No blog reformulado e mais bonitão da Atlântico você pode ler a minha coluna de maio. Vou passar a postar por lá de vez em quando. Mas sans eu ou avec eu, tem sempre coisa boa pra ler por lá.
Me ocorreu que seria bom se colocassem uma enfermeira nas redações de jornal para testar o nível de testosterona no sangue dos críticos de cinema que reclamam de "violência gratuita", "estetização da violência", "brutalidade acéfala", "cinéma des mecs". E outra para testar a testosterona dos homens que não gostam de Hemingway pelos mesmos motivos de Harvey Pekar: "não acredito nessa besteira de machice" (claro que não, Harvey). Não tenho dúvida que os resultados iam ser interessantes.
Eu ia começar este post com as palavras "não quero soar muito pseudo-científico", mas daí pensei, "epa, quero sim. Deve ser gostoso".
Vi na tevê uma entrevista com um escritor que vive na beira de um lago muito bonito. E esse escritor só escreve sobre estupros, abortos e divórcios. Para pessoas como eu que vivem em lugares feios, isso é esquisito. Se eu vivesse num lugar bonito só escreveria sobre margaridas cantantes ou cachorrinhos que tocam piano.
Mas há pessoas que vivem em lugares inimaginavelmente bonitos, em casinhas caiadas de branco em cima de penhascos na Grécia, e andam o dia inteiro pensando em osteoporose e rancor. Certas pessoas estão acima da paisagem à volta delas, certas pessoas estão abaixo. Certas pessoas mesmo que vivessem no Paraíso andariam muito infelizes pensando nas ruas de Osasco e soltando catarradas no chão.

Me deu vontade de deixar essa imagem decorando o blog (tirei daqui - obrigado, Mariana). Escreverei um post logo logo que arrancará lágrimas e arfará seios, pequena leitora núbil, e fará com que pequenos corações estilizados apareçam em sua aura enquanto me lê, a ponto da sua mãe ficar passando a mão em cima da sua cabeça numa tentativa patética de pegar os coraçõezinhos, e de minúsculos ursos pandas dançarem de mãos dadas no chacra que fica na base da sua espinha. Mas só vou escrever depois de ver toda a primeira temporada de The Biggest Loser Australia, o que é um trabalho imenso.
Comecei o dia com uma revelação: estando de manhã lendo no banheiro, levantei a cabeça coçando o queixo distraído enquanto Swann e Odette conversavam, e de repente reparei que o azulejo bem na minha frente reproduz, miraculosamente, o quadro "Júpiter e Io" de Correggio.
Agora, quando eu era criança o mármore do chão do banheiro dos meus pais reproduzia a cabeça do Mickey, com todos os detalhes, o focinho talvez um pouco comprido e torto demais, e um ou dois metros adiante havia um James Bond de tuxedo - "sorrindo cruelmente", como Ian Fleming gostava de escrever. Mas fazia tempo que minha contemplação de mármores e azulejos de banheiro não dava resultado tão bom. Fiquei tão empolgado que saí de calça arriada para pegar a câmera.
Mirabile dictu!
Já me imaginava cobrando entrada para o banheiro paranormal. "Blogueiro descobre aparição milagrosa de Júpiter", etc. Mas, ah, a decepção veio quando fui refrescar a memória dando uma olhada no quadro online.
Hmm.
Só mais ou menos, né? Consegue ver? Não sei nada sobre manchetes, mas "Azulejo em banheiro de blogueiro até que lembra "Júpiter e Io" de Correggio, diz vizinha vagamente decepcionada" não deve atrair muitos leitores.
Em seguida fui comparar um azulejo mais à direita com a lua de Méliès e tive a segunda decepção da manhã:
Bom, talvez Humpty-Dumpty levando com um treco qualquer no
olho esquerdo.
Manhãs como essa dão cabo dum homem. Saí do banheiro com os nervos esfrangalhados e a alma um pouquinho mais desiludida, um pouquinho mais cínica. Tudo bem, sobreviverei; mas só sei que são experiências assim que criam Carls Sagans e Richards Dawkinses ("da vida").
Conheceram Sir Thomas no restaurante em Itanhaém.
Sir Thomas encantado.
Sir Thomas ajoelhando de chinelão, devagar por causa da caipirinha.
-Casem comigo.
-Quem? - disse o Oswaldo.
-Cêis dois.
Oswaldo e Taís se olharam em dúvida.
-Vamo?
-Cê quer?
-Cê quer?
-Se ocê quiser.
Sir Thomas abrindo os braços.
-Casem comigo e seremos felizes no meu palácio ancestral aqui mesmo em Peruíbe. Cavalgaremos em nossos cavalos de raça, desfrutaremos dos nossos Turners e Reynolds. Jogaremos críquete na planície ondulante... À noite, quando os grilos botarem medo na gente de tão alto que zunem no mato, leremos contos de terror em voz alta, abraçadinhos em frente da lareira.
-Vamo? - disse Oswaldo.
-Então vamo - disse Taís.
Oswaldo e Taís e Sir Thomas casaram na capela privada da família de Sir Thomas, em Ulster Hall, Peruíbe. A família de Sir Thomas havia fugido da Inglaterra em 1748, depois da batalha de Culloden, por terem apoiado a causa de Charles Stuart, apenas para se porem loucos com medo dos sacis tão logo desembarcaram. Doze gerações de Sir Thomases haviam se trancado em Ulster Hall, Peruíbe, rezando com medo de sacis.
O atual Sir Thomas era mais valentão, saía na rua e tudo, mas se você brincasse dizendo que viu um saci passar de motinha ele ficava branco e dizia Ih rapaz, não brinca não.
-Não tá aqui quem falou.
-Ah então tá bom.
Na noite de núpcias Sir Thomas saiu do banheiro de cuecão e sorrindo sedutoramente. Quem resistia a Sir Thomas? Nem o céu, nem o vento, nem as estrelas.
Que digo eu, nem Getúlio Vargas. No álbum da família havia uma foto de Sir Thomas e Getúlio numa gôndola, Getúlio com a cabecinha pousada no ombro de Sir Thomas sorrindo embevecido. Dias felizes.
Oswaldo e Taís na cama, com o lençol cobrindo até o nariz.
-Seja gentil - disse o Oswaldo.
-Eu sou gentil - disse Sir Thomas, e se atirou na cama de peixinho.
Durante dezoito meses foram felizes e tal, aquelas seis mãos e trinta dedos continuamente entrelaçados se fazendo cosquinha na palma um do outro dava até nojo. Viajaram pelo mundo no iate de Sir Thomas, o "Aumente o Seu Pênis!!!". Apostaram corrida pirâmide asteca acima. Rolaram pelas dunas de Eureka Valley se cobrindo de beijinhos.
Chegaram a viver seis meses no Ritz de Paris. Sir Thomas não cansava de elogiar o Ritz. Ficava no lobby do hotel, embestado pela política rigorosa de não-aceitação de sacis.
-Mas não entra um. Óia.
Na volta, gordinhos de tanta geléia de hotel, foram recebidos no saguão de Ulster Hall pelo Márcio "Pierce Brosnan" Bustamante Filho. Agora, Márcio "Pierce Brosnan" Bustamante Filho havia feito exatas com a Taís e gostava dela. Na noite do casamento de Oswaldo e Taís, chorou e tudo.
Quando soube que Sir Thomas havia se casado com o casal pensou, "Ué, não sabia que podia", coçou a cabeça e resolveu casar com eles também.
Se ajoelhou no saguão mal eles chegaram.
-Casem comigo.
-Mas de véu e grinalda? - Sir Thomas perguntou.
-Ok - disse o Márcio.
Casaram e foram felizes também, não digo que não. Márcio especialmente não acreditava na sorte que tinha. "Casado com a Taís! E o Sir Thomas, que homão!"
-Seu Thomas, eu te amo.
-Sir Thomas.
-Sir Thomas.
Dois dias depois Márcio acordou para a realidade brutal: Taís e Sir Thomas haviam fugido durante a noite levando inclusive a mesa de pebolim. Na mesa do hall uma notinha,
"Amamo-nos, eis tudo. Tentem compreender. Partimos para o mais romântico dos destinos, Olaria, mas voltaremos em maio quando as flores dançarem nos prados em volta de Ulster Hall como tias alcoolizadas numa eterna festa de Natal.
Bicocas,
Sir Thomas"
O Márcio coitado em estado de choque olhando a notinha, foi, sem dar por isso, para o quarto de núpcias onde o Oswaldo, ainda de véu e grinalda e com o batom todo borrado, acordava naquele momento. Márcio atirou-lhe a notinha de Sir Thomas num gesto dramático.
-Só resta nós dois então - disse o Oswaldo - Seremos felizes. Frequentemente achei nos últimos dias que havia duas pessoas a mais neste casamento, se você entende o que eu digo.
Foi demais para o Márcio ver o Oswaldo piscando malicioso com o batom todo borrado. Nesse ponto diz a história que o Márcio começou a chorar.
-Mas você não me ama? - Oswaldo perguntou.
-Não, ué.
Oswaldo saiu correndo e se trancou no banheiro. Depois de algum tempo o Márcio foi bater na porta preocupado.
-Casou comigo pra ficar com a Taís, seu viado? - Oswaldo perguntava esmurrando a porta.
É triste. Entretanto. Passaram uns dias e o Márcio vou, não vou, fico, não fico. Nisso viu o Oswaldo descendo a escada com as malas prontas, todo másculo de barba crescida e tudo, e sentiu uma dorzinha no coração pela qual não esperava, viu.
-Fica - disse, espantado consigo mesmo.
-Tarde demais - disse o Oswaldo. E depois, mais gentil: - Se quiser me ter de volta vai ter que lutar por mim.
E tocou com o indicador na ponta do nariz do Márcio Bustamante, fez "pim" e, se soltando da mão que tentava prendê-lo pelo pulso, foi embora para sempre de Ulster Hall, cuja arquitetura desolada e linda é um dos marcos lá de Peruíbe.
Mas espera, há uma moral nessa história. Não é quem casa quer casa. Homem que bate no peito, velhaco perfeito? Não, não se aplica. Não sei mais, mas meu coração pulsa com a memória das noites que aqueles quatro passaram juntos, com a memória das noites que todos nós passamos juntos, aos pares mais frequentemente que aos três e aos quatro, é verdade; e quis escrever isto porque a noite é comprida, e o sono não vem. Amém.
Minha tradução de "The Mating Season" está sendo publicada em Portugal pela editora Cotovia. Agradeço à Charlotte e à Fernanda pelos conselhos sábios que permitiram o gradual desabrasileiramento de Bertie Wooster.
E, já que estamos falando de Wodehouse, clique aqui (obrigado, Q.)