Eu estava lendo o prefácio de The Napoleon of Notting Hill quando vi os nomes de Chesterton e Norman Mailer separados apenas por duas linhas, e levei um choque.
Coloque os nomes "Chesterton" e "Norman Mailer" lado a lado, como nesta linha aqui. Alterne os olhos de um nome pro outro.
Se você não sentiu nada eu não tenho como explicar, mas a verdade é que eu não sei como é possível ver esses nomes lado a lado sem perceber imediatamente, sem intermédio da razão, de "opiniões" ou do que quer que seja, a diferença de espírito, inteligência, gosto.
Não, não se trata de opiniões, é mais imediato que isso. É o reconhecimento instantâneo por parte do seu espírito de que você está diante de um espírito da mesma família que o seu, e também diante de um espírito de uma família nauseantemente distante da sua.
Falando assim corro o risco de parecer muito democrático assumindo que tudo é uma questão de gosto, não de qualidade objetiva. Mas o meu gosto é uma qualidade objetiva. Quanto mais cedo você aceitar esse fato, melhor para todos nós.
Como existem pessoas que vêem esses nomes e não sentem nada disso (por exemplo o prefaciador, Martin Gardner), acho difícil explicar. Talvez fazendo assim:
1) Chesterton é uma pessoa que se interessa pelo fato de que dois homens de fraque andando na sua frente parecem dois dragões andando de costas.
2) Norman Mailer é uma pessoa que se interessa pela CIA, e que tem coisas relevantes para falar sobre a invasão da Baía dos Porcos.
Para mim, e para pessoas da mesma família espiritual da minha (digo isso com um pedantismo deliciosamente livre de qualquer ironia), isso basta. Para pessoas de outras famílias espirituais, não faz sentido nenhum; afinal não pode falar de política, é isso? Mas Chesterton não escreveu contra a Guerra dos Bôeres? Já pessoas de famílias espirituais completamente opostas à minha entenderão o que eu digo, mas terão a percepção inversa: simpatia pelo nome de Mailer e um nojinho ao ver o nome de Chesterton, embora eu não queira imaginar a mente capaz de sentir isso.
Outros nomes que me dão um choque quando postos lado a lado:
P.G.Wodehouse Clarice Lispector
Conan Doyle Houellebecq
Lovecraft Nadine Gordimer
Raymond Chandler Graciliano Ramos
Edith Nesbitt Bukowski,
etc. Como no caso de Chesterton/Norman Mailer, algumas pessoas percebem o que quero dizer, por intuição; outras por análise; outras de jeito nenhum. A vida toda tenho me associado a pessoas que percebiam essas coisas, e que tinham nojo de certos autores, dos autores certos, instintivamente; suponho que é o que se chama de "uma clique", e não é uma coisa ruim de modo algum.
A primeira pessoa que conheci que tinha isso em comum comigo era o meu irmão. Quando Gilberto Freyre morreu apontei a foto dele no jornal e disse que parecia Jung, ao que o meu irmão ficou com mais cor de tijolo do que de costume e respondeu que Jung nunca se rebaixaria a se interessar pela exploração da cana em Pernambuco ou seja lá o que for que interessava Gilberto Freyre. O que é verdade, e é justo. Acho que o meu irmão não cuspiu seu café com leite na foto do Gilberto Freyre recém falecido, mas teria sido justiça poética.
Minha vida é o contínuo choque de encontrar pessoas que não compreendem essas coisas, e o infrequente, mas intenso prazer de encontrar pessoas que compreendem - às vezes mais rápida e infalivelmente que eu.
E nunca consigo escrever uma crítica decente porque todas as minhas reações a livros e filmes são assim, instantâneas e não-intermediadas pelo meu cérebro desnecessariamente poderoso; e se perguntado o motivo de gostar disto ou de não gostar daquilo, só posso indicar o livro-ou-filme com as mãos abertas, palmas para cima, enquanto gaguejo e sinto o desgosto de estar diante de alguém que simplesmente não percebe.
Mas na verdade bastava ter feito isto:
O que, acredito, encerra o assunto.
Agora: tudo isso é justo e bom quando se trata de julgar uma obra de arte, mas o problema comigo (na verdade quero dizer "virtude", mas você é esperto, você percebeu) é que uso esse mesmo julgamento instantâneo em relação a filósofos também. Solenemente digo que há algo errado com o gosto de alguém que cita Foucault, Derrida, Barthes, Kristeva etc muito empolgado. Não é só a razão dele que está escangalhada, é o gosto.
E que há algo errado com o gosto de qualquer um que tenha se interessado por comunismo por mais do que três anos. E com a alma também.
Posted by Alexandre S. at January 14, 2008 06:02 AMFoi bom começar o dia lendo isso.
Posted by: Roger Prado at January 14, 2008 09:03 AMEsse sistema é infalível. Instantaneamente dizer o que nos agrada. Um pouco mais de reflexão, poderá intensificar a sensação, ou saber em qual em que ponto ou detalhe ela se agarrou? Vale a pena? Abraços.
Posted by: Djabal at January 14, 2008 09:11 AMia dizer mais ou menos o que disse o roger prado, especialmente porque tenho andado por esses dias com chesterton pousado no trapézio.
Posted by: Ed at January 14, 2008 10:22 AMEstive lendo no Digestivo o seu Samurais de Fecaloma de 2002 no qual, bth, você traduz jacket por jaqueta ("Here, the collar of the jacket separates itself from the collar of the shirt..."), assassinando com essa escolha o fato óbvio de que executivos andam de paletó. Li isso e vim pra cá. Você às vezes é muito chato, nesse caso as duas vezes. Sua idiolatria te faz descuidado e pedante.
A propósito deste post, já pensou que seu nome emparelha a idéia de um Alexandre com a idéia de um Silva? "Se você não sentiu nada eu não tenho como explicar, mas a verdade é que eu não sei como é possível ver esses nomes lado a lado sem perceber imediatamente, sem intermédio da razão, de "opiniões" ou do que quer que seja, a diferença de espírito, inteligência, gosto."
Aqui o proleta Silva escangalha o magno Alexandre.
Posted by: janedoe at January 14, 2008 11:52 AMEu até prefiro Freyre a Jung, este se dedicou a exotismos como "sincronicidade", o que é apenas uma versão com gravitas do frívolo "eu não acredito em coincidências".
Posted by: Paranóia at January 14, 2008 01:43 PMDeixa ver se eu aprendi: Rex Stout / Saramago (inseri a barra como medida profilática).
Posted by: mauro at January 14, 2008 02:37 PMAssusta-me imaginar o que janedoe quis dizer com "bth"...
Posted by: Joca at January 14, 2008 02:46 PMQue post maravilhoso, me esbaldei de rir e concordar.
"todas as minhas reações a livros e filmes são assim, instantâneas e não-intermediadas pelo meu cérebro desnecessariamente poderoso"
Cérebro "desnecessariamente poderoso" é muito bom.
Conan Doyle Houellebecq é realmente um contraste inefável.
Posted by: Paulo at January 14, 2008 02:52 PM"Não, não se trata de opiniões, é mais imediato que isso. É o reconhecimento instantâneo por parte do seu espírito de que você está diante de um espírito da mesma família que o seu, e também diante de um espírito de uma família nauseantemente distante da sua."
Peraí, Chesterton não é tão ruim assim. Só ás vezes.
"Norman Mailer é uma pessoa que se interessa pela CIA, e que tem coisas relevantes para falar sobre a invasão da Baía dos Porcos."
e Chesterton tem um monte coisas relevantes para falar de Deus. Cada doido com a sua mania.
Eu tenho uma inveja profunda, incontida, quase diabólica do autor deste blog quando leio comentários acusando-o de pedante. Argh! Como ele consegue?! Como?! Eu não tenho blog, mas se um dia eu abrisse um blog e ninguém fizesse um comentário me acusando de pedante eu morreria de depressão.
Posted by: Paul at January 14, 2008 02:56 PMEu antes achava bastante natural colocarem Paulo Francis ao lado do Olavo de Carvalho - quer dizer, eu nunca achei essa alinhamento totalmente certo. Mas para mim era natural que outros achassem, eu podia concordar na maioria das vezes.
Só que de cinco anos para cá isso está ficando cada vez mais errado. E eu acho uma pena.
Posted by: Jorge Nobre at January 14, 2008 05:13 PMAlexandre,
A verdade é que a sua teoria é válida também para nomes de livros. Penso agora em "A Handful of Dust" / "Vidas Secas".
Abraço,
Posted by: Gabriel Trigueiro at January 14, 2008 06:03 PMO Olavo de Carvalho escreve muito melhor do que o Francis... É verdade que o Olavo muitas vezes insite em temas chatos, queria que ele falasse mais de literaura, como o Francis. Mas, putz, como escreve melhor...
Posted by: Marcio at January 14, 2008 07:25 PMPor falar nele:
Mario Ferreira dos Santos / Olavo de Carvalho
Posted by: Leonardo at January 14, 2008 08:40 PMOlhe bem pra essa coleção de nomes.
APROVADOS:
cristãos ingleses e euaenses: Chesterton Wodehouse Lovecraft Doyle Chandler Nesbitt;
cristão suíço: Jung.
DESAPROVADOS:
judeus de várias nacionalidades: Mailer Lispector Gordimer Freyre Derrida;
franceses em geral: Houellebecq Foucault Barthes Kristeva;
brasileiros: Ramos;
cristão dúbio: Bukowski.
Talvez essas preferências tuas tenham razões meramente mais ligadas ao CARÁTER e ESTILO de cada cultura do q ao ESPÍRITO e INTELIGÊNCIA de indivíduos, como vc quer crer. Não lembro onde li algo como "Christians are about order & morals, Jews are about law & politics". A semelhança entre os "aprovados" é q eles funcionam onde há uma ordem pré-estabelecida, um colchão, onde eles se deitam confortavelmente e ficam imaginando coisas (apesar de Nesbitt). A semelhança entre os "desaprovados" é q eles enxergaram q o mundo é muito mais complexo do q parece; viram as baratas embaixo do colchão e, claro, querem ajudar a exterminá-las.
Quero crer q foi quite unintended essa dicotomia entre cristãos e judeus em tua lista, pois levaria o texto a um campo bem mais infame se foi intencional falar de olhar pra [sobre]NOMES e "perceber ... ESPÍRITOS(s) da mesma FAMÍLIA q o seu". (Noto q judeus não falam de "espírito" e "alma", mas de percepções e complexos.) Apesar de tua inclinação pro mundo anglófono cristão ser conhecida, pra mim é novidade essa tua desinclinação, ainda q inconsciente, da inteligência judia. Não faz muito tempo, vc se pronunciou como sionista; mas aquilo devia ser só lip-service. Vê-se por teus "gostos" q vc tem pouco a ver com o judaísmo.
Posted by: Dr Plausível at January 14, 2008 11:15 PMDr Plausível,
Interessante análise. Mas o fato é que os judeus, ao tentarem exterminar as baratas, acabaram se tornando semelhantes a elas. É a velha Metamorfose.
A maior parte das coisas que o Alexandre diz é "lip service", não é? Estou certo de que ele não quis menosprezar a inteligência judia, que é certamente superior em áreas menos sensíveis ao juízo estético.
Posted by: Richard at January 15, 2008 01:10 AMDr. Plausível, olhe bem para essa coleção de nomes.
JUDEUS
Freyre Derrida
BRASILEIROS E FRANCESES EM GERAL
Ramos Houellebecq Foucault Barthes Kristeva
Quero crer que foi quite unintended essa dicotomia entre judeus e não judeus de mesma nacionalidade em tua lista, pois levaria o texto a um campo bem mais infame se foi intencional falar de olhar pra [sobre]NOMES e "perceber ... ESPÍRITOS(s) da mesma FAMÍLIA q o seu"
Posted by: Dr. Strangelove at January 15, 2008 03:45 AMEu intencionalmente não quis analisar muito essas reações, e os motivos de eu preferir um nome ao outro, porque o propósito desse post não é polêmico ou argumentativo - só dizer que há de fato famílias de espíritos e tal.
Ter opiniões em comum ajuda, mas eu não sinto nada por Bernanos, por exemplo, e tenho só um interessezinho por Gustavo Corção, ao passo que Borges, que era ateu, me interessa muito.
Eu suponho que se for analisar minhas reações, tem algo a ver com o que eu considero a banalidade das mentes dos nomes colocados em segundo lugar. Sei lá, Mailer e Freyre me parecem banais. Qualquer pessoa perto de Lovecraft me parece ter uma mente banal. Muito interesse por política, ou por interesses sociais de qualquer tipo, é banal. Bom, mas é mesmo, não é? É aquilo que Lovecraft descreveu como (falando de autores realistas) "se interessar mais pelos sofrimentos de um lavrador dispéptico do que pelas belezas de Kadath" (estou citando tudo errado por preguiça de ir checar).
Não sei, Mailer se interessava por "política sexual". Quão banal é isso - especialmente nos anos sessenta? Ele se interessava no "criminoso como último herói do Sistema Americano" ou alguma bullshit igualmente igual. Passar os olhos dos nomes de Chesterton para Mailer realmente dói um pouco, da mesma forma que passar os olhos do nome de Borges para qualquer outro escritor da literatura argentina (mesmo autores dos quais ele gostava, ou com quem era civil. Pelo menos funciona assim comigo.)
Dr.Plausível, não tinha reparado que havia tantos judeus na minha lista de segundos nomes e achei engraçado. Até levantei os olhos para a minha estante procurando autores judeus que eu goste, e não encontrei. Uma explicação possível é que se tratam de judeus seculares, que para mim são só ateus ou materialistas ou o que seja. Bom, eu acho o materialismo um tanto banal. Posso gostar de escritores materialistas e ateus, como Borges, mas não se o ateísmo deles for uma parte importante demais da personalidade deles. E quantos judeus ortodoxos existem que tenham escrito romances?
Mas isso tudo é analisar demais, methinks. Para mim, ser cristão ajuda, porque acho o cristianismo menos banal que o ateísmo. A rigor acho que o ateísmo, a política e o interesse por causas sociais atraem mentes de segunda, que escrevem livros às vezes muito bem escritos, mas que não me interessam (Graciliano Ramos, por exemplo, ou Saramago). E aí realmente insisto na importância dessas famílias espirituais quando se trata de literatura - as pessoas sempre falam da habilidade do escritor, do estilo etc., e é claro que isso é importante, mas se ele não for da sua família espiritual o máximo que você vai conseguir sentir é uma admiração morna. Eu admiro o estilo de Graciliano Ramos, eu suponho, mas não quero ler nada dele; e para resumir tudo e repetir aquela palavra de novo, ele era banal, e tinha uma mente de segunda ordem.
Estou sendo redundante e tal, mas estou com insônia e me deu vontade de ser redundante. ;>)
Posted by: Alexandre at January 15, 2008 04:40 AMAh, mas hein, Dr.Plausível, você aumentou a sua lista de cristãos com nomes que não deviam estar ali (Lovecraft? Conan Doyle? E realmente não tenho idéia das opiniões religiosas de Raymond Chandler). Mas ok, não prejudica o seu argumento.
Eu me pergunto se eu realmente sou a única pessoa que acha que muito interesse em política ou causas sociais, ou mesmo sexo, por parte de um escritor, é uma característica de uma mente de segunda.
Um argumento que eu quero defender um dia é que os escritores que eram notoriamente de direita (sem definir "direita", isso é muito chato) tinham não só idéias políticas diferentes dos escritores que eram notoriamente de esquerda (dã) como davam menos importância a essas idéias políticas; essas idéias políticas eram parte menos importante das personalidades deles, e consequentemente dos livros deles e por isso mesmo seus livros eram melhores. Sim, vou fazer isso um dia.
Isso quanto a política. No que diz respeito a religião, e a comparação entre escritores que eram religiosos e escritores que eram ateus, escritores que eram religiosos podem se interessar ainda mais pelas próprias idéias do que os escritores ateus, mas isso não prejudica os livros deles porque, well, let's face it, Deus e os anjos e a existência depois da morte e o céu e o diabo e o inferno são assuntos muito mais interessantes do que o simples materialismo, que é sequinho, e infinitamente mais interessante do que "a realidade social", que é o que muitas vezes substitui o interesse religioso em escritores ateus. E eu pensaria assim mesmo se não acreditasse em Deus. Não estou falando do que é verdade ou não, mas do que é imaginativamente interessante e do que é imaginativamente desprezível.
Posted by: Alexandre at January 15, 2008 04:59 AMAlexandre,
Você realmente pensa que Borges era ateu? Tá, ele era discípulo de Schopenhauer, mas eu nunca penso nele como ateu. E aliás, se você não encontrou autores judeus que você goste: eu li em algum lugar que Borges tinha sangue sefardim.
De qualquer maneira, você não é o único que pensa que muito interesse em política ou causas sociais, ou mesmo sexo, por parte de um escritor, é uma característica de uma mente de segunda. Eu até gosto de sexo em literatura, mas política moderna e causas sociais, pelo amor de Deus...
Posted by: Richard at January 15, 2008 05:30 AMRichard, eu gostei de alguns livros pornográficos que li, mas volta a olhar as fotos de Chesterton (que quase não menciona sexo, e se menciona nunca é "erótico", palavra que ponho entre aspas porque é um pouco ridícula) e a foto de Mailer, que vivia escrevendo sobre sodomia, e me diz que o interesse literário em sexo não é banal. Eu acho. Acho Philip Roth banal. Meus escritores favoritos eram assexuados - pelo menos literariamente assexuados, o que é diferente, claro, de ser assexuado na vida real.
Não sei sobre Borges - já o vi se descrevendo como agnóstico e já o vi se descrevendo como ateu (ou acho que sim). Quanto a ele ter origem sefardita - bom, eu também. Eo gostaria que alguém me classificasse como "self-hating Jew", ia ser bacaninha.
Posted by: Alexandre at January 15, 2008 05:43 AMAh, espera, existem autores judeus que eu gosto - só não estão entre os meus preferidos.
Eu ia fazer uma distinção (alguém já deve ter feito) entre escritores cujas imaginações são atéias e escritores cujas imaginações são religiosas. Acho uma distinção importante. É diferente de falar de escritores ateus e escritores religiosos. Lovecraft, por exemplo, era ateu, mas imaginativamente era de alguma forma, uh, espiritual, digamos, no sentido de que descrevia outros mundos, os mundos dos sonhos, Kadath e tal (e Deuses). Acho que no fundo não me importo se um autor é ateu ou não, mas é preciso que ele não seja ateu até na imaginação. Isso é muito seco e sem graça. Imaginativamente acaba sendo uma limitação horrível. Realismo é bom e tal, mas ninguém sobrevive com uma dieta exclusiva de realismo. Ouvi dizer que causa osteoporose.
Posted by: Alexandre at January 15, 2008 05:52 AMEu nunca li nada de Mailer, então nada posso dizer. Mas se ele escrevia sobre sodomia... bem, sabe-se o que se diz sobre anal fixations e indivíduos anal-retentive. Também acho Philip Roth banal. Prefiro D.H. Lawrence e Henry Miller, tratando-se de sexo em literatura. Não são meus escritores favoritos, mas são legíveis e divertidos. Gosto quando um escritor tem "balls". Uma citação de Lawrence:
"Curse the blasted, jelly-boned swines, the slimy, the belly-wriggling invertebrates, the miserable sodding rutters, the flaming sods, the snivelling, dribbling, dithering, palsied, pulseless lot that make up England today. They've got the white of egg in their veins and their spunk is so watery it's a marvel they can breed."
-- Letter to Edward Garnett, expressing anger that his manuscript for "Sons and Lovers" was rejected by Heinemann (July 1912)
Que Borges não praticava nem afirmava uma religião, sim, mas ainda assim, eu não penso nele como ateu. É falta de respeito colocar ele na mesma categoria que os cretinos do ateus.net.
Já tinha visto você dizendo que tem origem sefardita. Dá pra notar uns traços na sua fisionomia. Eu não sei muito da minha genealogia, mas acho que também devo ter um pouco de sangue converso.
Posted by: Richard at January 15, 2008 06:01 AMQuanto às fotos, você tem razão, é um grande contraste. O Mailer é muito feio, aliás. Mas você não acha que você aumentou ainda mais o choque, passando dos meros nomes às imagens?
Posted by: Richard at January 15, 2008 06:09 AMEu gosto de D.H.Lawrence também, mais dos poemas do que dos romances, mas não de Henry Miller. Por falar nele, leu o ensaio de Gore Vidal sobre ele? Se você clicar no meu nome pode ler uns trechos.
Os livros pornográficos que gostei eram Fanny Hill e as memórias de um autor vitoriano conhecido pelo pseudônimo de "Walter", "My Secret Life". Não são obras-primas, são só divertidos. Nabokov escreve sobre sexo, mas tem o cuidado de só sugerir as coisas e não usar palavrão, o que é importante para os meus ouvidos pudicos.
Ainda vou fazer uma lista de escritores assexuados (literariamente assexuados, não na vida real) só por diversão. Provisoriamente:
Borges
C.S.Lewis
Chesterton
R.L.Stevenson,
o que é diferente de dzer que eles jamais falaram de sexo. Mas não escreviam muito sobre isso, e se escreviam não eram "eróticos", não escreviam com o propósito de excitar. E às vezes davam a impressão de não pensar muito nisso.
Posted by: Alexandre at January 15, 2008 06:21 AMRichard, aumentei, mas eu queria deixar o argumento irrespondível. Uma olhada para Chesterton e você percebe the glory of the dude.
Mas admito que foi bacaninha isso do Norman Mailer esfaquear a mulher. Nisso ele tem uma vantagem sobre Chesterton. Se Robert Browning tivesse dado uma machadada em Elizabeth Barrett-Browning, ou Ted Hughes tivesse atacado Sylvia Plath com uma serra elétrica, eu gostaria mais deles. Além disso Norman Mailer vivia dando cabeçadas nos outros, o que é pretty cool in my book. Mas as virtudes param por aí.
Posted by: Alexandre at January 15, 2008 06:33 AMNão li o ensaio, mas pelo que li agora, concordo com Vidal: Miller era um fanfarrão. Só que eu não li "Sexus". Prefiro o livro dele sobre Rimbaud e os Tropics. Não sou muito pudico: é legal aquele estilo de street-smart Brooklyn boy que Miller usa... E a "sensualidade" dele é uma boa influência de Whitman.
"Fanny Hill" está na minha pilha. Nabokov é um pouco mais ousado em "Ada, or Ardor", mas é muito bom, claro.
Na verdade, pelo que sei da biografia de Borges, ele tinha horror a sexo, e se atrapalhava muito com as namoradas dele.
Posted by: Richard at January 15, 2008 06:43 AMSim, coitado, parece que ele sofria com isso. Me pergunto se as mulheres pelas quais ele se apaixonou, se estão vivas, tem vergonha pelo modo com que o trataram - se quando dão entrevistas parece que estão se desculpando, etc.
Outra desgraça na vida de Borges foi nascer argentino. Não digo isso como piada barata de brasileiro que detesta argentino, eu gosto da Argentina, é simpatiquinha e tal - mas se Borges tivesse nascido inglês ele nunca passaria pela degradação de, anos depois da sua morte, ser alvo de jornalistas sem um quarto da inteligência dele, eternamente escrevendo textos sobre as opiniões políticas dele durante a ditadura e blábláblá. Se ele tivesse nascido inglês, por temperamento (ao contrário de Graham Greene, por exemplo) jamais teria tido opinião nenhuma sobre ditadura nenhuma. Nunca sequer pensaria no assunto. O que é um dos benefícios de ser inglês, do qual se aproveita quem quer.
Mas vou dormir. Foi um prazer falar com você, Richard. Abraços.
Posted by: Alexandre at January 15, 2008 07:02 AMSim, eu não tinha visto essa foto de Chesterton. É bonita. Parece uma pintura em preto e branco. Aquela outra foto, mais famosa, com ele meio cabeludo, é engraçada.
O fato é que Chesterton, inglês de linhagem antiga, vivia numa época e num lugar que contribuiu muito para que ele fosse o que foi. Já Mailer, judeu americano, viveu em outro universo. Mas, enfim, é bom que existam antípodas para os nossos autores favoritos, como maus exemplos.
Quanto às namoradas de Borges, sei que Estela Canto publicou um livro recentemente, "Borges a contraluz", no qual ela contou umas fofocas feias sobre ele. Não li, e nem quero ler. Acho que ela e María Kodama são as únicas mulheres ainda vivas que tiveram relacionamentos com ele.
É verdade, mas ele nem precisava ter nascido inglês, bastava que os pais dele tivessem ficado na Europa, de onde eles poderiam ter ido para a Inglaterra na época da segunda guerra. Eu gosto de imaginar Borges escrevendo em Inglês, como Nabokov. Aquela coleção de contos e ensaios, "Labyrinths", dá o que pensar. Não só ele teria sido poupado de toda essa degradação de que você fala, mas também teria escrito ainda mais literatura de primeira ordem, sem os ocasionais argentinismos, dos quais ele mesmo se envergonhava. Li não sei onde que quando ele tinha uns quarenta anos, costumava caçar exemplares do "Cuaderno San Martín" para queimar, de tanto que se odiava por ter escrito argentinismos. Ele até escreveu alguns poemas em Inglês. Há uma entrevista feita por Alejandra Pizarnik, na qual ela encheu o saco dele com perguntas sobre o porque de escrever poemas em Inglês. Mas por que não, ora? O homem podia escrever até em Old Norse.
http://patriciaventi.blogspot.com/2007/10/entrevista-jorge-luis-borges.html
Você já ouviu Borges falando Inglês? Tenho uma mp3 aqui, "Advice for Writers"; acho que foi gravada em uma das palestras dele nos Estados Unidos.
Sim, good chat, mate. Abraços.
Posted by: Richard at January 15, 2008 07:35 AM"O Olavo de Carvalho escreve muito melhor do que o Francis"
Coitada dessa geração que foi alfabetizada na era Lula...
Posted by: Joca at January 15, 2008 07:47 AMEu curto o comunismo, aqueles chapéus peludinhos, matrioshkas com Brejnev e Krushov, enfim, uma grande festa vermelha.
Posted by: redatozim at January 15, 2008 10:36 AMAh, que decepção...Lord ASS explicou, explicou excessivamente o maravilhoso post. Tava muito bom, mas agora piorou um pouquinho.
Posted by: Paulo at January 15, 2008 12:11 PMAcho q fui mal interpretado. Não falei de cristianismo e judaísmo como crenças ou mesmo como religiões mas como CULTURAS, como ideários subjacentes, por assim dizer. Borges, Doyle e Lovecraft são cristãos pq nasceram e cresceram como cristãos.
Ter nascido e crescido numa família cristã ou judia é o q posteriormente impele em determinadas direções a imaginação e a inteligência, os gostos e os estilos. O cristianismo (¿talvez pra compensar uma mitologia tão insatisfatória pro indivíduo?) tende aos despirocamentos da imaginação. O cristão-epítome vê "dois homens de fraque andando na sua frente" e pensa em "dois dragões andando de costas". O judaísmo (¿talvez pra compensar uma nomogonia tão constritiva pro indivíduo?) tende aos despirocamentos da inteligibilidade. O judeu-epítome vê dois homens de fraque e pensa em explicar interminavelmente o q estão fazendo ali, e o q ELE está fazendo ali.
Só pra visualizar a diferença: Frank Frazetta é cristão; Robert Crumb é judeu.
A formação cristã tende a resultar em MITOLOGIAS com oportunidades de destaque e heroísmo. A judaica (e, por outros motivos, a francesa) tende a resultar em SISTEMAS com oportunidades de rigor e exaustividade.
Sei q não é muito agradável se ver como pré-figurado por uma cultura (em contraste a se ver como self-realized) e, ainda por cima, com uma interpretação tão genérica e imprecisa de "cultura". Mas não aceitar isso é como um carioca da gema negar q o motivo de ele preferir samba é pq nasceu no RJ ("Ué? ¿Não tem carioca q detesta samba e japonês q adora?"). E o q vc está dizendo aí no artigo é o equivalente a "quem não gosta de samba bom sujeito não é". Nada de errado achar isso, claro. Mas é legal enxergar a perspectiva.
Aliás, tou analisando demais. Eu tbm prefiro dez vezes mais a inglesidade q a francesidade. Só escrevi o primeiro comentário pq fiquei intrigado com a lista de parelhamentos.
Posted by: Dr Plausível at January 15, 2008 01:23 PMQue palavra feia, "despirocamentos"...
Posted by: Richard at January 15, 2008 02:23 PMPuts, pior q é mesmo. Concordo. E nem é a palava exata. Eu queria dizer "despirocação", mas ia estragar os iambos.
Posted by: Dr Plausível at January 15, 2008 06:30 PMAlexandre, você não gosta de Espinosa? Li algo seu que deu a entender que gostava, algum dia desses.
Bem, Espinosa era filho de judeus e, tendo sido excomungado por todas as igrejas conhecidas, chamado de ateu, panteísta e o demo, não pode ser considerado cristão-católico.
Mas era um filósofo de muita imaginação, eu devo reconhecer. Aquele Deus dele é tão interessante quanto o de Sto. Agostinho...
Posted by: Vox at January 15, 2008 10:36 PMJá que a regra por aqui é uma mistura pedante de mau inglês com péssimo português, you may say decockalization, my dear.
Posted by: Bagarai at January 16, 2008 01:27 AMAlexandre, meu amor, continua sempre pedante e delicioso que assim é gosto de ti. Beijo.
Posted by: MiuchaB at January 16, 2008 03:27 PMAlexandre: o que você acha do JG Ballard?
Abraço.
Francisco, nunca li, só tenho curiosidade. Você leu? Gostou?
Posted by: Alexandre at January 16, 2008 05:10 PMDr Plausivel, mas sei que o alexandre(pelo oque li aqui) gosta de Wood Allen e Nabukov, por exemplo, que são Judeus, e de Machado de Assis, que é Brasileiro. Acho que naõ faz muito sentido sua critica.
Posted by: Ribeiro Eiras at January 16, 2008 06:40 PMops, brasileiro
Posted by: Ribeiro Eiras at January 16, 2008 06:42 PMNabokov, judeu? Nein, nein. A mulher dele, só, Ribeiro. Mas obrigado pela defesa.
Eu gosto de uns autores judeus, sim, Kafka (de repente me ocorre que nunca vi ninguém falar mal de Kafka), Saul Bellow, Isaac Bashevis Singer, Isaac Asimov, mas não estão entre os meus realmente favoritos. Amos Oz tenho a impressão que ia odiar.
Posted by: Alexandre at January 16, 2008 06:50 PMLi apenas Terminal Beach, Cocaine Nights e Kingdom Come (tudo no ano passado) e gostei imenso. Infelizmente meio mundo (aliás, bem mais que meio mundo) desconhece um dos poucos radicais da imaginação que ainda persistem.
(Nota à parte: foi muito bom perceber que no Brasil gostam da Edith Nesbitt. Em Portugal é pouco menos que desconhecida.)
Abraço
Alexandre, você não está se esquecendo de um autor judeu que você citou como maravilha das maravilhas? Me lembro da sua descrição duma cena de um casal caindo de pára-quedas num campo de golfe (quer dizer, algo mais ou menos assim)
Posted by: F. Arranhaponte at January 16, 2008 07:14 PMArranhaponte, tem certeza que fui eu? Falando assim parece bom, mas não lembro de nada.
Posted by: Alexandre at January 16, 2008 07:46 PMOlha aqui
http://soaressilva.wunderblogs.com/archives/022565.html
Eu devia cobrar por isso :)
Posted by: F. Arranhaponte at January 16, 2008 07:57 PMAh, sim! Sim! Mark Helprin. Mas é que tem algo tão wasp nele que esqueci que era judeu. ;>)
Posted by: Alexandre at January 16, 2008 08:07 PMQuer dizer, nem todo judeu é escritor judeu
Posted by: F. Arranhaponte at January 16, 2008 08:22 PMnem todo judeu que escreve
Posted by: F. Arranhaponte at January 16, 2008 08:24 PMÉ mais ou menos como aquela foto da Sabrina Sato ao lado da Preta Gil na praia...
Posted by: Victor Grinbaum at January 16, 2008 08:50 PM"nunca vi ninguém falar mal de Kafka"
Taí, eu gostaria de ver um crítico literário malhando o Kafka.
Li Metamorfose e metade do Processo. Achei ambos irritantes, chatos, a leitura não me deu nenhum prazer. Os personagens não me interessam nada, eles nem existem psicologicamente.
Agora, a "Carta ao Pai" é remarkable.
Ah, já leu o Bernard Malamud? Eu li os contos. Ele parece mais ou menos um cruzamento entre Bashevis e Tchekhov. Gostei.
Posted by: Marcio at January 17, 2008 02:19 AMAh, mas o Corção é o mais próximo que temos de um Chesterton brasileiro, não? "A descoberta do Outro" eu acho um livro do mesmo nível que Orthodoxy. Os dois têm semelhanças estilísticas...
Posted by: Marcio at January 17, 2008 02:24 AMTava dando uma olhada nas minhas estantes. Achei um monte de autores judeus que me agradam...
Elias Canetti, cujo estranho "Auto-de-Fé" eu li aos 17 anos e adorei... Stefan Zweig, li uns contos só, mas pelo menos 1 ou 2 deles entrariam na minha antologia de melhores contos do mundo - "Medo" é muito bom. E os contos do Primo Levi, os de ficção científica. Ele tem umas idéias tão espetaculares... Por exemplo aquele conto em que cientistas descobrem uma linguagem inscrita nas células epiteliais das tênias... Elas escreviam poemas aos hospedeiros, lamentando o esquecimento em que viviam. Ou "Os mnemagogos", em que um médico descobre uma maneira de fabricar odores com perfeição - e usa dessa habilidade só para si, construindo uma coleção de cheiros que tinham significado emocional para ele. E 'Borboleta Angélica' é um conto de terror bom como poucos, IMO.
Posted by: Marcio at January 17, 2008 03:01 AMHummm. Gosto de algumas coisas do Mailer até o ponto, inevitável, em que ele se sabota com seu excessivo interesse por si mesmo e/ou por canais uretrais, reto-furiculares, whatever. Gosto bem mais do Roth. Sou fã do Chesterton, muito. E do Bernanos. Aprecio o Corção, que também considero, talvez, o mais próximo do Chesterton que o Bananão já teve (embora em certos momentos ele assuma a persona do "pregador", meio pesada, e o wit desapareça, o que é dificílimo de acontecer com o Chesterton).
Tudo isso pra dizer que, embora concorde que é meio chocante pôr Chesterton e Mailer tão próximos um do outro numa sentença, não ligo tanto pra isso das "famílias espirituais" como você, Alexandre. Claro que elas existem, e eu sempre me senti mais em casa em meio aos "familiares" do Machado e do Borges. Mas de vez em quando pode ser legal, até enriquecedor, ir visitar outras casas, dar umas voltas fora do ambiente familiar (cruzives porque não sair dele, no limite, é um negócio meio incestuoso, dizem que pode resultar em problemas genéticos e tal. :)
Não que eu me interesse por visitar todas as casas, mind you. De algumas não passo nem perto. E, de todo modo, não é mesmo bom ficar muito longe da família.
Abraços!
Ruy,
God, you're good! Eitcha goiaba da boa.
Posted by: janedoe at January 18, 2008 11:39 AMhm. eu sou um filisteu. e aí, vocês são melhores do que então?
Posted by: bruno at January 19, 2008 09:17 AMDemorei pra compreender; por um tempo achei que havia algo de errado comigo. Quando li Pessoa os professores apontaram algumas sutilezas, e aí pensei "ahm, legal.". Mas passou longe de provocar algum tipo de êxtase em mim; causou o fascínio que causam palíndromos, e é mesmo disso que a poesia não passa: um palíndromo sofisticado. Nunca consegui gostar de poesia. O problema é que sempre a enxerguei (e talvez ainda enxergue) como simples capricho; se se quer dizer algo, que o diga sem essas empolações! Não é possível? Se o discurso limpo não consegue, como essas frescuras na forma hão de conseguir? Talvez seja impaciência minha. Talvez seja afetação de vocês.
Com a prosa sempre foi menos pior; conseguia levar livros ao final com algum prazer, mas geralmente mais por causa da estorinha. Sendo pela estorinha, acabei pensando, é melhor que eu veja filmes. O primeiro livro que deixei de ler à metade foi Cem anos de solidão; se eu quiser falta de nexo, eu durmo e sonho. O outro foi Sobre heróis e tumbas do Sábato. A conspiração dos cegos estava ficando interessante, mas começaram uns sonhos esquisitos e acabou que li só dois terços do livro. Não tive saco pra ler a terceira parte.
A poesia, a prosa, a pintura, a música... nada me trouxe o êxtase que prometem. Editoriais bem escritos chegam mais próximos disso.
Eu sou parte dessa ralé utilitarista que surgiu no século XIX, que é estudada mas inculta. Não é por má-vontade minha, não. Eu até tentei. Eu não seria honesto se dissesse que gosto. Isso, no entanto, não me faz pior percebedor do mundo do que qualquer pessoa, ocorre somente que meus interesses são uns e os seus são outros. Como bem colocou ASS, talvez seja uma questão de família espiritual.