Quando ouço as minhas tias falando de uma época vagamente chamada de "a Época dos Reis", tento imaginar como seriam os livros de história se eles fossem escritos exclusivamente por tias.
Não é difícil imaginar que a grande historiadora Tia Noêmia, por exemplo, no seu livro "Na Época do Arco da Velha", dividiria as fases da história da humanidade assim:
1) "Os Tempos Antigos" (incluindo a mocidade dela);
2) "Hoje em Dia".
Tia Noêmia ficaria conhecida pelo seu livro "Os Antigos", livro de perfis biográficos de uma categoria que aparentemente incluiria o rei Davi, Louis Pasteur e Lucho Gatica. Seu segundo livro mais famoso se chamaria "Nos Dias de Hoje" e teria como subtítulo "Época de Pouca Vergonha, o Fim do Mundo Mesmo". Seria dominado pela convicção de que a Revolução Sexual é uma coisa que está acontecendo agora, ou que talvez (ela admitiria quando contestada) tenha começado "uns anos atrás", ao passo que nos anos 60 as mocinhas de bem nem entravam "nos carro. Vixe, bem, não. Ficavam mal-faladas."
A segunda maior Tia Historiadora seria a Tia Núria, que seria um pouco mais detalhista e dividiria as fases históricas em:
1) "A Época dos Reis" (também conhecida como "A Época dos Reis Lá, Com as Peruca e as Carruage");
2) "A Época do Imperador Lá, Dom Pedro I, Dom Pedro II, vixe, essas coisa";
3) "Os Ano 50, uma Fase de Muita Inocência";
4) "Hoje em Dia, com o Computador e Tudo".
No famoso Primeiro Encontro Internacional de Tias Historiadoras de Guararema, a Tia Núria seria duramente contestada pela Tia Rafaela, que levantaria e diria:
-E os imperador romano?
Ouvindo isso todas as tias achariam que a Tia Núria estava acabada, mas a Tia Núria não se deixaria abalar e responderia:
-Isso é mais atrás, bem.
O que é, todas concordariam, irrespondível. Nesse ponto a Tia Rafaela ficaria olhando o folheto com os períodos históricos da Tia Núria, ficaria confusa e diria:
-Ah, tá. Estorna tudo -, e sentaria, encerrando assim o mais vivo debate intelectual daquele congresso de tias (e talvez dos Dias de Hoje).
Uma das características da historiografia das tias, de todas as tias, é que elas não fazem grande distinção entre as últimas décadas, e dificilmente reconhecerão que um filme é dos anos 70 e não dos 80, ou dos 60 e não dos 40, se baseando exclusivamente nas roupas, cabelos, carros ou música. Isso talvez tire algum rigor das obras completas da Tia Noêmia, da Tia Núria e da Tia Rafaela, mas dá um certo charme inalcançável a reles Toynbees e Nialls.
Posted by Alexandre S. at October 22, 2007 09:58 PME pensar que o Mauro Rasi ficou rico escrevendo sobre as tias dele.
Em dezembro estarei por aí.
Alexandre, perdoe o uso comercial do espaço, mas preciso *mesmo* espalhar a notícia:
http://vende-se-tudo.blogspot.com
Thanks!
Posted by: Anna at October 23, 2007 01:01 AME num outro plano da mente, Rafael, e do gosto, Wodehouse também. Vamos nos ver, vamos nos ver.
Anna, não tem problema. Está vendendo livros?
Posted by: Alexandre at October 23, 2007 01:10 AMEu tenho problemas com tias. Só tenho uma, e parece um personagem (mau) do Lemony Snicket. Queria ter tias mooquenses como essas aí; faz falta.
Posted by: mauro at October 23, 2007 09:46 AMAh, na época em que as tias do meu pai passavam mais tempo na minha casa era cada debate acadêmico na hora da novela! Tia Dairce e Tia Mari tinham longas discussões sobre se a personagem tal (normalmente alguma senhorita do tipo sirigaita) prestava ou não prestava. Aí quando elas terminavam, tinham se perdido na história e começavam um debate sobre o que tinha acontecido na trama enquanto a questão anterior era decidida.
Posted by: Alessandra at October 23, 2007 10:02 AMai que cul
tos
:)
vaidosos!
Mas eu estou caminhando a passos ligeiros para me tornar uma tia dessas.
Porque o fato de ainda conseguir identificar a época do filme pelo figurino não significa que eu também não resuma a história mundial em "Antigamente" e "Nos dias de hoje", já que não há mesmo muita diferença no que aconteceu nos séculos que antecederam o de número vinte.
O que me chateia é que nesse último, tudo perdeu o glamour e as pessoas passaram a usar chinelas havaianas decoradas com pedrinhas e miçangas.
Exceto talvez pelo Joe Ramone e pela Marlene Dietrich, as pessoas me parecem todas muito iguais nos tempos de "hoje em dia".
Badá tem razão ao falar das chinelas havaianas. Realmente nossa época é extremamente deselegante. De qualquer forma, percebi com muita análise à porta do Shopping que os piores deselegantes são justamente aqueles que tentam ser/estar elegantes.
Embora essa deselegância generalizada (tanto externa quanto interna) aconteça bem mais no Brasil...
A prova de ferro disso é o chapéu. Experimente sair de chapéu à rua e todos ficarão olhando para você como se você fosse um ET, enquanto que o mais correto seria pensar:
a) que você nasceu na época errada;
b) que você nasceu no país errado; ou
c) ambas as alternativas.
Eu me ofereceria com muito gosto a fazer a revisão do segundo livro de Tia Noêmia, de graça mesmo, desde que pudesse fazê-lo com usando um chapéu com toda a naturalidade do mundo.
E eu a cumprimentaria sempre erguendo o chapéu e dizendo "Bom dia, Senhôra", enquanto ela me alcançaria a mão rugosa para ser beijada.
Pois que D'us salve nossas Tias Noêmias que lembram dos "tempos antigos" com ar sonhador e nossos Tios Noêmios que usam chapéu e se revoltam com chinelas havaianas.
Mas agora é tarde: Humphrey Bogart é morto!
Posted by: OleSchmitt at October 23, 2007 01:02 PMCreio que suas tias sejam minhas tbm!Até pareceu uma das discursões que ocorrem em minha casa (hahahahaha).
Posted by: iza at October 23, 2007 01:46 PMA repressão sexual de hoje é muito maior que a dos anos 60, 70 ou inicio de 80. Não havia assédio, a prostituição era mais livre e privado, as mocinhas ficavam prenhas na adolescencia, os amantes e concubinas eram aceitos e ir a "zona" era um programa bom, sem risco de ser morto ou assaltado.
Posted by: luis cornelio kmentt junior at October 23, 2007 02:38 PMÉ, Luis Cornelio, você lembrou bem. E ainda, quando Jerry Lewis aparecia naqueles filmes, usando bermudões, tênis e camisas estampadas, com o cabelo levemente despenteado, era pra fazer rir. Digo, a roupa dele era considerada ridícula. Não é mais. Digo, ainda é uma roupa ridícula, mas não é mais considerada assim. Ridículo.
Posted by: Fritz G at October 23, 2007 04:02 PMTuas tias paulistas não dizem "fio"? E "não" usado como interjeição:
"Ô fio, vem comê... Anda, bem... Não, como ele cresceu, né? Cê viu? Ele era assim, ó, piquinininho, magrinho! As perna dele era fininha! E cresceu, ficou um moço bonito... Olha! E com saúde, né bem? Graças a Deus."
(Segundo uma tese bem aceita naquele círculo, não há quem não tenha, nalgum momento, sido "piquinininho! magrinho! e olha agora, um homão bonito, cê viu? Graças a Deus!")
Posted by: Glhrm at October 23, 2007 05:46 PMPois então, OleShmidt. Eu sempre digo que se fosse homem, seria escocês. Daqueles mais apegados à tradição. E usaria kilt com a neve me cobrindo os tornozelos, por amor à tradição. Fumaria cachimbo longo e curvo, e recusaria os canapés que me oferecessem olhando-os longamente com curiosidade, dizendo, depois, displicentemente, "Bom Deus!" (em português tem um efeito ótimo).
Mas sou mulher, será possível causar o mesmo efeitonão há nada mais sem efeito? Que fazer? Ser como a tia, talvez.
Também acho que o chapéu, as luvas de pelica, as polainas, as bengalas e os relógios de pendurar são um charme irresistível, podiam até mesmo ser incluídos "hoje em dia", na moda da C&A, coisa assim.
As tias iam achar lindo, meu rapaz!
"Ai que menino lindo, meu Deus! Como você cresceu, Jorginho, tá um galã, viu? Traz a tua namorada pra tia conhecer, quero ver se ela merece esse pão, gente! Mas que é isso, vai sair sem dar um beijo na tia! Ummmm, que cherôso, hein! É da Natura?"
É, tudo tem suas facetas.
O post confirma meu voto lá no BOBs. (Por falar nisso, vai ter campanha? Nem contra?)
Posted by: Bruno at October 23, 2007 07:28 PMcara, mais um texto chato.
Posted by: MM at October 23, 2007 08:43 PMAs minhas tias que estudaram até o terceiro ano, em uma escola rural de uma região remota do norte de Portugal, na década de 40, conhecem mais história e geografia do que o pessoal que sai do ensino médio das escolas públicas nos dia de hoje.
Posted by: Fábio Henrique at October 24, 2007 08:35 AMMM, seria legal que estudassem o fenômeno que te faz voltar aqui, então...
E Alexandre:
http://www.youtube.com/watch?v=XCUk4j_CYPg
A edição é qualquer nota, mas...
Posted by: Arnaldo at October 24, 2007 12:38 PMObrigado, Arnaldo, estou vendo a parte 2 agora.
E Bruno, citando a imortal Peaches, "uh, what"?
Posted by: Alexandre at October 24, 2007 02:05 PMrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs é só o que tenho a dizer, muito bom!!!
Posted by: Felipe S. at October 26, 2007 05:13 PMi like mucho in look the text
Posted by: keylla wous at November 9, 2007 04:18 PMMuito bom o texto!
Não são as minhas tias ainda, mas estou vendo elas e minha mãe daqui a uns 15 anos, hehehehe