June 03, 2007

Eu te amo, Sir Thomas



Conheceram Sir Thomas no restaurante em Itanhaém.

Sir Thomas encantado.

Sir Thomas ajoelhando de chinelão, devagar por causa da caipirinha.

-Casem comigo.
-Quem? - disse o Oswaldo.
-Cêis dois.

Oswaldo e Taís se olharam em dúvida.

-Vamo?
-Cê quer?
-Cê quer?
-Se ocê quiser.

Sir Thomas abrindo os braços.

-Casem comigo e seremos felizes no meu palácio ancestral aqui mesmo em Peruíbe. Cavalgaremos em nossos cavalos de raça, desfrutaremos dos nossos Turners e Reynolds. Jogaremos críquete na planície ondulante... À noite, quando os grilos botarem medo na gente de tão alto que zunem no mato, leremos contos de terror em voz alta, abraçadinhos em frente da lareira.

-Vamo? - disse Oswaldo.
-Então vamo - disse Taís.

Oswaldo e Taís e Sir Thomas casaram na capela privada da família de Sir Thomas, em Ulster Hall, Peruíbe. A família de Sir Thomas havia fugido da Inglaterra em 1748, depois da batalha de Culloden, por terem apoiado a causa de Charles Stuart, apenas para se porem loucos com medo dos sacis tão logo desembarcaram. Doze gerações de Sir Thomases haviam se trancado em Ulster Hall, Peruíbe, rezando com medo de sacis.

O atual Sir Thomas era mais valentão, saía na rua e tudo, mas se você brincasse dizendo que viu um saci passar de motinha ele ficava branco e dizia Ih rapaz, não brinca não.

-Não tá aqui quem falou.
-Ah então tá bom.

Na noite de núpcias Sir Thomas saiu do banheiro de cuecão e sorrindo sedutoramente. Quem resistia a Sir Thomas? Nem o céu, nem o vento, nem as estrelas.

Que digo eu, nem Getúlio Vargas. No álbum da família havia uma foto de Sir Thomas e Getúlio numa gôndola, Getúlio com a cabecinha pousada no ombro de Sir Thomas sorrindo embevecido. Dias felizes.

Oswaldo e Taís na cama, com o lençol cobrindo até o nariz.

-Seja gentil - disse o Oswaldo.
-Eu sou gentil - disse Sir Thomas, e se atirou na cama de peixinho.

Durante dezoito meses foram felizes e tal, aquelas seis mãos e trinta dedos continuamente entrelaçados se fazendo cosquinha na palma um do outro dava até nojo. Viajaram pelo mundo no iate de Sir Thomas, o "Aumente o Seu Pênis!!!". Apostaram corrida pirâmide asteca acima. Rolaram pelas dunas de Eureka Valley se cobrindo de beijinhos.

Chegaram a viver seis meses no Ritz de Paris. Sir Thomas não cansava de elogiar o Ritz. Ficava no lobby do hotel, embestado pela política rigorosa de não-aceitação de sacis.

-Mas não entra um. Óia.

Na volta, gordinhos de tanta geléia de hotel, foram recebidos no saguão de Ulster Hall pelo Márcio "Pierce Brosnan" Bustamante Filho. Agora, Márcio "Pierce Brosnan" Bustamante Filho havia feito exatas com a Taís e gostava dela. Na noite do casamento de Oswaldo e Taís, chorou e tudo.

Quando soube que Sir Thomas havia se casado com o casal pensou, "Ué, não sabia que podia", coçou a cabeça e resolveu casar com eles também.

Se ajoelhou no saguão mal eles chegaram.

-Casem comigo.
-Mas de véu e grinalda? - Sir Thomas perguntou.
-Ok - disse o Márcio.

Casaram e foram felizes também, não digo que não. Márcio especialmente não acreditava na sorte que tinha. "Casado com a Taís! E o Sir Thomas, que homão!"

-Seu Thomas, eu te amo.
-Sir Thomas.
-Sir Thomas.

Dois dias depois Márcio acordou para a realidade brutal: Taís e Sir Thomas haviam fugido durante a noite levando inclusive a mesa de pebolim. Na mesa do hall uma notinha,

"Amamo-nos, eis tudo. Tentem compreender. Partimos para o mais romântico dos destinos, Olaria, mas voltaremos em maio quando as flores dançarem nos prados em volta de Ulster Hall como tias alcoolizadas numa eterna festa de Natal.

Bicocas,
Sir Thomas"

O Márcio coitado em estado de choque olhando a notinha, foi, sem dar por isso, para o quarto de núpcias onde o Oswaldo, ainda de véu e grinalda e com o batom todo borrado, acordava naquele momento. Márcio atirou-lhe a notinha de Sir Thomas num gesto dramático.

-Só resta nós dois então - disse o Oswaldo - Seremos felizes. Frequentemente achei nos últimos dias que havia duas pessoas a mais neste casamento, se você entende o que eu digo.

Foi demais para o Márcio ver o Oswaldo piscando malicioso com o batom todo borrado. Nesse ponto diz a história que o Márcio começou a chorar.

-Mas você não me ama? - Oswaldo perguntou.
-Não, ué.

Oswaldo saiu correndo e se trancou no banheiro. Depois de algum tempo o Márcio foi bater na porta preocupado.

-Casou comigo pra ficar com a Taís, seu viado? - Oswaldo perguntava esmurrando a porta.

É triste. Entretanto. Passaram uns dias e o Márcio vou, não vou, fico, não fico. Nisso viu o Oswaldo descendo a escada com as malas prontas, todo másculo de barba crescida e tudo, e sentiu uma dorzinha no coração pela qual não esperava, viu.

-Fica - disse, espantado consigo mesmo.
-Tarde demais - disse o Oswaldo. E depois, mais gentil: - Se quiser me ter de volta vai ter que lutar por mim.

E tocou com o indicador na ponta do nariz do Márcio Bustamante, fez "pim" e, se soltando da mão que tentava prendê-lo pelo pulso, foi embora para sempre de Ulster Hall, cuja arquitetura desolada e linda é um dos marcos lá de Peruíbe.

Mas espera, há uma moral nessa história. Não é quem casa quer casa. Homem que bate no peito, velhaco perfeito? Não, não se aplica. Não sei mais, mas meu coração pulsa com a memória das noites que aqueles quatro passaram juntos, com a memória das noites que todos nós passamos juntos, aos pares mais frequentemente que aos três e aos quatro, é verdade; e quis escrever isto porque a noite é comprida, e o sono não vem. Amém.

Posted by Alexandre S. at June 3, 2007 10:38 PM
Comments

Você está precisando de uma mulher, meu caro. É sempre uma deliciosa companhia, principalmente em noites insones. Tão melhor que esrever esses "contos de Pirobagem". Bem, pelo menos para os que gostam de mulheres.

Posted by: Carlos Telles at June 4, 2007 02:33 AM

Considerando que uma mulher é uma deliciosa companhia para noites insones e que Carlos Telles veio escrever um comentário às duas da madrugada, assinale a alternativa que lhe parece mais correta:

a) Carlos Telles está insone e sem mulher.
b) Carlos Telles e sua mulher estão ambos insones e passam o tempo visitando blogs; ela, uma deliciooosa companhia.
c) Carlos Telles é mulher.
d) x=0
e) Todas as alternativas anteriores estão corretas.

Posted by: tiago a. at June 4, 2007 06:18 AM

Quando eu tenho insônia eu abraço um patinho de pelúcia, é uma graça. Não durmo, mas fica uma linda figura.
Sir Thomas fez a escolha errada, meu caro. qual seria a moral dessa história?

Posted by: Badá at June 4, 2007 09:37 AM

Soberbo. Que o sono tarde com maior constância.

[]s!

Posted by: Cadmo at June 4, 2007 09:54 AM

Está aí a resposta para a infame pergunta, "Quem Matou Getúlio Vargas?". E com a vantagem adicional de não se ter que ler aquele livro hogogoso.

Posted by: mauro at June 4, 2007 10:25 AM

Seu Thomas deve ser um daqueles caras brancos que tem a cara vermelha com a pele toda estragada pelo sol.

Posted by: Fábio Henrique at June 4, 2007 01:07 PM

Seu Thomas deve ser um daqueles caras brancos que têm a cara vermelha com a pele toda estragada pelo sol.

Posted by: Fábio Henrique at June 4, 2007 01:09 PM

Acho que ninguém praticou bajulação o suficiente por este texto, que está incrível, então, me incumbi de dar uma lambidinha no chão do blog para mostrar o meu apreço.

Posted by: Juliana Cunha at June 4, 2007 11:58 PM

E Quaresmeiras, Alexandre? Saberemos como andam as coisas por lá ainda esse ano?

Posted by: Marcio at June 5, 2007 01:52 AM

Oh, meu caro. É sempre uma delícia o seu jeito de escrever.

Posted by: erebo at June 5, 2007 12:47 PM

Oh, meu caro. É sempre uma delícia o seu jeito de escrever.

Posted by: erebo at June 5, 2007 12:47 PM

As guerras gays aí sendo travadas e você escrevendo esse tipo de coisa.

Vamos, dê sua opinião. Não seja omisso.

=D

Posted by: BJ at June 5, 2007 05:23 PM

Faço meu o comentário da Juliana. Chega pra lá um pouquinho pra eu lamber aquele canto ali.

Posted by: Julia at June 5, 2007 05:37 PM

Estou começando a achar que esse blog é só uma desculpa para ganhar mulher...
Veja, agora tem três lambendo o chão.

Posted by: Co at June 5, 2007 10:34 PM

forçado...

Posted by: paulo at June 6, 2007 05:07 AM

Oi, Alexandre, desculpe fugir do tema (a carnalidade de Sir Thomas).

Vc já deve ter visto essa risonha discussão religiosa, mas está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=a6iAaxOAHCM

Posted by: Arnaldo at June 6, 2007 01:23 PM

muito bom teu blog. vou voltar mais vezes!

bjs,
simone silveira kaplan

simonesilveira.blogspot.com

Posted by: simone Kaplan at June 7, 2007 12:15 AM

muito bom teu blog. vou voltar mais vezes!

bjs,
simone silveira kaplan

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Posted by: simone Kaplan at June 7, 2007 12:15 AM

muito bom teu blog. vou voltar mais vezes!

bjs,
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Posted by: simone Kaplan at June 7, 2007 12:15 AM

Alexandre,

Diga-me: como é que você consegue conciliar tanto pendantismo, arrogância, má escrita e homossexualismo reprimido em um post só?

Posted by: tarantantan at June 7, 2007 10:33 AM

"pendantismo", disse o pedante, peidando pela boca. :)

Posted by: Roque Villalba at June 7, 2007 01:27 PM

"Pendantismo" vem do francês "faire pendant". Suponho que ele quis dizer que nesse texto uma palavra combina com a outra.

Posted by: Julia at June 7, 2007 06:15 PM

blá

Posted by: Luara at June 7, 2007 08:02 PM

Realmente, ainda falta bajulação para esse texto. Não vou lamber o chão porque estou tomando sorvete, mas aqui, ficarei como uma tartaruga na frente do recliner e você pode pôr os pés sobre minhas costas como se fosse um ottoman. Mas não pise no sorvete, que ainda estou tomando.

Posted by: John Santos at June 7, 2007 10:25 PM

Very badass.

Posted by: Caio at June 8, 2007 10:38 PM

Acabei de ler seu texto na Bravo deste mês, Alexandre. Muito bom, pra variar, foi direto ao ponto. Pensar que foi o Luís Fernando Veríssimo que um dia escreveu que gostava dos clássicos: Shakespeare, Ovídio e Picolé de Coco... Hoje acho que ele substituiria por Gramsci, Stálin e bife de soja~. Não bastasse ele jogar pra torcida, ainda joga pra torcida errada quando escreve sobre política.

Ah, só uma coisa, vai dizer que se o Flaubert fosse comer churrasco na sua casa você não ia apertar aquelas bochechas gordas dele e falar ó as banha, diz que não, diz que não!!

Posted by: vicente azambuja at June 10, 2007 05:32 PM

Acabei de ler seu texto na Bravo deste mês, Alexandre. Muito bom, pra variar, foi direto ao ponto. Pensar que foi o Luís Fernando Veríssimo que um dia escreveu que gostava dos clássicos: Shakespeare, Ovídio e Picolé de Coco... Hoje acho que ele substituiria por Gramsci, Stálin e bife de soja~. Não bastasse ele jogar pra torcida, ainda joga pra torcida errada quando escreve sobre política.

Ah, só uma coisa, vai dizer que se o Flaubert fosse comer churrasco na sua casa você não ia apertar aquelas bochechas gordas dele e falar ó as banha, diz que não, diz que não!!

Posted by: vicente azambuja at June 10, 2007 05:34 PM

(Matutando em memórias, veio o gosto de "A brutalidade santifica")...

Posted by: André Luicci at June 11, 2007 04:03 PM

Só pra dizer que ri muito com o comentário do mauro às 10:25...

Posted by: osrevni at June 11, 2007 04:41 PM

Blablabla... Desejo melhoras.

Posted by: Fernando at June 12, 2007 09:22 AM

Também gosto de fumar um quando estou com insônia.

Posted by: Cristina at June 12, 2007 05:40 PM

Pior que eu ri muito, mas isso não significa muita coisa. No último domingo, ri muito durante aquele programa "Sob Nova Direção".

Posted by: Cristina at June 12, 2007 05:43 PM

Alexandre,

Como é que se sente como o unico brasileiro que diz alto que não gosta do país onde vive?
Se alguma vez se sentir só, venha cá a Portugal que temos 10 milhões de insatisfeitos com o país que os viu nascer para lhe fazer companhia.

Um abraço e obrigado por tudo.

Posted by: miguel at June 13, 2007 03:35 AM

eu também amo Sir Thomas

Posted by: ediney at June 13, 2007 03:28 PM

Acabo de descobrir este blogue e decidi esposá-lo, de véu e grinalda. Já está nos favoritos. Também amo o Sir Thomas e quero casar com o Alexandre, se ele disser "I do" com o mais poshest British accent.

Posted by: Ibidem at June 19, 2007 01:18 PM

Saraivadas...xingamentos e escárnios...que eu mereça...mas é um episódio que possue uma veracidade natural( e belíssima)...se há pessoas livres por aí, e atrás de "um" amor mútuo...[não tem o mínimo sopro de intenção dizer que adoro mulheres...são hoje pra mim, o mistério mais valido...]...por isso é uma bela estória de ninar sim...

Posted by: Manu Carpim at June 20, 2007 02:05 AM

"O mais poshest"? Que horrivel ficou isso.
Decida-se, ou "o mais posh" ou poshest, não dá para ser os dois.

Posted by: Joaquim Antunes at June 20, 2007 08:06 AM

Oops, made a fool of myself!
Seja "o mais posh", Joaquim Antunes. Mas para evitar cruzamentos gramaticais aberrantes, aceito que o Alexandre diga "I do" com sotaque paulista.

Posted by: Ibidem at June 20, 2007 10:03 AM

Ibidem, I do. Sou muito facinho, não preciso nem saber o seu nome. ;>)

Posted by: Alexandre at June 20, 2007 05:17 PM

Caro noivo Alexandre,

Já anunciei a boa nova à minha irmã mais nova, a quem tinha enviado o link deste blogue mal o descobri (há que partilhar os prazeres da vida). Comentário da "caçula": "Também posso casar com ocês?".

Sua sempiterna leitora,

Ibidem/Paula

P.S. Venham mais posts!

Posted by: Ibidem at June 21, 2007 09:21 AM
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