Desde que vi Casino Royale fiquei todo empolgado pra fazer exercício porque queria ficar que nem Daniel Craig saindo do mar, só que com a cara menos amassada.
Todas as mulheres às quais confessei meu singelo sonho de menino riram com caridade. O que me prejudicava é que naquele momento, final do ano passado, eu estava na pior forma da minha vida e correspondia completamente à minha própria definição de cavalheiro: alguém que não consegue se abaixar sem gemer e ficar todo vermelho no rosto.
Claro que há cavalheiros ágeis, sempre houve - mas e a Barriga Civilizatória? Por que você acha que existem coletes? Por que o último botão deve ficar aberto? Acha que há uma Barriga de Tanque Civilizada no mundo?
Perder todas essas gramas de civilização abdominal, toda essa acumulação de vinho e jujuba, toda essa manifestação carnal de uma cultura que se estende ininterrupta por milhares de anos de almoços prolongados em quintas e cochilos sob parreiras, lentus in umbra, não seria fácil. Mas eu já tinha comprado a sunga branca de James Bond, dammit - e uma vez que nós Soares Silvas tomamos uma decisão, a decisão está tomada, pelo menos até a próxima soneca.
Fiquei algumas semanas pensando no exercício perfeito. Não sou dessas pessoas que odeiam academia (acabo de lembrar de um tornozelo bronzeado e tatuado de sol, subindo e descendo numa stair stepper à minha frente dez anos atrás), mas o problema das academias é ter que aguentar a música, que é tão alta que não adianta colocar o iPod no volume máximo que você continua ouvindo mesmo se cobrir as orelhas com as mãos e sair rolando no chão de angústia e dizendo "bléée blée bléé". Já pensei em criar uma academia de ginástica para pessoas não-retardadas, em que as pessoas se exercitariam ao som de Wagner ou Bizet e todas as telas mostrariam "Um Americano em Paris" sem parar, mas aí nenhuma mulher se matricularia achando que a academia era gay. E provavelmente seria, né?
Pensei em correr, o que eu fazia anos atrás em ruas tranquilas de paralelepípedos cobertos de flores de quaresmeiras; mas mudei para Moema e, guv'nor, as ruas aqui são incorríveis. São Paulo é incorrível, na verdade. Eu via na internet fotos de gente correndo em lugares okeydokey e uma lágrima saía dos olhos do meu espírito.
Então, isto é o que eu fiz: estudei e memorizei doze gravuras de Johannes Kip (1653 - 1722) e Leonard Knyff (1650 - 1721), dois artistas holandeses que saíram juntinhos e de mãos dadas saltitando pelos campos ingleses para desenhar casas de campo e depois juntaram as gravuras num livro chamado "Britannia Illustrata", de 1709. Estudei e memorizei essas gravuras com atenção de idiot savant. Não é para me gabar, porque isso me faz parecer maluco - claro que é para me gabar, não me importo de parecer maluco - mas desde os onze anos tenho o costume de fechar os olhos em algum ponto do dia e me visualizar em outros lugares: lugares que conheci, lugares cujas descrições li em livros, lugares completamente inventados. Uma vez lá dentro ando pelas ruas, falo com as pessoas, sento em bancos, almoço.
Meu exercício portanto é correr dentro das doze gravuras de Johannes Kip, de gravura em gravura, passando por mato e bracken e trilhas, enquanto meu corpo corre no mesmo lugar, de olhos fechados, dentro do meu quarto, de maneira que reconheço um pouco ridícula para sensibilidades furrecas e mujiques. Começo o trajeto pela casa de campo da família Aquino, no Paraíso, a cerca de cem quilômetros de uma cidade chamada Quaresmeiras Roxas:
Escrevi sobre os Aquinos num livro chamado "Morte e Vida Celestina". Às vezes um deles está no portão se despedindo de uma visita e acena para mim. É verdade que às vezes altero o trajeto e corro pelo campo de pólo, ou dou um salto e caio no telhado. Saio pelo gramado, entre as fileiras de árvores, onde há uma leve subida; atravesso uma estradinha de cascalho e corro durante alguns minutos por uma floresta, indo sair na casa de J.M.Barrie:
Na outra ponta, onde faço o retorno, há uma fonte onde lavo o rosto. Depois ou volto correndo pelos campos de críquete e futebol, ou pela alameda central, dando a volta na casa de Barrie, subindo e descendo seus degraus da frente e dando um sprint pelo caminho de grama até cair no riacho e nadar um pouco. Depois pego a estrada e - ah, há um longo caminho, passando por um lago e um campo de golfe onde invariavelmente encontro P.G.Wodehouse; e saindo do campo de golfe chego na casa de Anthony Powell:
Sempre entro correndo na casa dele (ele deixa), passo pela cozinha e uma sala e um hall, saio no jardim, passo pelas quadras de tênis e volto para a estrada, subindo um morro e assim indo, de casa em casa, até atingir a minha própria, a cinquenta quilômetros de Quaresmeiras Roxas, onde as ruas são cobertas de flores e jamais homem algum perguntou onde ficava a "toalete" (é "banheiro", jackass).
Tenho feito isso nas últimas três semanas. É verdade que corrida estacionária não cansa muito e o exercício vai ser melhor quando eu comprar uma bicicleta ergométrica. Mas é bem melhor que correr no mundo real, I tell you that much.
Outros livros dentro dos quais prentendo correr:
O Senhor dos Anéis
O Leão, a Bruxa e o Armário
Memórias de Brideshead
Encyclopedia Londinensis de 1796
Round and About Chatsworth
One Hundred English Gardens: The Best of the English Heritage Parks and Gardens Register
Great Villas of the Riviera
E aqui mais algumas gravuras da "Britannia Illustrata, or Views of Several of the Queens Palaces also of the Principal Seats of the Nobility and Gentry of Great Britain" de Johannes Kip.
Mas chega, chega. Agora vem aqui me fazer cafuné.
Tenho que dizer, falei ontem para uma platéia que me parecia de retardados. As exceções sentaram no fundo, e amigos do lado de fora grudaram os narizes no vidro.
Mas as mulheres, sobretudo. Eu dizia algo e depois olhava os rostos, que pareciam emitir tanta inteligência quanto uma fileira de espantalhos feitos de sabugos de milho nos quais alguém tivesse colocado roupas dos anos 20 e oclinhos.
O que há com as blogueiras que se vestem como se estivessem nos anos 20? Ficam só parecendo malucas. Não malucas num bom sentido – malucas no sentido eu-amo-Pagu-de-paixão-tenho-quarenta-gatos-viva-Clarice! Tenho medo de ler os blogs delas.
Acham que gosto de reclamar? Gosto muito, mas de vez em quando queria poder elogiar alguém. Ontem me sentei à direita de uma escritora com a qual eu queria ser gentil como seria com uma senhora tendo dificuldade em sair do ônibus.
Eu queria, mas a gentileza faz mal à literatura. De gentileza em gentileza estamos destruindo tudo. Se ficarmos protegendo todas as senhoras que escrevem livros a literatura brasileira será, em cinquenta anos, uma biblioteca inteira de senhorinhas que escrevem sobre suas experiências sexuais.
Não peço mais nada dos críticos além da hombridade de dizer: “tia, por favor, não escreve “pau” que eu fico constrangido”.
Da primeira vez que vi um pornógrafo mostrar uma foto de bunda ao lado de uma foto de corpo decapitado na guerra, perguntando sabidamente qual eu achava mais indecente, meu cabelo se arrepiou de espanto fazendo com que o meu chapéu de Sherlock Holmes batesse no lustre. Mas isso foi muitos anos atrás, e hoje quando ouço o mesmo velho argumento, bocejo pernosticamente.
Ora, ainda ontem vi, num blog, a foto P&B de um cavalheiro só de botas cujo pênis estava pousado numa gilhotina em miniatura - e esse cavalheiro, curvado para a frente, lambia uma rosa que saía da orelha de uma mulher careca e gorda, que ria desdentadamente e ralava queijo parmesão em cima do peito de um velho flácido deitado no chão com um prendedor de roupa em cada mamilo e uma cópia do Diário de Anne Frank cobrindo o pênis.
Ao lado dessa foto havia outra de um corpo decapitado num matinho, que parecia muito bonitinha por comparação, como um coelhinho bebendo leite num pires. E o blogueiro ainda perguntava qual das duas era mais indecente. Certos tipos de pornografia têm o efeito de fazer a guerra parecer sadia.