August 17, 2007

Bom Dia Cueca Frita

Sonhei que estava na Fnac do céu vendo a prateleira dos livros que escreverei, e entre eles estava um chamado "Leila Diniz: Eu Gosto é de Pinto", com uma foto de Leila Diniz na capa esfregando pintinhos contra o rosto, e eu gritei bem alto "Por que diabos escrevi isto", com grande pathos, com incredulidade doída, mas me puxaram pelo braço pra sair dali. Há na Nova Zelândia um tipo de flor que é frequentemente confundido com um blogueiro. Passeando no campo o namorado colhe a flor e a leva ao rosto da namorada que grita Gott in Himmel um blogueiro dando um pulo pra trás. E de fato, lá está a flor barbudinha, de má postura, com rizomas que parecem pés peludos metidos em havaianas. Tudo o que você tem que saber sobre mim é que nunca li Manuel Mojica Lainez, mas quero. Houve em 85 um acidente com um avião da Panair em que antes do avião cair em cima da casa da tia Adelita os passageiros começaram a brigar, formando dois exércitos improvisados: um gritava, "Isso é ausência do Estado!", o outro gritava "Pfui é excesso de Estado!", e se esganavam todos e tentavam se machucar com garfos de plástico, e a tia Adelita acordou com os gritos de raiva e os sons de sarcasmo antes que o avião caísse nela e no tio Bob lá de Sidney.

Havia um crítico de cinema em Tacoma Washington que cobriu seu primeiro filme em 1934 (Manhattan Melodrama, com Mickey Rooney) e seu último em 2006 (The Santa Clause 3: The Escape Clause). Tendo sido chutado na nuca por pessoas de pés nervosinhos sentadas na fileira de trás ao longo de quase um século inteiro, começando a ser chutado por pés usando polainas na década de trinta durante um filme com Hedy Lamarr, em 54 o crítico passou a ir no cinema usando um capacete de astronauta desses transparentes. Com esse capacete o crítico atravessou as grandes épocas de Elia Kazan, Sidney Lumet, John Landis, Judd Apatow, e frequentemente mostrava os amassadinhos na parte de trás do capacete para quem quisesse ver, aqueles amassadinhos heróicos de tantos chutes de karatê ou mesmo muay thay de pessoas com completa inconsciência dos movimentos das próprias pernas. Finalmente o crítico sucumbiu durante Talladega Nights, quando um aneurisma rompeu no cérebro logo depois do impacto de um chute com o peito do pé dado por um rapaz até bonzinho chamado Jordão, e enquanto o crítico morria e o sangue esguichava sujando a parte interna do capacete ele disse, "Por Deus, que finalmente me pegaram", sendo logo repreendido por vários shhhhh, shhhhh.

Quando encontro alguém que não gosta do que escrevo começo a rolar no chão soltando guinchos, para lá e para cá, e só paro depois de ter batido a cabeça na mesinha do computador. Fora isso, sou charmosão. Ok, uma última história: ontem indo para a academia estava eu saindo pelo portão do prédio quando um menino de lancheira, de cinco ou seis anos, saiu de um carro e passou por mim correndo, gritando todo contente para a mulher que ainda estava na direção com cara de pissed off, "Cala a boca, cueca frita!". Achei sublime, vou passar a chamar todo mundo de cueca frita. Digo, eu também gosto de um "Damn you Mr.Christian! Damn you sir!", mas tenho a impressão que o Capitão Bligh devia chamar Mr.Christian de cueca frita de vez em quando. Isso poria Mr.Christian no lugar dele. "Damn you Mr.Christian! Cueca frita! Damn your eyes, sir!". E "Bom Dia Cueca Frita" seria um título bem melhor que "Bom Dia Tristeza", mas os franceses não são capazes de perceber esse tipo de coisa.

Ter caixa de comentário é estar perpetuamente envolvido numa conversa sobre os limites aceitáveis da polidez com enfants sauvages criados por ratazanas. Devo comparar-te a um dia de verão? Teu rímel está todo borrado. Mas ok, parei.

Posted by Alexandre S. at 10:10 AM | Comments (31)

August 15, 2007

Parece que o blog Interney

Parece que o blog Interney fez uma lista dos 100 blogs mais populares do Brasil e meu blog está lá, abaixo de O Biscoito Fino e a Massa e um pouco acima de algo chamado Site das Morróidas. Ah, internet, és um verdadeiro círculo de Guermantes e os teus charmes sociais nunca param de me seduzir.

Posted by Alexandre S. at 10:26 AM | Comments (27)

August 13, 2007

Woody Allen aos 31


Grande jogador de bilhar.

Posted by Alexandre S. at 01:23 PM | Comments (6)

August 11, 2007

Filmes que vi umas dez vezes

Me deu vontade de recomendar uns filmes, ao acaso, à medida em que me lembro deles.

Quase sempre só recomendo filmes anteriores à decada de (sinal da cruz) sessenta, mas agora cito uns filmes mais moderninhos. O critério é que vi várias vezes cada um.



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Quantas vezes vi esse filme? Dez? Doze? Amo cada segundo. E quando morrer quero ir para Beaumont-sur-Mer.




Bom, todos os filmes nessa lista eu vi quinhentas vezes. O melhor para mim nem é a famosa cena da tortura, nem a outra famosa cena em que Laurence Olivier foi an asshole com Dustin Hoffman e disse "Dustin, já tentou atuar?", etc., mas a cena de Dustin Hoffman sendo acuado no banho logo depois que o irmão morre.



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Por falar em Dustin Hoffman. Pra mim, melhor filme de Peckinpah. O tipo de ultraviolência que eu gosto: justificada e esportiva. E é também a minha opinião das classes baixas.




Sempre que esse filme estiver passando na tevê, verei. E uso como palácio da memória a casa caribenha para a qual Pierce Brosnan leva Rene Russo. (Gosto tanto do original quanto da refilmagem. Mas Jesus Cristo Rene Russo está creepy nesse poster).



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Gosto até de pequenos detalhes como Ali MacGraw recuando com o carro cedo demais e McQueen tropeçando e deixando cair a arma.



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Sharon Tate nunca esteve tão bonita, e nenhum filme jamais teve um vampiro gay que corresse tão rápido. É engraçado e dá um medinho. Sou fanático por quatro filmes de Polanski: este, Repulsion, The Tenant, e O Bebê de Rosemery. O resto acho só nhé.




Me deu vontade de recomendar algo levemente mais controverso que fizesse as pessoas me acusarem de mau-gosto e estupidez. So there you go, eu gosto desse filminho de adolescente aí com Jason Biggs votando no Lula.



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E desse aí também. Não alugaria, mas sempre que passa eu vejo. So sue me.




Ça va sans dire.



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Estava recomendando esse filme para uma amiga outro dia desses. Mas não chego perto da versão nova com a muié de Everybody Loves Raymond.



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Outro filme que vi mais de dez vezes. Uma vez vi o original francês mas não gostei tanto.



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Ok, mas não só filmes moderninhos. Queria ser William Powell em qualquer filme da série The Thin Man. E ser casado com Myrna Loy não doeria. Nunca amei tanto um narizinho - ou talvez isso não seja verdade, mas nunca amei tanto um narizinho famoso. Os filmes, como filmes, à exceção do primeiro e talvez do segundo, não são bons, mas valem pelo casal, que é o melhor casal do mundo. Nunca consigo deixar de achar que eles são a imagem de um casamento ideal, que deve necessariamente incluir a resolução de crimes e um apartamento na Nova Iorque da década de 30.



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Único filme que me faz chorar. Ou quase chorar: quando percebo que vou começar a chorar mesmo, fico tão contente de ser tão sensível e legalzinho que as lágrimas não saem.

Ponho mais outros na lista à medida em que for me lembrando. Ou não, sei lá eu.

Posted by Alexandre S. at 10:33 PM | Comments (29)

August 08, 2007

A Defence of Detective Stories

Esta foto de Alvin Langdon Coburn imediatamente me lembrou de que the first essential value of the detective story lies in this, that it is the earliest and only form of popular literature in which is expressed some sense of the poetry of modern life. Men lived among mighty mountains and eternal forests for ages before they realized that they were poetical; it may reasonably be inferred that some of our descendants may see the chimney-pots as rich a purple as the mountain-peaks, and find the lamp-posts as old and natural as the trees. Of this realization of a great city itself as something wild and obvious the detective story is certainly the 'Iliad.' No one can have failed to notice that in these stories the hero or the investigator crosses London with something of the loneliness and liberty of a prince in a tale of elfland, that in the course of that incalculable journey the casual omnibus assumes the primal colours of a fairy ship.

Posted by Alexandre S. at 07:31 PM | Comments (9)

August 03, 2007

Lubitsch

O camelô ficava na avenida Andrassy perto do Boulevard Cervantes vendendo fotos pornográficas especializadas.

-Fotos de mulheres sardentas olhando você fixamente!
-Quão fixamente? - perguntou baixinho um professor de filosofia.
-Muito fixamente! Como nos primeiros estágios de uma sedução! - e, chegando perto do ouvido do professor de filosofia - Como se devassasse a sua alma! Como se visse todas as virtudes dentro de você que ninguém jamais soube reconhecer, professor: sua galanteria, sua coragem extraordinária. Mas também como se visse todos os seus defeitos, e simplesmente não se importasse.

Ouvindo isso o professor de filosofia sentiu um arrepio não tanto na coluna cervical mas na sua pequenina alma e comprou três fotos de mulheres sardentas o olhando fixamente.

-Espero não me arrepender - disse, e voltou de metrô olhando de trinta em trinta segundos as fotos escondidas dentro duma edição da Metafísica para Iluministas Tímidos.

Ah ruas de Budapeste, onde amei e fui amado por mulheres que existem dentro de romances que eu teria lido se tivesse seguido o meu plano de ler mais romances húngaros: desenrolem-se como um tapete felpudo ante os meus passos imaginários. Num canto do Boulevard Cervantes há um café chamado Philidor, onde o camelô parou para tomar dois ou três copitos de Muskotali. Da sua pasta de fotos pornográficas especializadas o camelô tirou uma foto e discretamente chamou a atenção do vizinho de mesa, um velhinho que tomava sopa.

-Doutor, olha isto.
-Não sou doutor, sou um campônio.
-Perdão pelo engano mas seus cabelos brancos são doutorados para mim.
-Ah, que é isso - disse o velhinho, sua dentadura deslizando pra fora de prazer.
-Veja isto, mas seja discreto.

O velhinho pegou a foto e a colocou ao lado do prato de sopa enquanto a examinava.
-Uma encantadora jovem tatuada na pia, arregalando os olhos.
-Colocando lentes de contato - esclareceu o camelô.
-Ah! Percebo! Delicioso momento íntimo, cotidiano! Mas o que é isto aqui?
-É a omoplata dela, doutor.
-Ah! Risqué, não?
-Se prefere algo mais contido...
-Não, quanto é?
-Quatro forints.
-Caro! A menina vai à faculdade?
-É uma estudante de arte, doutor.
-E é muito namoradeira?
-Como uma russa num monte de feno.

Riram e depois de um momento sorriram um para o outro, irmanados numa lubricidade sutil que é muitas vezes o mais forte dos elos entre estranhos.

-Que mais tem você aí, meu pequeno homenzinho de aparência gnômica?

O camelô passou para a mesa do velhinho e silenciosamente espalhou várias fotos pela mesa.

-Uh! Ah! - dizia o velhinho - Jovens normais, aparentemente saudáveis, colocando ou tirando meias de algodão. Esta aqui que faz?
-Morde o pescoço do namorado que está jogando um desses jogos eletrônicos que os jovens jogam.
-É o namorado mesmo?
-É a segunda vez que se encontram.
-Adoro o sorriso dela enquanto ela morde.
-Sim, vê-se que ela pensa muito em sexo.
-Safadinha. E esta mulher aqui? Parece que tem enxaqueca.
-Sim, não é uma foto boa - disse o camelô varrendo a foto para o lixo ao lado da mesa. - Mas olhe esta. Deve ter 23, 24 anos e está jogando xadrez, percebe?
-O que é isto?
-Os pezinhos dela nus debaixo da mesa, doutor.
-Oh! Ela está esfregando os pezinhos um contra o outro?
-Aparentemente.
-Sim, distraída, enquanto pensa no que fazer com a torre. Excelente.
-Se o senhor gosta de pezinhos... - disse o camelô, indicando a foto de um pé muito pálido fazendo carinho nas costas de um akita preto.
-O que é, um tapete?
-Um cachorro.
-Mas como eu sei se a mulher é bonita?
-Percebe-se, eu diria.
-Sim, percebe-se - admitiu o velho.

Depois, sem vergonha:
-Tem foto de mamilo?

Imediatamente o rosto do camelô se fechou como se ele tivesse acabado de ouvir que sua ex-mulher fez sexo com um anão que chora muito, e ele começou a recolher as fotos.

-Isso não tenho. Se é isso que deseja, há outros fornecedores...
-Não, foi só uma pergunta.
-Perdão. É que há coisas que não vendo.
-Eu é que peço perdão, meu caro gnomo benigno.

A boa-vontade foi restaurada ao rosto do camelô como as bandeiras de uma dinastia restituída ao trono depois duma revolução socialista, e inclinando-se na direção do velhinho o camelô sorriu e disse:

-Bom, talvez a borda de um mamilo. Mas guardo em outra pasta...
-Não se incomode. O que esta foto do pé aqui me lembrou, o que este close-up - o velhinho exagerou na pronúncia do inglês - me lembrou de verdade, é não de um pé, muito menos de um mamilo, mas de uma mão.
-Sim?
-Sim. E não de qualquer mão, mas da mão de uma menina que conheci na juventude, quando eu era bonito. Porque eu era bonito, acredite.
-Opa.
-E você tem?
-Várias. Esta mão feminina com as unhas não pintadas, agarrando um dedão de pé de homem... Um tanto ousada, admito -
-Não, a foto da mão da minha namorada de anos atrás.

O camelô olhou pensativo para o velhinho.

-Se o senhor descrever essa mão.
-É fácil. Quero uma foto da mão dela com a palma voltada para cima. Quero que a foto pegue da parte interna do cotovelo até a ponta dos dedos. Ao longo do antebraço ela tinha várias pintas: cinco, para ser exato, nestes pontos aqui.

O velhinho tocou com o indicador em cinco pontos do antebraço do camelô.

-Fazendo uma curva - disse.
-Certamente não tenho na pasta, mas procurarei no meu arquivo em casa. Se puder me encontrar aqui na terça...
-O motivo de querer a foto - disse o velhinho sem ouvir, sorrindo bestamente, - a foto dessa mão e não outra, você sabe, é porque ela, a dona da mão, era tão bonita, ninguém diria que uma mulher tão bonita sairia com um camponês como eu, que ganha a vida masturbando morcegos para fazer queijinhos mais tarde condimentados com páprica. Nos encontramos num café, parecido com este... Nos beijamos. Depois sorrimos cheios de timidez, baixamos os olhos, os dois meio embriagados um com o outro, sem ligar para as pessoas à nossa volta, sabe?
-Sei.
-E começamos a olhar um para a mão do outro cheios de volúpia. Uma volúpia de mãos, de braços, está entendendo? Testando cada articulação, examinando cada pinta. Você sabe como é, esse momento em que de uma hora para a outra você ganha acesso ao corpo da outra pessoa, que alegria, como se estivesse do lado de fora do portão de uma feira mundial de queijos, desses feitos de leite mesmo e não de sêmen de morcego, sabe, de leite de vaca, e de repente abrissem o portão e você pudesse ficar correndo de um lado pro outro na feira esbarrando nos queijos todos, pegando tudo na mão! Meu Deus!
-Acredite, sei bem como é.
-Nunca mais a vi, mas não esqueço daquela mão, daquela mão que beijei tantas vezes, que mordisquei e fiquei olhando.

O camelô colocou devagar as fotos na pasta e disse:

-Deixe só checar mais uma vez onde ficavam as pintas. Aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
-Esta aqui mais aqui.

O camelô anuiu, fez uma vênia e foi embora. Aquele era um domingo à tarde e a rua estava meio parada, de modo que ele encurtou o dia e foi direto para a casa velha onde morava desde a juventude, na companhia de Kató, uma mulher de um metro e trinta que o fazia feliz exclusivamente com a prática de massagens no couro cabeludo acompanhadas de fofocas e indiretas de que não estava recebendo sexo o suficiente: uma relação estranhamente deliciosa para as duas partes, e cultivada com calma e refinamento.

Chegando em casa evitou Kató que fofocava com a irmã na cozinha e subiu para o sótão onde imediatamente começou a procurar pela foto da mão da ex-namorada do velhinho, procurando na gaveta "MÃO, direita, do antebraço à (1934-1937)". Ficou sentado no chão durante três horas vendo com calma fotos de mãos bonitas de unhas bem-cuidadas, examinando as combinações de pintas. A certa altura a dor nas costas o forçou a deitar no chão de madeira e a continuar examinando as fotos naquela posição, de vez em quando desviando os olhos para o teto inclinado e pensando nas mãos da sua vida, nas mãos que tinha apertado e mordido também.

Na terça encontrou o velhinho na mesma mesa, dessa vez comendo um prato de porrinhas (o queijo húngaro feito com sêmen de morcego e páprica, que fez tanto sucesso no Brasil uma época quando comercializado por Nelson Piquet).

Com uma vênia e um floreio depositou a foto na mesa do velhinho.

-Fazemos todo o esforço para agradar.

O velhinho agarrou a foto com seus dedos sujos de sêmen de morcego e começou a gritar pateticamente, Erzsébet!, Erzsébet!, e beijava a foto e chorava, e as lágrimas que saíam de seus olhos nunca pingavam no chão porque se perdiam nas rugas e sumiam para sempre, para sempre, como Erzsébet e suas mãos, como Erzsébet e suas cinco pintas no antebraço, como Erzsébet e a juventude - miraculosamente reconstituídas numa foto P&B 15x27 de qualidade erótica indiscutível.

-Vai querer também a foto da jogadora de xadrez descalça?
-Ah sim, né - disse o velhinho limpando a cara com a manga - Mas faz desconto?

Dia após dia e foto após foto reconstituiu o velhinho, com a ajuda do camelô, o corpo todo de Erzsébet, e todas as suas cento e duas pintas. Erzsébet estava lá na mesa do café Philidor fatiada em vinte e cinco fotos.

Mesmo o camelô se apaixonou um pouquinho por Erzsébet. E ficavam os dois, camelô e camponês, passando as fotos de um para o outro por entre o vapor da sopa de cebola, calados, corteses, um pouco tristes.

Posted by Alexandre S. at 12:13 PM | Comments (39)