February 29, 2008

Mas tem mais

Vou dizer um dos sinais mais claros de retardamento: olhar para uma estante cheia de livros na sua casa e perguntar, "Orra, você leu tudo isso?", às vezes omitindo o "Orra" para manter um ar mais classudo.

Outro sinal de retardamento: depois de descobrir por uma tia bem-intencionada e tagarela que você gosta de ler, ou pelo sifu numa academia de kung fu, perguntar se você leu "Shogun" de James Clavell, ou algo assim, e ficar surpreso quando você disser que não. Quem não lê muito, e calhou de ler um livro do qual gostou bastante, dá a esse livro uma importância tão central quanto a que eu, não sabendo nada de vinho, dou ao Periquita.

Fora isso há os sinais de sempre: explicar a origem da palavra religião, dizer "Ah, tá bom" quando o Superhomem pega uma bala com os dentes, replicar todo contente que o maior sinal de retardamento mesmo é fazer uma lista de sinais de retardamento, e enfiar sementes de feijão pela narina.

Embora o uso de algumas palavras, como neoliberal, seja por si só sinal de imbecilidade independentemente do contexto - ih, acabei de usar - algumas palavras podem ser usadas por não-imbecis, mas de modo geral são uma boa indicação de imbecilidade. Não me lembro de ter lido, por exemplo, nenhum texto com menos de vinte anos em que o uso da palavra misoginia não fosse uma indicação segura de retardamento, se o texto foi escrito por uma mulher, ou de retardamento charmosamente recoberto de gayzice, se escrito por homem.

Reclamar contra a ironia, e não contra a incapacidade de às vezes falar a sério; dizer que a natureza humana mudou depois de 11 de setembro, ou da 1a Guerra Mundial; dizer que não pode fazer comédia depois de Guantanamo, Auschwitz, ou de ter ralado os joelhos; e explicar as várias ondas de popularidade dos filmes de terror usando o contexto histórico (as pessoas queriam escapar/tinham medo da: bomba nuclear, drogas, Sputnik, recessão dos anos oitenta, yuppies, terrorismo, Condoleezza Rice, Grey's Anatomy, Juno, quirkiness).

O uso de contexto histórico, sempre, me faz parar de ler o livro, ao grito de CONTEXTO HISTÓRICO!!!, como se avisasse as pessoas à minha volta do ataque de Pearl Harbor; e imagens aleatórias de tanques nas ruas, e de estudantes heróicos discutindo leis recém-implementadas com suspeita naturalidade - você viu o Decreto Lei Número 2045 que o Getúlio acabou de baixar? Ih rapaz saiu na Hora do Povo - me fazem parar de ver o filme.

Explicações históricas que me irritam:

1) O romance policial dedutivo (e a ficção-científica de Júlio Verne, H.G.Wells e de revistas tipo Astounding) fez sucesso nos anos 20 e 30 porque as pessoas ainda acreditavam inocentemente no progresso infinito da razão humana, antes que a 1a Guerra Mundial mostrasse - espera, não, a 1a já tinha ido, deixando todo mundo desiludido e perneta mas aparentemente ainda acreditando na ciência e em detetives - antes que a 2a Guerra Mundial mostrasse os horrores da psique humana, coisa da qual ninguém antes tinha nem idéia;
2) Depois que todos passaram a ficar sabendo que as pessoas são más (agosto de 1945), ninguém mais acreditava em detetives inteligentes, do tipo Hercule Poirot de Agatha Christie - se bem que os livros dela continuaram vendendo, eita - e agora todo mundo queria ver detetives resolvendo crimes principalmente através ou de violência ou de um trabalho burocrático, metódico e realista, porque violência e burocracia parecem divertidos depois dos horrores da guerra, ou algo assim;
3) Se antes da bomba atômica a ficção-científica era popular porque as pessoas tinham uma crença otimista na continuidade do progresso, intocada pelos horrores do abuso da ciência, depois da bomba atômica a ficção-científica era popular porque as pessoas passaram a ver que ficção-científica não era só um conto de fadas inconsequente, mas algo real e importante, ok?;
4) As pessoas nos anos 50 tinham tanto medo do Sputnik e da bomba e das propagandas de duck and cover que se sentiam aliviadas fantasiando sobre serem perseguidas por lobisomens;
5) As pessoas nos anos trinta gostavam de musicais porque queriam escapar da Depressão;
6) As pessoas na parte final dos anos trinta gostavam de screwball comedies porque queriam escapar das incertezas na Europa;
7) As pessoas nos anos quarenta gostavam de filmes noir cínicos e brutais porque queriam escapar dos horrores da guerra;
8) As pessoas nos anos cinquenta gostavam de melodramas porque queriam escapar dos musicais;

E, sim,

9) Na época vitoriana as pessoas davam muito porque eram reprimidas;
10) Depois da 1a Guerra as pessoas davam muito porque estavam desiludidas (citar the crack in the teacup opens a lane to the land of the dead).

Posted by Alexandre S. at February 29, 2008 03:55 PM
Comments

ui, que medo!

Posted by: andréa at February 29, 2008 04:35 PM


Se você for parar para pensar, a do Super-homem pertence a um nível de idiotice bem superior ao das outras idiotices.As idiotices mencionadas acima dessa são somente reflexo de uma ignorância que não se enxerga, mas a incapacidade de abstração pede um tipo muito especial de idiota muito...bem...idiota.O resto do post depois do lance do Superhomem é só alexandrice.Bom post, porém.

abraço

Posted by: Pedro at February 29, 2008 04:38 PM

ha, o da origem de religião é boa.

Posted by: bruno at February 29, 2008 04:58 PM

Olá Alexandre, e leitores,

acuso de imbecilidade as pessoas que falam "aí já não é nem preconceito, entende? é pré(pausa olhando significativamente em seus olhos pra você entender a originalidade do pensamento)-conceito". E também o cara que escreveu "Como ler o Pato Donald", e qualquer um que use o termo "subliminar" dentro de uma "perspectiva crítica". Ah, na verdade, qualquer acadêmico que tenha "uma perspectiva crítica". Ou dialética. Nossa! Chega! Tá ficando muito pesado.

Posted by: e at February 29, 2008 06:27 PM

e: sim, exatamente. Essa do pré-conceito me dói de verdade.

Posted by: Alexandre at February 29, 2008 06:31 PM

Mais retardado ainda é quem corrige: 2045 é um decreto do João Goulart, Alexandre. E 2046 um filme de Wong Kar-wai, 2047 um RFC sobre tipos MIME, 2048 são dois quilobytes.

E 2049 é o número da senha pra enrabar cri-cri.

Posted by: Noël Coward at February 29, 2008 06:52 PM

QUIRKINESS?? ONDE????///~~

Posted by: Marcelo De Polli at February 29, 2008 08:06 PM


Pegou pesado com os complementos, cara...não vou nem dormir à noite.

Posted by: Pedro at February 29, 2008 09:50 PM

Muito bom. Lembrando mais uma: pessoas que falam que, se Deus existisse, não ia permitir tantos horrores no mundo. Aí o outro retruca "Deus quer que você use o seu livre-arbírio", etc.

Posted by: Fritz G at March 1, 2008 01:46 AM

Ah, e mais uma explicação histórica: as pessoas, nos anos 60, se voltavam para o misticismo oriental porque estavam cansadas de estudar datilografia.

Posted by: Fritz G at March 1, 2008 01:51 AM

Última, juro: pessoas (como eu) que escrevem errado. É "arbítrio". Sorry.

Posted by: Fritz G at March 1, 2008 01:54 AM

O cinema-catástrofe nos anos 70 devia ser uma reação aos penteados.

Posted by: Arnaldo at March 1, 2008 09:17 AM

Faltou a catarse, Alexandre, a catarse. "Toda a violência nos filmes é catártica, uma maneira de, na ficção, se livrar dos males da realidade".

Posted by: Gustavo at March 1, 2008 03:50 PM

Certa vez uma tia minha (na verdade, uma amiga da minha avó, daquelas que nos acostumamos desde cedo a chamar de tia apenas porque são bem velhas) ficou espantada por não haver, entre os muitos discos lá de casa, nenhum do Moacyr Franco.


Gente que diz que vive a vida intensamente, aproveitando cada minuto, "eu vivo o hoje, sabe?", e gente que não lê porque "tem muita vida aí fora. No dia que eu não tiver mais forças pra viver, aí talvez vá ler um livro".

Posted by: Saulo Szinkaruk at March 1, 2008 04:19 PM

Olha, sempre que eu vejo esse tipo de comentário, eu lembro um pouco das tias do meu pai assistindo a novela e explicando tudo que acontecia, porque acontecia e o que ia acontecer depois. Elas falavam o tempo todo e nunca assistiam a maldita novela direito (era até meio engraçado, porque aí elas se perdiam e ficavam explicando uma para a outra o que achavam que tinha acontecido enquanto elas discutiam). Enfim, gastar tempo explicando historicamente um livro ou um filme é falar durante a novela. Com o defeito de não ser engraçado.

Bom, as vezes é um pouco.

Posted by: Alessandra at March 1, 2008 04:48 PM

As pessoas no seculo XXI gostam de blogs porque estão cansadas dos livros

Posted by: cccastro at March 1, 2008 09:20 PM

Ou: as pessoas preferem blogs porque é mais fácil escrever besteiras para o autor.

Posted by: rm. at March 2, 2008 01:47 AM

Explicar a origem da palavra religião e "Para ler o Pato Donald". É, me dá urticária...

Posted by: Lee at March 2, 2008 10:37 PM

Amigo tenho interesse em promover seu blog?
tenha uma campnaha publicitaria em andamento deseja participar?
http://japublicidade.com/blog/?p=93
Aquele Abraco

Posted by: japublicidade.com at March 3, 2008 03:59 PM

Cheers, Alexandre. Lee, obrigado. O certo é "Para ler o Pato Donald" mesmo.

Posted by: e at March 3, 2008 07:13 PM

Tem aquela de que quem ignora algo é um ignorante.

Ei Alexandre, veja o que descobri.

http://www.blogger.com/profile/08574534554667197897

Quite amusing, I must say. You should've stuck to English.

Posted by: Dude at March 4, 2008 05:39 AM

Uma das coisas mais idiotas que eu costumo ouvir é "Sabia que a gente só usa 10% do nosso cérebro?". Outra coisa extremamente imbecil é "Os portugueses roubaram o nosso ouro, né?". O cara fala isso como se fosse um ameríndio. Outra na mesma linha é "Se o Brasil tivesse sido colonizado pelos ingleses a gente seria muito mais rico". Esta última sempre aparece em rodinhas de pessoas idiotas que se juntam para conversar em festas e reuniões de família. Outra coisa imbecil e irritante é quando o sujeito começa a falar com você sobre personagens da TV ou participantes do Big Brother com a maior naturalidade, como se você soubesse quem são os tipos.
E uma das melhores (ou piores) é quando você diz que não segue nenhuma religião e a pessoa arregala os olhos e pergunta "Ah, mas você acredita em Deus, né? Eu também acho que a gente tem que ter a nossa fé em Deus mas não precisa ir em igreja pra rezar, né?", aí você diz que não, que você também não tem toda essa fé em Deus, que as coisas não são tão simples assim, aí a pessoa fica tão espantada que muda de assunto.

Posted by: Fábio Henrique at March 4, 2008 09:19 AM

Nossa, contexto histórico é mesmo tão terrível assim? E o que é que vc usa para dizer contexto histórico sem dizer contexto histórico? ooops :)

Posted by: Maria at March 4, 2008 08:00 PM

(sugestão: você poderia acabar com a caixa de comentários novamente)

Posted by: anônimo at March 6, 2008 02:20 AM

Vc so citou o Periquita por causa do Rubem Fonseca, vai? ;)

Posted by: Alexandre at March 6, 2008 10:50 AM

E substantivar verbo? pode? "o saber ocupa espaço"
Gosto não...

Posted by: Constantine at March 7, 2008 11:42 AM

Divulgação

Um Blog ,dois livros!

www.camaradachoco.blogspot.com

“Camarada Choco”

e

“Camarada Choco 2”
António Miguel Brochado de Miranda
Papiro Editora

Papelaria “Bulhosa” Oeiras Parque, Papelarias “Bulhosa”, FNAC ou www.livrosnet.com

Tema: Haverá uma fronteira entre os Aparafusados e os Desaparafusados?" Outra maneira de falar sobre o Ensino Especial.

Filmes de Apresentação no “Youtube” em “Camarada Choco”

Posted by: Camarada Choco at March 9, 2008 03:39 PM

as pessoas dão muito hoje em dia porque...

Posted by: TM at March 11, 2008 07:55 PM

Mas então, quando é que você volta? É chato vir aqui e não ter nada de novo para ler.

Posted by: Badá at March 12, 2008 09:12 AM
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