October 24, 2007

A Dance to the Music of Time

Estou relendo os doze livros de A Dance to the Music of Time, lendo agora o primeiro, e reencontrando todos aqueles personagens que tinha vagamente esquecido mas que soam como pessoas que conheci em outra época: Peter Templer, Quiggins, Mark Members, Sillery. Aquilo em que Anthony Powell é bom é em expressar curiosidade por outras pessoas; uma curiosidade que eu gostaria de ter, na vida real, e que acabo apanhando dele durante uns dias mas que depois some. Grande parte da literatura mundial saiu de simplesmente ver uma pessoa interessante na rua e ficar se perguntando quem era e onde ia. Grande parte do problema da literatura brasileira é exatamente esse, que ninguém na rua parece muito interessante e sabemos de antemão que são idiotas. Quantas vezes não fiquei parado no farol vendo as pessoas passando na frente do meu carro e pensando idiota, idiota, idiota. A curiosidade não é estimulada, e se tentamos de fato imaginar como aquela pessoa deve ser, sentimos mais condescendência que interesse: donde os personagens idiotas com nomes chinfrins, como Mariazinha Canela-de-Vidro ou Bentinho ou Gaetaninho (foda-se você, Gaetaninho). Me pergunto se a internet vai mudar isso, se várias pessoas passaram como eu por um momento de descobrir em blogs que nem todo mundo é estúpido no Brasil, coisa que descobri aos trinta e três anos, e que portanto até mesmo personagens brasileiros podem ser interessantes.

Mas enfim, A Dance to the Music of Time: um grande conjunto de livros, mas relendo a cena da tea-party de Sillery, o professor exclusivamente interessado em intrigas e poder, coisa que é um pouquinho chata, não é, senti uma súbita vontade que Powell fosse menos realista e transformasse Sillery num egiptólogo perseguido por uma múmia. Meus impulsos infantis de sempre. Ele chamaria Jenkins para um lado e perguntaria se ele tem "nervos de aço", e em seguida lhe passaria discretamente uma pistola. "Durma na passagem, Jenkins, e fique atento para qualquer barulho vindo do corredor; eu dormirei na poltrona de frente para a janela. Por onde quer que ela tente entrar, esta noite terá uma grande surpresa!" "Mas por quem esperamos, Professor?" "Ah, você verá, Jenkins!", diria Sillery "estremecendo visivelmente, apesar do calor do verão". Seria legal. Na falta dum interesse genuíno por pessoas, acho que só consigo me interessar por múmias.

Posted by Alexandre S. at October 24, 2007 04:24 PM
Comments

Minha mãe pediu pra que eu pare de chamar as pessoas de idiota, mas quem consegue?

Posted by: Alexandre at October 24, 2007 05:35 PM

"foda-se você, Gaetaninho", *harsh* >)

Posted by: Elton at October 24, 2007 05:36 PM

Eu consigo, passei a chamá-las de cretinas, como os portugueses fazem.

Posted by: Badá at October 24, 2007 06:08 PM

Não sei, mas suspeito que você tenha um interesse genuíno pelas suas tias, por exemplo. E gosto das histórias que elas inspiram.

Posted by: Cristina at October 24, 2007 06:22 PM

Pô, Alexandrê, justo o Gaetaninho?

Posted by: mauro at October 24, 2007 07:27 PM

Acabei de comprar esse livro. Tava por sete reais no sebo, editora Globo. Chegando em casa, fui ver a reprise de House, e quando voltei pro cpu vi o seu post.

Comprei também "Amor, pobreza e guerra", do Hitchens, que, soube há pouco, que também gosta do Powell.

E The Prime of Miss Jean Brodie, 3 reais, pocket velho da Penguin. Paulo Francis, que sai amanhã, gostava da Spark. Ok, para acabar com a série de coincidências legais, parece que ele não incluía "Prime" entre os melhores dela.

Posted by: Marcio at October 24, 2007 09:15 PM

Caro Alexandre,

Partilho muito essa visão em relação aos outros. E foi na blogosfera que comecei a mudar um pouco a minha forma de olhar os outros. Mas ainda bem que só tenho 26.
Normalmente nem posso chamar os outros de idiotas senão sou logo apelidado de pretensioso.

Fiquei cliente do seu blog.

Cumprimentos, de Portugal!

Posted by: Jorge C. at October 24, 2007 11:11 PM

"Grande parte do problema da literatura brasileira é exatamente esse, que ninguém na rua parece muito interessante e sabemos de antemão que são idiotas."


Crítica literária é isso. O resto é Antonio Candido.

Posted by: Leonardo at October 25, 2007 08:12 AM

Alexandre Soares escrevendo palavrão e escutando indie rock? Sinto um abalo na Força! ;-)

PS: Recebeu o meu e-mail com o texto do Hitchens, rapazola?

Posted by: Gabriel Trigueiro at October 25, 2007 08:33 AM

Eu também só fui descobrir isso na internet. Pra ser mais preciso, aqui mesmo. Talvez não lembre, mas há algum tempo comentei aqui algo sobre ser o único que comenta sem blog. Ok, soou como se eu tivesse uns 80 anos e desse bengaladas nas pessoas de que não gosto ao andar pela calçada, mas esse era meu bisavô, e não eu, que tinha, hm, acho que 15. Yey, meu segundo comentário...
Mas então, devo muito ao seu blog. Ando estudando num cursinho daqueles pré-vestibular e estou diariamente cercado de idiotas; isso inclui os professores, claro.
Ah, mas a internet já foi ruim uma vez. Lembro-me de uma garota realmente linda e tal, e nem parecia brasileira, que eu via passar às vezes. Mas acabei encontrando sem querer o perfil do orkut dela e a mágica se desfez...idiota.

Posted by: Guilherme M. at October 25, 2007 09:16 AM

Isso me lembra que preciso ler um dos seus livros infantis.

Posted by: Rafael at October 25, 2007 02:38 PM

Você já leu "Como tornar-se um gênio?", do Bernard Shaw? Pois é. Os gênios não existem, Alexandre, assim como os idiotas.

Posted by: Cristina at October 25, 2007 06:29 PM

A literatura brasileira não tem problema algum, muito pelo contrário...seria melhor se você parasse de querer entender a socidedade inglesa lendo Anthony Powell e fosse procurar o João Cabral, Guimarães Rosa, Machado de Assis...se você ler esses irá chamar de idiota o fulano que você vê no espelho...

Posted by: andré at November 5, 2007 11:48 AM

Querido Alê, outrora noivo:
Excertei este seu texto, sem apelo à decência nem agravo à vergonha.
Espero que não se importe e, principalmente, que não deixe de casar comigo por isso.
Sempre sua,
irmã caçula.

Posted by: Joana at December 13, 2007 12:57 PM
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