November 18, 2006

Jantando com Cecília M.

Estava lendo Cecília Meireles quando me lembrei do motivo de todo mundo sentir um horror instintivo a poetisas. Esse motivo costuma me escapar quando faz tempo que não leio esses monstros marinhos, mas basta ler umas linhas que me recordo:


As palavras aí estão, uma por uma:
porém minha alma sabe mais.

De muito inverossímil se perfuma
o lábio fatigado de ais.

Falai! que estou distante e distraída,
com meu tédio sem voz.

Falai! meu mundo é feito de outra vida.
Talvez nós não sejamos nós.


Isso é um poema chamado "Interpretação".

O problema é que não consigo ler isso sem me imaginar num restaurante jantando com Cecília Meireles. O raviole está demorando, o assunto acabou e ela está dando socos na mesa e me mandando dizer alguma coisa.

- Falai! - ela berra arregalando os olhos - Que estou distante e distraída, com meu tédio sem voz. Falai! Meu mundo é feito de outra vida.Talvez nós não sejamos nós.

A cada soco estremeço de susto junto com os talheres e o vasinho no centro. Ih, rapaz, ela está entediada. Fala uma coisa aí.

- Cê viu aquele video no YouTube do panda espirrando e tal? Me passa a manteiga?

Ela me olha com desprezo, cheia de tédio sem voz, como se o seu mundo fosse feito de outra vida ou algo assim, e eu rapidamente mudo de assunto:

-Seus lábios como estão? Fatigados de ais?

No fundo achei um exagero quando ela disse isso. Quantos ais uma pessoa tem que dizer até que os lábios fiquem "fatigados"? Sério: dois mil? Três? Em sequência? E por que ela fez isso? Caiu a gaveta das meias no pé dela?

Juro, quando ouvi isso a primeira reação foi pensar: "Cê exagerou, né, Cecília Meireles?". Mas depois a vi fazendo uma massagenzinha na boca. Devo sugerir uma pomada pros lábios? Ela me aterroriza. Se eu errar de assunto de novo ela vai dar outra porrada na mesa.

Cecília Meireles chama o garçom e, assim que ele chega perto, berra:

-Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!

O garçom olha pra mim discretamente e eu faço que não com a cabeça, em silêncio. Mesmo assim ele pergunta:

-Senhora?
-Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração! - ela berra, e o garçom dá dois passinhos discretos pra trás.

Ele olha de novo pra mim como que pedindo socorro.

-Acho que tem não - diz, depois de algum tempo.
-Então traz só o raviole - eu digo, contornando o problema com savoir-faire de homem do mundo.

Imagino que depois que ele fosse ela esperaria um pouco, depois se curvaria na minha direção e diria baixinho:

-Vê que nem te peço alegria.
-Okeydokey.
-Vê que nem te peço ilusão.
-Tudo bem. Cê esbarrou a manga no molho da azeitona.

Eu realmente interrompi a leitura dos poemas e fiquei imaginando isso. Que pesadelo.

Uma mulher que escreve poemas tem 80% mais de chance de estar calma e, de repente, dar um berro e queimar você enfiando o cigarro bem no seu olho. Quase sem motivo nenhum. Li isso em algum lugar.

Posted by Alexandre S. at November 18, 2006 08:57 AM
Comments

Quase tão perturbador quanto ir tomar um café com Fernando Pessoa e ficar ouvindo "Toma chocolates, pequeno" o tempo todo, além do típico (em tom confidencial) "se não te queres matar, por que não te queres matar?".

Posted by: Alexandre S. at November 18, 2006 09:52 AM

Acho que Cecília Meireles nunca gritou na vida. Ou melhor, gritou, uma vez, quando do primeiro tapinha do médico, ao nascer.

Posted by: Bear at November 18, 2006 11:24 AM

=)

Posted by: tiago a. at November 18, 2006 11:44 AM

O mais assustador de tudos deve ser o Pablo Neruda...
Imagina o Pablozinho que acabou de sair da escuridão quente do ventro da sua mãe : ainda cheio de sangue, ele abra grande seus braços e declama "Ufa, para nascer, nasci".

Posted by: Pi at November 18, 2006 01:02 PM

O essencial que é o Alexandre nunca teve que ouvir o Ary dos Santos a declamar as suas próprias poesias. http://img356.imageshack.us/img356/3029/fhlp13z8mg.jpg

Além disso, o que pode ser pior do que a Florbela Espanca a dizer que é maior do que os homens e mais alta do que as outras pessoas por ser poeta(isa)? Dizendo que "quer amar, amar perdidamente?" Venham antes os ais fatigados.

Posted by: Mariana at November 18, 2006 03:03 PM

Kkkkk...!Cê sabia que as poetisas mortas costumam cravar suas rubras, finas unhas, diretamente no seu cérebro sonolento, na hora fugaz que antecede a entrada no reino de Morpheus e, ao conduzir você pelos portais plúmbeos do inconsciente, a sussurrar nos seus ouvidos, dirão, doce e histericamente: "oh, tua inútil testosterona / quo vadis, rufião? / tua vida é uma zona"

Posted by: Guga Schultze at November 18, 2006 03:20 PM

Kkkkk...!Cê sabia que as poetisas mortas costumam cravar suas rubras, finas unhas, diretamente no seu cérebro sonolento, na hora fugaz que antecede a entrada no reino de Morpheus e, ao conduzir você pelos portais plúmbeos do inconsciente, a sussurrar nos seus ouvidos, dirão, doce e histericamente: "oh, tua inútil testosterona / quo vadis, rufião? / tua vida é uma zona"

Posted by: Guga Schultze at November 18, 2006 03:20 PM

PS: Sorry. Postei um comentário, deu pau e postei o mesmo, de novo. Era pra ser só um! Sorry again.

Posted by: Guga Schultze at November 18, 2006 03:23 PM

Eu acho que a pior de todas é mesmo a Florbela, além de neurótica...Espanca!

Posted by: Moreira at November 18, 2006 04:42 PM

Odeio poesia.

Posted by: Renata at November 18, 2006 05:17 PM

MEUPAIETERNODEMISERICÓRDIA! Por que ela fez essas coisas?

Posted by: Gustavo at November 18, 2006 06:45 PM

Tá ótimo esse post.

Posted by: Paulo at November 18, 2006 06:56 PM

Ia dizer alguma coisa witty, em defesa da Cecília Meirele. Mas tinha um pedra no meio do caminho. No meio do caminho, tinha uma pedra. E as retinas fatigadas do Carlinhos enxergaram os lábios fatigados de Cecília.

Posted by: mauro at November 18, 2006 09:16 PM

Cecília Meire-LES, dumb ass.

Posted by: mauro at November 18, 2006 09:17 PM

(Me, not you. Sempre esqueço o negócio de ASS, sorry).

Posted by: mauro at November 18, 2006 09:19 PM

Deos ^^. Me faz lembrar daquele desenho "interview with a diva" ou algo assim que pôs no SU uma época. Mulheres *intensas*, dude. =D

Posted by: Elton at November 18, 2006 09:25 PM

poesia boa é do ezra pound, parece um blog antes de existir computador

Posted by: ezra at November 18, 2006 10:01 PM

poesia boa é do ezra pound, parece um blog antes de existir computador

Posted by: ezra at November 18, 2006 10:01 PM

Olá, Alexandre. O Sá-Carneiro leu o seu post e me contou que você citou erradamente um verso meu(um dos preferidos dele) - o certo é "Se te queres matar, porque não te queres matar?". Um abraço.

PS - A Cecíla é uma chata mesmo.

Posted by: Fernando Pessoa at November 18, 2006 11:29 PM

Que graça, Alexandre. Num restaurante com Cecília Meireles? Você devia estar com fome para imaginar isso.

Posted by: Isabella Maddi at November 18, 2006 11:34 PM

Fantástico, Alexandre. Apesar de ter se metido com uma prima minha, não posso deixar de elogiar a crônica. Pode ser parente, mas que a Cecília é chata, isto é =]

Posted by: Faerum at November 19, 2006 01:31 AM

Poetas realmente são um perigo para a segurança nacional. Já imaginou um poeta numa torre de controle de um aeroporto, transmitindo mensagens a um piloto de um vôo lotado, falando sobre "sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia"? Fala sério!
gd ab

Posted by: Julio Cesar Corrêa at November 19, 2006 07:49 AM

sinceramente...entendo que alguem nao goste de poesia mas o nivel dos comentarios ai deveria dar um upgradeyourself...cecilia meireles, chata?...tudo bem...va la!
vim aqui por indicacao do julio cesar correa...voltarei...

Posted by: jorge ferreira at November 19, 2006 02:43 PM

Jorge Ferreira, permita-me: Cada blogueiro tem o comentador que merece.

Posted by: O Sombra at November 19, 2006 03:15 PM

Alexandre, adoro seu blog. Visite o meu: www.lei-seca.blogspot.com
Luiz Augusto

Posted by: Luiz Augusto at November 19, 2006 09:23 PM

Al cabo
Al cabo, son muy pocas las palabras / que de verdad nos duelen, y muy pocas / las que consiguen alegrar el alma. / Y son también muy pocas las personas / que mueven nuestro corazón, y menos / aún las que lo mueven mucho tiempo. / Al cabo, son poquísimas las cosas / que de verdad importan en la vida: / poder querer a alguien, que nos quieran / y no morir después que nuestros hijos.

Amalia Bautista, Tres Deseos, Madrid, Renacimiento, 2006

Posted by: Patrícia at November 20, 2006 06:10 AM

hahahahahahaha
estou sempre adiando o dia em que serei uma conhecedora de poesia; parece tão difícil encontrar algo que não seja chato.

Posted by: Luy at November 20, 2006 11:06 AM

Me lembra a Rê Bordosa, nos tempos em que mal conseguia pegar o garçom no fim de noite, e às vezes recorreia ao bom e velho amigo Poeta.
O problema era conseguir dormir depois com o Poeta, nu, fazendo trejeitos e declamando a plenos pulmões, no meio da madrugada.
Talvez todo poeta seja branquelo, inconveniente e chato.

Posted by: Badá at November 20, 2006 01:22 PM

hahahaha. que ótimo.

também já me esforcei muito.
poesia, simplesmente não consigo.

Posted by: flavia at November 20, 2006 03:11 PM

Pôxa, Alexandre, não seja tão rigoroso com a Cecília, há também coisas legais dela.Procure com calma, vc descobrirá...E depois,ela não era exatamente o tipo de mulher, como a sogra de Seymour em 'Uncle Wiggily in Connecticut'....
"Ele também não aprovaria a mãe de Muriel, é uma mulher irritante, cheia de opiniões , um tipo que Buddy não suporta.Acho que ele não a estaria vendo pelo que ela realmente é.Uma pessoa desprovida, para a vida toda, de qualquer entendimento ou compreensão do grande fluxo de poesia que atravessa as coisas, todas as coisas.Ela parece estar morta, mas mesmo assim continua vivendo, parando em confeitarias, indo ao seu psicanalista, consumindo um romance a cada noite, experimentando roupas novas.."
Não mesmo..

com abraço,
Ana

Posted by: Ana at November 20, 2006 05:38 PM

Complementando o post anterior: Tudo bem, continue então criativo nos seus delírios roteirísticos(com ou sem Cecília) mas não se esqueça que ”Deus indubitavelmente ama gatinhos, mas provavelmente não com botinhas technicolor nas patinhas.Ele deixa esse toque de criatividade para os roteiristas..."
Boo Boo

Posted by: ana at November 20, 2006 05:57 PM

E por falar em Cecília M (a segunda esposa do sizudo patrão de James Bond, seria?) me veio à lembrança um outro episódio, também ligado ao fatual mundano, porém desta feita ligado a uma certa Paris (não a poluída capital que todos conhecemos), e que aconteceu a poucos meses atrás.

O Sr. Elliot Mintz, responsável pela assessoria de imprensa da atriz-cantora-manequim-bilionária Paris Hilton, em resposta ao vídeo em que a bela Paris aparece fumando o que parece ser um "baseado" (cigarro de maconha para quem jamais ouviu falar deste termo) em um clube de Los Angeles, declarou: "Eu gostaria de deixar algo claro a todos vocês. Paris Hilton tem o hábito de enrolar os seus próprios cigarros de tabaco. As coisas nem sempre são o que elas parecem ser. Foi apenas tabaco o que vocês viram."

Certo, e fumar crack é fumar um jogador de futebol cheio de talento. Honestamente, se eu fosse o senhor Mintz eu teria muito polidamente escrito a seguinte carta a todo o "staff" da senhorita Hilton:

"Querida Paris,

no momento eu estou demissionando da minha posição de seu assessor de imprensa. A despeito dos meus mais veementes esforços no sentido contrário, você deixou claro o seu total desinteresse em se conduzir de maneira condizente ao seu status de vida. Não é que você se deixe consumir por hábito auto-destrutivos, afinal isso não deixa de ser esperado de alguém a quem os pais deram tudo menos amor e dedicação. No entanto, é mais pela sua falta de consideração à minha posição e à minha suposta habilidade em inventar desculpas patéticas e enigmas cheios de alusões na tentativa de explicar as derrapagens do seu comportamento. Eu sou um assessor de imprensa, não um mágico. Nenhuma soma de dinheiro do mundo pode torná-la melhor do que você é, o que na expressão vernacular do dia é algo próximo do que se poderia chamar de uma "galinha".

Passe bem. Espero que algum dia você possa finalmente descobrir a dignidade e destacar-se deste mal-cheiroso e embaraçante sistema de vida no qual você decidiu se pendurar."

Posted by: Mário at November 21, 2006 10:15 AM

Sendo O do-contra, gostaria muito neste momento de defender a Cecília Meireles mas, na verdade, não gostaria não. Cacete nela!
um abrax!

Posted by: Otto Maria Carpulgo at November 21, 2006 03:36 PM

Caríssimo,
Gosto muito de Cecília Meireles, ela tem poemas realmente fantásticos. Mas este seu texto está hilariante!

Posted by: Outros Temperos at November 21, 2006 03:49 PM

Alexandre, li seu ensaio na Bravo!. Não concordei com algumas coisas e tomei liberdade para criticá-lo em meu blog. Deixo aqui um convite para que visite meu espaço. http://feijoada-antropofagica.blogspot.com
Saudações

Posted by: Pedro Chrismann at November 21, 2006 04:25 PM

Pedro, eu até tentei ler teu artigo, mas depois do primeiro parágrafo

"Comi uma carne que não me desceu bem. Feita por Alexandre Soares Silva e posta à mesa pela Bravo!. Sendo assim, tomei a liberdade de criticá-la e botar um pouco de pimenta nessa feijoada."

fiquei com azia pelas suas gracinhas ruins com comida e desisti. Foi mal aí.

Posted by: Rodrigo at November 21, 2006 06:04 PM

Caro Alexandre,
sempre venho aqui e é sempre bom, mas hoje fiquei arrasada! Me senti como uma dessas mulheres que adoram Chico Buarque. É que eu adoro a Cecília Meireles. Me senti brega! E não que isso seja ruim, mas eu não esperava....
Beijo

Posted by: Aline at November 21, 2006 06:05 PM

Rodrigo, também tentei ler o artigo do Pedro. Até esse trecho:

"Comprei essa edição pela capa, que inclui uma bela foto de Paulinho da Viola e Arnaldo Antunes, com um título: "A Hora do Samba" (Sei que samba não tem hora, e que é bom inclusive agora, mas mesmo assim fiquei curioso pela parceria inusitada)"

Posted by: Marcio at November 21, 2006 07:01 PM

exato.

Posted by: Gabriela at November 21, 2006 08:11 PM

Ahhh Alexandre, mas e se Cecília M. aparecesse nesse jantar com aquele biquinho de Clarice L... Mudaria sua atitude à mesa, mocinho?

Posted by: Maria at November 21, 2006 09:37 PM

Clarice L. era muito bonita mas me meteria o triplo do medo, Maria. Seria preciso ter nervos de aço.

Mind you, eu não desgosto de Cecília Meireles. Até alguns dos versos que eu citei - pelo menos aquela parte das sombras serenas que as nuvens transportam por cima do dia e tal - são bonitos. Foram aqueles Falai! Falai! que me meteram medo. ;>)

Ah, cliquem no meu nome.

Posted by: Alexandre S. at November 21, 2006 09:59 PM

Ah, claro, esqueci: bom apetite.

Posted by: Gustavo at November 22, 2006 11:36 AM

Desculpe nova invasão a esse espaço.
Só vim responder aos comentários dos que foram visitar o meu blog e estranhamente comentaram aqui, e não lá.

Rodrigo: A proposta do blog está em "Considerações Iniciais", a gracinha com comida já é prevista.

Márcio: Não o culpo por não terminar a leitura. Tem gente que é limitada mesmo. Tudo bem, ninguém tem obrigação de conhecer partido alto nenhum.

Desculpe mais uma vez
Obrigado

Posted by: Pedro Chrismann at November 22, 2006 04:00 PM

muito bom, Alexandre! típico texto que faz com que o sorriso do rosto traia o ar de indignação... =)

Posted by: Elaine at November 22, 2006 08:12 PM

Obrigada pelo link para o texto no blog do Elton, Alexandre. Muito, muito bom.

Posted by: Mariana at November 23, 2006 01:34 AM

Adorei sua resposta e o texto do Elton.
"Na tela de vidro à sua frente, viu seu reflexo - suas longas pernas, a pequena bolsa no colo, sua mão descarnada, quase uma garra, acendendo o cigarro." Minha parte favorita. ;>)

Posted by: Maria at November 24, 2006 09:58 AM

Sei não, Marcio... Esse cara da feijoada tá me parecendo coisa do Alexandre.

Notaram que o Lord Ass não respondeu? Que nem comentou nada? Hm... Muito suspeito! E nós já sabemos do que ele é capaz...

Posted by: Lucas Mafaldo at November 24, 2006 03:41 PM

Deixa disso, Alexandre. Também jantei com a Cecília e ela não gritou comigo. É só com você que ela faz essas coisas. :)

(Agora, com a Florbela Espanca eu acho que não dividiria a mesa, não. Medo.)

Abraços!

Posted by: Ruy at November 24, 2006 09:28 PM

Lê então Adélia Prado, é bem legal.

Posted by: Norma at December 28, 2006 02:46 AM
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