De vez em quando você encontra por aí uma pessoa muito sensata dizendo que você não devia desprezar um autor por causa das opiniões políticas dele, e blá blá blá. O que é verdade, claro, mas deixa de levar em conta que para que você realmente goste de um autor é preciso mais do que a simples admiração pelo talento dele. A admiração pelo talento é no fundo uma coisa morna. Você quer uma certa comunhão de gostos e desejos, não é? Você quer amar o sujeito. Você quer ser capaz de se imaginar morrendo ao lado dele numa batalha, como eu me imagino morrendo muito contente na batalha de Lepanto ao lado de G.K.Chesterton. Gosto dos livros de H.G.Wells, por exemplo, mas não me imagino morrendo ao lado dele na batalha de Lepanto (se ele fosse vivo durante a batalha de Lepanto, provavelmente torceria para o outro lado). Também não me imagino morrendo ao lado de Saramago, Garcia Marquez, Salman Rushdie, Norman Mailer, Virginia Woolf. Essas pessoas não quereriam defender as mesmas coisas que eu. Elas desprezam tudo o que eu amo, e eu desprezo tudo o que elas amam. Posso gostar de ler uma ou outra coisa dessas pessoas e reconhecer algum talento, como reconheceria o talento de espadachim dum soldado turco. Mas eu não só reconheço o talento de Chesterton, que imagino agora usando uma armadura redondinha de aço, com uma espada na mão, se curvando com dificuldade para passar a mão livre num lhasa apso ofegante, como queria morrer ao lado dele, Goddammit - e de Borges, e de Nabokov e de C.S.Lewis. Minhas prateleiras são um pequeno regimento de gordos, pernetas, cegos e alcoólatras que estariam ao meu lado quando o mundo se dividisse em dois, e que para todos os efeitos estão ao meu lado. Qualquer autor que falhe nesse teste é só interessantinho, ou hábil, ou algo assim.
Posted by Alexandre S. at April 22, 2007 03:57 PMAcho que não amo nenhum autor a ponto de morrer em batalha por ele. Talvez Júlio Verne, mas na hora acho que eu ia ficar com medo e fugir. E Saramago. Pra mim, Saramago finge o comunismo, como o pessoal do Opinião Popular, só pra parecer caricato, divertido. E dá certo. Nunca li nada ruim do Saramago. E talvez eu aceitasse perder um braço na batalha com/por ele, mas morrer não. Sou muito covarde.
Posted by: Gustavo at April 22, 2007 04:48 PMNão por ele, Gustavo - com ele. Abraço. :>)
Posted by: Alexandre S. at April 22, 2007 04:51 PMP.s.: Não sei nada sobre a vida e as opiniões de Júlio Verne; talvez seja mais fácil amá-lo assim.
Posted by: Gustavo at April 22, 2007 04:51 PMAlém disso tudo, eu acrescentaria o fator sexual, ou seja, eu me evolveria com certas escritoras? Eu, por exemplo, nunca iria para cama com Clarice Lispector. (Aqui, vou tentar esquecer a feiura de algumas delas e imaginar que todas são umas deusas de corpo) Eu provavelmente assassinaria Ayn Rand depois do sexo, se tivesse coragem para tal. São tantas escritoras que eu desprezo que a ala feminina da minha biblioteca é extremamente reduzida.
Posted by: Lefebvre at April 22, 2007 04:53 PMAh, nem com. Pera. Talvez Schopenhauer ou Stevenson? Mas tenho que refletir mais.
Abraço.
Posted by: Gustavo at April 22, 2007 04:56 PMEu gosto de Saramago, mas se um dia estivéssemos no mesmo exército ele seria o espião inimigo. Talvez eu pudesse amá-lo se ele estivesse no exército adversário - como um guerreiro ama o seu rival.
Abraços. :)
Posted by: frost at April 22, 2007 04:59 PMProblemas sérios. Eu não sou fã do Victor Hugo, mas morreria por suas obras. Não sei nada de Jonathan Swift, mas tudo o que li dele, amo também.
Tenho medo do Dostoiévski, morro de medo, sonho com ele entrando pela janela, bêbado, é um horror. Mas leio tudo dele ávida e desesperadamente.
Tenho ódio pessoal e mortal por Scott Fitzgerald, mas trato bem os livros dele, dos quais gosto muito. E da maioria dos autores eu não sei absolutamente nada, ainda bem, não sou dessas bisbilhoteiras, mas a verdade é que, exceto os realmente brilhantes, sempre acabo desprezando a obra de autores que não admiro.
Já eu prefiro estar só nas minhas paixões, quando todo mundo começa a gostar muito de alguma coisa que eu amo, aquela coisa perde um pouco a graça. A unanimidade é muito chata e o talento faz eu me apaixonar mesmo pelos que pensam da maneira mais odiosa. Olá.
Posted by: Elaine at April 22, 2007 05:06 PMEu lutaria contra o crime organizado, como um ensandecido policial federal, side by side com o Stout. Anyday.
Posted by: mauro at April 22, 2007 08:46 PMCom todo o respeito, Alexandre, post digno do Conselheiro. Poucas vezes vi algo tão acaciano.
Eu poderia trocar tabefes por livros; nunca morrer. Quanto aos autores, prefiro manter cautelosa distância.
Tenho ciúmes dos meus livros. Por exemplo, jamais emprestaria o meu "Morte a Crédito". Quanto ao Destouches, não me importa o que ele andou fazendo nos intervalos entre livro e outro. E não gostaria mesmo de estar ao seu lado (ou de qualquer outro), seja em batalha ou não.
Posted by: Militão at April 22, 2007 09:51 PMMas e quico, Militão?
Posted by: Alexandre S. at April 22, 2007 11:18 PMJá pensou morrer suado, maltrapilho, ao lado de um velho gordo? Pior, depois de lutar guerra de guerrilha? Desculpa Garcia Marquez, but you die alone.
Posted by: Lucas at April 23, 2007 12:52 AMQual Quico, o do Chaves?
Posted by: Militão at April 23, 2007 01:42 AMHmmm. Tive de recorrer aos seus arquivos pra entender a mensagem cifrada ("e quico"):
ASS says:
"As mulheres de hoje vivem dizendo 'E quico?' cada vez que queremos dizer alguma coisa minimamente interessante. Não sei bem o que quer dizer 'E quico', mas me disseram que é algo muito ofensivo. Como são revoltantes as mulheres que dizem 'E quico'! Eu seria banguela se perdesse um dente cada vez que uma mulher me disse isso, sério mesmo. Por trás de cada grande homem há uma mulher dizendo 'E quico?')"
Sei...
Posted by: Militão at April 23, 2007 03:40 AMEntraria numa peleia braba ao lado da Família Veríssimo.
Posted by: Maurício Kehrwald at April 23, 2007 10:30 AMPeraí: Saramago? Rushdie? Mailer? Esses eu gostaria que estivessem do outro lado, para treinar a pontaria.
Que tal pensar em Shaw, ou Wilde? Ou mesmo Graham Greene? (Será que para ser esquerdista e bom tem de ser inglês?)
Posted by: Burke at April 23, 2007 11:44 AMRapaz, isso dá um teste de personalidade e tanto. "Ao lado de quais autores você morreria na batalha?". Os meus: Stephen King, Graciliano Ramos, Kurt Vonnegut.
(sim, sou esquerdinha, diabo!)
Ahh, campo de batalha não sei, minha pontaria é horrorosa e eu sou muito desastrada. Mas eu com certeza consigo me imaginar, de uniforme branco e touquinha, cuidando carinhosamente dos ferimentos de guerra de Somerset Maugham, Hemingway, Scott Fitzgerald e sim, de Nabokov, de Borges, de C.S. Lewis.
Posted by: Alessandra at April 23, 2007 02:22 PMAliás, é deselegante da minha parte comentar que fiquei toda feliz e vermelha de ver meu nome aí na lista do lado? Se for, já comentei e pronto, desculpe. Mas eu cometo gafes o tempo todo mesmo.
Posted by: Alessandra at April 23, 2007 02:27 PMAcaciano, de fato; banal, de uma banalidade vulgar. Não há dia em que eu não escute alguém dizer que realmente gostar de um escritor é sentir-se disposto a morrer a seu lado. Quantas horas maçantes não passei no colégio ouvindo os CDFs discutirem quem morreria ao lado de quem? No meu bairro as escolas de inglês organizavam todo ano uma festa de "Saint Crispin's Day" para ver se animavam a molecada a querer morrer em batalha, ao lado de alguém. Aquela besta do Quico Tenkuiço adorava, não perdia uma, vivia falando em "happy few" isso, "band of brothers" aquilo, o idiota.
Clique no meu nome se não conhece a festa.
Posted by: Guilherme at April 23, 2007 03:03 PM:)
Posted by: FierN at April 23, 2007 08:26 PMNao morreria ao lado de Saramago ou Garcia Marquez, mas iria pra guerra ao lado deles. Nao exatamente ao lado: deixaria-os caminhar na frente, em caso de minas terrestres ou ataques surpresas. Nunca se sabe...
Posted by: F at April 24, 2007 04:21 AMVisita:
http://portugueses-irritantes.blogspot.com
e ajuda-nos a escolher quem é o português mais irritante para os seus compatriotas.
PARTICIPA!
Posted by: Portugueses Irritantes at April 24, 2007 05:25 AMÉ, Alexandre - no fim, é isso. Gosto inclui política. Abçs - Eduardo
Posted by: Eduardo Carvalho at April 24, 2007 08:48 AMDependendo do autor, poderiam acontecer alguns "acidentes de guerra", tipo um fogo amigo.
Posted by: Igor Taam at April 24, 2007 11:10 AMNão, não!
Apaga o que eu disse.
Eu iria pra guerra ao lado do Lucas (evangelista e autor do livro dos Atos dos Apóstolos), de Paulo e do autor do livro de Jó (a tradição atribui a autoria a Moisés; imagina que legal se for verdade).
Pronto. Ufa.
Posted by: Marco Aurélio at April 24, 2007 04:01 PMAs ordens do general William foram claras e inquestionáveis: devemos atacar, sem piedade, sem hesitação. Devemos assaltar contra nossos inimigos, mesmo que isto signifique nossa própria ruína. Grande general William, o Lanceiro. Não há pena mais poderosa que sua espada, que escreve com o sangue de seus inimigos.
A campanha teve início.
O coronel Arthur, principal líder, não dissera uma palavra sequer desde o princípio. Seu rosto era uma máscara mortificada. Limitava suas ordens a gestos e expressões faciais de dura eloqüência. Para ele aquela era uma missão sem sentido, e parecia ter certeza de que estávamos condenados. Sob seu comando, todos nós sentíamos o mesmo augúrio: algo terrível, a iminência de um destino inexorável e incompreensível. Nossas vidas não valiam nada para nós.
Durante as marchas, ninguém falava muito.
Mesmo o comandante Fritz, o mais alegre de todos os homens, não sentia sua habitual leveza de espírito. Escondia o riso por trás de seu grande bigode, e guardava uma única esperança: sucumbir gloriosamente com os grandes homens que tanto admirava, mesmo aqueles soldados que lhe eram inferiores em posição. Ainda assim, ele se esforçava para animar os homens e exortá-los a ter coragem e esperança de viver.
Após um dia de marcha incessante, estávamos todos abrigados em uma longa trincheira abandonada. Os homens se acomodavam como podiam no buraco de barro.
O major "Georgie", sentado de costas à parede escavada, piscava vigorosamente e seguia as linhas de um livro. Quando lhe diziam que ele precisava de óculos, ele sempre respondia, com solene seriedade, que o homem de um só olho é rei, como o Cíclope. Não é coincidência que o livro que ele estava lendo era uma versão homérica.
O capitão Emil estava sentado em um canto, os braços sobre os joelhos, quase em posição fetal, ele parecia examinar o nada que via em sua frente. Seus olhos revelavam o mais indiferente desespero. Ele notou meu olhar, e sorriu, com lucidez e ambigüidade, como se nada houvesse acontecido, como se o inferno fosse um pesadelo que se dissolve pela manhã, como se o riso fosse a única cura para o horror.
Samuel, o velho almirante, olhava para o céu, observando uma grande ave que insistia em rondar a área que habitávamos... Ele devia sentir saudades do mar. Observando-o, ele me parecia um animal fora de seu habitat, como um monstro delicado.
O oficial Vlad, nosso espião, estava brincando com uma mariposa que pousou na terra vermelha. Ele não parecia preocupado. Talvez por sua parcialidade: ele parecia sentir que tudo aquilo, toda a campanha, toda a história dos homens, todo o mundo, tudo aquilo não passava de um jogo absurdo e absolutamente divertido.
Os sargentos Edgar e Mark estavam discutindo com um fervor contido sobre o contraste de seus destinos. Edgar evocava o vapor de nossos cadáveres sob o sol dos abutres. Mark, indulgente, ria-se, dizendo que este era o destino de toda a humanidade, não somente o de nossos soldados.
O tenente Rudyard, imperioso e infantil, acendera uma fogueira e reunira em volta seus soldados para lhes contar histórias de batalhas.
Os veteranos soldados, Walt, Ralph e Henry D. conversavam entre si, em voz baixa. Eu não conseguia ouvir a conversa, mas Walt parecia um pouco excitado, como sempre. Consegui ouvir algumas palavras, como "bosque", "flores"... Parecia que falavam de alguma paisagem campestre avistada durante a marcha. Esses rapazes do campo... Sempre admirando a natureza. Perto deles, o jovem soldado Henry escutava a conversa, mas não dizia nada. Ele não se importava. Devia estar pensando em suas namoradas. "Henry Valentine", nós o chamávamos.
O soldado Henry Louis fumava seu charuto como quem suga o último hálito da vida. Praguejava e ria sozinho...
O jovem soldado Johnny, magro e pálido, enfermo... Mas, em seus olhos, quanta vitalidade, quanta força, quanta alma, quanta coragem e ardor de juventude... Cantava em silêncio, com uma voz tênue e graciosa. Era como o canto-de-cisne de um rouxinol...
O soldado Oscar, um elegante dândi, um perfeito cavalheiro entre os rudes soldados. Parecia mais um paladino do que um soldado. Discreto e digno, observava os jovens soldados.
Os soldados Paul e Arthur, amigos inseparáveis, compartilhavam uns goles de bebida com o soldado Charles... Falavam como que em outra língua, uma linguagem obscura de símbolos e códigos arcanos... "O mundo marcha", dizia o pequeno Arthur, o gigante Arthur.
Muitos outros soldados e oficiais poderiam ser descritos. Eu não cheguei a conhecer nem ao menos metade de todos eles...
Dormimos naquele buraco, raso como uma cova, profundo como o inferno.
Pela manhã, o coronel ordenou que o acampamento fosse desfeito, e que a marcha continuasse... A última marcha, de encontro ao inimigo.
Aquela marcha final foi a mais vigorosa de todos. Fatigados como estávamos, marchamos com passos de gigantes, com pernas de colossos.
O nosso destino é conhecido por todos os homens. Vivemos, matamos e morremos. Não buscávamos apenas a glória e a imortalidade.
Buscávamos o nosso destino.
***
SPARTAAA!
Posted by: Richard at April 24, 2007 05:52 PMAos que não clicaram nas assinaturas dos comentários do Alexandre: o façam, agora.
Posted by: Diego at April 24, 2007 09:52 PMtsc tsc, e eu pensando que morreria ao seu lado.
fico com a virginia.
que pena senhor soares silva.
:) eu gosto tanto de você.
mas vou continuar achando a sua coluna minimamente interessantinha, e frenquentar o meu café preferido só pra ler as últimas paginas da bravo de graça sem ter que comprar a revista toda (uma arrogancia só, pff... querem me dizer o que tenho que ler, ouvir, assistir, e pensar sobre o que li, vi, ouvi, assisti, pensei...)
Nicole: :>)
Posted by: Alexandre S. at April 25, 2007 11:18 AMAdoro discutir politica,essas coisas controvésas.
Posted by: Carol at May 9, 2007 05:38 PMEu estive para morrer ao pé do Osvaldo Lamborghini, mas depois apareceu o Carlos Quevedo
a dizer que ia namorar com uma miúda da Fac de Letras e eu resolvi que era melhor fazer tijolo
perto do cemitério onde Boltaño morresse brevemente. Como o fulano não morreu entretanto,
ia eu morrendo de medo com a leitura de alguns poemas do Mexia e alguma prosa do Peixoto.Sabes que mais, acabei por morrer ao pé do Roque Dalton
que está sepultado no mesmo talhão ( à nos amours )que o Nabokov o Pialat e a Nina Companez.
Descanso Em Paz
Posted by: manuel rialto at May 30, 2007 11:40 AMI mean...
THIS... IS... SPARTA!
Posted by: Richard at October 15, 2007 02:58 PMEu jamais lutaria ao seu lado, seu chatão!
VIVA O PT!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
seu facista-reacionário!!!
Posted by: Cara Normal at October 21, 2007 01:30 AM