teorias sobre paranóia, teorias da conspiração, assassinatos políticos? Consegue dizer antes que eu entre em coma alcoólico?
Entre os blogs que leio, entre alguns daqueles que eu gosto mais, há um tipo escrito por bons rapazes de vinte e poucos anos, inteligentes, de tendências filosóficas, de tendências abstratas, que um pouco na esteira de Olavo de Carvalho lêem Bernanos por causa do catolicismo - eles talvez objetassem a esse "por causa" - ok, não por causa, mas escrevendo ensaios tão longos sobre Musil ou Kafka, e tão abstratos na índole que me pergunto se não caem na categoria dos cientistas mencionados por Fechner, que têm pouca ou nenhuma capacidade de visualização, e que portanto sentem muito pouco prazer com qualquer detalhe visual na literatura, pulando descrições ou simplesmente dando de ombros diante da coisa toda, como se fossem afetações, e indo ao que importa. Não falo com desprezo, alguns deles sendo muito bons no que escrevem; é mais constatando uma diferença mental, e me perguntando se esses não-visualizadores não fariam melhor se concentrando em filosofia.
Quase todos os blogueiros com quem entro em contato me dizem que preferem ler não-ficção de qualquer maneira, e se não estão lendo uma maldita biografia de Stálin (mas aí é preciso visualizar coisas) estão lendo Aristóteles ou Voegelin ou o que o valha. Onde estão meus irmãos visualizadores? Seremos para sempre desprezados porque estamos num canto coletando imagens de garrafas e poodles?
Fechner de novo: "My own conclusion is that an over-ready perception of sharp mental pictures is antagonistic to the acquirement of habits of highly-generalized and abstract thought, especially when the steps of reasoning are carried on by words as symbols", e acho que é isso que explica minha dificuldade de me lembrar de qualquer coisa das horas e horas de leitura juvenil de Espinoza, além da fonte em que os livros foram impressos e onde eu estava sentado naquela tarde perdida.
Há uma barreira de sono impedindo a minha entrada no templo quase pelado da Filosofia. Não consigo ler duas frases seguidas se não tiverem alguma coisa para ser visualizada nelas: uma amora espremida que seja. Aceito isso; mas, por outro lado, no contato diário, me cansei um pouco de amigos reclamando de descrições em romances. Vai ler Frege então, imbecil!
Posted by Alexandre S. at June 16, 2008 07:35 PMPensei em fazer uma análise mais cheia de nuanças sobre a possibilidade de literatura de idéias, ou de idéias na literatura, mas daí fiz exercício e a minha testosterona subiu e parei com essas frescuras de nuança. Mas sim, Chesterton põe idéias direito nas histórias dele - é algo possível de se fazer. E sim, durante séculos escritores não viram problema em misturar idéias e literatura. Mas ainda prefiro que idéias fiquem muito subordinadas a detalhes concretos. Why, Sir, por que presumir que aquilo que é dito por um escritor que "tem algo a dizer" é algo correto e que vale a pena ser ouvido? Ou se trata de algo banal, ou se trata de algo que tem tanta chance de estar correto quanto de estar errado.
E quis escrever "pernambuquense" mesmo. Existe? Se não, dou-te um piparote, e ficamos por isso mesmo.
Posted by: Alexandre at June 17, 2008 02:41 AMArgh. Ler não-ficção o tempo todo e pior, não conseguir visualizar detalhes da obra (adoro coisinhas como a cara que Poirot faz quando o chamam de francês, ou a tensão de Liêvin na ópera, tentando decifrar os sons e fazendo aquela cara de dor, ou aquele baile de máscaras em O Arco do Triunfo, em que chove nos convidados, e marqueses, duques e outros nobres balançam as perucas em busca de um abrigo da chuva, acabando com a maquiagem toda borrada, etc. – poderia ficar o resto da vida citando essas coisas e algumas já não sei distinguir se são memórias, trechos de livros ou cenas de filmes). Tem um coleguinha meu que sempre está atrás de profundezas e valores nas obras.
Ler Poe sem imaginar imagens lúgubres, apenas em busca de traços psicológicos doentios do autor, é vergonhoso. Eu acho que sou a única pessoa que consegue gargalhar lendo a Bíblia, mas é que ali há coisas que só vendo pra achar graça.
E quando o escritor de ficção não suporta ficar "atrás da árvore", entra na história, junta-se aos personagens, senta-se ao redor da fogueira, arranca um naco de pão, intromete-se na conversa e, aproveitando que todo mundo já esta meio bêbado com o vinho barato, sobe ao púlpito e discursa para o mundo inteiro ouvir? Saramago, por exemplo. Ou um outro evangelista qualquer.
(Alexandre, enquanto lia sua explicação excessivamente abstrata ;) não pude deixar de me lembrar de Funes, do Borges)
Posted by: Roger Prado at June 17, 2008 10:12 AMEsse pessoal lê como quem toma óleo de rícino. Não por gosto, mas porque dizem que faz bem.
Posted by: Marco Aurélio at June 17, 2008 10:17 AMOh, sim. Eu me lembro tão perfeitamente do modo como Boo Boo Glass põe a mão no bolso traseiro das calças e se aproxima do seu filhinho, no pier, tentando fazer com que ele saia do barco ou, pelo menos, tentando entender por que ele se escondeu lá - então, essa memória já é minha.
Cara, é a única coisa que fica. Não tenho a menor idéia da realidade sócio-econômica que o conto do Salinger poderia representar. Mas penso em Boo Boo Glass até hoje, como se eu a tivesse conhecido pessoalmente. E, tá doido, sinto ciúmes dela com o marido.
Faculdade de Arquitetura tem um monte de visita guiada, e enquanto você passeia numa das fábricas dos Matarazzo escutando sobre a opressão ó meu deus da arquitetura sobre os pobrer than us, só não rola sobre os cacos de vidro porque tem tantos detalhes legais naquelas janelas e muros de tijolos que você se espanta - principalmente com colegas que parecem ter visitado um armário de vassoura. Mas que não é natural isso numa pessoa normal (i.e., normal mesmo)não é. As idéias é que carcomem as azeitonas com o tempo.
E porque o link do Fechner dá numa foto do chico anysio?
Posted by: Alberto at June 17, 2008 10:53 AMAcho que não existe pernambuquense, mas, se existir, ele é igualzinho, mesmo. Podia passar pelas ruas de Recife despercebido.
Eu me pergunto se esse tipo se apaixonaria algum dia por algum personagem, algum cenário, algum livro. E depois me pergunto se faz algum sentido ler pra não sentir nada, só, sei lá, aprender. Se ler assim não é como buscar o prazer na teoria do chocolate, do sexo, do pastel de nata, do travesseiro com plumas de ganso, na composição química do cheiro do azeite, na óptica do caleidoscópio (palavra metidinha essa, não?).
Saber disso tudo é interessante, mas apreciar antes de conhecer é, parece-me, necessário, pra que surja qualquer interesse verdadeiro. Eu jamais me interessaria por Cary Grant se não visse e ouvisse antes. É como chutar algo em que se interessar ("a partir de hoje vou me interessar por música pós-moderna") e começar a estudar isso antes mesmo de experimentar, de sentir. Talvez esse tipo de gente corra o risco de se interessar por Matheus Nashtergaele, e releve os prováveis erros de grafia.
Imagine alguém ler "O Cão Amarelo" e não imaginar o gigantismo daquele cachorro. Não lembro de nada do livro além do cachorro e de umas manchas de sangue num carro, de um cais. Isso depois de, sei lá, 10 anos? São as únicas lembranças que tenho dos romances de Simenon, além da descrição que ele faz de Maigret num dos primeiros livros da série (que não era um Poirot, e, muito menos, um Sherlock Holmes, mas que pensava que era, ou algo assim, tá tudo muito vago hoje, e deve estar tudo misturado, também).
Abraço, Alexandre.
Posted by: Gustavo at June 17, 2008 11:16 AMChapéu-coco. Nunca um esteve em minhas mãos, mas sei até como é o acabamento da etiqueta, do lado esquerdo, logo acima da guia.
Posted by: Gora at June 17, 2008 11:53 AMOlha, Alexandre, eu jamais gostei de romances cheios de máximas e reflexões, seja lá o que querem dizer com isso, só sei que não gosto de tratados morais e que, embora goste de filosofia, quando leio ficção quero ficção.
Mas eu sinceramente penso que uma grande qualidade da obra literária é a concisão, a seleção do necessário e o expurgamento da chatice. Há detalhes indispensáveis, certamente; mas - e falo não de Eça de Queiroz, mas de Alencar - não me importo nem um pouco com o jeito como D. Aurélia come.
Posted by: Rafael at June 17, 2008 01:51 PMGosto de algumas observações visuais e descrições, e de algumas abstrações. Também não sou de esnobar a ficção. Nunca "pulei" descrições, e quando escrevo minhas ficções em segredo, insisto em descrever muitas coisas.
Mas penso que este conselho, de que "fariam melhor se concentrando em filosofia" é arbitrário. A literatura e a filosofia podem funcionar muito bem juntas, como provaram Borges, Tolstoy, Mencken, e alguns outros.
Posted by: Dude at June 18, 2008 02:24 AMAlexandre, o leio silenciosamente desde 2003, mas me manifesto agora porque me identifico com o leitor “visualizador”. Por exemplo, não gosto de Dostoievski porque acho suas imagens ruins, e por exemplo, não gosto do cheiro da testa oleosa daqueles bufões de taverna (apesar de gostar da sensação da garganta ressecada pela poeira daquelas ruas). Fiodor não cai no meu gosto visual. Mas se eu explicar isso a um professor de literatura da biblioteca do bairro, ele vem me catequizar como se eu fosse um tupi-guarani de 1500. Agora, falaram de Borges aí embaixo, mas eu acho na Borges muito visual, belamente visual, mesmo nos seus contos mais filosóficos. Ainda que seja meio jacu imaginar um tigre, é muito legal o esforço para visualizar o padrão da sua pelagem como um código divino. Além, claro, tentar visualizar todos os pontos do universo em um só, nitidamente sobrepostos, é um dos mais prazerosos exercícios de imaginação.
Abraços.
Mas, Dude, filosofia e literatura não se dão muito bem, não. Digo, filosofia como "preocupações" em geral. Escritores bons não têm "preocupações", se você entende o que quero dizer.
Posted by: FritzGG at June 18, 2008 01:06 PMPercebo que esta é a continuação daquele mesmo dilema de meses atrás, sobre os "gênios" e os "superficiais". E vejo que são os mesmos inimigos de Dostoiévski que aparecem para falar do que não conhecem muito bem. Eu até entendo que escritores como Nabokov e o próprio Alexandre não gostem de Dostoiévski, mas ao menos eles leram os livros dele quando eram jovens, e depois passaram para outras esferas. A maioria dos inimigos de Dostoiévski são do tipo que não conseguiram terminar "Crime e Castigo", e guardaram um rancor contra o pobre homem.
Não me dou muito bem com essa terminologia, mas se estas "preocupações" são sociais e acadêmicas, sou forçado a concordar. Mas dizer que filosofia e literatura não se dão bem só porque os seus "bons escritores" não se interessam por filosofia é simplesmente ridículo.
No fim de "Guerra e Paz", Tolstoy incluiu uma divagação exaustiva sobre história, poder, livre-arbítrio, etc, com um interesse evidente no fundamento filosófico do romance, que é, no fundo, o maior clássico da literatura do século dezenove. Tolstoy não é um bom escritor?
Falaram dos contos de Borges. Mas Borges escreveu também muitos ensaios, e muitos deles com um rigor verdadeiramente filosófico, especialmente em "Discussão" e "Outras Inquisições". Sem contar que ele lia e relia Schopenhauer, e considerava seu sistema como uma exposição metafísica da sua própria visão do mundo. Borges não é um bom escritor?
Exemplos não faltam. Pois, como o Alexandre disse, idéias e histórias podem viver em paz, sim, mas não é para qualquer um. Também acredito que as idéias devem ser subordinadas a detalhes concretos, e tenho muito desprezo pelo jargão nonsense da maior parte da filosofia, especialmente acadêmica e pós-moderna.
O que não consigo entender é essa hostilidade contra filosofia e idéias, especialmente da parte de pessoas que parecem ser tão inteligentes. Parece uma espécie de obscurantismo estético. Se é feio reclamar de descrições, reclamar de idéias me parece tão feio quanto.
Posted by: Dude at June 18, 2008 03:03 PMAo Dude, se foi para o meu comentário sobre o Dostoiévski, quem sou eu para menosprezar o cidadão. Com muito esforço, terminei pelo menos Crime e Castigo. Apenas o citei como exemplo ao comparar com minha predileção pessoal por Borges, por motivos da minha imaginação. Na minha cabeça, gosto mais de imaginar, visualizar, o que Borges escreveu, profundamente filosófico ou não. A comparação é entre as imagens da minha cabeça, cristalizadas pelos detalhes que cada um escolheu descrever e como o fez. São os detalhes, nem sempre visuais, que tornam essa visualização mais agradável ou ao gosto do freguês, no caso eu. O que não significa ter desprezo pelas idéias nesta postura.
Tenho que dizer que concordo com o Pierre sobre Borges ser visual - apesar dele reclamar do excesso de descricoes em Tolstoi. Qualquer mencao dele a patios ou quintas e eu consigo visualizar tudo muito bem, embora suas descricoes sejam em geral de uma linha.
Dude, voce sabe que desde Flaubert ate hoje a maior parte das pessoas reclama justamente dos trechos filosoficos de Guerra e Paz, e do tempo e energia que Tolstoi dedicou a problemas religiosos e filosoficos. Antigamente isso me irritava porque eu gostava da teoria da historia dele, e os panfletos, mas hoje tendo a concordar com Flaubert ("Ele filosofa! Ele se repete!").
Posted by: Alexandre at June 18, 2008 05:18 PME FritzGG, I hear you sobre Boo Boo Glass. Acho que ainda faco um post com trechos de Salinger, e outros autores (mas Salinger e' especialmente bom nisso), com detalhes visuais (sim, verdade, nao so visuais) que me agradam. Nabokov fez mais ou menos isso, mencionando, por exemplo, que "in Mr.Burgess' poem I particularly appreciate his Maltese grocer's cat that likes to sit upon the scales and is found to weigh 2 rotolos", e (gosto muito desse exemplo) "John Cheever's The Country Husband ("Jupiter [a black retriver} crashed through the tomato vines with the remains of a felt hat in his mouth."...)
Esses exemplos estao em "Inspiration", um ensaio que aparece em "Strong Opinions".
Posted by: Alexandre at June 18, 2008 05:40 PME por falar em Salinger, Nabokov menciona "J.D.Salinger's "A Perfect Day for Bananafish" ("Stopping only to sink a foot in a soggy, collapsed castle..." This is a great story, too famous and fragile to be measured here by a casual conchometrist.)"
Posted by: Alexandre at June 18, 2008 05:45 PMoi. nadaver com o post: os feeds daqui não funcionam. e eu queria TANTO ver as atualizações no meu reader. pq senão eu esqueço de vir, e perco os textos novos e tal.
*chora no cantinho*
ok, parei com isso. sou leitora assídua mas vc nem me conhece, pq eu não comento, e é feio aparecer do nada e já pedindo coisas. mas vai, libera o rss/feeds/atom o que for, por favor! ;)
:*
rnt, ola. O problema e que nao entendo nada dessas coisas. Mas estou pressionando um amigo meu que entende, e espero que tudo se resolva. Agora sai do cantinho, enxuga as lagrimas e abraco.
Posted by: Alexandre at June 18, 2008 09:00 PMO Brasil todo está assistindo o jogo da seleção e eu estou relendo "O Pequeno Hans, Detetive".
http://www.apostos.com/soaressilva/2004/05/o_pequeno_hans_detetive.html
:-P
Obrigado, Alexandre!
Posted by: Gabriel Trigueiro at June 18, 2008 10:21 PMComo eu disse a alguns posts, seu rss existe. Cliquem no meu nome.
Posted by: Gustavo at June 18, 2008 10:52 PMPierre,
Quanto a não terminar "Crime e Castigo", me referia ao Fritz. Aproveitei o que você disse só para engatar o que eu dizia. Nada contra.
Alexandre,
Não deixo de concordar, mas não é qualidade filosófica de Tolstoy em si, é o fato de que ele foi um grande escritor, mesmo sendo filosófico.
Posted by: Dude at June 19, 2008 01:23 AMNada de mau em filosofia, ué. O que me impressionou no post do Alexandre foi a dificuldade que algumas pessoas têm de passar de um para o outro, essa dificuldade de imaginar. Podemos ler o mais socialista dos livros de Gorki e mesmo assim imaginar as minúncias do ambiente, sem entretanto deixar de apreender a parte filosófica da história. Não entendo a dificuldade. Eu não gosto de ler Schopenhauer, por exemplo, mas é questão de gosto e não de não conseguir compreendê-lo. Acho que com muita gente é assim.
Posted by: Badá at June 19, 2008 08:37 AME há também a descrição de um detalhe que diz mais do que toneladas de análises sobre alguma coisa psicológica ou até mesmo filosófica, por que não? Por exemplo, em Teddy, do Salinger, sobre o garotinho-prodígio viajando de navio com a irmãzinha e coisa e tal, ele escreve como o pai do garoto na cabine está deitado com a cabeça apoiada no bordo da cama, sem nenhuma almofada ou travesseiro para acolchoar: “His head was propped up just enought to rest uncomfortably, almost masochistically, against the very base of the headboard”. É óbvio que eu nunca mais vou esquecer este detalhe, que é esfuracante em construir a atmosfera neurótica do conto
Posted by: F.Arranhaponte at June 19, 2008 10:50 AMDuas coisas do Coetzee (pode duas? pode sequer uma?)
Sobre, quem sabe, uma maneira de se conciliar idéias com ficção: “Realism has never been comfortable with ideas. It could not be otherwise: realism is premised on the idea that ideas have no autonomous existence, can exist only in things. So when it needs to debate ideas, as here, realism is driven to invent situations – walks in the countryside, conversations – in which characters give voice to contending ideas and thereby in a certain sense embody them. The notion of embodying turns out to be pivotal. In such debates ideas do not and indeed cannot float free: they are tied to the speakers by whom they are enounced and generated from the matrix of individual interests out of which their speakers act in the world…”
E outra (também retirada de Elizabeth Costello), que talvez seja clichê: “Supply the particulars, allow the significations to emerge of themselves.”
Posted by: caio at June 19, 2008 12:21 PMAlexandre, não li o "Strong Opinions", falha minha. Mas acho que eu poderia citar coisas de "Pale Fire" que se inserem no clima. Nabokov também é exímio (e como) nessas pequenas fotografias. Eu diria tatuagens, porque elas grudam na nossa pele. E um post com trechos de Salinger seria ótimo.
Dude, quando jovem, eu escrevi um pequeno, veemente ensaio chamado "Crime e recompensa", para combater o dilema, meio bobo (como eu) que, a meu ver, atormentava Dostoiévsky. Não me lembro mais, claro. Não me interessa mais. Se você quer saber, Dostoiévsky é um escritor adolescente, e para adolescentes. Um homem meio doentio atormentando adolescentes sensíveis, se você preferir. Veja bem, não estou dizendo que é um escritor ruim. Mas até, talvez. De qualquer jeito, como disse, não me interessa mais.
Posted by: FritzGG at June 19, 2008 12:54 PMAh, sim. Adolescentes são cristãos ortodoxos, conservadores e eslavófilos; têm barbas de ancião; e são prisioneiros políticos na Sibéria, chegando a ponto de quase serem executados. Essa juventude de hoje em dia está corrompida, não é mesmo?
Dizer algo assim não é um sinal de maturidade, venerável Fritz, é um sinal de caducidade; de que essa sua cabeça grisalha já não tem capacidade mental para absorver nada a não ser imagens bonitinhas e peculiares, e qualquer idéia, qualquer pensamento mais inteligente, passa despercebido.
Mas se vamos falar de "escritores adolescentes", que tal o seu ídolo, Salinger? Também gosto dele, aliás. Caulfield só perde para o Arturo Bandini de "The Road to Los Angeles".
Posted by: Dude at June 19, 2008 01:37 PMMas as imagens tem mesmo que ser bonitas e peculiares, Dude. Com o tempo você vai saber. Sei lá, daqui a...uh, 30 anos? Não sei. Também não procure muita inteligência em escritores. A maioria não tem.
E Salinger está muito próximo de ser um velho sábio, Dostoévsky não.
Yea, yea, whatev. Não dá pra conversar com velho gagá. Faça-me um favor, Fritz: quando eu comentar aqui, não venha puxar papo com essa sua complacência ignorante. Se não concorda com o que digo, shove it.
Posted by: Dude at June 19, 2008 05:40 PM:)
obrigada, Gustavo!
Certo, Dude. Sem papo. Você não é burro, dá pra notar. Só está errado. Mas preste atenção nisso: você vai mudar.
Posted by: FritzGG at June 19, 2008 06:42 PMNão li seu post todo, mas aqui Alexandre você é um dos caras mais originais dessa nova direita cultural pós-olavônica, etc., e este post que ainda vou ler, mais sóbrio, parece que mostra isto.
Posted by: Vinícius at June 20, 2008 02:13 AMAlexandre:
Entendo seu ponto. Mas existem imagens e imagens. Por exemplo, o rigor descritivo de um escritor naturalista é uma coisa, e me incomoda -- já as imagens das histórias fantásticas em geral me são muito agradáveis. E não me parece muito justo contrapor o desinteresse por descrições ao gosto por abstrações. Tanto no que diz respeito aos autores quanto aos leitores. Não há "idéias" nos romances de Machado, nem nos de Lawrence Sterne, mas ambos passam longe, muito longe de minuciosas descrições.
Nunca comento, mas estou sempre por aqui.
Abraços.
Posted by: Nagel at June 20, 2008 03:57 PMAlexandre:
Entendo seu ponto. Mas existem imagens e imagens. Por exemplo, o rigor descritivo de um escritor naturalista é uma coisa, e me incomoda. Já as imagens de histórias fantásticas em geral me são muito agradáveis. E não me parece muito justo contrapor o desinteresse por descrições ao gosto por abstrações. Tanto no que diz respeito aos autores quanto aos leitores. Não há "idéias" nos romances de Machado, nem nos de Lawrence Sterne, mas ambos passam longe, muito longe de minuciosas descrições.
Nunca comento, mas estou sempre por aqui.
Abraços.
Posted by: Nagel at June 20, 2008 03:58 PMnão se lamente, parece que you can't have it all mesmo. o meu problema é exatamente o inverso, e isso meio que nos dá diferente nichos só. gazela nenhuma se lamenta por ser gazela.
mas eu sinto que hoje, no último minuto, minhas sensibilidade literária despertou. e de repente pensei em como descrever um coelho, assanhado mas tímido como um coelho deve ser, ao avisar uma coelhinha; "colocou os dentinhos pra fora e como que os escovou com o focinho, causando um leve balançar de seu bigode."
Posted by: bbened at June 20, 2008 11:10 PM*ao avisar = ao avistar
Posted by: bruno at June 20, 2008 11:11 PMdiferente = diferentes.
brrrr.
Alteza, ousei escrever uma cantiga qualquer de amigo em galaico-português...
E todas as mulheres do mundo revoltaram-se contra minha petulância.
- AH! Um exército de clones. Os calmantes, por favor.
- Para já, senhorita?
- Oh, não, para quando eu estiver completamente histérica, de fato.
- Oh.
Interessante.
(Mas não creio que o cegueta Borges seja visual, neste nível. Não para pequenos detalhes, ao menos. Usa, sim, grandes metáforas visuais: tigres, espelhos, labirintos… Mas está sempre a falar de outra coisa.)
Posted by: ratapulgo at June 22, 2008 03:13 AMConfesso que não leio seu site há uns bons 2 meses. Fazer o quê? O dever me chama, hora sim, hora também, portanto, devo estar perdoado. Queridão Alexandre, tô passando por aqui para divulgar o primeiro número do Bufunfa Podcast, que trata sobre como ganhar o primeiro milhão de reais na Bolsa de Valores...
Que tal ouvir?
Dá um pulo no http://poloweb.com.br e ouça...
Abração.
Ricardo L.
Posted by: Ricardo Lima at June 23, 2008 10:49 PMDifícil é visualizar as letrinhas diminutas de teu blog. Aumenta isso, rapaz!
Posted by: Caio at June 24, 2008 09:42 PM