June 21, 2007

Vi na tevê uma entrevista

Vi na tevê uma entrevista com um escritor que vive na beira de um lago muito bonito. E esse escritor só escreve sobre estupros, abortos e divórcios. Para pessoas como eu que vivem em lugares feios, isso é esquisito. Se eu vivesse num lugar bonito só escreveria sobre margaridas cantantes ou cachorrinhos que tocam piano.

Mas há pessoas que vivem em lugares inimaginavelmente bonitos, em casinhas caiadas de branco em cima de penhascos na Grécia, e andam o dia inteiro pensando em osteoporose e rancor. Certas pessoas estão acima da paisagem à volta delas, certas pessoas estão abaixo. Certas pessoas mesmo que vivessem no Paraíso andariam muito infelizes pensando nas ruas de Osasco e soltando catarradas no chão.

Posted by Alexandre S. at June 21, 2007 02:12 PM
Comments

Ah, vai, aposto que você nem mora num lugar feio. E o legal de morar na frente de um lago lindo e escrever sobre deformidade é justamente a isenção estética, ué. Se você escreve sobre o que conhece sua opinião (ou estilo, ou conteúdo, ou jeitão) já vem comprometida de nascença.

Posted by: redatozim at June 21, 2007 04:36 PM

Bom, eu moro em São Paulo. São Paulo já foi mais feia, mas não é nenhuma Quaresmeiras. Sempre me dói pensar um pouco que há pessoas morando nesses lugares realmente bonitos, agora, as we speak; um grego voltando do trabalho às quatro da tarde, subindo o seu penhasquinho de frente pro mar, fazendo os seus exerciciozinhos de halteres, comendo sua bananinha amassada com aveia e mel e depois vendo "Maria i askimi" na tevê com os pés apoiados no balcão de onde se vê o Mediterrâneo. Está acontecendo agora, consigo ver com o meu olho de Agamotho. Enquanto isso lá fora, a Santo Amaro.

Não concordo com você, é preciso que um escritor escreva um livro pelo menos tão bonito quanto o lago à beira do qual o livro está sendo escrito. Amém.

Posted by: Alexandre at June 21, 2007 05:16 PM

Ah meu filho, eu ando sobre o fio da navalha. Estou na Bahia e há dias em que acordo sobre os prados de golfe da Escócia, e há (muito mais)dias em que me sinto em Ruanda. Só não solto catarradas no chão porque um traficante poderia me acertar uma bala a dois quilômetros de distância, esteja eu onde estiver.
Quando eu estiver no paraíso, só falarei com nostalgia sobre Woodstock ou aquela doce casa de chá em Campos do Jordão, onde provei pela primeira vez chá de hibisco.

Posted by: Badá at June 21, 2007 05:30 PM

Ah, aquela doce casa de chá em Campos do Jordão. Traz-me memórias. Provavelmente a minha aquela doce casa de chá em Campos do Jordão não é a sua aquela doce casa de chá em Campos do Jordão, mas nonetheless, Badá, I hear you, sister.

Posted by: Alexandre at June 21, 2007 05:35 PM

É, mas há casos que é perdoável. Veja o Stpehen K., por exemplo, que mora na Nova Inglaterra (não é?) e escreve sobre coisas horrorozinhas.

Posted by: mauro at June 21, 2007 05:54 PM

Sempre quis escrever isso e nunca ia conseguir.

Posted by: Eduardo Carvalho at June 21, 2007 09:01 PM

Mauro, não acho que o Stephen King seja perdoável. Ele é ruim, mesmo.

E Alexandre, esse post me fez ter saudades de "Sua Alteza Real", do Thomas Mann. É tudo tão bonito lá que eu aceitaria até uma daquelas rosas com cheiro de mofo.

Se você nunca leu, recomendo (não se incomode com a tradução da Lia Luft, é boa. Ou é simplesmente melhor que tentar ler em alemão).

Abraço.

Posted by: Gustavo at June 21, 2007 09:36 PM

Perfeito! :)

Posted by: vague at June 22, 2007 12:35 AM

Gus, I beg to differ. E uso argumento de autoridade:

"Mauro e Marco Aurélio escreveram estes posts falando sobre Stephen King. Eles gostam dele; e eu também. E não me envergonho disso: livros como The Body e aquele de não-ficção sobre o gênero horror, Danse Macabre, por exemplo, são muito bons. É verdade que não li nada depois de Bag of Bones, e nem quero. Ele tem ficado ruim, o que pode estragar uma reputação que nunca foi lá grande coisa - mas os livros anteriores dele me divertem muito, e anyway são vinte vezes melhores do que a maior parte dos escritores brasileiros que têm nojo dele. (There, I've said it.)"

Clique no meu nome, para o original, com os outros links.

Posted by: mauro at June 22, 2007 09:47 AM

Minha opinião de Stephen King foi caindo desde que escrevi isso, Mauro, mas também faz tempo que não releio e posso estar influenciado pela cara de pamonha dele. ;>)

Posted by: Alexandre at June 22, 2007 09:55 AM

É, ele é caiu bastante, no doubt. Talvez tenha sido o atropelamento. Também hesito em lê-lo. Comprei o tal do "Cell" e nem abri. Mas isso não mata o mérito dos livros mais velhos, não é? Aliás, num dos últimos livros dele, tem um conto de um cara na mesa de autópsia, que é bem bom. Depois te digo o nome, se a senilidade permitir que eu lembre.

Posted by: mauro at June 22, 2007 10:12 AM

Ok, Mauro, ele tem coisas ok, mas e a Torre Negra? Por que SETE volumes? SETE. Alguns com, sei lá, três mil páginas. E talvez ele faça um oitavo e um nono e morra escrevendo o décimo. Setephen King é doido.

Posted by: Gustavo at June 22, 2007 11:40 AM

Engraçado como algumas das melhores coisas que vc escreve, como esse post, são sempre expressão do senso comum (ou pelo menos de um senso comum ideal, talvez o senso comum de Chesterton).

Abraço,

Posted by: ludovico at June 22, 2007 01:17 PM

Gus,
Eu li quase tudo que o cara escreveu. Mas tive a sorte (6o. sentido?) de sequer comprar o primeiro volume da Dark Tower. Talvez aí o meu preconceito ao contrário ;o)
Abraços!

Posted by: mauro at June 22, 2007 01:44 PM

House literature, hey?
Is a spiritual thing, a soul thing.
I feel light and... Osasco feels better with you, baby.

Posted by: Caprice at July 4, 2007 08:54 PM

House literature, hey?
Is a spiritual thing, a soul thing.
I feel light and... Osasco feels better with you, baby.

Posted by: Caprice at July 4, 2007 08:54 PM
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