Quando for escrever um livro, tenha o cuidado de escrever uma ou duas linhas muito ruins para colocar a qualidade do resto em contraste; a regularidade torna a perfeição invisível. Não tenho certeza se isso é um bom conselho mas achei que soava espertinho. Amém.
Posted by Alexandre S. at November 7, 2006 05:23 PMMas se for assim por que não escrever um livro muito ruim para colocar em contraste a qualidade de uma ou duas linhas? Hm? Hmmm?
Posted by: Alexandre S. at November 7, 2006 05:30 PMMilan Kundera fez isso, escreveu vários livros ruins só para constratar com algumas poucas frases boas.
Posted by: Pierre at November 7, 2006 05:32 PMPressinto uma citação do Nelson Rodrigues.
Posted by: Marcio at November 7, 2006 05:42 PMé, por outro lado tem aquilo que o chesterton falava dos grandes escritores, como eles escreviam coisas insanamente ruins, às vezes, por não se vigiarem tanto quanto os escritores medíocres. ^^ olá!
Posted by: ludovico at November 7, 2006 08:03 PMFalar nisso, senao me engano há uns meses (talvez ano) atrás vc semi-abandonou o blog para escrever um novo livro. Que fim levou? O leremos um dia?
Just curious.
Um ano e dois meses atrás, Rodrigot - e terminei uma semana atrás exatamente. Estou reescrevendo, o que deve demorar uns meses ainda. Mas bom que você perguntou. ;>)
Pierre, o problema do método é esperar que as pessoas tenham a paciência de encontrar as duas frases boas. Marcio - maldito Nelson Rodrigues, sempre dizendo cinquenta anos antes o que eu queria dizer agora. Ludovico, esse método de escrever o bom e o ruim tudo junto me parece típico do século XIX, e talvez realmente fosse um bom costume - eles eram todos putter-inners, para usar aquela distinção que acho que foi Thomas Wolfe quem fez entre escritores putter-inners e leaver-outters - mas Flaubert acabou com esse bom costume. Ou quase acabou. Nunca li William Vollmann mas duvido que cada linha seja brilhante. Olá.
Posted by: Alexandre S. at November 7, 2006 09:05 PMEm que páginas ficam as frases ruins do seu livro, pra que eu possa pular?
Brincadeira, brincadeira, mas a perfeição deve ficar clara quando se lê o livro seguinte, então tá tudo bem. Não precisa errar no seu, só sugira algum livro ruim pra pós-leitura, que tal?
Posted by: Gustavo at November 7, 2006 10:13 PMAlexandre, o problema é q ao fazer isso o livro fica perfeito.
Posted by: Permafrost at November 7, 2006 10:26 PMLembrei da frase "It was a dark and stormy night" que foi eleita pela Universidade de San Jose, ou qualquer coisa assim, como a pior frase de abertura de livro de todos os tempos. O vencedor foi Edward George Bulwer-Lytton, um romancista vitoriano, que cunhou frases que até hoje sobrevivem na língua inglesa, como "the pen is mightier than the sword" ,"the great unwashed," e "the almighty dollar".
Posted by: Renata at November 7, 2006 10:26 PMSnoopy está sentado sobre sua casinha de cachorro com uma máquina de escrever:
"Era uma noite escura e tempestuosa. Ao longe uma porta bateu. Um navio surge na linha do horizonte. Enquanto o rei vivia no luxo e na riqueza, seu povo passava fome. Enquanto isso, numa fazenda do Kansas, um garoto crescia.
Fim da primeira parte.
Segunda parte:..."
Snoopy olha pra nós e pensa: "Na segunda parte tudo vai fazer sentido..."
Posted by: Guga Schultze at November 8, 2006 12:48 AMMe perdoe, meu caro alex, mas vc não foi original. Certos escritores brasileiros fazem isso há anos.
gd ab
É, mas aí, ninguém vai dizer que você escreve com o culhões...
Posted by: Bernardo Só at November 8, 2006 07:11 AMO problema é que muitos autores brasileiros contemporâneos invertem o conselho. E ainda sem uma linha que preste.
Posted by: David at November 8, 2006 10:17 AMlembra aquela história do fio solto dos tapetes árabes. aliás, o nelson moraes já elabrou até uma 'teoria do fio solto':
"A arte abomina a perfeição. Toda obra de arte conseqüente pede um fio solto, deixado ali preferencialmente de propósito, pra mostar que existe, sim, a idéia de perfeição artística -- mas a obra estacionou a centímetros, milímetros dela pra que ela, a idéia de perfeição, pudesse ser captada. Se incorporada à obra ela passaria despercebida." [13/02/2004]
in: http://www.aomirante.com/arquivos/2004_02_01_archive.htm
Não deixa de ser um incentivo. Já tenho linhas ruins para uns 1000 livros. Faltam só os 1000 livros.
Posted by: mauro at November 8, 2006 12:32 PMA FERA QUE ME AMA
Por entre fímbrias de luz vai a tarde
Desfazendo-se em mudos estertores,
O teu rosto, surgindo dos odores,
É uma agonia que não faz alarde.
E eu disfarçando sob os cobertores,
Como um preguiçoso, ou feito um covarde,
A esconder-me dessa paixão que arde
Em tuas entranhas, em tuas dores.
Quando liberados os gases, então,
Feito luz que te varou as demências,
Um derradeiro arroubo de paixão
Subiu-te à alma e, em meio ao fedor,
Por entre lágrimas e flatulências,
Tu me declarastes o teu amor.
Sempre muy sábio.
Posted by: Martin' at November 8, 2006 05:20 PMAlexandre, e os poemas do Tarso Genro?
O poeta-onanista conseguiu alcançar a perfeição da ruindade, sem escrever uma linha sequer de qualidade. Isso sim é perfeição, e nada de perfeição invisível, pois na primeira frase já se verifica o desastre.
Posted by: Bruno at November 8, 2006 05:26 PMTenho um email seu que não funciona mais. Preciso me comunicar com vc. Pode me passar seu email?
Posted by: Paulo at November 8, 2006 07:05 PMque é uma coisa meio horácio.
Posted by: olivia at November 8, 2006 08:08 PMAhahahahahahaha... altamente.
Posted by: Wal at November 8, 2006 09:16 PMNa verdade este conselho revela certo senso prático: o escritor sabe que se não for percebido por seu talento poderá ter alguma chance de ser louvado pelas duas linhas.
Posted by: Evelyn at November 8, 2006 10:07 PMPra falar a verdade eu nunca achei a "It was a dark and stormy night" uma frase tão ruim, mas tinha vergonha de confessar.
Ah, a frase do Nelson é melhor, então esquece o meu post. Riscado está. Paulo, o endereço é asoaressilva5000@gmail.com.
Abraços a todos e obrigado pelas visitas.
Posted by: Alexandre S. at November 9, 2006 03:05 AMEu concordo plenamente.
Ah, muito bom o artigo na Bravo!.
Posted by: Igor Taam at November 9, 2006 09:00 AM"the pen is mightier than the sword" é na verdade Cervantes, se não anterior.
Posted by: Permafrost at November 9, 2006 09:00 PM"the pen is mightier than the sword" é na verdade Cervantes, se não anterior.
Posted by: Permafrost at November 9, 2006 09:18 PMPois aí vão algumas sugestões que garantirão uma indicação para o Nobel.
"As lágrimas escorriam pelas suas faces como o sêmen pelos azulejos partidos do banheiro da rodoviária de Botucatu.*"
ou
"— O que a senhora está mastigando com salivante volúpia neste momento é a parte traseira de seu próprio poodle, Mme. Grandguignol."
ou ainda
"Os lactobacilos estão mortos! Mortos! MORTOS!"
* a palavra Botucatu, por si só, já deveria fazer o resto do romance resplandecer como um supernova.
Posted by: Quintapulgo at November 11, 2006 12:55 AMA VOLTA
Pois a ingrata fugiu, deixou-me ao léu...
Foi cantar seu fado em outras terras.
Eu cá ergui as minhas mãos ao céu
E prometi, já cansado de guerras,
Fazer da minha paixão um mausoléu.
Disse Mãe: "Vê bem o que tu encerras,
Não lances ao poço um tal troféu.
Um dia ela toma o trem, vara as serras
E vem bater, de novo, à tua porta."
"Dormir de novo aqui?... aqui em casa?"
E pus-me a gargalhar. "Ah, mas nem morta!"
"É fadista, Mãe, não segura vela,
Dá prá Deus e o mundo, é mulher torta..."
Súbito, batem à porta. Era ela.
Vejam bem vocês, o Dr. Camillo (com 2 elles) Eliseu da Costa Leite, que foi amigo íntimo do antigo ministro César Cals, me sussurrou outro dia no clube Fantoches que não seria nada impossível que um mandatário do Terceiro Mundo, por assim dizer, doidivanas e a soldo de alguma potência militar ocidental, "plantasse" um ato terrorista em algum país da América do Sul. O intuito, neste caso, seria o de aumentar o apoio incondicional à política de combate ao terrorismo liderada pelos EUA, à qual alguns Estados vêm se mostrando algo recalcitrantes, dentre os quais o Brasil. Ora, diante da minha estupefação, Costa Leite me deu um tapinha amical no ombro direito, arregalou seus grandes olhos azuis e me indagou na sua inconfundível voz de barítono : - Ué, Iberê, mas você nunca leu Maquiavel, ora pombas ? para em seguida explodir num de seus sonoros risos bonachões, trepidando os ombros largos, a apertar o tradicional cachimbo de roseira entre os dentes. Diante do recrudescimento de violências no Iraque e da flagrante ameaça do Al-Quayda em atacar a todos os interesses ocidentais, pus-me a meditar com os meus botões de madrepérola sobre as palavras do velho sábio piracicabano, e na possibilidade de qualquer um mandatário em busca de proteção USA decidir lançar a primeira mecha acesa no barril de pólvora que é aquela região do mundo. É claro, pensar não paga imposto (por enquanto) e consciente de tal condição, livrei-me a tal exercício de corpo e alma, desde aquela noite lá, no clube Fantoches. Recomendaria, portanto, ao Itamaraty de utilisar essa lucidez de 500 watts que sempre o distinguiu das outras chancelarias e, em tal circunstância, e exortar o nosso Presidente Rei das Gafes da Silva aos perigos da política de avestruz, e dos malefícios que uma tal atitude engendraria, todavia pautando-se com discrição e guardando-se, contudo, da tentação da soberba e da ignomínia avassaladora. Somente assim, aparafusados no Direito Internacional e no chamado "código implícito da palha de aço Aurora", poderemos então arrazoar o Sr. da Silva e lançar-nos sem peias e sem reticências, nas lides mais profícuas das relações diplomáticas e, quem sabe, evoluir em ética e ocupar uma posição de relevância e mediadora neste conflito injusto e perigoso. Muito perigoso. Pensem nisso com carinho. Muito obrigado.
Posted by: Iberê Dantas Louzada at November 16, 2006 03:38 AM