
James Salter é um desses escritores, afinal não tão comuns assim, que querem escrever bonito. Não vou nem colocar entre aspas, ele quer escrever bonito mesmo.
Às vezes consegue. Li "Light Years" alguns anos atrás e fiquei impressionado com o segundo capítulo, que é só uma visita do personagem principal ao alfaiate. Não tem grande coisa a ver com o resto da história e, se Salter ouvisse o conselho dos professores de redação, "corte o que puder ser cortado", blábláblá, cortaria o capítulo fora. Mas que pena seria. Lembro que é uma cena tão delicada, tão bonita e tal.
Além disso "Light Years" tinha umas boas cenas na cozinha, uma cena de assalto que não esqueci, umas frases muito boas. Quando o personagem principal é traído pela mulher, você sente uma cosquinha na testa.
A amiga para a qual emprestei "Light Years" não terminou o livro porque ele está cheio de passagens ridículas. Salter é especialmente ruim escrevendo sobre sexo, como todo mundo: e seus personagens masculinos geralmente são tão bons de cama que fazem com que as mulheres chorem de prazer logo depois do sexo, ou mesmo durante. E não é por saudade de algum ex-namorado ou algo assim! Inaudito!
Isso tudo com Salter tão visivelmente fazendo força para escrever bonito que às vezes, várias vezes por página na verdade, falha muito feio: o livro é cheio de frases que dão vontade de gritar "Fala como gente!", sacudindo Salter pela gola. Não tenho o livro aqui, mas, sei lá, frases como "O céu do Maine cortou as suas costas de pantera envelhecida trazendo alguma coisa da solidão de uma noite de Natal esquecida e Nedra se perguntou, não pela primeira vez, se o sal e o sofrimento não eram os componentes naturais de uma vida completa sob as estrelas onde uma alma pode ir deitar como se estivesse morrendo", etc.
Ok, está cheio de frases assim, mas quando ele acerta ele escreve tão bem: estou disposto a ler frases desse tipo para poder chegar nas outras, que aliás não são tão raras.
Agora estou lendo "The Hunters", que - provavelmente por não ter sexo, pelo menos até agora - tem uma proporção bem maior de boas frases e umas poucas frases meio breguinhas. A história se passa durante a Guerra da Coréia, com um piloto chamado Cleve Connell que acaba de chegar na linha de frente disposto a se tornar um ás - alguém com pelo menos cinco estrelas vermelhas abaixo do cockpit, representando cinco mortes.
Ia dizer que é uma espécie de Top Gun para pessoas que se alimentaram bem na infância mas é bem melhor que isso. Vou ver se vou postando aqui frases soltas do livro à medida que vou lendo.
"He can break your heart with a sentence", diz o Washington Post nas costas do livro. E é verdade, a maior parte das vezes.
E além disso nestes dias frios de julho, quando vou passear com a minha cachorra, tenho sempre olhado para o céu azul e sem nuvens, automaticamente procurando por MIGs.
Posted by Alexandre S. at July 2, 2007 09:45 AMEu tenho um entusiasmo maior por Salter do que deixei ver, talvez. Sou ruim pra falar bem das coisas, só sei falar mal. ;)
Posted by: Alexandre at July 2, 2007 10:43 AMAlém disso The Hunters tem um personagem, o Coronel Imin - The Dutch! - que é "a man´s man".
Pode ser trágico, mas só recentemente descobri que quero ser A MAN´S MAN! Em maiúsculas! Um desses sujeitos que falam alto e dão um tapão no peito dos outros e todos os homens na mesa sorriem como menininhas apaixonadas! A MAN´S MAN! Vou tentar, vou tentar.
Posted by: Alexandre at July 2, 2007 11:00 AMAh, eu já sou, Xandele.
Posted by: jorge plebeu at July 2, 2007 11:14 AMThat's a dream I do not share. Esses "man's men" (ou é "men's men"? pelo menos onde a bigamia é permitida?)normalmente têm mau-hálito e não percebem. Veja que só os homens sorriem como menininhas: as menininhas debandam. ;)
Posted by: mauro at July 2, 2007 12:26 PMAchei uma passagem particularmente blá, ó:
"(...) the sight of her nakedness, the darkness of its core overwhelmed him, his mind mumbled devotions, his ears were filled with whispers. The city opened like a garden, the streets received him and poured forth their names. He saw Rome like one of God's angels, from above, from afar, its lights, its poorest rooms. He blessed it, he fell into its heart. He became its apostle, he believed in its grace."
Menas, né.
Mas tem coisas bem bonitas, sim, e com o efeito desejado, sem exagerar nem sair pela culatra. Um dia leio até o fim e te devolvo. :)
Posted by: Amiga Que Nunca Devolve Seus Livros at July 2, 2007 03:40 PMEsse "Xandele" acabou com seus planos. Ou pelo menos te distanciou bastante do alvo, A MAN'S MAN.
Posted by: Diego at July 2, 2007 07:08 PMapriênde a falar filho da puta
Posted by: fagundes at July 3, 2007 11:26 AMFagundes é o Antônio?
Aquele?
Posted by: jorge plebeu at July 4, 2007 10:45 AME Salter consegue uma façanha rara nas últimas décadas, que é a de conquistar o apreço tanto dos mano-cabeça-que-gosta-de-literatura quanto dos mano-cabeça-de-vento-que-gosta-de-aventura. Robert Dorr, que foi piloto de jatos dessa era e escreveu um livro sobre o Sabre, diz lá, sobre "The Hunters", que "I must apologize to anyone under forty who may not appreciate how profoundly Salter influenced my generation. Salter created the finest work ever to appear in print -ever- about men who fly and fight". E o outro romance dele sobre aviação, "The Arm of Flesh"/"Cassada", is no slouch, either.
Posted by: McNasty at July 4, 2007 11:51 AMAlexandre. Você já leu A Prayer for Owen Meany do John Irving ?
Posted by: Freddy Bilyk at July 4, 2007 01:12 PMantonio o caralho
Posted by: fagundes at July 5, 2007 03:24 PMfagundes, o verdadeiro, suas bestas analogicas
Posted by: fagundes at July 5, 2007 03:27 PMCaro ASS,
Talvez você tenha inventado um novo tipo de 'louvação'.
Saudações,
Beto.