
Em 1988 o escritor inglês A.N.Wilson, autor de biografias de C.S.Lewis e Tolstói, apareceu no programa francês Apostrophes de Bernard Pivot para promover a sua nova biografia de Hemingway, então recentemente publicada pela Faber & Faber. O que se segue é uma transcrição de cinco minutos desse programa, publicada recentemente nas memórias de Bernard Pivot ("Quem é Você, Bernard Pivot?").
Pivot: E temos também aqui o escritor inglês A.N.Wilson, que acaba de receber o prêmio Whitbread pela sua majestosa biografia de Tolstói publicada na França pela Gallimard. Wilson vem de publicar na Inglaterra uma biografia de 600 páginas sobre Ernest Hemingway chamada "Minha Vida com Papa". Boa noite, Mr.Wilson.
Wilson: Boa noite.
Pivot: Uma das coisas que me chamam a atenção neste livro é que a biografia é de Hemingway mas a foto na capa é de Cary Grant... É curioso.
Wilson: Hahaha. Acho que não.
Pivot (mostrando a capa): Este não é Cary Grant?
Wilson (rindo): Acho que eu saberia se fosse.
Pivot: Bernard-Henry Lévy, este não é Cary Grant?
Lévy: Espantoso.
Pivot: Bom, depois voltamos a isso. Mr.Wilson, pode contar um pouco como foi o processo de pesquisa que levou a este livro de 600, não, 789 páginas com índice onomástico? Como o senhor conheceu Ernest Hemingway?
Wilson: Bem, em 81 eu estava num hotel em Montego Bay, na Jamaica, descansando dos cinco anos que levei para pesquisar e escrever meu romance "Who was Oswald Fish?"...
Pivot: Publicado na França pela Hachette.
Wilson: Sim. E um dia eu estava na praia lendo (inaudível) quando um homem sentou na areia à minha direita e começou a tomar sol, e fui tomado pela suspeita imediata de que se tratava de Ernest Hemingway. Ele não se parecia com Hemingway, mas achei que era porque não tinha barba. Então não resisti, me virei e perguntei a ele, "Desculpe, mas você por acaso é o Hemingway?". Ele riu bastante e disse, "Tudo bem, por quê não?".
Lévy: Inacreditável. Hemingway morreu em 61.
Wilson: Bem, você me desculpe, mas eu acho que saberia se estivesse falando com um morto. (risos) Inclusive logo chegaram amigos dele e à medida em que eles se sentavam na areia ele piscava para eles e dizia, "Eu sou Hemingway. Este é Mr.Wilson".
Pivot (mostrando a capa do livro): Era o homem nesta foto?
Wilson: Claro. Hemingway.
Pivot: Fastástico. E a partir daí vocês começaram uma amizade...
Wilson: Uma grande amizade. Ele começou a contar os detalhes da sua vida naquele mesmo dia. Fomos passear no barco dele, um pequeno catamarã chamado "Eu Amo Fitzgerald" - o nome ainda não estava escrito na amurada mas ele me disse que o barco se chamava assim mesmo - e enquanto bebíamos gin ele me contou tudo, tudo.
Pivot: Por exemplo?
Wilson: Oh, o sexo com Indira Gandhi, a briga com Ava Gardner - segundo Hemingway a melhor peso-médio da época. Aparentemente os dois brigaram rolando pela escada da catedral de Chartres e Hemingway sofreu fratura peniana. No momento mais terrível da minha experiência com ele, e certamente no momento mais terrível do livro, ele se inclina para mim e diz que está pensando em se matar por causa dessa fratura peniana sofrida numa briga com Ava Gardner nos degraus da catedral de Chartres.
Pivot: Deve ter sido muito penoso.
Wilson: Eu supliquei que ele não fizesse isso, que não se matasse, mas os olhos dele se encheram de lágrimas e ele se virou para o outro lado, e eu só via as costas dele se sacudindo e sua voz entrecortada de soluços dizendo "Sou apenas um meio-homem". Foi um dos momentos mais cheios de tensão da minha vida, de horror, de angústia. Eu me pus de joelhos no deque e pedi mil vezes que ele não fizesse isso. Depois de algum tempo ele secou as lágrimas, sorriu e disse "Tudo bem".
Pivot: E depois?
Wilson: Depois disso passei semanas, não, meses o perseguindo em hotéis da Europa, em Los Angeles, onde fosse preciso. (Um detalhe curioso é que ele se registrava como Archibald Leach para fugir dos paparazzi.) Eu queria saber tudo, todos os detalhes. Ele contava histórias durante horas. Está tudo no livro. As experiências psíquicas, o chapéu de alumínio, a conversão final ao judaísmo. Nenhuma outra biografia dele fala disso.
Pivot: Há uma passagem curiosa envolvendo Dorothy Parker...
Wilson: Sim. Hemingway me apresentou a Dorothy Parker num hotel em Mônaco em 82. Pessoalmente ela era muito diferente das fotos às quais eu estava acostumado - bem mais bonita, e na verdade muito parecida com Grace Kelly. Lembro que ela veio vindo e ele disse "Dorothy, este é Wilson". E ela disse, "Hein?", e ele repetiu mais alto, "Dorothy, este é Wilson. Wilson, Dorothy Parker". Ela riu. Uma das mulheres mais simpáticas que conheci. Foi ela que me contou do problema de Hemingway com lepra. Quando ele saiu para pegar drinks ela me disse que Hemingway havia pegado lepra de Dorothy Lamour em Hollywood, e que uma de suas nádegas estava inteiramente carcomida.
Pivot: É terrível isso.
Wilson: Sim.
Lévy: Como foi a reação dele quando ele soube que você ia publicar esse livro?
Wilson: Curiosamente, num derterminado momento ele me pediu para não fazer isso. Eu estava em Londres e recebi o telefonema dele. E você sabe aquela voz típica de Hemingway: meio cockney, meio aristocrata da Nova Inglaterra. "Olá, Wilson! Você não vai publicar aquela besteirada, vai?" Esse era o jeito carinhoso com que ele se referia ao livro. Ele tinha medo que o livro fosse prejudicar a minha reputação porque ninguém ia acreditar naquelas revelações espantosas todas. Mas eu disse a ele que ficasse sossegado.
Pivot: E como o livro tem sido recebido na Inglaterra e nos Estados Unidos? Parece que está causando uma certa polêmica...
Wilson: Bom, Michiko Kakutani elogiou muito o rigor da minha pesquisa. Mas é verdade, algumas pessoas insistem que se trata de Cary Grant na capa e nas fotos internas. Que posso dizer? Aparentemente algumas pessoas nunca viram uma foto de Hemingway... Susan Sontag achou algumas das histórias absurdas, mas terminou a resenha com as palavras que aparecem na contracapa: "Indescritível. Você tem que ler para acreditar." E confesso que isso me deixou bastante feliz.
(Extraído de "Bernard Pivot, Qui Êtes-Vous?", ed.Branlette, 415 pgs, com prefácio de Érik Orsenna e organização de Patrick Modiano e Tabitha Cash. 22 Euros.)
Posted by Alexandre S. at January 27, 2007 04:42 PMMuito bom! Ri alto várias vezes.
Posted by: Ieda at January 27, 2007 06:35 PME eu também!
Posted by: Pedro Sette Câmara at January 27, 2007 08:04 PMKiller interview
Unbeknownst to my
Disgracefully
Ordinary person.
So much for
A cool Hemingway.
Still like the Betjeman better.
So long.
O caso da "fratura peniana" me lembrou a personagem dele em O Sol também se Levanta.
Posted by: Ed at January 28, 2007 11:09 AMHahaha! Hilário! Você tem que publicar uma coletânea só sua.
Posted by: Igor Taam at January 28, 2007 05:04 PMAqui:
www.guardafiscal.blogspot.com
Essa é uma vantagem que Wilson tem: ele sabe se a pessoa com quem ele fala está viva ou morta. Uma vez eu falei com um morto e, na hora, não me dei conta disso. Hemingway tinha mesmo aquele furinho no queixo, inconfundível. Toda a obra dele foi escrita com a mão esquerda no queixo e com o polegar coçando o furinho. De vez em quando ele trocava de mão e os resultados eram catastróficos nos romances.
Posted by: Guga Schultze at January 29, 2007 11:35 AMcacete. isso é sensancional.
Posted by: pedro at January 29, 2007 12:10 PMparece mesmo o hemingway. dizem que ele dava nomes falsos quando se internava para tomar sessões de eletrochoque. Vai ver que ele não se suicidui. e que o wilson realmente o viu.
Posted by: Caiocito at January 29, 2007 03:15 PMA Editora é espanhola, não é?
Posted by: João Carvalho Fernandes at January 30, 2007 12:20 AMe além de tudo, talvez a carreira de grant ganhe uma guinada sensacional com a publicidade gerada pela capa - e pelas fotos internas, se muita gente abrir o livro. muito melhor do que voltar com um talk show, eu presumo.
Posted by: leonard goepp at January 30, 2007 03:06 AMComo diria o pe. Quevedo: isto non ecziste!
Posted by: chiuso at January 30, 2007 04:22 AMUm dica no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=pZXRPFeP_gk
Posted by: fernando at January 30, 2007 12:49 PMUma dica: http://www.youtube.com/watch?v=pZXRPFeP_gk
Posted by: fernando at January 30, 2007 12:50 PMBolas, que atraente que era o Hemingway.
Posted by: Mariana at January 30, 2007 10:54 PMDesculpem, eu não resisto. Caiocito tem razão: Hemingway se internava com nomes falsos para sessões de eletrochoque, na clínica do dr. Ming, um famoso psiquiatra turco. Um dos nomes usados era Jimmy Stewart (como a dica do Fernando aí revela). Bem, o dr. Ming tinha um enfermeiro chinês que tinha que explicar sempre, pra todo mundo, apontando pro doutor: "Not me! He, Ming!" Aos poucos o doutor virou dr. Heming e foi ficando insano. Mal o pobre Jimmy entrava na clínica, já levava um choque com o doutor berrando na sua orelha: "It's the Heming way!" Quando finalmente conseguia alta, Jimmy já era outra pessoa.
Posted by: Guga Schultze at January 31, 2007 01:37 AMI am trying to contact a Sandra Steeves, originally from Nova Scotia. Daughter of Jean Knickle Steeves. May be living in Ontario presently.
Posted by: Kira at January 31, 2007 05:25 PMHello. Your site is very good.I like what i can find your site.I say to all my friends about your site.Very interesting and informative site.Thanks!
Posted by: Grace at January 31, 2007 05:26 PMo artista interage com o seu publicuzinho
Posted by: tony silba at February 22, 2007 11:24 PM