March 25, 2007

No qual explico como me exercito dentro da "Britannia Illustrata" de Johannes Kip (1709)

Desde que vi Casino Royale fiquei todo empolgado pra fazer exercício porque queria ficar que nem Daniel Craig saindo do mar, só que com a cara menos amassada.

Todas as mulheres às quais confessei meu singelo sonho de menino riram com caridade. O que me prejudicava é que naquele momento, final do ano passado, eu estava na pior forma da minha vida e correspondia completamente à minha própria definição de cavalheiro: alguém que não consegue se abaixar sem gemer e ficar todo vermelho no rosto.

Claro que há cavalheiros ágeis, sempre houve - mas e a Barriga Civilizatória? Por que você acha que existem coletes? Por que o último botão deve ficar aberto? Acha que há uma Barriga de Tanque Civilizada no mundo?

Perder todas essas gramas de civilização abdominal, toda essa acumulação de vinho e jujuba, toda essa manifestação carnal de uma cultura que se estende ininterrupta por milhares de anos de almoços prolongados em quintas e cochilos sob parreiras, lentus in umbra, não seria fácil. Mas eu já tinha comprado a sunga branca de James Bond, dammit - e uma vez que nós Soares Silvas tomamos uma decisão, a decisão está tomada, pelo menos até a próxima soneca.

Fiquei algumas semanas pensando no exercício perfeito. Não sou dessas pessoas que odeiam academia (acabo de lembrar de um tornozelo bronzeado e tatuado de sol, subindo e descendo numa stair stepper à minha frente dez anos atrás), mas o problema das academias é ter que aguentar a música, que é tão alta que não adianta colocar o iPod no volume máximo que você continua ouvindo mesmo se cobrir as orelhas com as mãos e sair rolando no chão de angústia e dizendo "bléée blée bléé". Já pensei em criar uma academia de ginástica para pessoas não-retardadas, em que as pessoas se exercitariam ao som de Wagner ou Bizet e todas as telas mostrariam "Um Americano em Paris" sem parar, mas aí nenhuma mulher se matricularia achando que a academia era gay. E provavelmente seria, né?

Pensei em correr, o que eu fazia anos atrás em ruas tranquilas de paralelepípedos cobertos de flores de quaresmeiras; mas mudei para Moema e, guv'nor, as ruas aqui são incorríveis. São Paulo é incorrível, na verdade. Eu via na internet fotos de gente correndo em lugares okeydokey e uma lágrima saía dos olhos do meu espírito.

Então, isto é o que eu fiz: estudei e memorizei doze gravuras de Johannes Kip (1653 - 1722) e Leonard Knyff (1650 - 1721), dois artistas holandeses que saíram juntinhos e de mãos dadas saltitando pelos campos ingleses para desenhar casas de campo e depois juntaram as gravuras num livro chamado "Britannia Illustrata", de 1709. Estudei e memorizei essas gravuras com atenção de idiot savant. Não é para me gabar, porque isso me faz parecer maluco - claro que é para me gabar, não me importo de parecer maluco - mas desde os onze anos tenho o costume de fechar os olhos em algum ponto do dia e me visualizar em outros lugares: lugares que conheci, lugares cujas descrições li em livros, lugares completamente inventados. Uma vez lá dentro ando pelas ruas, falo com as pessoas, sento em bancos, almoço.

Meu exercício portanto é correr dentro das doze gravuras de Johannes Kip, de gravura em gravura, passando por mato e bracken e trilhas, enquanto meu corpo corre no mesmo lugar, de olhos fechados, dentro do meu quarto, de maneira que reconheço um pouco ridícula para sensibilidades furrecas e mujiques. Começo o trajeto pela casa de campo da família Aquino, no Paraíso, a cerca de cem quilômetros de uma cidade chamada Quaresmeiras Roxas:



Kip1Dundas.JPG



Escrevi sobre os Aquinos num livro chamado "Morte e Vida Celestina". Às vezes um deles está no portão se despedindo de uma visita e acena para mim. É verdade que às vezes altero o trajeto e corro pelo campo de pólo, ou dou um salto e caio no telhado. Saio pelo gramado, entre as fileiras de árvores, onde há uma leve subida; atravesso uma estradinha de cascalho e corro durante alguns minutos por uma floresta, indo sair na casa de J.M.Barrie:



KipBarrie2.JPG



Na outra ponta, onde faço o retorno, há uma fonte onde lavo o rosto. Depois ou volto correndo pelos campos de críquete e futebol, ou pela alameda central, dando a volta na casa de Barrie, subindo e descendo seus degraus da frente e dando um sprint pelo caminho de grama até cair no riacho e nadar um pouco. Depois pego a estrada e - ah, há um longo caminho, passando por um lago e um campo de golfe onde invariavelmente encontro P.G.Wodehouse; e saindo do campo de golfe chego na casa de Anthony Powell:



KipPowell3.JPG



Sempre entro correndo na casa dele (ele deixa), passo pela cozinha e uma sala e um hall, saio no jardim, passo pelas quadras de tênis e volto para a estrada, subindo um morro e assim indo, de casa em casa, até atingir a minha própria, a cinquenta quilômetros de Quaresmeiras Roxas, onde as ruas são cobertas de flores e jamais homem algum perguntou onde ficava a "toalete" (é "banheiro", jackass).

Tenho feito isso nas últimas três semanas. É verdade que corrida estacionária não cansa muito e o exercício vai ser melhor quando eu comprar uma bicicleta ergométrica. Mas é bem melhor que correr no mundo real, I tell you that much.

Outros livros dentro dos quais prentendo correr:

O Senhor dos Anéis
O Leão, a Bruxa e o Armário
Memórias de Brideshead
Encyclopedia Londinensis de 1796
Round and About Chatsworth
One Hundred English Gardens: The Best of the English Heritage Parks and Gardens Register
Great Villas of the Riviera

E aqui mais algumas gravuras da "Britannia Illustrata, or Views of Several of the Queens Palaces also of the Principal Seats of the Nobility and Gentry of Great Britain" de Johannes Kip.

Mas chega, chega. Agora vem aqui me fazer cafuné.

Posted by Alexandre S. at March 25, 2007 01:14 PM
Comments

correr dentro do senhor dos anéis não pode ser muito difícil. sempre achei que eles levam um absurdo de tempo para percorrer um caminho que poderia ser tão mais simples...

Posted by: Olivia at March 26, 2007 05:55 PM

Hhhmmm, Dr Lecter

Posted by: J. Alencar at March 26, 2007 07:04 PM

Haveria uma Quaresmeiras Roxas no Second Life?

Posted by: Roger Prado at March 26, 2007 07:10 PM

acho que podia correr morro acima naquele passeio espanhol que leva umas dez páginas em "o sol também se levanta". mas acho que tentaria manter o máximo de distância possível do hemingway, que devia ser um sujeito meio chato.

Posted by: alexandre r. at March 26, 2007 07:27 PM

Hmmm, depois você pode lançar o livro "Onde Está o Alexandre"? Claro que devidamente vestido com camisa listrada alvi-rubra e óculos a la Paulo Francis. Mas pensando bem, seria melhor um daqueles quadros do Bosch... Imagina os intelectuais cinquentões se reunindo na sala depois do sarau pra brincar de achar o Alexandre. Quanta viadagem...

Posted by: vicente azambuja at March 26, 2007 09:08 PM

Pois eu tentei the real thing e me dei mal.

Posted by: mauro at March 26, 2007 10:09 PM

Rapaz,

"Barriga Civilizatória" é a manifestação mais concreta de respeitabilidade que um homem pode ter. ;-)

ps: Um dos melhores textos. E olha que eu já li todo o blog

Grande abraço,

Posted by: Gabriel Trigueiro at March 27, 2007 09:51 AM

Ano passado, treinando o Triceps no Pulley, chegou alguém para me perguntar se eu era professor de educação física; o que me faz concluir que devo ter cara de idiota.
Como vi num fórum por aí, a vida começa aos 40 cm de braço. Acho que não chego lá.

Abraço,

Posted by: Igor at March 27, 2007 10:37 AM

Post muito engraçado. Fiquei bobo nessas gravuras de Kip & Knyff como se fossem tornozelos bronzeados numa stair stepper. =D

Post-commentatum: Logicamente, tua definição de cavalheiro não poderia ser uma definição. E há diferença entre banheiro e toalete; mais especificamente, num toalete não há como se banhar. =)

Cheers.

Posted by: Arnold at March 27, 2007 06:39 PM

Ah, e em my-mind's-ear o tornozelo dourado ouvia Debussy e Brahms. =P

Cheers².

Posted by: Arnold at March 27, 2007 06:48 PM

E tudo isso porque não gostar de academia virou chavão?
Tentei começar nesse semestre. Então, correndo na esteira, olhei pras pessoas correndo também e me senti um hamster; desde então parei de ir. Ainda preciso ir lá cancelar, fiz o plano trimestral.

Posted by: bruno at March 27, 2007 07:09 PM

É maravilhoso. Se alguma vez se cansar experimente correr com o primeiro video de ginástica da Cindy Crawford. Ela é muito simpática e the picture of youth.

Posted by: Mariana at March 27, 2007 09:49 PM

algumas mulheres adorariam uma academia com sonzinho refinado e que passasse por alguma mínima espécie de editoração. e não, não teriam nenhum problemas com gays.

Posted by: marcia at March 28, 2007 02:00 AM

Sim, é um bom lugar para cooper. Cooper é o nome do médico que inventou o cooper. Que imortalidade mais crétina, a do senhor Cooper!

Posted by: Jorge Nobre at March 28, 2007 09:03 AM

Ah, mulheres gostam de gays. Acham que são criaturinhas muito curiosas e coloridas, e acham graça e tudo. Talvez o lance da academia para não-retardados dê certo.

Posted by: Bloom at March 28, 2007 09:16 AM

Eu ia adorar uma academia para não-idiotas, quem sabe assim eu finalmente conseguiria frequentar uma.

Posted by: Alessandra at March 28, 2007 10:04 AM

Aqueles fones-cotonete, que se enfiam nos tímpanos, resolvem o problema da música ruim. Duro mesmo é resolver o problema dos espelhos. Eles te mostram que, por mais que você percorra toda a Terra Média, sua barriga continua no mesmo lugar. O anel, afinal, é útil para outra coisa, para sumir dali.

Posted by: Juliana Cunha at March 28, 2007 11:32 AM

Acho que o Shire ficaria bem, ao sul de Quaresmeiras Roxas. Repolhos e cenouras frescos não iam faltar.

Eu só teria problemas com os "hairy feet". Ainda mais agora, depois de pôr o tornozelo bronzeado na cabeça.

Posted by: Marcos Ribeiro at March 28, 2007 12:00 PM

Se nobres ingleses botassem apelidos, você seria o Forrest Gump de Tuxedo e - talvez - ainda apalparia um seio para o The Sun.

Só isso me faria trocar um tornozelo por um campo de críquete.

Oh dear!

Posted by: Leonardo at March 28, 2007 02:05 PM

Gostei da academia para não-retardados. Avise quando montar - se não virar gay, claro.

Posted by: Eduardo Carvalho at March 28, 2007 11:22 PM

Gostei da academia para não-retardados. Avise quando montar - se não virar gay, claro.

Posted by: Eduardo Carvalho at March 28, 2007 11:23 PM

Tem toda razão, Juliana Cunha, o problema sempre serão os espelhos.

Posted by: Renato at March 29, 2007 04:20 AM

Alexandre querido, secundo sobre a música demasiado alta e sugiro que se deixe de timidezes e peça/exija que a baixem.
Eu iria ao seu ginásio com música clássica e Gene Kelly sempre nos écrans - um sonho!

Posted by: Miucha at March 30, 2007 12:50 PM

Ótimo texto, ótima idéia. Mas não seria melhor trocar "todas essas gramas de civilização abdominal" por "todas esses gramas de civilização abdominal"?

Posted by: alvaro at March 30, 2007 04:18 PM

"todos esses gramas de civilização abdominal"

Posted by: alvaro at March 30, 2007 04:20 PM

Alexandre,

Tem texto seu na última Bravo! (a edição seguinte a dos musicais) ? Quero saber se compro ou não.

Grande abraço,

Posted by: Gabriel Trigueiro at March 31, 2007 01:57 PM

Oi, Alexandre

No meu nome, tem o Richard Burton lendo uma penca de poesias do John Donne. Ouvi tanto que sei quase todas de cor.

Do Burton lendo D. Thomas, tenho Poem in October; Elegy to His Father; Under milkwood; Lie Still, Sleep Becalmed; And Death Shall Have No Dominion e Winter's Tale. Os três primeiros são os que eu mais gosto.

Também tenho um arquivo de 30 e poucos segundos dele lendo a introdução do "War of the Worlds", parece que de um musical baseado no romance do Wells - "No one would have believed, in the last years of the 19th century, that human affairs were being watched from the timeless worlds of space", etc. É bem legal.

Se quiser te mando pelo YouSendit.

Posted by: Marcio at March 31, 2007 05:20 PM

Ola, Alexandre
Sou seu leitor "silenciosos, o seu blogue já consta dos meus blogues Amigos há algum tempo, mas este seu texto me faz parar e dizer algo pois eu tinha memso que o dizer: ESTÁ EXCELENTE!!!!
Será bem vindo ao BioTerra....caso ainda não o conheça.
João Saores

Posted by: Joao Soares at March 31, 2007 08:33 PM

O que lhe prejudica é atmosfera psicológica inglesa, gentleman. Os ingleses são tradicionalmente acomodados, exceto pelos marinheiros e comerciantes. Mude de ares. Que tal Esparta?

Posted by: reuchlin at March 31, 2007 09:44 PM

Talvez exista um mercado para a minha academia para não-retardados afinal. ;>)

Álvaro, é verdade - obrigado. Gabriel, tem sim - não sei como é a capa e não sei se já está nas bancas, mas tem. Marcio, clicarei. Já te mando aquela página de torrent que eu falei. João, vou clicar já no seu nome pra ver - e obrigado. Reuchlin, mas (pausa) this-is-Spartaaaaaaaaaaa! (oh, desculpe, não resisti. Passei uma semana gritando isso pela casa).

Posted by: Alexandre S. at April 1, 2007 09:37 PM

Vocês já devem ter visto, mas enfim: cliquem no meu nome.

Posted by: I use Encartaaaaa at April 1, 2007 09:40 PM

Opa! Já está nas bancas sim, Alexandre. Eis a capa:

http://www.bravonline.com.br/impressa.php?edit=su&numEd=116

Abração!

Posted by: Gabriel Trigueiro at April 1, 2007 11:28 PM

Mario Kartaaaaaaaaaaa!

Posted by: Jules at April 2, 2007 12:35 PM

WTF is Dharmaaaaaaaaa?

Posted by: Jules at April 2, 2007 12:41 PM

alexandre, eu e fer temos o mesmo problema com a academia: a maldita música. é de enlouquecer qualquer pessoa, que horror.

lembrei de você ontem, quando comecei a ler flush, da virginia woolf (afe, o nome dela parece um latido... que coisa bizarra nesse contexto :D). a história meiga de um cocker dourado, muito mimado e que dorme aos pés da dona... me lembrou do dundas :)

beijão!

Posted by: zel at April 3, 2007 08:56 PM

E o rock que toca na abertura no último filme do Bond, Alexandre, você gosta? "You Know My Name" do
Chris Cornell.

Posted by: Rui de Lucca at April 4, 2007 09:03 AM

Ouunnn, "eu via na internet fotos de gente correndo em lugares okeydokey e uma lágrima saía dos olhos do meu espírito", que post mais tchuco, céus. Perdoe meu palavreado vulgar (que faz com que eu evite comentar por aqui, para não agredir o autor) mas esse texto é de fazer a gente querer ronronar. Adorei. :o)

E que tipo de tela mental é essa? Tivesse eu essa capacidade de abstração, nem ia ligar dos meus quilinhos extras.

Posted by: eu, eu mesma, Rê at April 18, 2007 09:24 AM

Adorei a idéia da academia, mas ela não seria gay não. Hoje em dia, esse tipo de gay que gosta de música clássica e filmes americanos antigos está em extinção. Eles amam mesmo aquela batida horrorosa tunt-tunt-tunt, que é o que toca nas baladas deles. Está na cara que você não conhece nenhum gay moderno. ;-)

Posted by: Norma at April 25, 2007 01:13 AM

Moema é incorrível, mas tu tá do lado do Ibirapuera... larga a mão de ser preguiçoso!!!
(também moro em Moema)

Posted by: julia at April 29, 2007 08:41 PM

Acho melhor vc não correr dentro d´O Senhor dos Anéis não, é muito acidentado... é bem mais incorrível que Moema... (apesar que daria pra treinar outras modalidades de atletismo, tipo salto à distância, salto triplo, corrida com obstáculos etc)

Posted by: Julia at April 29, 2007 08:47 PM
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