May 28, 2008

Gosta direito das coisas, menino

É difícil gostar direito das coisas, no sentido de saber escrever sobre as coisas de que se gosta. É difícil desgostar direito também, tanta gente desgostando errado. Mas a verdade é que quase todos os escritores que acho bons são melhores desgostando que gostando.

Três motivos: um, ouvir pessoas falando mal de alguém é mais divertido que ouvir pessoas falando bem de alguém. No segundo caso você provavelmente vai deixar de prestar atenção, bocejar um pouco, por mais que em teoria aprove o tom benigno da conversa. Dois, quando se trata de falar mal o cérebro meio que colabora, fica todo criativo, inventa símiles e frases elaboradamente retorcidas. Três, a sua tolice, quando você escreve de algo que gosta, fica mais visível.

Li muitas pessoas que pareciam imensamente sábias quando estavam falando de algo de que não gostavam, porque os critérios para desgostar delas pareciam todos bons, especialmente porque ficavam retoricamente disfarçados, mas que assim que tentaram escrever sobre algo que gostavam usaram um critério para gostar que me pareceu cretino. Critérios para gostar das coisas são mais difíceis de escolher. Quase todo mundo soa bobo quando gosta muito de algo; há algo de pessimista na mente humana que faz com que acreditemos que se alguém está falando muito bem de alguma coisa, é provavelmente um bobo alegre.

Para fugir disso tenho seguido o conselho de Mencken: se quer falar bem de algo, em vez de falar bem desse algo fale mal de quem fala mal desse algo. É mais fácil ser divertido assim, e afinal a maledicência pode ser realmente um talento. Mas ainda quero dominar a arte bastante rara de falar bem das coisas diretamente e sem parecer bobo. Assim de cabeça não consigo lembrar de ninguém que escreva consistentemente assim, um talento benévolo, alguém cujo bom-gosto seja tamanho que a sua mente nem apreende muito bem a existência de coisas feias, quanto mais mantê-las na consciência tempo suficiente para escrever sobre elas. Não em não-ficção, pelo menos (em ficção sempre há Wodehouse). Imagine um The Sartorialist literário, talvez - alguém com a mesma abençoada incapacidade de snarkiness e uma atenção exclusiva e informada a coisas bonitas. Por natureza não sou assim, as coisas feias permanecem na minha mente dançando pagode, leio blogs ruins de propósito, e quase sempre a minha motivação para escrever é falar mal das coisas feias. Mas queria mudar isso. E pelo menos, pelo menos, não quero ser um desses espíritos do umbral que são incapazes de escrever das coisas que gostam sem dar a impressão de que as desprezam um pouquinho.

Posted by Alexandre S. at 03:41 AM | Comments (26)

May 24, 2008

Meu primeiro post feito na munheca



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Posted by Alexandre S. at 01:58 AM | Comments (20)

May 21, 2008

Por Que Não A Mamãe?

Lá está o Dr.Urbano andando no horário de almoço pelo quarteirão do seu consultório em São Paulo, quando, senão quando - alas, vixe, - tendo olhado a vitrina de uma livraria e seguido adiante distraído, de repente se perguntou se estava maluco ou havia mesmo, seria possível, visto uma foto da mãe dele na capa de um livro? Não podia ser, podia? A Dona Alzira? Também conhecida como a mamãe?

Mas voltou atrás e, ué, era sim. Mamãe! Na capa de um livro! Na capa de vários livros, na verdade, ou de vários exemplares de um mesmo livro, que era a edição brasileira do bestseller filosófico daquele ano, "Vamos Matar a Dona Alzira", do Professor de Bioética de Oxford, o célebre, controverso, cabeludo, extremamente branco Prof.Nicholas Killer-Couch.

O coração do Dr.Urbano ficou parado e encolhido durante dois segundos, como uma caloura na qual tivessem despejado um barril de gatorade gelado durante um trote, e só aos poucos voltou a bater, dolorosa e quase deliberadamente. Nunca tinha ouvido falar daquele livro. Leu e releu o título. Voltou a olhar a foto. Era a mamãe! Sorrindo enrugadinha no seu vestido azul de maria-mijona e tal, seus óculos de leitura pendurados por uma cordinha e descansando nos peitos monstruosos.

"Vamos Matar a Dona Alzira", por quê? Por que ela? Uma santa que só ficava em casa fazendo quitute? O Dr.Urbano entrou na loja e estudou o livro, que viu ter o subtítulo de "O Livro que Deu Origem à Campanha Para Matar a Dona Alzira". O texto da orelha, que não conseguiu ler direito de tão, qual a palavra? nervoso? pasmo? em choque? abestado?, dizia qualquer coisa sobre brilhante blablablá análise arguta da necessidade ética da descriminalização de procedimentos legais para pôr um termo à vida, não, entre aspas, "vida", da Dona Alzira; "o Professor Killer-Couch merece encômios", estava assim, mais abaixo, num blurb, "por abordar com tanta sutileza um tema complexo, sem jamais ceder ao clima moral atual de certezas à esquerda ou à direita", blablablá, Jesus Cristo!

Tremendo, nem tanto de indignação mas de medo mesmo, o Dr.Urbano comprou o livro e foi ler no consultório. Descobriu que o título original era "Pray Let Us Kill Doña Alzira", uma brincadeira com os dois sentidos da palavra "pray", "por favor" e "rezar" (Killer-Couch era ateu). O prefácio brasileiro, de um professor da Usp, avisava que o livro "tinha material de sobra para causar revolta nos espíritos mais fracos, diante da exposição fria e desapaixonada de uma vida inútil e dos muitos argumentos para terminá-la". O prefácio da edição americana era assinado pelo "Diretor Internacional da Campanha para Matar a Dona Alzira" (a CKDA). Mas era difícil ler qualquer coisa com seus olhos em pânico. Havia na orelha uma foto de Killer-Couch, bonitão para os padrões científicos, assim com uma espécie de beleza de astrônomo.

O Dr.Urbano veio lendo, tentando ler, o livro no carro, em cada sinal fechado - e sempre encontrava uma frase absurda, de implicações surpreendentemente malignas, justamente quando o farol abria. Antes de entrar em casa escondeu o livro na sua pasta. Sua mãe estava na cozinha, descascando ervilha e vendo novela. Ela deu a bochecha pra beijar, disse "Ô filho, cê não morre tão cedo", e começou a dizer que estava falando dele com a tia Célia que estava com diabete. E, francamente, o Dr.Urbano parou de ouvir.

Ao vê-la curvada tetuda sobre as ervilhas, toda entretida com a saúde da tia Célia, seu cotovelo cascudo em cima do livro espírita que também sustentava um isqueiro azul de plástico, ao ver seus cabelos grisalhos de velhinha que nunca ouviu que os setenta são os novos cinquenta, ao ver debaixo da mesa suas pernas de maternal elefanta, seu chinelo estourado, e sobretudo ao ouvir sua voz rouca de velhinha fumante, sua voz de mamãe, Urbano decidiu que ela nunca iria ficar sabendo que lá fora, no vasto mundo filosófico, sutil, ético, palestrante, milhares de pessoas com diplomas queriam matá-la.


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-Eles não querem matar ela - disse o Inácio, seu melhor amigo, quando Urbano telefonou pra ele trancado no escritório - Eles querem ter o direito legal de matar ela. É diferente.
-Ah, você sabia? Por que não disse nada?
-Eu pensei que você sabia. Tá a semana toda passando isso na televisão.

Não, aparentemente, nos intervalos da novela - ou a mãe saberia. Ou ela sabia? Seria possível? Urbano desceu, e quando viu que estava passando o jornal, disse às pressas qualquer coisa sobre querer ver o jogo e mudou de canal, sob os protestos estridentes da Dona Alzira.

A conversa com Inácio o havia deixado tão indignado quanto antes, mas ao mesmo tempo com a sensação de que estava sendo injusto por ficar indignado - que havia uma razoabilidade nos argumentos do Professor Killer-Couch, e que ele, Urbano, não havia entendido nada, julgando "com o coração e não com a cabeça".

Essa foi exatamente a sensação que teve quando finalmente conheceu o Professor Killer-Couch, quatro meses depois, nos bastidores do estúdio paulistano em que os dois gravariam um debate. Inicialmente o Professor queria debater diretamente com "Doña Alzira" - como ele disse, no telefone, para a própria, antes que Urbano arrancasse o aparelho das mãos maternais pintalgadas. Urbano havia se recusado, insistindo que a mãe não devia saber de nada, e se ofereceu no lugar. De modo que os dois se encontraram, numa manhã de chuva, num prédio feio e esparramado perto da Marginal.

O Professor era muito alto, seus cabelos brancos mais amarelos e ensebados do que parecia nas fotos, e sorria tão timidamente que o Dr.Urbano, que veio disposto a briga, não soube o que fazer. Isso ficou pior quando Killer-Couch disse em inglês, com grande simplicidade, e se curvando todo lá de cima até a altura do otorrino paulista:

-Agradeço a sua presença. Deve ser difícil para você.

E bastou isso para o Dr.Urbano desfranzir o rosto e dizer, com um leve ar de míope, "Ah sim."

Pouco antes do debate começar, os dois ainda em pé nos bastidores, Urbano pediu um copo d'água para a mulher lá do programa e Killer-Couch deu uma corridinha, voltando com um copo pra ele.

-Obrigado - Urbano resmungou.
-De nada.

Os dois subiram num palco e sentaram em cadeiras brancas de plástico. Na platéia pessoas sentavam até nos corredores, garotas bonitinhas segurando o livro do Professor Killer-Couch com a Dona Alzira na capa. Jesus, havia uma foto bem grande da mamãe na parede do fundo.

Um moderador invisível, uma voz de imparcialidade sinistra, pediu que Urbano explicasse o motivo de ele achar que a mãe não devia ser morta. Monotonamente, Urbano recitou o texto que havia preparado contando a história da mãe, o campeonato de natação, o casamento, a lua-de-mel em Poços de Caldas, os três filhos, a viuvez, a novela, o centro, o medo de trovão, a gota, a paixão por côco. Disse que a vida dela não era inútil e que ela era muito amada por três filhos, uma irmã diabética e um weimaraner chamado Coxinha. O texto acabava muito de repente e Urbano teve a certeza de que não havia conseguido dar o tom emocional que queria.

Quando chegou a vez de Killer-Couch, o Professor sorriu, pôs a mão no joelho do Dr.Urbano e falou:

-Deixe começar dizendo que se é por falta das famosas tortas de limão da sua mãe que você não quer que ela seja morta, há em Londres uma famosa doceria (risos da platéia) e eu ficaria contente em mandar quantas tortas você quisesse para a sua casa se você simplesmente deixar (pausa, mais risos da platéia), deixar, enfim, que a Doña Alzira nos abandone.

O Dr.Urbano não quis que pensassem que não tinha senso esportivo, e riu também.

Ficando mais sério, Killer-Couch explicou os argumentos apresentados no livro. Disse também que pessoalmente não achava que a vida de Dona Alzira fosse inútil, mas que esse ponto era irrelevante para a sua argumentação. Parecia tão lógico, tão razoável, tão educado, que Urbano começou a se sentir como um estraga-prazeres por estar lá contrariando todo mundo. Tinha certeza que as pessoas na platéia olhavam para ele com raiva dos seus preconceitos ridículos, do seu apego sentimental à sua mãe gordinha, catarrenta e noveleira. E Killer-Couch falava tão bem! Todos os argumentos que Urbano mencionava, e que havia escrito na palma da mão, Killer-Couch anulava com uma facilidade humilhante.

A frase da noite foi:

-É arcaico que existam leis para que o Estado proteja a vida de uma senhora de braços flácidos no bairro da Chácara Flora.

Todos riram muito disso.

-Mas e o direito à vida? - Urbano perguntou a certa altura, sem convicção nenhuma e se sentindo absurdo, gordo, estúpido.
-O direito à vida, meu caro Urbano, é um jogo de palavras que significa apenas a campanha, mais ou menos explícita, por parte do Estado moderno, para acabar com o direito de terminar a vida.

Não conseguiram nem aplaudir de tão admirados - e longe dali, na Chácara Flora, Dona Alzira lavando a garagem sentiu um arrepio sem saber por quê.

-Peço que retroceda no tempo e imagine uma época que uns dirão sem lei, que uns dirão se tratar do reinado do mais forte, - Killer-Couch continuou, - mas que digo que antes de tudo foi uma época de grande liberdade. Refiro-me à época anterior à criação do Estado. Pois bem, nessa época, se eu quisesse matar a sua mãe, não haveria Estado para retirar essa decisão dos meus ombros. Repito o que já disse no meu livro, o Estado não tem o direito de retirar essa decisão dos meus ombros. Essa decisão é minha - metafisicamente minha, abismalmente minha.

Houve um longo silêncio, e Urbano, lembrando da mãe, quase vendo a mãe na frente, achou que tinha que dizer alguma coisa. O quê, precisamente, não sabia. Os holofotes queimavam a sua careca com uma intensidade assustadora, mas na sua frente Killer-Couch parecia imune ao calor. Só nesse ponto Urbano percebeu que Killer-Couch estava usando sandálias de couro e tinha as unhas do pé muito compridas - e por mais que se esforçasse para voltar a pensar na mãe, não conseguia pensar em mais nada.

-Mas, mas, mas - apelou o Dr.Urbano, finalmente sem argumentos - Por que a mamãe?
-Me deixe devolver a pergunta - Killer-Couch disse, juntando as pontas dos longos dedos pálidos e abrindo um sorriso na verdade muito simpático - Por que não a mamãe?

Posted by Alexandre S. at 05:10 AM | Comments (29)

May 19, 2008

Conselho

Uma maneira de se livrar dos preconceitos da sua época é usar a razão, mas a desvantagem desse método é que grande parte do que você chama de "sua razão" são os preconceitos da sua época disfarçados, você sendo bonzinho demais para ter preconceitos sabendo que são preconceitos e forçando os coitados a se disfarçarem. Um método melhor para se livrar dos preconceitos da sua época é se encher dos de outra, de modo que não haja espaço na sua cabeça para os preconceitos desta. Que época? Examine todas procurando pelos preconceitos mais charmosos, e que combinem melhor com você; e quanto mais afastada a época, melhor. A vantagem óbvia de ter os preconceitos de outra época e não desta é que você vai estar isolado com eles, e portanto o poder deles de fazer algum mal, de ter qualquer espécie de consequência no mundo, é pequeno. Encha-se de preconceitos carolíngeos, de preconceitos assírios, de preconceitos toltecas, com grande convicção e gosto. Eu mesmo tenho uma boa coleção de preconceitos vitorianos, e uma crescente de eduardianos; e ando estudando a Idade Média pra ampliar a coisa. Quando você está cheio de preconceitos de antiquário, como eu, é impressionante como percebe que o que se chama de preconceitos correntes são só os de quarenta ou cinquenta anos atrás, tornados subitamente visíveis porque saíram de moda, embora ainda sejam cultivados por umas pessoas um tanto lentas e broncas nas áreas menos desenvolvidas do globo, do Mississipi e da Mooca.

Posted by Alexandre S. at 02:51 PM | Comments (8)

May 18, 2008

Olá, Debora Salvalaggio

Quando vejo fotos assim tenho um momento em que acho sexo esquisito. Digo, se você comparar todos os seus prazeres com o prazer de comer. Porque uma mulher é como um imenso bolo de chocolate pelado na sua cama, ok? Só que é um bolo de chocolate que por algum motivo você gosta muito de lamber apesar dele não ter gosto nenhum de chocolate, só um leve gosto salgadinho, e no qual você pode dar umas mordidinhas mas não a ponto de tirar um naco. Por outro lado, o bolo tem uma mãozinha que ele estende na sua direção e faz umas coisas, umas massagens, uns negócios aí, e quando você perde o emprego ele passa a mãozinha na sua cabeça e diz pra você não ficar assim não que passa. Feitas as contas fico muito confuso, mas olá, seu enorme bolo de chocolate.

Posted by Alexandre S. at 04:49 PM | Comments (7)

May 13, 2008

Sempre me senti assim

(via ex-Ivan Nunes)

Posted by Alexandre S. at 09:52 PM | Comments (13)

May 12, 2008

Vou lutar lá na sombra

Por acaso não gosto do país, esse país aí, mas queria gostar. É melhor ser patriota do que não ser patriota, quanto mais não seja porque não ser patriota é tão racional, no sentido em itálico, no sentido furreca do termo.

Não entendo essas pessoas que dizem que você não pode se orgulhar de ter nascido em um país porque isso não é mérito seu. Estão brincando de Senhor Spock? Estão erguendo uma sobrancelha e juntando as pontas dos dedos quando dizem isso?

Me orgulho de muitas coisas que não são mérito meu. Se só for me orgulhar de coisas que eu mesmo fiz, acabo ficando humilde. Aí não dá, né? Aí já é demais.

Essas pessoas que querem usar a razão em tudo têm o projeto macabro de substituir todas as faculdades da mente por silogismos e dançar como robôs. E nem é a razão, propriamente falando, mas aquele esforço semi-vagabundo de razão do qual foram capazes numa determinada tarde e com o qual ficaram satisfeitos.

Quanto ao assunto do patriotismo, é que por acaso o Brasil é ruim mesmo, mas o patriotismo é bom. Ninguém tem orgulho de ter nascido em um lugar, propriamente. Não acho que Liv Ullman tenha orgulho de ter nascido no Japão, por exemplo. A pessoa tem orgulho de ter recebido algumas características do país, dos pais, e da raça.

Ter crescido em um país não é um mérito, mas causou méritos (supõe-se, sim, supõe-se); não é uma boa qualidade do seu espírito, mas causou algumas boas qualidades do seu espírito. Tudo isso é motivo justificado de orgulho se estivermos falando, claro, de qualidades boas mesmo.

Agora desconsidera isso que eu falei porque no meu caso minhas boas qualidades são compartilhadas não pelo meu país mas pela minha biblioteca. Mas, ok, eu tenho um patriotismo, só que é um patriotismo da minha biblioteca. Ter recebido a biblioteca dos meus pais não é mérito meu, mas ela me deu qualquer mérito de gosto e pensamento e espírito que eu tenha, e eu tenho um vasto e descontrolado orgulho dela.

Se outras pessoas sentem isso pelos seus países, entendo e faço na direção deles uma vênia de patriota para patriota. Quanto a você, seu racionalista, que "não vê sentido" em se orgulhar de ter nascido aqui ou acolá, desejo que fique aí examinando racionalmente a sua ereção até que ela desabe. Faço votos mesmo. Rárá e amém.

Posted by Alexandre S. at 06:30 PM | Comments (17)

This is where the magic happens

Este é o tradicional olá, olá, this is my crib, these are my dogs; e um agradecimento para os membros do Apostos, que transportaram tijolo por tijolo o meu solar para este vale e me receberam com leite de cabra e torrada com mel alpino. Vou ver se mais tarde posto sobre dois assuntos, meu medo de planetas e meu ódio de pessoas que não gostam de descrições em livros; mas por enquanto fique com este texto antigo que é o melhor que eu li sobre casamento gay. Se é que o assunto te interessa. E eu acho que não te interessa, mas, sei lá, os outros links ainda estão nas malas e Sambo foi buscar meu cachimbo. Olá.

Posted by Alexandre S. at 01:20 PM | Comments (15)

May 06, 2008

No qual me despeço da Riviera, com Asquerosa Nostalgia

Sempre achei penosamente brega esse hábito de alguns adultos de se classificarem como "lobos solitários", ou, pior ainda, "chacais". Que há, há; havia muita discussão desse tipo quando portais de blogs eram coisas novas na internet. A imagem de um blogueiro barbudo fedendo a cigarro e apaixonado por Elis Regina (menção gratuita a Elis Regina) se identificando com um lobo porque seu blog não pertencia a um portal me fazia dançar gavotas de desprezo no meu quarto. O lobo vem se tornando um símbolo brega, como unicórnios.

We are inclined to think that genuine innovators are loners, that they do not need the social reinforcement the rest of us crave. But that's not how it works, whether it's television comedy or, for that matter, the more exalted realms of art and politics and ideas. In his book "The Sociology of Philosophies," Randall Collins finds in all of known history only three major thinkers who appeared on the scene by themselves: the first-century Taoist metaphysician Wang Ch'ung, the fourteenth-century Zen mystic Bassui Tokusho, and the fourteenth-century Arabic philosopher Ibn Khaldun. Everyone else who mattered was part of a movement, a school, a band of followers and disciples and mentors and rivals and friends who saw each other all the time and had long arguments over coffee and slept with one another's spouses.

Gladwell, depois de falar no SNL da dácada de 70, Freud, o neoconfucionismo da dinastia Sung, os impressionistas, o idealismo alemão e o círculo em volta do avô de Charles Darwin, menciona o fim característico desses grupos:

The special bonds that created the circle cannot last forever. Sooner or later, the people who slept together in every combination start to pair off. Those doing drugs together sober up (or die). Everyone starts going to bed at eleven o'clock, and bit by bit the intimacy that fuels innovation slips away.

Vocês sabem onde eu quero chegar. O fim dos Wunderblogs aconteceu não tanto porque paramos de dormir com a Gilda Radner, se bem que espero que tenhamos, mas porque um por um foi (fazendo dancinha de desprezo) ooooh, amadurecendo, conseguindo empregos, criando responsabilidades (estou dizendo essas palavras rebolando loucamente), e deixando os blogs morrerem aos pouquinhos, ou em alguns casos abruptamente.

Não sei como parece para quem está de fora, mas para mim toda a experiência de pertencer a esse grupo foi algo extraordinário. Quando estávamos no auge, no distante e mítico ano de 2004, nos encontrávamos todos os finais de semana - ou estou romantizando tudo? estou, né? -, visitávamos a casa um do outro, víamos filmes de Wes Anderson e Milos Forman e Lubitsch, entrevistas com Nelson Rodrigues, bebíamos e falávamos mal uns dos outros - por que não falamos mais mal uns dos outros pelas costas, hein? - e dormíamos com a Gilda Radner e com a mulher do Lorne Michaels em oh, tantas madrugadas adentro.

As pessoas falam mal de "grupos exclusivos", "grupinhos de amigos", "sociedades de admiração mútua", "patotas" etc - quem senão um idiota usa esses termos? - em parte porque o prazer de pertencer a um grupo desses é excluir os outros, e não se deve esperar gratidão dos outros por isso. Metade dos nossos posts eram piadas internas. Às vezes bem mais do que metade; às vezes um exagero; mas eu gostava assim. Para mim os Wunderblogs eram como a Igreja Católica para Barbey D'Aurevilly: uma varanda de onde eu podia cuspir na plebe. Quando em 2006 fui dar uma palestra numa livraria, com quatro outros escritores, e durante a palestra esses outros escritores e a platéia começaram a desenvolver suas próprias piadas internas, espontaneamente, eu não conseguia evitar de pensar no quanto o nível das piadas era inferior ao dos meus amigos, que jamais ririam de coisas tão imbecis.

Uma das vantagens de se acreditar em reencarnação, escrevi num post que ficou no rascunho, é que todo episódio feliz mas isolado da sua vida pode ser o primeiro de uma série infinita. Ou, se preferirem, tenho certeza que vai haver uma continuação dos Wunderblogs num Wunderhimmel mostarda e preto, no centro do qual encontraremos o original platônico do O'Malley's esperando por nós. Mas agora que estou indo embora, não consigo deixar de me sentir um pouco como Dick Diver deixando a Riviera, para fazer uma comparação que dá um ar romântico descabido ao grupo e a mim ao mesmo tempo, e que afinal é como me sinto, o Wunderblogs sendo a Riviera em que seduzi Rosemarys metafóricas:

"I must go," he said. As he stood up he swayed a little; he did not feel well any more - his blood raced slow. He raised his right hand and with a papal cross he blessed the beach from the high terrace. Faces turned upward from several umbrellas.

Em termos do que realmente fizemos - para falar com a seriedade que sempre evitamos - em termos de, uh, contribuições, não sei como julgar, e confesso que tendo a supervalorizar tudo. Ainda posso apontar alguns posts nos arquivos de amigos meus que eram melhores do que qualquer coisa nos jornais, revistas ou livros brasileiros da época. Mas você tem todo o direito de desconsiderar o que eu estou falando, claro, seu nitwit.

Duramos cinco anos. Fomos bem menos do que podíamos ter sido. Se tivéssemos continuado no ritmo que tínhamos em 2004, teríamos nos tornado em algo - bem, quem sabe. Quelque chose de magnifique. "Uma chispa de isqueiro no escuro, um fósforo cinematográfico que, na tela, dava clarão, uma faísca, no máximo, mas ainda assim perceptível num país escuro, imenso, jeca."

Se bem que do jeito que foi, digo com toda a seriedade que, tudo considerado, fomos bem melhores do que a turma do Pasquim, essa turma de baby-boomers cariocas que apóia governos e nunca vai calar a boca. Amém.

Posted by Alexandre S. at 10:04 PM | Comments (11)

May 01, 2008

Mas tentei

Tentei tirar as palavras "The Australian Aborigenes" e substituir por "Cariocas" no Paint, mas ficou ruim.

Posted by Alexandre S. at 12:28 AM | Comments (5)