Gostos variam, mas para mim nada no Natal supera o horror do momento em que uma parenta com reumatismo, sentada ao seu lado na mesa, se vira lentamente na sua direção, e você percebe com o canto do olho que ela está olhando fixamente o seu rosto em perfil. Ela já está com a boca aberta um pouco, um início de sorriso, e você pensa, "Jesus, vai falar comigo", procurando desesperadamente um assunto para falar com outra pessoa na mesa e sabendo muito bem que se ela se deu ao trabalho de torcer sua coluna reumática para o seu lado é porque não pretende destorcê-la tão cedo.
Esse tipo de parenta costuma ter três tipos de tópicos, 1) o absurdamente irrelevante, que faz com que você fique se perguntando porque ela mencionou o assunto justamente para você, como por exemplo "o dono do shopping lá perto de casa é o mesmo daquele outro lá de Guarulhos, como chama aquele grandão", ao que você só pode responder "ah, sim?" sorrindo vagamente e sem tirar os olhos das cascas esmagadas de nozes perto do seu prato, 2) a menção casual e ingenuamente aprovadora a algo que você odeia com particular intensidade, como por exemplo "Você que gosta de ler, o que você acha desse livro que todo mundo está falando agora, "O Segredo" acho que chama?", seguida de uma exposição da filosofia desse livro apud Ana Maria Braga ("você tem que pensar positivo"), ou este exemplo de menos de uma hora atrás,
-Como chama quem é entendido de vinho?
-Hmm, enólogo?
-Enólogo, isso. Pois então, o Ronnie Von é um, e ele estava dando dicas outro dia...
, o que faz com que você chegue à conclusão um tanto injusta de que só um tipo específico de idiota se interessa por vinhos, como é certamente o caso de charutos - e, para terminar os três tipos de conversa de parenta, 3) a série de perguntas em voz alta que ela faz pra você e que vão cobrir uma a uma todas as falhas da sua vida, coisa que ela faz não por maldade mas por característica sem-bracice, como "Responde pra mim, bem, que a minha memória já não é mais o que era, você fez ou não fez pós-graduação?", ao que tive que responder, também menos de uma hora atrás e resmungando, "Não, entrei mas saí porque não gostei", etc.
Ah, parentes. Para a pessoa que perdeu um parente e passou a não gostar de Natal, posso sugerir que os seus Natais da infância tinham na verdade pouco a ver com a presença dos parentes à sua volta? Que apesar do mundo inteiro insistir que é uma festa familiar, ela é apenas incidentalmente familiar? Que não era o tio Alberico que conferia natalidade ao seu Natal, mas que na verdade ele era uma mera testemunha de um outro mistério qualquer? Que ele só calhou de estar ali, com suas sandálias e suas meias de algodão esticadas até os joelhos?
Quando você se lembra dos natais da infância se lembra dos parentes fazendo isso e aquilo, a tia Adelina andando de skate toda bêbada, etc., mas isso é uma distorção da memória: qual é a criança que fica emocionada porque os parentes estão à sua volta? "Ai, que bom ter a família toda à minha volta", diria uma criança de seis anos? Só se for uma criança especialmente repelente. É em retrospecto que damos tanta importância à lembrança dos parentes, e é ok gostar dos parentes, eu deixo, e sentir falta deles, até da sua tia da Mooca abraçando a árvore, mas isso não tem nada a ver com o Natal em si. O clima de Natal pode ser inteiramente criado por certos livros, filmes, músicas e uma árvore de Natal bacaninha.
Digo isso com veemência, é um assunto importante pra mim. Se estivesse em Londres iria até o Speakers' Corner falar disso, com insistência opressiva e grande violência de sentimentos. Natal pra mim é um livro chamado Murder for Christmas, do qual leio um conto a cada dezembro, mais A Aventura do Pudim de Natal de Agatha Christie, e contos de fantasma de M.R.James. E, sei lá, Charles Dickens e chocotone. Família é uma boa coisa, quando tomada em doses pequenas, mas queria que o Natal não estivesse associado a tamanha sentimentalidade e se restringisse a existir na sua mente como uma mistura de renas, pinheiros, presentes, assassinatos, fantasmas, Hercule Poirot e neve.
Meu propósito é simplesmente salvar o Natal de toda a sentimentalidade grotesca à qual passou a ficar associado. Deixe pra ser sentimental no Ano Novo, quando somos todos forçados a pensar no tempo que passou e blá blá blá.
E feliz Natal.
Posted by Alexandre S. at December 24, 2007 03:46 PMFeliz Natal, Alexandre. ;-)
Posted by: Gabriel Trigueiro at December 24, 2007 05:19 PM"-Como chama quem é entendido de vinho?
-Hmm, enólogo?
-Enólogo, isso. Pois então, o Ronnie Von é um, e ele estava dando dicas outro dia..."
Muito bom!
Posted by: Ieda at December 24, 2007 05:25 PMYey, post natalino!
E feliz natal também =]
Puxa, a melhor expressão de Natal que já vi. Sem apego, sem aversão, nos libertando dessa vinculação familiar. Da paz.
Feliz Natal
Posted by: Padma Wangmo at December 24, 2007 06:07 PMHomersimpsonianamente falando, ficaria satisfeito se natal se resumisse a rabanada.
Posted by: Roger Prado at December 24, 2007 06:51 PMAlexandre, um bom Natal e um super 2008 para ti!
Posted by: radiomafia at December 24, 2007 08:23 PMAlexandre, um bom Natal e um super 2008 para ti!
Posted by: radiomafia at December 24, 2007 08:23 PMO Segredo, quase concluo, é o pior livro jamais escrito.
Feliz Natal. :)
Posted by: Rafael Trindade at December 25, 2007 01:59 AMCaro Alexandre... C'est vrai.
E sabe que de certo modo é uma bênção natalina saber que outras pessoas sofrem dos mesmos males? Só é pior comigo porque eu tenho que admitir que o meu primeiro namorado (hum rum) foi o sobrinho do cara... (o Ronnie Von). [Mas não espalhe. Por favor. Natal já é suficientemente deprimente por si só.]
Bezzos,
Ouvir da tia sobre o Ronnie Von não é nada. Duro mesmo é o amigo secreto. Ridiculamente temos que dar as características da parenta reumática quando a tiramos de amiga secreta. Feliz Natal.
Posted by: marie tourvel at December 25, 2007 03:57 PMÉ isso mesmo, a festa de Natal devia ser um assalto, passem mas é para cá as prendas e chau. :) Feliz Natal para si e para os seus leitores.
Posted by: Mariana at December 25, 2007 05:06 PMÓtimo texto. Me associo a você na tentativa de salvar o natal dessa aura de sentimentalidade.
Posted by: Daniel at December 25, 2007 06:27 PMFeliz Natal, Alexandre - só me diga, que tipo de idiota se interessa por vinhos? Fiquei curioso.
(Pondo-me no lugar, no entanto percebo que não me interesso por vinhos, assim, mas por Vinho - assim como não gosto de "cervejas", mas sim de Cerveja. Se isso me absolve da idiotia)
Chocotones, para 2008, lhe desejo.
Posted by: Igor at December 26, 2007 10:55 AMThe Golden Rule, Alexandre, "Amar o próximo etc.", também passa pelo Tio Alberico e suas peúgas. Também passa pelo irmão do marido de alguém, acidentalmente na festa, que sempre se despede apertando a mão um pouco mais do que recomenda a ortopedia e dizendo para o seu sorriso congelado: "se não nos vemos mais, bom ano novo, viu? E deu-sabençoe". Eis a grande provação do espírito natalino.
Posted by: mauro at December 26, 2007 11:46 AMVocê foi bonzinho com o Natal, Alexandre. Sinceramente, não esperava isso de você.
Posted by: Elisa at December 26, 2007 05:59 PMConcordo, mas que o Natal tem, pelo menos, alguma coisa que ver com a familia, isso tem. Ou7 vai dizer que no cristianismo a familia não tem importancia, e se o Natal é a comemoração do nascimento de Cristo, logo alguma coisa ele tem que ver com a familia, certo?
Abraços e feliz natal.
Posted by: Ribeiro Eiras at December 27, 2007 04:55 PMAbsolve não. Mas foi boa a tentativa.
Posted by: Ronnie Von Stauffenberg at December 27, 2007 05:54 PMFeliz Natal e leituras maravilhosas em 2008!
Abraços
Nossa, porque estou desejando feliz Natal depois que o Natal passou? Jesus... essa festa transtorna mesmo as mentes...
Posted by: Maria at December 27, 2007 07:28 PMAlexandre, compartilho a curiosidade que alguém ali embaixo já expressou: qual o tipo específico de idiota que se interessa por vinhos?
Posted by: Ronald at December 28, 2007 02:21 AMwaaa, natal!
e feliz 2008. já parou pra pensar o que você está fazendo da sua vida?
(é o tipo de pergunta pra se fazer pros amigos depois de uma aula de sintaxe. ok, ok.)
Posted by: Olivia at December 30, 2007 05:05 PM"... só um tipo específico de idiota se interessa por vinhos, como é certamente o caso de charutos..."
Donde se conclui que o tipo específico de idiota que se interessa por vinhos é "charuto" hee hee.
Concordo, de certa forma. O Renato Machado, por exemplo, é totalmente "charuto", definição de Vovó pra gente moooito chata.
P.S: ainda bem que os meus parentes são a melhor parte do Natal, superdivertidos e bonitos. How nice!
Chocotone? Subversão do bom e tradicional panetone. Passo.
Posted by: stella at January 2, 2008 11:44 AMO Natal, assim como outras datas ao longo do ano, possui "razões que a própria razão desconhece", ou pelo menos alguma espécie de mecanismo obscuro de infiltração mental. É quase uma histeria em massa. todos se reunindo em torno de uma árvore que nem mesmo é nativa de nosso país sob os auspícios de um velho demente que sai por aí invadindo residências chaminé adentro usando uma roupa vermelha que só de imaginar nesse calor do Brasil dá até vertigem... no fim das contas é uma comemoração importada, objetivada pelo resto de fé que ainda permeia este país, principalmente a fé no consumismo.
Posted by: ismail souza at January 9, 2008 11:24 AMAlexandre.... Adorei o texto rapaz. Tá de parabéns! O ritmo prende a cada ponto o leitor. Depois, entra no meu blog. Abraços
www.brancodifatima.blogspot.com
Posted by: Branco Di Fátima at January 24, 2008 02:27 PM