April 18, 2007

Uivo

para T.P.


Eu vi as melhores mentes da minha geração destruidas por
Cheetos, famintas histéricas nuas,
se arrastando pelas ruas de Moema de madrugada
procurando um lanchinho zangado,
blogueiros com cabeças de anjo ardendo pela velha e celestial
conexão estrelada a cabo na maquinaria da noite,
que todos desleixados e de olhos vazios sentavam
fumando na escuridão sobrenatural de
apartamentos sem água quente flutuando sobre cidades
contemplando My Humps do Black Eyed Peas no YouTube com um misto de desdém
e apreciação irônica pós-moderna e tal,
que desnudavam seus cérebros para o Céu e
viam anjos liberais da escola austríaca cambaleando em
telhados iluminados,
que passavam por universidades com olhos radiantes e uma jingadinha
alucinando Mato Grosso e tragédia no bandejão
entre os estudiosos da guerra de comida,
que foram expulsos de academias por postarem fotos de Bush com bigodinho de Hitler
e escreverem "cadmia" nas janelas do
crânio (e "né genteum"),
que se esconderam em quartos mal-barbeados de cueca, quei-
mando dinheiro em cestas de lixo e ouvindo
o Terror do Orkut através da parede,
que foram presos pela polícia em suas barbas públicas voltando de
Aparecida com um cinto de marijuana e talvez, quiçá, paçoca,
que beberam fogo em hotéis de tinta ou talvez só mojitos mesmo,
cada vez que Jack Bauer dizia "Dammit!" lá ia um mojito,
morte, ou transformaram seus torsos num
Purgatório noite após noite
com sonhos, com drogas, com posts falando mal do Che Guevara
(Che Gueivara), álcool e pingulim e bolas intermináveis que iam
bater lá no chão, vixe,
nem me fale;
ruas de nuvens tremelicantes,
porres de vinho em telhados,
que se acorrentaram ao metrô para a interminável
ida da Sé à Barra Funda sob o efeito de vic vaporub
até que o barulho das rodas e das crianças os derrubassem
tremendo e deixando comentários sarcásticos no post de um
velhinho ateu, o cérebro todo esvaziado de inteligência
e errando na concordância sob a luz horrenda do zoológico,
que afundavam a noite inteira na luz submarina do O'Malley's
ou sentavam na frente da cerveja morna do Lone Star desolado,
que falavam continuamente setenta horas do parque ao bar
à Livraria Cultura ao Cineclube Unibanco à padaria gay,
batalhão perdido de conversadores platônicos saltando
pelas janelas da PUC até a lua,
falando gritando vomitando sussurrando fatos
e memórias e anedotas sobre Milton Friedman,
G.K.Chesterton, superduper,
intelectos inteiros stumblando imagens aleatórias de garotas indies
um pouco magras demais e tatuadas
e tiras de Calvin por sete dias e noites com olhos brilhando,
fazendo piada com o Henry Sobel caído na calçada na saída da Bella Paulista,
que andavam de lá pra cá na rodoviária pensando se deviam comprar
a Playboy com uma mulher troncha na capa por volta da meia-noite,
e entravam no ônibus para o Rio, não tendo partido coração algum,
que acendiam cigarros na parada de Itatiaia Itatiaia Itatiaia sacolejando
no asfalto em direção à noite cheia de idéias para posts,
idéias de idéias para posts, nunca usadas,
que estudavam Plotino Eric Voegelin Radamanto e telep
atia e Cardeal Newman porque o cosmos in-
stintivamente vibrava sob seus pés em Ribeirão Preto,
que só se achavam malucos quando o Guaíba
brilhava em êxtase sobrenatural e, vá lá,
um pouco gay,
que vagabundeavam famintos e tristes por Itanhaém
à procura de Paulo Salles ou sexo ou sopa de cebola,
que desapareceram nos vulcões de Araraquara sem deixar
nada pra trás a não ser a sombra de seus IPs,
e a lava e a cinza de todos os seus posts
reunidos num livro mostarda, num único livro mostarda,
queimado para sempre no incêndio
de Chicago.

Posted by Alexandre S. at April 18, 2007 08:31 PM
Comments

Até parece que tu também não é um doidão de msn =)

Posted by: Ronald at April 18, 2007 10:50 PM

É o nosso hino.

Posted by: Fileleno at April 18, 2007 10:56 PM

Heh, eu vi essa do Jack no Letterman.

Posted by: Lucas at April 18, 2007 11:16 PM

uma profissão de fé e ao mesmo tempo uma elegia. hehe. essa expressão "profissão de fé" é meio dull, né. me lembra um professor que eu tinha na faculdade, que era bem velho e que todos diziam que usava peruca.

Posted by: ludovico at April 18, 2007 11:45 PM

hahaha. mó bom (:

Posted by: andreis at April 19, 2007 01:21 AM

Roubarei, claro. Compreendi 76.35% das referências.

Posted by: Rafael Lima at April 19, 2007 02:59 AM

Ai, que beat isso.

Posted by: Alessandra at April 19, 2007 10:09 AM

Senhor da Glória.

Posted by: Badá at April 19, 2007 11:14 AM

(você mesmo não disse certa vez "nunca confie em quem chame blogueiro de senhor", ou algo assim?)

Ficou bom isso.

Posted by: Ed at April 19, 2007 12:04 PM

Lindo! Grande escritor! Vou tatuar isso no meu pau.

Posted by: Rafael Batata at April 19, 2007 12:43 PM

Nossa senhora, vou tatuar no meu pau também.

Posted by: nibelunga do cabelo duro at April 19, 2007 12:58 PM

incrível como um poeta consegue perscrutar as profundezas e os dilemas duma geração.

Posted by: rodrigo de lemos at April 19, 2007 01:13 PM

Roubarei, como o Rafael Lima. Captei uma percentagem bem menor que a dele, nas referências. Mas isso não importa.

O que me importa é minha tese de que alguns poemas, alguns autores, resistem à qualquer paródia, versão ou pastiche. A voz do Ginsberg é um negócio meio universal. Cara, ele ia gostar disso. Ia mesmo.

Ô Alexandre, se um dia eu escrever sobre minha tese, cê deixa eu usar um trecho da sua recriação do Uivo, como exemplo? Porque tô achando que tem muita coisa sua, também.

Posted by: Guga Schultze at April 19, 2007 02:24 PM

Entendi a jogada... agora qualquer pessoa, fazendo pesquisa sobre qualquer coisa no google, corre o risco- bom, aliás- de cair no seu blog e eventualmente até salvar a própria alma.

Tenho uma idéia: você poderia também escrever um post que falaria sobre "babaquice cibernética na contemporaneidade".Começaria falando sobre pessoas que, no lugar de mandar beijos ou abraços, mandam "bjundas", e então iria derivando para idiossincrasias(é assim que se escreve mesmo?)das mais variadas.

Mas anyway, poste mais vezes...você ganha bem para isso, afinal de contas.

Abraço

Posted by: Pedro at April 19, 2007 05:21 PM

parece a Legião dos Úrias, do Vinícius de Moraes(ui!)...bem legal though.

Posted by: eduardo at April 19, 2007 06:01 PM

hahaha Meu Jesus!

Posted by: Luciano at April 19, 2007 10:17 PM

Confesse que é uma poetisa que se veste à anos vinte e usa chapéu cloche. Já leu esta história do Faulkner? (carregue o meu nome) Como eu descobri a história e aquelas fotografias da Angelina Jolie ao mesmo tempo imagino a personagem principal interpretada por ela.

Posted by: Mariana at April 19, 2007 11:42 PM

As antenas da raça!

Posted by: Pedro Sette Câmara at April 20, 2007 12:29 AM

Olá.

Meu nome é Manoel Gonçalves, mas pode me chamar de Militão.


Quem está dormindo no lustre esta noite?

Posted by: Manoel Gonçalves at April 20, 2007 02:30 AM

não, não gostei.

Posted by: bruno at April 20, 2007 03:00 AM

Se você postar sério dizendo que é tudo piada. Admito, dessa vez, você me pegou
Toma um fósforo, vadio, acende teu cigarro.

Posted by: pedro at April 20, 2007 11:30 AM

voce est me precndo com o SALMON RUSDIE!
em vez de INDIA eh SAO PAULO, na cabeça!
GOSTEI....................

Posted by: TAMARIONA at April 20, 2007 02:34 PM

Você é genial!

Posted by: BRENA at April 20, 2007 07:56 PM

Devo pontificar: Militão (a.k.a. Manoel Gonçlves) só existe um. Todos os demais são meros farsantes (constrange-me declarar o óbvio). Jamais autorizei esses janotas assinarem comentários com o meu nome. Isso é um ultraje.

A propósito do UIVO, eu vi os melhores cus da minha geração destruídos por paus gigantescos (daí o uivo). Mas aquele foi um tempo de excessos. Graças a Deus os rapazes de hoje em dia têm mais juízo. São conservadores, por assim dizer. Não é mesmo, Alexandre?

Posted by: Militão at April 21, 2007 02:34 AM

Sem Ironia: é bem melhor que a fonte da paródia.

Posted by: Ricardo santos at April 21, 2007 11:22 AM

Uhn, não gostei.
Confuso.

Posted by: Emília at April 21, 2007 06:27 PM

O interessante foi que o Uivo foi, talvez, o primeiro trabalho literário a dar voz a uma geração. Acho que foi a primeira vez que a juventude americana deixou de ser um bando de cordeirinhos e discutiu a sua condição em um mundo tenso devido à guerra fria. Uivo é o título mais apropriado para esse poema desesperado, onde se faz um retrato do que estava acontecendo com aquela geração. Me parece que vc faz um retrato de uma geração apática e que está confortavelmente assistindo o mundo dar voltas e não está preocupada em conquistar ou mudar nada.
Grande texto! A propósito, é esse ano que Uivo completa 50 anos?
gd ab

Posted by: JULIO CESAR CORREA at April 22, 2007 12:24 PM

No doubt you've been drinking hard and smoking funny things!

Posted by: Pechista at April 25, 2007 02:53 PM

hahahaahahha, great fun! moloco!!!

Posted by: marcelo at May 5, 2007 11:41 PM
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