Meu problema com alguns escritores é o mesmo que eu tinha quando era criança e ficava na sala de jantar ouvindo a conversa das minhas tias. Minhas tias não são más, minhas tias não são burras - não, não - mas eu não podia suportar uma conversa sobre coisas reais (dinheiro e emprego e doença) por mais do que dez segundos. Assim que possível ia para o meu quarto, onde dizia Jesus! e me ocupava de coisas mais interessantes.
Mas alguns escritores ou gostam muito da conversa das tias e ficam na mesa durante horas, ou se enchem e vão embora também, mas assim que chegam nos quartos pegam um caderno e escrevem justamente sobre as tias e as conversas delas. Escrevem com desprezo, porque odiaram a conversa, se sentem superiores e tal, como eu, mas não lhes passa pela cabeça escrever sobre outra coisa qualquer. Não escapam nunca, nunca. Mas não vale a pena sair da sala de jantar para ficar na sala de jantar. Se for sair, sai mesmo.
Digo, eu estava relendo "O Pai Goriot" hoje de manhã e todos no livro estavam discutindo as dívidas da filha do pai Goriot e as piadas estúpidas de Vautrin e da sra.Vauquer e as inanidades de Poiret, e acima de tudo lá estava Balzac muito satisfeito com aquilo tudo e com aquela pensão sebenta que ele me fez imaginar em todos os horrendos detalhes. Já gostei muito desse livro e em outra ocasião posso voltar a gostar muito dele, talvez até hoje de noite; mas hoje de manhã me enchi. E depois peguei pra ler o último conto de "Nine Stories" de Salinger e lá estava um molequinho sentado num deque, todo interessado em Deus e nos Vedas, e que alívio, que alívio de finalmente ter escapado da conversa das minhas tias. Amém.
Posted by Alexandre S. at January 24, 2007 05:24 PMSempre li e me diverti com seu blog, meu caro, mas essa foi a primeira vez em que me senti um kindred spirit.
Posted by: Pedro Sette Câmara at January 24, 2007 06:46 PMMinha tia é má. Por isso, não tenho a opção de ouvir a conversa chata dela na sala. Supro isso lendo blogues políticos, de vez em quando.
Posted by: mauro at January 24, 2007 06:51 PMoooo, that makes an awful lot of sense.
foi quase um momento de iluminação.
eu nunca consegui entender de verdade esses escritores dizendo que tiram idéias da conversa de comadres. vá lá ver beleza em capim nascendo na sarjeta da av. paulista (com uns ácidos, uh!), mas conversa de comadre?
Posted by: Olivia at January 24, 2007 07:46 PMSpot on, spot on.
Posted by: Marcio at January 24, 2007 10:15 PMTenho certeza de que isso de gostar mais do Salinger que do Balzac passa logo.
Posted by: Burke at January 25, 2007 12:21 AMCamilo Castelo Branco concorda no essencial, mas discorda na parte do Balzac:
"Nos romances todas as crises se explicam, menos a crise ignóbil da falta de dinheiro. Entendem os novelistas que a matéria é baixa e plebéia. O estilo vai de má vontade para coisas rasas. Balzac fala muito em dinheiro; mas dinheiro a milhões. Não conheço, nos cinqüenta livros que tenho dele, um galã num entreacto da sua tragédia a cismar no modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se desembarace das redes que um usurário lhe lança, desde a casa do juiz de paz a todas as esquinas, donde o assaltam o capital e juro de oitenta por cento. Disto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem sabem eles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o herói se encolhe nas proporções destes heròizinhos de botequim, de quem o leitor dinheiroso foge por instinto, e o outro foge também, porque não tem que fazer com ele. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu coração o confesso. Não é bonito deixar a gente vulgarizar-se o seu herói a ponto de pensar na falta de dinheiro [...]"
Posted by: Eduardo Mohallem at January 25, 2007 03:01 AMNão sou nem espírita nem espírito, nada disso. Talvez só espirituoso. E discordando do Burke aí em cima, eu acho que a questão não é "gostar mais" de Salinger ou Balzac, são autores muito distintos, de gerações igualmente distintas. A porfia acontece quando um leitor do sec.xxi quer colocar ambos na cabeça duma só vez - o que é bem comum e recomendável, creio, pois lhe porta de alguma inteligência e senso crítico. Ora, eu já lí Salinger para aliviar minha mente de Platão.
Posted by: Ed at January 25, 2007 11:21 AMBalzac? Não li e não gostei.
Posted by: Fabrício at January 25, 2007 11:39 AMNove Histórias é tão infinitamente superior ao Pai Goriot que fica difícil comentar. Pobre Balzac, gordo e sebento, tentando desvendar a natureza humana (sic) e confundindo cocozim de passarim com fina iguaria.
Também não sou um leitor dinheiroso, de forma que não entendi o que que o Mohallem quis dizer com a citação do Camilo Castelo Branco que, depois de ler cinquenta livros do Balzac, escreve balzaquianamente sem dizer coisa com coisa.
E aquele seu tio funcionário público que só sabe falar de mulher e futebol? Ah, desculpe, você não está falando de literatura brasileira.
Posted by: jorge nobre at January 25, 2007 11:59 AMOlá Alexandre,
Eu acho coincidências um pouco embaraçosas, mas tenho que relatar um acontecimento de ontem.
Voltava para casa, acho que na Al. Jau, perto da Bela Cintra, e passou duas mulheres, uma bonita e uma feia. A bonita gesticulava, sorria e em seguida fechava a cara, fazia o maior esforço possível para explicar algo de completo mundano. Eu me apoiei na parede para não dormir. Precisa de tanto? Diga logo: o jardineiro não veio. Ou, a empregada me rouba. Ou, a minha cunhada mente sem pudor.
Não é a toa que em festas familiares eu sempre acabou brincando com as crianças.
Posted by: Lucas at January 25, 2007 02:00 PMAlô, Schultze.
Camilo (quanta intimidade) também não gostava dos assuntos menores em seus romances. E acaba por defender Balzac, já que a grana ali era alta, e por isso o assunto não seria tão prosaico.
Agora, uma enquete: qual o romance mais conversa de tia que vocês já leram? Penso em "Os ratos", de Dyonelio Machado, mas tenho certeza de que há melhores representantes do estilo. Talvez os tenha esquecido.
Posted by: Eduardo Mohallem at January 26, 2007 01:37 AMsalinger é mestre.
Posted by: mairena at January 26, 2007 02:40 AMMachado de Assis (tia inteligente). Nelson Rodrigues (tia má). Jorge Amado(tia bonzinha). Dalton Trevisan (Tia Neurastênica). Cecília Meireles (tia gorda). Lya Luft (tia burra). Freud (tia maníaca depressiva bipolar). Bruna Surfistinha (tia descolada). Garcia Marquez (tia-mãe) . Fábio Junior. (Paai...)
Posted by: Caiocito at January 27, 2007 11:06 AMEu só quero dizer que já ouvi um menino dizer que fez uma bicicleta com a lata de atum da sua tia. Além disso também estou vendendo um fusca. Contactar o help-desk!
Posted by: Paulo at January 27, 2007 02:40 PMeu não conhecia seu texto e seu blog. gostei muito! curiosamente escrevi sobre uma tia, dia desses. elas são fonte de inspiração - ou de chateação. qualquer dia dê uma lida mauriciopalhano@blogspot.com
um abraço
ps: ficou faltando tb no post do caicito, o cortázar (tia fóbica)...
Posted by: mauricio at January 31, 2007 09:40 AMOi Alexandre,
Eu resolvi escrever aqui, num post mais antiguinho, porque a idéia era que só você visse este recado mesmo... É que eu gosto tanto do seu blog que passei a fazer um, seguindo o conselho de que é uma das coisas mais divertidas, e tem sido mesmo... Chama-se http://crisisorientedlan.blogspot.com/ Se um dia estiver a toa e quiser me visitar...
Posted by: Elaine at February 11, 2007 01:29 PMEntrei por acaso e me amarei.
Posted by: maria olimpia alves de melo at October 25, 2007 07:21 PM