É difícil gostar direito das coisas, no sentido de saber escrever sobre as coisas de que se gosta. É difícil desgostar direito também, tanta gente desgostando errado. Mas a verdade é que quase todos os escritores que acho bons são melhores desgostando que gostando.
Três motivos: um, ouvir pessoas falando mal de alguém é mais divertido que ouvir pessoas falando bem de alguém. No segundo caso você provavelmente vai deixar de prestar atenção, bocejar um pouco, por mais que em teoria aprove o tom benigno da conversa. Dois, quando se trata de falar mal o cérebro meio que colabora, fica todo criativo, inventa símiles e frases elaboradamente retorcidas. Três, a sua tolice, quando você escreve de algo que gosta, fica mais visível.
Li muitas pessoas que pareciam imensamente sábias quando estavam falando de algo de que não gostavam, porque os critérios para desgostar delas pareciam todos bons, especialmente porque ficavam retoricamente disfarçados, mas que assim que tentaram escrever sobre algo que gostavam usaram um critério para gostar que me pareceu cretino. Critérios para gostar das coisas são mais difíceis de escolher. Quase todo mundo soa bobo quando gosta muito de algo; há algo de pessimista na mente humana que faz com que acreditemos que se alguém está falando muito bem de alguma coisa, é provavelmente um bobo alegre.
Para fugir disso tenho seguido o conselho de Mencken: se quer falar bem de algo, em vez de falar bem desse algo fale mal de quem fala mal desse algo. É mais fácil ser divertido assim, e afinal a maledicência pode ser realmente um talento. Mas ainda quero dominar a arte bastante rara de falar bem das coisas diretamente e sem parecer bobo. Assim de cabeça não consigo lembrar de ninguém que escreva consistentemente assim, um talento benévolo, alguém cujo bom-gosto seja tamanho que a sua mente nem apreende muito bem a existência de coisas feias, quanto mais mantê-las na consciência tempo suficiente para escrever sobre elas. Não em não-ficção, pelo menos (em ficção sempre há Wodehouse). Imagine um The Sartorialist literário, talvez - alguém com a mesma abençoada incapacidade de snarkiness e uma atenção exclusiva e informada a coisas bonitas. Por natureza não sou assim, as coisas feias permanecem na minha mente dançando pagode, leio blogs ruins de propósito, e quase sempre a minha motivação para escrever é falar mal das coisas feias. Mas queria mudar isso. E pelo menos, pelo menos, não quero ser um desses espíritos do umbral que são incapazes de escrever das coisas que gostam sem dar a impressão de que as desprezam um pouquinho.
Posted by Alexandre S. at May 28, 2008 03:41 AMé, talvez o conselho do Mencken seja o único caminho. O Chesterton usa muito disso - como trampolim, me parece, para falar bem de coisas boas sem parecer um bobão. Vide o primeiro capítulo de "The Everlasting Man"...
Posted by: Marcio at May 28, 2008 07:06 AMEu vi bem isso quando comecei a resenhar All That Jazz. Precisei falar mal de Kubrick e de indies pra poder elogiar o filme. Foi um desespero.
Posted by: Gustavo at May 28, 2008 08:05 AM(e ainda assim nãoficou lá essas coisas, devo dizer)
Posted by: Gustavo at May 28, 2008 08:07 AMRubem Braga falava muito bem das mulheres, sem ficar panaca. Mas aí tem O Poetinha que comprova tua teoria.
É verdade.
Falar bem demanda a suspensão temporária do cinismo, e nós sabemos que só o cinismo salva amém.
Vale citar Borges? Tô terminando o "Outras Inquisições" e, quando você acha que o Borges finalmente vai ser deselegante, ele acha graça em um defeito que acabou de apontar em Oscar Wilde, por exemplo. E em Wells, Quevedo... Ele mostra um defeito que ele acha que é um defeito, depois enfeita-o, todo bonitinho, e deixa a impressão de que esse defeito é, justamente, a melhor qualidade do escritor em questão.
Posted by: Tiago Lopes at May 28, 2008 10:28 AMO ensaio em que o Borges fala bem do Hawthorne é excelente...
Posted by: Marcio at May 28, 2008 10:41 AMQueria começar falando bem deste post, mas corro o risco. Mas vá lá: excelente. Pronto, parece bobo mesmo.
Acho que um dos problemas do elogio bobo é que ele contamina, se não o elogiado, pelo menos a imagem do elogiado.
Mas tem uns caras que são perfeitos para se falar bem, porque parece que eles não são contaminados por elogios, bobos ou não. O Lewis Carroll, por exemplo.Também é meio imune à crítica, parece.
Quem mais é assim? Borges?
Já o Machado de Assis virou um chulé, de tanto elogio besta.
Isso é meio natural, não? Se algo é muito bom, resta pouco pra falar. Aliás, o ideal é que não reste nada. O máximo que se pode conseguir é uma repetição elegante (e isso não parece ser muito fácil de fazer). Já o que é ruim deixa um monte de lacunas: é possível escrever bons textos só com o que faltou em textos ruins. A maledicência é um ato de criação; o elogio só repete, hehe.
Posted by: Igor at May 28, 2008 01:58 PMRealmente difícil achar-se um elogio que não seja ao menos meio bobinho.
E o grau de bobice depende muito mais de quem elogia do que do elogiado.
Um grande escritor que fale bem de um escritor médio vai soar como condescendente, complacente, benevolente, bobo, enfim.
Um escritor médio que fale bem de um grande escritor vai parecer óbvio, puxa-saco, redundante, bobo.
Um escritor médio que fale bem de um escritor médio está formando panelinha, rasgando seda, tentando se enturmar, sendo bobo.
Um grande escritor nunca fala lá muito bem de outro grande escritor (a menos que o outro tenha morrido há 100 anos).
Já os escritores ruins.... quem se importa?
Ah, que visão pessimista.
De cabeça me lembro de um ensaio sobre o Almodovar do David Denby (ou era o Anthony Lane) que quase me deu vontade de assistir os filmes. Quase.
Não sou pessimista nesse ponto, Chico Jr. - acho possível, só mais difícil.
Alguém conhece bons escritores - ou blogueiros, se quiserem ser mais humildes - que são muito bons em falar de coisas das quais eles gostam? Michael Blowhard do blog 2Blowhards, por exemplo, consegue passar o entusiasmo dele por muitas coisas, e acho que ele faz isso muito bem. Algum crítico de cinema? De vez em quando eu lia uma ou outra crítica positiva de cinema na Salon que eu gostava, mas parei de ler a Salon - agora só entro pra ler a Camille Paglia - porque politicamente a revista me dá nos nervos.
Ok, a propria Camille Paglia é assim - ela tem os entusiasmos dela e consegue escrever bem sobre isso. Borges, é verdade. Chesterton falando sobre Dickens, Walter Scott e Robert L.Stevenson. Walt Whitman, bien sur. Emerson e Thoureau. C.S.Lewis falando sobre Tolkien, George MacDonald, Charles Williams, e o conceito de "joy". Mais alguém?
O próprio Mencken era muito bom falando mal, mas quando tenta falar bem de alguém - Conrad, Dreiser - soa pretty silly. A exceção é quando falava bem de um músico - gosto do que ele escreveu sobre a valsa, por exemplo - e críticos menores. It's hit and miss. Mas quando falava mal ele era bom sempre.
Posted by: Alexandre S. at May 28, 2008 04:22 PMNigel Andrews, crítico de cinema do Financial Times. Ele é excitável e passa uma tremenda sensação de 'fun' quando gosta de um filme
Alexandre, você não faz idéia de como sua vida melhora depois que você pára de ler blogues ruins. É como se você largasse o cigarro e, imediatamente, obtivesse o índice olímpico para os 10 mil metros. Vá por mim e largue o vício. :) Abraços.
Posted by: Ruy at May 28, 2008 04:41 PMArranhaponte, encontrei este link aqui e vou ler, gracias:
http://www.ft.com/comment/columnists/nigelandrews
Ruy, mas eu cortei pra só dois blogs ruins, duas vezes por mês no máximo. ;>)
Posted by: Alexandre S. at May 28, 2008 05:26 PMBem, se não gostar, pelo menos vai estimular a criatividade do seu cérebro :)
Posted by: F. Arranhaponte at May 28, 2008 05:52 PMA Sheila, do The Sheila Variations, fala bem das coisas de um jeito que eu não consigo achar bobo. Ela passa exatamente essa sensação que o Arranhaponte descreveu, excitável e fala de cada filme ou livro ou lugar ou pessoa como se fosse algo que ela descobriu e que é tão legal que ela PRECISA contar para todo mundo. Juro, ela me deixou com vontade de ver cinema iraniano (depois passou).
Posted by: Alessandra at May 28, 2008 07:01 PMisaiah berlin sabe falar bem das pessoas, até de comunista, e só às vezes soa um pouquinho bobinho. mas no geral ele sabe, sim.
Posted by: bruno at May 28, 2008 07:35 PMElogios a pessoas e obras quase sempre parecem bobos pq no íntimo todos sabemos q tudo é um jogo de aparências e espelhos. Mas qdo o objeto do gostar é algo impessoal, é raro q o escritor ou orador inteligente pareça bobo ou dissimulado. O entusiasmo por algo impessoal ou abstrato raramente parece bobo e nunca é interesseiro. Veja William Haslitt "On Going a Journey" sobre caminhar, Hilaire Belloc "The Crooked Streets", ou JB Priestley "On Doing Nothing".
Posted by: Permafrost at May 28, 2008 08:33 PMSempre gosto de ler o Diogo Mainardi e um tal de Alexandre Soares quando falam do Paulo Francis. ;-)
Posted by: Gabriel Trigueiro at May 28, 2008 09:25 PMQuase qualquer Rubem Braga, e até de passarela sobre o Aterro do Flamengo, não?
Posted by: Bruno at May 29, 2008 08:24 AMEsse boteco de vocês tá ficando superpovoado, hein? Esperemos uma enchente ou desastre qualquer pra limpar a área um pouco, senão vira um daqueles cassinos gigantes, cheio de velhinhos. Parece até a Barca do Noé tentando salvar as espécies...
Posted by: vicente azambuja at May 29, 2008 11:21 AMO próprio Lord ASS quando fala das poucas coisas de que gosta (mulheres e um punhado de escritores antigos dos quais ninguém ouviu falar) não parece nem bobo nem dá a impressão de desprezo.
É tão raro e tão bom encontrar alguém que ainda goste de fato de mulheres e de escritores antigos...
Aí, tá vendo, fui falar bem e o comentário ficou bobo.
É.
Posted by: Devir at May 30, 2008 10:34 AMmuito bom, meudeus
Posted by: filipe at May 30, 2008 11:51 AMBlogs ruins são sempre curiosos. Há alguma lista de horrores?
Posted by: Rafael Sotero at June 5, 2008 01:02 PM