(Desenho de Ben Levin.)
E na Atlântico que chega às bancas hoje em Portugal há um texto meu buscando pateticamente polêmica fácil. E na Bravo deste mês (janeiro) também tem um ensaio meu, de duas páginas. Na de fevereiro vai ter outro menorzinho.
Mas o que eu queria mesmo era dar o link do podcast do Diogo Mainardi com Ruy Goiaba. (E juro que não é porque o meu sacrossanto nome é mencionado en passant.)
Espera, mais uns links, ainda que poucos. O post do Rodrigo de Lemos sobre o verbete ridico da Wikipedia sobre Paulo Francis. Um trecho particularmente bom de um livro sobre o Iraque escrito por um membro da esquerda mentalmente sã (em inglês). Uma japonesa pelada. Via Marcio Hack, a entrevista de P.G.Wodehouse para a Paris Review (PDF). E aqui e aqui, dois dos meus novos blogs favoritos em inglês.
E um update: este post aqui - não este, este - é tão gay que chega a ser deprimente.

Em 1988 o escritor inglês A.N.Wilson, autor de biografias de C.S.Lewis e Tolstói, apareceu no programa francês Apostrophes de Bernard Pivot para promover a sua nova biografia de Hemingway, então recentemente publicada pela Faber & Faber. O que se segue é uma transcrição de cinco minutos desse programa, publicada recentemente nas memórias de Bernard Pivot ("Quem é Você, Bernard Pivot?").
Pivot: E temos também aqui o escritor inglês A.N.Wilson, que acaba de receber o prêmio Whitbread pela sua majestosa biografia de Tolstói publicada na França pela Gallimard. Wilson vem de publicar na Inglaterra uma biografia de 600 páginas sobre Ernest Hemingway chamada "Minha Vida com Papa". Boa noite, Mr.Wilson.
Wilson: Boa noite.
Pivot: Uma das coisas que me chamam a atenção neste livro é que a biografia é de Hemingway mas a foto na capa é de Cary Grant... É curioso.
Wilson: Hahaha. Acho que não.
Pivot (mostrando a capa): Este não é Cary Grant?
Wilson (rindo): Acho que eu saberia se fosse.
Pivot: Bernard-Henry Lévy, este não é Cary Grant?
Lévy: Espantoso.
Pivot: Bom, depois voltamos a isso. Mr.Wilson, pode contar um pouco como foi o processo de pesquisa que levou a este livro de 600, não, 789 páginas com índice onomástico? Como o senhor conheceu Ernest Hemingway?
Wilson: Bem, em 81 eu estava num hotel em Montego Bay, na Jamaica, descansando dos cinco anos que levei para pesquisar e escrever meu romance "Who was Oswald Fish?"...
Pivot: Publicado na França pela Hachette.
Wilson: Sim. E um dia eu estava na praia lendo (inaudível) quando um homem sentou na areia à minha direita e começou a tomar sol, e fui tomado pela suspeita imediata de que se tratava de Ernest Hemingway. Ele não se parecia com Hemingway, mas achei que era porque não tinha barba. Então não resisti, me virei e perguntei a ele, "Desculpe, mas você por acaso é o Hemingway?". Ele riu bastante e disse, "Tudo bem, por quê não?".
Lévy: Inacreditável. Hemingway morreu em 61.
Wilson: Bem, você me desculpe, mas eu acho que saberia se estivesse falando com um morto. (risos) Inclusive logo chegaram amigos dele e à medida em que eles se sentavam na areia ele piscava para eles e dizia, "Eu sou Hemingway. Este é Mr.Wilson".
Pivot (mostrando a capa do livro): Era o homem nesta foto?
Wilson: Claro. Hemingway.
Pivot: Fastástico. E a partir daí vocês começaram uma amizade...
Wilson: Uma grande amizade. Ele começou a contar os detalhes da sua vida naquele mesmo dia. Fomos passear no barco dele, um pequeno catamarã chamado "Eu Amo Fitzgerald" - o nome ainda não estava escrito na amurada mas ele me disse que o barco se chamava assim mesmo - e enquanto bebíamos gin ele me contou tudo, tudo.
Pivot: Por exemplo?
Wilson: Oh, o sexo com Indira Gandhi, a briga com Ava Gardner - segundo Hemingway a melhor peso-médio da época. Aparentemente os dois brigaram rolando pela escada da catedral de Chartres e Hemingway sofreu fratura peniana. No momento mais terrível da minha experiência com ele, e certamente no momento mais terrível do livro, ele se inclina para mim e diz que está pensando em se matar por causa dessa fratura peniana sofrida numa briga com Ava Gardner nos degraus da catedral de Chartres.
Pivot: Deve ter sido muito penoso.
Wilson: Eu supliquei que ele não fizesse isso, que não se matasse, mas os olhos dele se encheram de lágrimas e ele se virou para o outro lado, e eu só via as costas dele se sacudindo e sua voz entrecortada de soluços dizendo "Sou apenas um meio-homem". Foi um dos momentos mais cheios de tensão da minha vida, de horror, de angústia. Eu me pus de joelhos no deque e pedi mil vezes que ele não fizesse isso. Depois de algum tempo ele secou as lágrimas, sorriu e disse "Tudo bem".
Pivot: E depois?
Wilson: Depois disso passei semanas, não, meses o perseguindo em hotéis da Europa, em Los Angeles, onde fosse preciso. (Um detalhe curioso é que ele se registrava como Archibald Leach para fugir dos paparazzi.) Eu queria saber tudo, todos os detalhes. Ele contava histórias durante horas. Está tudo no livro. As experiências psíquicas, o chapéu de alumínio, a conversão final ao judaísmo. Nenhuma outra biografia dele fala disso.
Pivot: Há uma passagem curiosa envolvendo Dorothy Parker...
Wilson: Sim. Hemingway me apresentou a Dorothy Parker num hotel em Mônaco em 82. Pessoalmente ela era muito diferente das fotos às quais eu estava acostumado - bem mais bonita, e na verdade muito parecida com Grace Kelly. Lembro que ela veio vindo e ele disse "Dorothy, este é Wilson". E ela disse, "Hein?", e ele repetiu mais alto, "Dorothy, este é Wilson. Wilson, Dorothy Parker". Ela riu. Uma das mulheres mais simpáticas que conheci. Foi ela que me contou do problema de Hemingway com lepra. Quando ele saiu para pegar drinks ela me disse que Hemingway havia pegado lepra de Dorothy Lamour em Hollywood, e que uma de suas nádegas estava inteiramente carcomida.
Pivot: É terrível isso.
Wilson: Sim.
Lévy: Como foi a reação dele quando ele soube que você ia publicar esse livro?
Wilson: Curiosamente, num derterminado momento ele me pediu para não fazer isso. Eu estava em Londres e recebi o telefonema dele. E você sabe aquela voz típica de Hemingway: meio cockney, meio aristocrata da Nova Inglaterra. "Olá, Wilson! Você não vai publicar aquela besteirada, vai?" Esse era o jeito carinhoso com que ele se referia ao livro. Ele tinha medo que o livro fosse prejudicar a minha reputação porque ninguém ia acreditar naquelas revelações espantosas todas. Mas eu disse a ele que ficasse sossegado.
Pivot: E como o livro tem sido recebido na Inglaterra e nos Estados Unidos? Parece que está causando uma certa polêmica...
Wilson: Bom, Michiko Kakutani elogiou muito o rigor da minha pesquisa. Mas é verdade, algumas pessoas insistem que se trata de Cary Grant na capa e nas fotos internas. Que posso dizer? Aparentemente algumas pessoas nunca viram uma foto de Hemingway... Susan Sontag achou algumas das histórias absurdas, mas terminou a resenha com as palavras que aparecem na contracapa: "Indescritível. Você tem que ler para acreditar." E confesso que isso me deixou bastante feliz.
(Extraído de "Bernard Pivot, Qui Êtes-Vous?", ed.Branlette, 415 pgs, com prefácio de Érik Orsenna e organização de Patrick Modiano e Tabitha Cash. 22 Euros.)
Meu problema com alguns escritores é o mesmo que eu tinha quando era criança e ficava na sala de jantar ouvindo a conversa das minhas tias. Minhas tias não são más, minhas tias não são burras - não, não - mas eu não podia suportar uma conversa sobre coisas reais (dinheiro e emprego e doença) por mais do que dez segundos. Assim que possível ia para o meu quarto, onde dizia Jesus! e me ocupava de coisas mais interessantes.
Mas alguns escritores ou gostam muito da conversa das tias e ficam na mesa durante horas, ou se enchem e vão embora também, mas assim que chegam nos quartos pegam um caderno e escrevem justamente sobre as tias e as conversas delas. Escrevem com desprezo, porque odiaram a conversa, se sentem superiores e tal, como eu, mas não lhes passa pela cabeça escrever sobre outra coisa qualquer. Não escapam nunca, nunca. Mas não vale a pena sair da sala de jantar para ficar na sala de jantar. Se for sair, sai mesmo.
Digo, eu estava relendo "O Pai Goriot" hoje de manhã e todos no livro estavam discutindo as dívidas da filha do pai Goriot e as piadas estúpidas de Vautrin e da sra.Vauquer e as inanidades de Poiret, e acima de tudo lá estava Balzac muito satisfeito com aquilo tudo e com aquela pensão sebenta que ele me fez imaginar em todos os horrendos detalhes. Já gostei muito desse livro e em outra ocasião posso voltar a gostar muito dele, talvez até hoje de noite; mas hoje de manhã me enchi. E depois peguei pra ler o último conto de "Nine Stories" de Salinger e lá estava um molequinho sentado num deque, todo interessado em Deus e nos Vedas, e que alívio, que alívio de finalmente ter escapado da conversa das minhas tias. Amém.
A vantagem da monarquia é que ela é um exercício público de lealdade. Em filmes bobos é costume mostrar cada rei como um cretino afeminado comendo coxinhas de frango, mas mesmo se esse fosse o caso, não importa. O ponto da monarquia, ou pelo menos duma monarquia devidamente decorativa, é que não importam tanto os defeitos do rei. Como num casamento, a menos que ele tenha caído ao ponto da traição ele é o seu rei e você deve a sua lealdade a ele.
E a lealdade é algo bonito. Posso entender quem faz objeções práticas à monarquia, mas não quem não vê a beleza dessa simples lealdade ao rei. Quando eu era adolescente também cometia a vulgaridade de achar que qualquer tipo de devoção entre duas pessoas do mesmo sexo é bichice: eu era o tipo de pessoa que acusa os outros de sonhar em “lamber as botas de X” sempre que se depara com a mais discreta admiração por qualquer figura de autoridade. E não tinha nenhuma vergonha do clichê, como todo mundo que usa clichês. Mas quem continua dizendo isso depois dos dezessete anos está seco e morto.*
Precisamos de alvos para a nossa capacidade de lealdade. Precisamos de exercício. Temos pessoas à nossa volta, e bichos, aos quais devemos lealdade, e falhamos até nisso – mas é bom ter uma oportunidade adicional e pública. Todos nós temos uma vasta capacidade de devoção e lealdade que não usamos para nada, e essa parte de nós pede sem parar pela volta da monarquia, mesmo que não tenhamos consciência disso e só percebamos em nós mesmos uma grande nostalgia de alguma coisa nobre e obscura e esquecida. Quanto a mim, sempre leio livros de história procurando no passado uma rainha (ser jovem, ser bonita ajuda) à qual possa dedicar a minha lealdade em retrospecto.
* Eu ia dizer que é idiota, mas a minha mãe pediu pra eu parar de chamar as pessoas de idiota.