December 30, 2007

Remembrance

And you wait, keep waiting for that one thing
which would infinitely enrich your life:
the powerful, uniquely uncommon,
the awakening of dormant stones,
depths that would reveal you to yourself.

In the dusk you notice the book shelves
with their volumes in gold and in brown;
and you think of far lands you journeyed,
of pictures and of shimmering gowns
worn by women you conquered and lost.

And it comes to you all of a sudden:
That was it! And you arise, for you are
aware of a year in your distant past
with its fears and events and prayers.

Rilke, traduzido por A.E.Flemming, via Marcio Hack.

Posted by Alexandre S. at 07:03 PM | Comments (28)

December 24, 2007

No qual explico a verdadeira essência do Natal

Gostos variam, mas para mim nada no Natal supera o horror do momento em que uma parenta com reumatismo, sentada ao seu lado na mesa, se vira lentamente na sua direção, e você percebe com o canto do olho que ela está olhando fixamente o seu rosto em perfil. Ela já está com a boca aberta um pouco, um início de sorriso, e você pensa, "Jesus, vai falar comigo", procurando desesperadamente um assunto para falar com outra pessoa na mesa e sabendo muito bem que se ela se deu ao trabalho de torcer sua coluna reumática para o seu lado é porque não pretende destorcê-la tão cedo.

Esse tipo de parenta costuma ter três tipos de tópicos, 1) o absurdamente irrelevante, que faz com que você fique se perguntando porque ela mencionou o assunto justamente para você, como por exemplo "o dono do shopping lá perto de casa é o mesmo daquele outro lá de Guarulhos, como chama aquele grandão", ao que você só pode responder "ah, sim?" sorrindo vagamente e sem tirar os olhos das cascas esmagadas de nozes perto do seu prato, 2) a menção casual e ingenuamente aprovadora a algo que você odeia com particular intensidade, como por exemplo "Você que gosta de ler, o que você acha desse livro que todo mundo está falando agora, "O Segredo" acho que chama?", seguida de uma exposição da filosofia desse livro apud Ana Maria Braga ("você tem que pensar positivo"), ou este exemplo de menos de uma hora atrás,

-Como chama quem é entendido de vinho?
-Hmm, enólogo?
-Enólogo, isso. Pois então, o Ronnie Von é um, e ele estava dando dicas outro dia...

, o que faz com que você chegue à conclusão um tanto injusta de que só um tipo específico de idiota se interessa por vinhos, como é certamente o caso de charutos - e, para terminar os três tipos de conversa de parenta, 3) a série de perguntas em voz alta que ela faz pra você e que vão cobrir uma a uma todas as falhas da sua vida, coisa que ela faz não por maldade mas por característica sem-bracice, como "Responde pra mim, bem, que a minha memória já não é mais o que era, você fez ou não fez pós-graduação?", ao que tive que responder, também menos de uma hora atrás e resmungando, "Não, entrei mas saí porque não gostei", etc.

Ah, parentes. Para a pessoa que perdeu um parente e passou a não gostar de Natal, posso sugerir que os seus Natais da infância tinham na verdade pouco a ver com a presença dos parentes à sua volta? Que apesar do mundo inteiro insistir que é uma festa familiar, ela é apenas incidentalmente familiar? Que não era o tio Alberico que conferia natalidade ao seu Natal, mas que na verdade ele era uma mera testemunha de um outro mistério qualquer? Que ele só calhou de estar ali, com suas sandálias e suas meias de algodão esticadas até os joelhos?

Quando você se lembra dos natais da infância se lembra dos parentes fazendo isso e aquilo, a tia Adelina andando de skate toda bêbada, etc., mas isso é uma distorção da memória: qual é a criança que fica emocionada porque os parentes estão à sua volta? "Ai, que bom ter a família toda à minha volta", diria uma criança de seis anos? Só se for uma criança especialmente repelente. É em retrospecto que damos tanta importância à lembrança dos parentes, e é ok gostar dos parentes, eu deixo, e sentir falta deles, até da sua tia da Mooca abraçando a árvore, mas isso não tem nada a ver com o Natal em si. O clima de Natal pode ser inteiramente criado por certos livros, filmes, músicas e uma árvore de Natal bacaninha.

Digo isso com veemência, é um assunto importante pra mim. Se estivesse em Londres iria até o Speakers' Corner falar disso, com insistência opressiva e grande violência de sentimentos. Natal pra mim é um livro chamado Murder for Christmas, do qual leio um conto a cada dezembro, mais A Aventura do Pudim de Natal de Agatha Christie, e contos de fantasma de M.R.James. E, sei lá, Charles Dickens e chocotone. Família é uma boa coisa, quando tomada em doses pequenas, mas queria que o Natal não estivesse associado a tamanha sentimentalidade e se restringisse a existir na sua mente como uma mistura de renas, pinheiros, presentes, assassinatos, fantasmas, Hercule Poirot e neve.

Meu propósito é simplesmente salvar o Natal de toda a sentimentalidade grotesca à qual passou a ficar associado. Deixe pra ser sentimental no Ano Novo, quando somos todos forçados a pensar no tempo que passou e blá blá blá.

E feliz Natal.

Posted by Alexandre S. at 03:46 PM | Comments (24)

December 11, 2007

The Enigma of Amigara Fault

amigara.JPG

Não resisto a dar o link porque The Enigma of Amigara Fault é a melhor história de horror que li nos últimos tempos. Obrigado, Yu Huang.

Posted by Alexandre S. at 07:50 PM | Comments (40)

December 05, 2007

Seu Menécio

Estou lendo a Ilíada na tradução de Odorico Mendes, e me deparei com isto:


Scan10039.JPG


Minha pergunta é: quem é esse seu Menécio? Ele não é mencionado antes e, aparentemente, pelo que folheei, nem depois.

Por que é tão importante que o seu Menécio ande pra lá e pra cá com Aquiles? É o motorista? O caseiro da chácara?

E quando o seu Menécio chegou em casa, ele reclamou com a mulher que ficou nervoso por causa da briga entre o Dr.Aquiles e o Dr.Agamenon?

"Ó as minhas mão tudo tremendo", ele disse? E a mulher dele disse "Ai a sua gastrite, Menécio! Deixa que esses dois se entendem!"?

Tento visualizar o seu Menécio. Ele é mais ou menos assim?


seu%20men%C3%A9cio.JPG
Seu Menécio, no domingo antes da briga


Ou assim?


tonico%20da%20funilaria.jpg
Seu Menécio com o Dr.Aquiles em Atibaia


Não sei, na verdade. Mas leio o livro, um tanto freneticamente, na esperança de descobrir mais coisas sobre essa figura enigmática.

Posted by Alexandre S. at 09:04 PM | Comments (48)