"E foi assim que um pequeno conjunto de boas vontades se congregou para me levar a St. Antony's College no verão em que Salazar caiu da cadeira: dois acontecimentos que sem dúvida assinalam o santo dedo da Providência. Oxford era ainda em 1968 uma universidade aristocrática. Havia criados de casaco branco e calça preta que nos serviam à mesa e cada um de nós tinha um segundo servo, o scout, para o serviço doméstico e tarefas avulsas. Principalmente, não se usava dinheiro: assinavam-se papelinhos e não se pagava a renda da casa, aliás ridícula, que o Colégio nos distribuía. De três em três meses, vinha a conta. Ninguém esperava, como é óbvio, que a pagássemos, sendo notório que utilizávamos o dinheiro de formas mais altas e festivas. A aparição da conta exigia apenas uma visita ao Tesoureiro de St. Antony's, um velho major da Índia, invariavelmente predisposto a compreender apertos financeiros, a quem se contavam mentiras estapafúrdias a troco de moratórias sem prazo.
À custa da dívida a St.Antony's comprei logo uma instalação de alta fidelidade e um carro e passeei por Itália, por França e até por Espanha, enquanto a Gulbenkian me supunha estudiosamente sentado no meu quarto de Oxford. Oxford não me impunha qualquer espécie de obrigações, o contrato entre mim e a Universidade era simples: se eu fizesse uma tese razoável, a Universidade entregava-me um papel a imitar pergaminho, declarando-me doutor. Se não fizesse, tanto pior. A Universidade não pretendia meter o nariz nos meus assuntos ou sequer dar opiniões sobre a melhor maneira de fazer teses. O professor Raymond Carr ia lendo a minha prosa a intervalos irregulares e falava às vezes comigo no bar do Colégio sobre política ou sobre os méritos e deméritos da cozinha espanhola. Mas também ele achava que eu devia tratar de mim e não maçar as pessoas.
Tirando algumas paixões tumultuosas e a geral escassez da fêmea da espécie na região, a vida de Oxford não podia ser mais doce. Depois do pequeno-almoço, duas horas calmas com jornais e café na sala do Colégio. Entre as onze e a uma, cartas, compras, uma volta pela cidade ou a pura e pacífica contemplação do nada. Almoço e sesta. Das três às sete, ler ou escrever. Às sete, o bar para o merecido conforto do álcool, enquanto não se jantava ou não chegava o momento de seguir para um restaurante decente. Os dias passavam, os meses passavam, passaram os anos, sem um encargo, um compromisso, um dever a cumprir.
Chama-se a isto "ociosidade criadora", noção clássica inteiramente estranha a gente rústica e pindérica como os portugueses e sobretudo às classes médias enlouquecidas pelo trabalho da nova era "liberal". Em Oxford, as minhas ambições académicas, coitadinhas, acabaram antes de começar, exceto se se entender que o desejo de voltar para Oxford, como Oxford era em 1968, antes da senhora Thatcher e do dinheiro japonês, com o propósito de permanecer ocioso e de assegurar os meus cómodos e confortos, constitui uma ambição académica. Porque essa admito que me apareceu por volta de 1977 e nunca mais me largou.
Em 1968, a Universidade, de resto, não estimava os campeões, a não ser os de remo, e desencorajava o zelo e a competição "científica". Os eruditos, os laboriosos e os prolíficos não inspiravam qualquer simpatia. As luminárias "teóricas" eram objecto de uma justa condescendência e nem mesmo o título de "professor", em Oxford honorífico e aleatório, suscitava o temor reverencial a que normalmente está associado em países bárbaros. A Universidade preferia a inteligência, a graça, a extravagância, e até a pura preguiça; e no fundo, como Salisbury, execrava o "mérito" burguês".
Vasco Pulido Valente, "O Modo da Vida", em "Retratos e Auto-Retratos".
Posted by Alexandre S. at June 1, 2008 08:53 PMIsto é de matar de inveja um estudante brasileiro. Na faculdade em que eu estudava, antes de mandá-la às favas, tinha que fazer dever de casa (hora campo) porque os doutos achavam que os alunos não estavam aplicando seus horários fora da faculdade para estudar. Não ria é sério. Fugi antes que me obrigarem o quê comer no almoço. E agora, o que faço com a inveja que sinto de VPV?
Posted by: Ronalt at June 2, 2008 12:27 PMOk, mas lá na USP de São Carlos é igual, ao menos em essência. Se solucionarem o problema da existência de um vestibular tão concorrido, e por isso mesmo rústico e pindérico, será um clone idêntico, das galochas aos jalecos.
Posted by: Alberto at June 2, 2008 02:39 PMTHE LAST POST. THE PAST LOST.
I’ve had enough of this shit. The internet is for those who lack the flair for conversation. A blog is what you write for after being rejected by all the reputable publishers. It is Loser Central. The last refuge of the refuse. Anyone who has a blog or leaves comments on a blog is a wanker. It is far too undignified for a man of my stature. That it attracts such bitterness is not surprising. For one person spoilt by success, a thousand are spoilt by failure. Success makes people, for the most part, humble, tolerant, and kind. Failure makes people bitter and cruel. I can make no more of you than a hedgehog. You are too dull to be ridiculous.
I am the only thing of value on the internet and I am removing it immediately. Goodbye.
Posted by: Sebastian Horsley at June 2, 2008 02:51 PMAh, não, Sebastian Horsley até aqui!
Posted by: rodrigo de lemos at June 2, 2008 03:42 PMcéus, alexandre, você não sabe como este texto me deixou mal. logo após o deslumbramento fui pra cama, sonhando com os dias melhores que vieram e pensando na auditoria que eu teria de enfrentar no dia seguinte.
pouco me importa que, nesses tempos, meu avô fosse vendedor de parafuso no interior paulista e meu pai só pudesse brincar com tampinhas; a mera possibilidade de que alguém pudesse viver uma vida tão sublime como que compensaria a miséria do resto, miséria de que acabamos, por fim, todos compartilhando.
Caros, não deixem de notar que Oxford mudou muito nos últimos 40 anos.
Posted by: João at June 2, 2008 08:27 PMCaro Alexandre, leio-lhe muitas vezes elogios aos blogs/bloggers portugueses. Suponho que o VPV seja um desses? Pelo meu lado, não nutro por eles a simpatia e admiração que o Alexandre parece sentir. Precisamente por serem regra geral antipáticos, presunçosos, convencidos. Podem escrever bem, é verdade. Consigo apreciar o cinismo, o sarcasmo de que normalmente estão cheios os seus textos, mas acabam por cansar. Quanto à arrogância, pesporrência, presunção, não. Gosto de o ler, Alexandre, porque é inteligente, escreve bem e com humor, é suficientemente cínico, mas é simpático e não é presunçoso (não fique convencido, hã?). E porque em muitas coisas temos as mesmas ideias, também.
Este texto do VPV está cheio de vaidade. Confesso que gostaria de ter vivido esta experiência, viver a preguiça, o ambiente que descreve, só possível num ambiente britânico de antes de 80. Mas sentiria sempre uma ponta de remorso que VPV repudia completamente. Ninguém é obrigado a ter complexos de culpa "cristãos", mas também não sou obrigado a gostar de gente que não os tem. Por outro lado, a descrição de VPV leva-me a pensar em personagens que viveram esse ambiente, talvez com a mesma atitude, como Oscar Wilde ou Bernard Shaw, que não seriam o que foram sem viverem isso. Cínicos, como VPV, mas brilhantes, grandes. Podiam ser vaidosos à vontade. Valeriam bem a bolsa da Gulbenkian, se a tivessem tido ou precisado. E que nos vai deixar VPV?
Alexandre S. (que não sou eu, não-obviamente, porque eu poderia estar falando comigo mesmo, mas não), não sei, esse é o primeiro livro do VPV que leio, e não o conheço tanto assim, mas do que conheço, gosto (embora o meu interesse por Cunhal seja, hmm, bem limitado). Mas eu não noto essa arrogância toda de que você está falando, pra falar a verdade. Já leu o Estado Civil, nos meus links? Voz do Deserto? Pode dizer um blog que tenha deixado essa sensação? De modo geral acho os blogs portugueses melhores que os brasileiros, ou pelo menos digamos assim: há blogs portugueses ruins, mas nada é tão ruim quanto um blog brasileiro ruim. Abraço.
Posted by: Alexandre at June 3, 2008 09:07 PMUma coisa que me ocorre sempre é que muitos brasileiros com quem tenho contato não conhecem nem ouviram falar de Vasco Pulido Valente ou Miguel Esteves Cardoso, e que alguém de Nobre Alma Didática poderia escrever um post explicando quem são. Eu não posso, porque não conheço tanto assim de nenhum dos dois, tendo um livro de um e dois do outro. Mas alguém. Acho que Miguel Esteves Cardoso devia ser mais conhecido por aqui. VPV sempre vai depender que as pessoas se interessem por Mário Soares, Salazar, Cunhal etc.
Posted by: Alexandre at June 3, 2008 09:32 PMGosto do que conheço dos dois, Alexandre. O VPV tinha um blogue chamado O Espectro, em que escrevia com a mulher, que é jornalista. Parou de postar lá em 2006, salvo engano meu.
Sobre o MEC, uma coisa curiosa é que ele começou como crítico de roque, sabia? No início dos anos 80, escrevia sobre "a cena de Manchester", Joy Division e coisas assim. Conheço um ou outro jornalista brasileiro dessa área que começou a lê-lo naquela época. Abraços!
Posted by: Ruy at June 4, 2008 12:56 AMRuy, indeed, não sabia - sobre o MEC ser crítico de rock. Li uma coleção de textos dele e um romance, "O Amor é Fodido". Além de mim não conheço ninguém que goste do romance, mas a coleção de textos ("As Minhas Aventuras na República Portuguesa") era tudo isso e um saco de batatas fritas. Vou ver se posto uns trechos de vez em quando.
Posted by: Alexandre at June 4, 2008 03:04 AMAh, Ruy - ou alguém mais que saiba responder - já leu Vasco Graça Moura? Acho que já vi você falar dele uma vez. Estava interessado nos romances, especialmente, e em saber por qual seria melhor começar. Abraços.
Posted by: Alexandre at June 4, 2008 03:07 AMAlexandre, acho que exagerei um bocado. O VPV não é tão mau como o pintei, mas estava de mau humor. Falei de coisas que não pode perceber quem não leia assíduamente as crónicas dele nos jornais ou siga as disputas epistolares com alguém que o contradiga ou tenha o azar de não lhe cair no goto. Nessas alturas usa sem contemplações o dom que tem para escrever, com uma escrita ácida, mal humorada e muitas vezes mal educada. No resto, reconheço que é culto, interessante e escreve muito bem. Já quanto a comungar dos seus pontos de vista...só de vez em quando. Entre mim e gente como o VPV há demasiados motivos de conflito, de natureza regional, clubística (como Paulista, tenho a certeza que me percebe...) para não falar do campo das ideias.
Lamento não poder ajudar na informação sobre a escrita dos autores que refere. Nos últimos anos tenho lido pouco, por falta de tempo, e o que leio é escolhido de forma completamente aleatória, entre ofertas e as prateleiras familiares. Tenho vergonha de confessar que não li sequer o "Glória", deste mesmo Vasco Pulido Valente, estudo romanceado sobre um episódio histórico do sec. XIX, do qual parte da acção se passou na que hoje é casa da minha família (e também pelo Brasil). Este mesmo episódio serviu de base ao romance A Tragédia da Rua das Flores, de Eça de Queiroz.
De Vasco Graça Moura nunca li nada, além de crónicas...É considerado presentemente o intelectual português com maior abrangência cultural, assim uma espécie de José Mourinho da cultura. É prejudicado nos favores da comunicação social portuguesa por ter uma forte personalidade e ser assumidamente de direita, embora livre pensador. Recentemente fez uma tradução para português da Divina Comédia, que foi considerada de excepcional qualidade.
Caro Alexandre,
Desde que o blog mudou de endereço, não consigo adicioná-lo ao Google Reader. Peça para a equipe do A Postos solucionar o problema – não há link de contato na página principal; é só por esse motivo que venho incomodá-lo com este "comment".
Um abraço.
Posted by: Diego Teixeira at June 4, 2008 10:52 AMA última coisa que li sobre VGM foi que ele queria "abrasileirar" a língua portuguesa européia. That's all.
Posted by: alexandre at June 4, 2008 02:46 PMTem este poema engraçado do Vasco Graça Moura que apareceu comentado no Indivíduo: http://oindividuo.com/2007/05/06/diana-no-banho/
(Fora isso, "O Mês de Dezembro" é o único livro de poemas que li dele. Não adorei.)
Alexandre, do Vasco Graça Moura não conheço nada em prosa -só alguns poemas dele e traduções de poesia. Tenho uma coletânea do Gottfried Benn vertida por ele (boa) e aquela tradução da "Divina Comédia", de que, confesso, não gosto muito (há uns problemas de métrica meio básicos ali, ainda mais considerando a ambição da empreitada). Abraços.
Posted by: Ruy at June 4, 2008 04:42 PMAlexandre S., bom, minhas leituras tambem sao completamente aleatorias. Depois dos vinte anos nunca mais segui nenhum plano de leitura. Abraco.
Realmente nao descubro como colocar acento neste teclado.
Diego, obrigado pelo aviso. Estou tentando resolver o problema (na verdade estao tentando resolver o problema por mim.)
alexandre, isso realmente nao parece bom sinal.
Rodrigo, e verdade, tinha esquecido. Thanks a lot.
Ruy, gracias. Ou me engano ou o Felipe "Mad Monk" Ortiz gosta dessa traducao da Divina Comedia. Bom, nao sei se me arrisco com os romances do VGM agora - mas provavelmente vou dar uma chance.
Abracos, voltem sempre.
Posted by: Alexandre at June 4, 2008 09:08 PMDude, your RSS isn't working.
Posted by: onarixtopa at June 8, 2008 09:06 AMPela coçação honorária dos próprios oxiúros
Entraremos para os anais da história.
Salú.
Posted by: Tiago Rocha at June 8, 2008 11:42 AMola..., adorei seu blog.. e nao podia deixar de comentar!!!
mo' gostou muito, da mesma maneira que o blog, obrigado muito.
Bjos
Muito bom gosto
Posted by: Ricardo at June 9, 2008 01:16 PM