April 25, 2007

Eu velhinho

Ando vendo palestras sobre o prolongamento da vida feitas pelo homem com o melhor nome do mundo, Aubrey de Grey, que tem uma aparência de cavalheiro vitoriano pela frente e de hippie imundo por trás. Ele acha que pessoas vivas hoje em dia podem chegar aos mil anos.

Acho o assunto interessante. Desde criança, por algum motivo, acredito que o auge da minha vida vai ser a velhice - que vou ser um velhinho bonitão, com o cabelo branco penteado pra trás, uma bengala com uma espada escondida dentro e um ar de Velho Mundo inteiramente ilusório, mas charmosinho. Saberei dançar tango, lutar esgrima, citar Homero e Musset. Quando mencionarem o nome de algumas mulheres da minha geração, suspirarei e manterei os olhos desfocados durante um ou dois minutos.

-Dizem que ela era uma mulher muito bonita, vovô. É verdade?
(Baixo os olhos e ponho a mão no peito, muito emocionado para falar.)

Monarquista, também, que já sou, mas monarquismo combina melhor com a velhice. "Ele foi amado por rainhas", dirão à minha passagem. "A Princesa Charlotte de Mônaco desgraçou-se por ele". Adotarei o costume de nunca escrever sobre coisas ruins, como se fosse tão óbvio que elas são ruins que não valesse a pena dizer isso em palavras, bastando uma breve careta (vou demorar um pouco pra aprender isso). Meu gosto terá sido tão aprimorado ao longo de décadas de seleção que se eu ler qualquer coisa pior do que Proust minhas orelhas soltarão jorros de sangue, e tombarei no chão gritando "Valei-me, que morre um bravo!". E meu estilo terá alcançado um estágio em que o simples ritmo de uma coluna de jornal minha fará com que mulheres caiam no chão do metrô incontrolavelmente esguichando female ejaculations em cima de senhorinhas.

É essa confiança de que de fato nos tornamos melhores com o tempo - aqueles de nós que não somos estúpidos - que faz com que eu me interesse pelas histórias que Robert Heinlein escreveu sobre Lazarus Long, ou que fique vendo esses documentários sobre o prolongamento da vida humana. A única coisa que me chateia é que, bom, como eles prometem manter o corpo da pessoa jovem, isso significa que a vida sexual da pessoa também vai se manter ativa, né?

E isso é chato, pára pra pensar. Quem foi o poeta latino que disse que estava contente de ter chegado aos oitenta porque finalmente, depois de uma vida inteira de escravidão, estava livre dos impulsos do próprio pinto? O que cientistas como Aubrey de Grey propõem é tornarmos a nossa escravidão perpétua. Nunca mais poderemos cantar

A7 D Dalt D6 A7+5 D6
How lovely to sit here in the shade

A7 D Dalt D6 A7+5 D6
With none of the woes of man and maid --

A7 D6 Cdim B7 Cdim Em7 G/B A7sus4 A7
I'm glad I'm not young an - y - more!

Ah, nunca mais! Ou poderemos, mas com lágrimas a nos caírem por sobre uma ereção de décadas. Esses cientistas não têm bom senso o suficiente para saber que o homem luta a vida toda para merecer a benção da impotência senil?

Se bem que, mesmo sem prolongamento algum da vida - well, se eu me conheço - atingindo os noventa anos de modo natural, com ereção ou sem, provavelmente vou viver me apaixonando por garotas de vinte (como Robert Graves, parece). Tenho sempre pena dos velhinhos que se apaixonam por mulheres jovens, ou que simplesmente vêem uma mulher jovem. Imagine um velhinho vendo Scarlett Johansson na tevê? Ou sendo o avô da amiga dela, recebendo Scarlett Johansson na sala? Ficando bem ereto para recebê-la, sorrindo todo galante? A completa impossibilidade de tudo? Você pode ver Scarlett Johansson e achar impossível ter alguma coisa com ela, mas não é realmente impossível - alguma chance você tem, não é? E isso torna a coisa suportável. Mas se for impossível? Se você é um velhinho?

E isso vai acontecer comigo, eu sei que vai. Me vejo fazendo cenas patéticas na cozinha da família quando minha neta trouxer uma amiga pra estudar em casa. Já vejo a cena toda.

A amiga aparecendo na cozinha, e eu fico todo empertigado, com a barba suja de leite, e logo começamos aquela paródia de flerte que certas jovens fazem com velhinhos, porque imaginam que eles estão cool about it, e eles não estão.

Um segundo antes estava reclamando de alguma coisa, mas agora sou todo sorriso. "Mas já vai tão cedo? Assim me parte o coração!", direi. "Ah, o senhor que partiu meu coração, seu Alexandre! Vou embora antes que eu faça uma loucura!" E a ouvirei dizer para a minha neta, enquanto saem para o jardim: "Seu avô é uma gracinha!" E olho para a parte de trás dos seus jeans, ou o que quer que as jovens usem em 2058, e quase que o meu olho de vidro salta pra fora.

Assim que ela sair minha fachada galante desmoronará junto com a minha postura, e terei um esgar realmente repugnante de luxúria senil. "Ai se eu pego essa vagabunda de jeito!" Minha família, chocada: "Ai, vovô, que feio!" A empregada rindo.

A essa altura estarei babando, tendo tiques de desejo desesperado, desesperado, a dentadura meio escapulida da boca, não mais uma gracinha de avô. "Se eu pego essa vagabunda de jeito ela vai ver o que é bom pra tosse". "Ai, vô. Que papelão, viu?"

Mas vejam a palestra de Aubrey de Grey, que é interessante.



TED Talks, Aubrey de Grey

Posted by Alexandre S. at 07:37 PM | Comments (45)

April 22, 2007

De vez em quando você

De vez em quando você encontra por aí uma pessoa muito sensata dizendo que você não devia desprezar um autor por causa das opiniões políticas dele, e blá blá blá. O que é verdade, claro, mas deixa de levar em conta que para que você realmente goste de um autor é preciso mais do que a simples admiração pelo talento dele. A admiração pelo talento é no fundo uma coisa morna. Você quer uma certa comunhão de gostos e desejos, não é? Você quer amar o sujeito. Você quer ser capaz de se imaginar morrendo ao lado dele numa batalha, como eu me imagino morrendo muito contente na batalha de Lepanto ao lado de G.K.Chesterton. Gosto dos livros de H.G.Wells, por exemplo, mas não me imagino morrendo ao lado dele na batalha de Lepanto (se ele fosse vivo durante a batalha de Lepanto, provavelmente torceria para o outro lado). Também não me imagino morrendo ao lado de Saramago, Garcia Marquez, Salman Rushdie, Norman Mailer, Virginia Woolf. Essas pessoas não quereriam defender as mesmas coisas que eu. Elas desprezam tudo o que eu amo, e eu desprezo tudo o que elas amam. Posso gostar de ler uma ou outra coisa dessas pessoas e reconhecer algum talento, como reconheceria o talento de espadachim dum soldado turco. Mas eu não só reconheço o talento de Chesterton, que imagino agora usando uma armadura redondinha de aço, com uma espada na mão, se curvando com dificuldade para passar a mão livre num lhasa apso ofegante, como queria morrer ao lado dele, Goddammit - e de Borges, e de Nabokov e de C.S.Lewis. Minhas prateleiras são um pequeno regimento de gordos, pernetas, cegos e alcoólatras que estariam ao meu lado quando o mundo se dividisse em dois, e que para todos os efeitos estão ao meu lado. Qualquer autor que falhe nesse teste é só interessantinho, ou hábil, ou algo assim.

Posted by Alexandre S. at 03:57 PM | Comments (34)

April 18, 2007

Uivo

para T.P.


Eu vi as melhores mentes da minha geração destruidas por
Cheetos, famintas histéricas nuas,
se arrastando pelas ruas de Moema de madrugada
procurando um lanchinho zangado,
blogueiros com cabeças de anjo ardendo pela velha e celestial
conexão estrelada a cabo na maquinaria da noite,
que todos desleixados e de olhos vazios sentavam
fumando na escuridão sobrenatural de
apartamentos sem água quente flutuando sobre cidades
contemplando My Humps do Black Eyed Peas no YouTube com um misto de desdém
e apreciação irônica pós-moderna e tal,
que desnudavam seus cérebros para o Céu e
viam anjos liberais da escola austríaca cambaleando em
telhados iluminados,
que passavam por universidades com olhos radiantes e uma jingadinha
alucinando Mato Grosso e tragédia no bandejão
entre os estudiosos da guerra de comida,
que foram expulsos de academias por postarem fotos de Bush com bigodinho de Hitler
e escreverem "cadmia" nas janelas do
crânio (e "né genteum"),
que se esconderam em quartos mal-barbeados de cueca, quei-
mando dinheiro em cestas de lixo e ouvindo
o Terror do Orkut através da parede,
que foram presos pela polícia em suas barbas públicas voltando de
Aparecida com um cinto de marijuana e talvez, quiçá, paçoca,
que beberam fogo em hotéis de tinta ou talvez só mojitos mesmo,
cada vez que Jack Bauer dizia "Dammit!" lá ia um mojito,
morte, ou transformaram seus torsos num
Purgatório noite após noite
com sonhos, com drogas, com posts falando mal do Che Guevara
(Che Gueivara), álcool e pingulim e bolas intermináveis que iam
bater lá no chão, vixe,
nem me fale;
ruas de nuvens tremelicantes,
porres de vinho em telhados,
que se acorrentaram ao metrô para a interminável
ida da Sé à Barra Funda sob o efeito de vic vaporub
até que o barulho das rodas e das crianças os derrubassem
tremendo e deixando comentários sarcásticos no post de um
velhinho ateu, o cérebro todo esvaziado de inteligência
e errando na concordância sob a luz horrenda do zoológico,
que afundavam a noite inteira na luz submarina do O'Malley's
ou sentavam na frente da cerveja morna do Lone Star desolado,
que falavam continuamente setenta horas do parque ao bar
à Livraria Cultura ao Cineclube Unibanco à padaria gay,
batalhão perdido de conversadores platônicos saltando
pelas janelas da PUC até a lua,
falando gritando vomitando sussurrando fatos
e memórias e anedotas sobre Milton Friedman,
G.K.Chesterton, superduper,
intelectos inteiros stumblando imagens aleatórias de garotas indies
um pouco magras demais e tatuadas
e tiras de Calvin por sete dias e noites com olhos brilhando,
fazendo piada com o Henry Sobel caído na calçada na saída da Bella Paulista,
que andavam de lá pra cá na rodoviária pensando se deviam comprar
a Playboy com uma mulher troncha na capa por volta da meia-noite,
e entravam no ônibus para o Rio, não tendo partido coração algum,
que acendiam cigarros na parada de Itatiaia Itatiaia Itatiaia sacolejando
no asfalto em direção à noite cheia de idéias para posts,
idéias de idéias para posts, nunca usadas,
que estudavam Plotino Eric Voegelin Radamanto e telep
atia e Cardeal Newman porque o cosmos in-
stintivamente vibrava sob seus pés em Ribeirão Preto,
que só se achavam malucos quando o Guaíba
brilhava em êxtase sobrenatural e, vá lá,
um pouco gay,
que vagabundeavam famintos e tristes por Itanhaém
à procura de Paulo Salles ou sexo ou sopa de cebola,
que desapareceram nos vulcões de Araraquara sem deixar
nada pra trás a não ser a sombra de seus IPs,
e a lava e a cinza de todos os seus posts
reunidos num livro mostarda, num único livro mostarda,
queimado para sempre no incêndio
de Chicago.

Posted by Alexandre S. at 08:31 PM | Comments (29)

April 17, 2007

Grande ator!

Não consigo ver um filme, especialmente se muito dramático, sem que uma voz na minha cabeça estrague tudo dizendo "Grande ator!" num tom de admiração imbecil.

Geralmente a voz diz isso quando o ator é só bonzinho (digamos John Cusack ficando comovido, ou Ray Liotta chorando; ou, nos momentos mais patéticos, até James Van Der Beek constrangido), e a câmera dá bem um close nele. A voz nunca é sarcástica, ou pelo menos não abertamente sarcástica.

"Grande ator!", ouço logo quando ia ficando emocionado - e o ator é tão evidentemete não-grande que o filme acabou para mim. "Grande atriz!" "Que grande atriz!". Ah, cale a boca, voz na minha cabeça. Eu sei que é só a Jennifer Garner.

Posted by Alexandre S. at 02:11 PM | Comments (15)

April 15, 2007

Lendas do Cinema, Parte 1: "MALICK, TERRENCE"

"Quando faz um filme, Terrence Malick fala com seus colaboradores através de imagens poéticas. Para Martin Sheen em "Badlands" (1973), ele disse: "Pense na sua arma como se fosse o pênis do seu pai." "Hein?", disse Sheen olhando com súbito desgosto para a arma na sua mão. "Como se fosse o pênis do seu pai", Malick repetiu. "Algo velho e combalido e talvez um pouco suado que requer a firmeza da sua mão para funcionar direito". Sheen ficou olhando a arma em silêncio durante vários segundos. "Segura você isso aí", Sheen disse entregando a arma para um assistente. "Eu vou para o meu trailer.'"

- o verbete "MALICK, TERRENCE" no Dictionary of Maverick Directors de John Badham e Craig Modderno.

Posted by Alexandre S. at 11:05 AM | Comments (11)

April 14, 2007

Um conselho

Se você for fazer uma série de oito sprints de 100 ms com intervalos de 30 seg. de descanso entre um e outro, não faça isso segurando uma garrafa de champanhe. Aprendi da pior maneira.

Posted by Alexandre S. at 10:46 AM | Comments (6)

April 08, 2007

So long ago her soul and mine entwined

Vá até 0:39 desse video (lá no finzinho) e me diga, pretty please, em que filme há uma cena em que aparece esse trecho da música. É um filme recente que vi dezenas de vezes e que deve passar na HBO ou algo assim. Não aguento mais ficar tentando lembrar que filme é. Ocean's Twelve? O quê? Qual? Que espécie de Páscoa vou passar se não conseguir me lembrar? Devo comer ovos de chocolate sem parar enquanto solto resmungos de frustração? (Incidentalmente, Cindy Lauper está tão cute com essa cinta-liga que fiquei com vontade de cortar o meu cabelo à moicano e bater nela com um graveto. Mas passou.)

Posted by Alexandre S. at 11:32 AM | Comments (17)

April 04, 2007

Chega! Estou bringing sexy back

eu3.gif

Eu na estréia da minha turnê mundial, "Ih, Caiu Suco de Caju na Legenda Aurea" - na qual leio meus melhores posts em voz alta (não, baixa) (não, espera, alta) acompanhado de uma trupe de vinte bailarinos fazendo minuetos e cheirando rapé e crucificando Madonna de novo.

Update, ou algo assim: minha sexiness foi embora (mas já volta, mandou oi) porque criei um perfil novo naquela porcaria e fiquei deprimido de ler tanto brasileiro de uma vez só. Não fico tão deprimido desde que ouvi "Yesterday" pela primeira vez aos cinco anos. Mas pelo menos descobri uma boa coisa no Orkut.

Ok, links:

* Perfeito.

* Bom texto sobre antiamericanismo na Alemanha.

* Video em 4 partes, Ira Glass on Storytelling.

* Cachorros voando em câmera lenta no YouTube.

* Ó o gordão que ficou magro. Muito motivacional, até joguei meu Nescau na pia. Eu gosto desse programa, e não só por Jillian Michaels - é divertido ver os gordo (tem que falar assim) subindo ladeira.

* Se bem que parece que leite achocolatado é melhor que Gatorade para quem fez exercício.

* Concordo com quase tudo neste post, mas sobre o detalhe das gerações: é verdade que não é fácil encontrar um homem de 45 anos, digamos, gostando de filmes ruins porque são ruins, falando que nem o Misto Eleazar e tal. É de fato um problema de geração, mas essa geração inclui a do Pedro: conheço muita gente de trinta e tantos que é assim. (Quase todos os meus amigos são assim. Eu não, para falar a verdade. Não entendo o culto de Misto Eleazar. Se alguém escreve saudozo perto de mim, com ou sem trema, eu suspiro, porque sou muito sublime.)

* The Hostile New Age Takeover of Yoga.

* Miss Pearls, ainda a desafio para um duelo na frente da máquina de bilhetes da estação da Étoile, então. Mas para ser honesto eu sei que perco. ;>)

* Alguns programas de rádio de Orson Welles (Dracula, Treasure Island, etc).

* "You want me to show you tough?" (1:33min)

* Eu vi isto umas dez vezes seguidas. Sim, sim, eu odeio quem a odeia.

* Um dos prazeres da plebe em blogs coletivos de video é comentar "Fake!" em baixo de cada maldito video postado, mas confesso que me ocorreu que este talvez fosse.

* Espera! Me lembrei dos videos do Ricky Jay. Você já deve ter visto Ricky Jay em alguns filmes, especialmente de David Mamet. Eu não sabia, mas ele é um especialista no uso de cartas como armas, o que lhe garante um espaço no meu coração metafórico. Veja este, este e este, pelo menos.

* Mas até pra mostrar uma criança fazendo parkour (não tem mãe esse menino) eles têm que colocar essas musiquinhas?

* Jesus Cristo.

* 300 Kitties e 300 versão PG (obrigado, Djoolz).

Posted by Alexandre S. at 11:17 AM | Comments (26)