Esta noite sonhei que estava num teatro olhando para o palco vazio antes da peça começar. De repente, vindo da direita, apareceu um ator vestido de barba.

Ele parou bem no meio do palco. Parecia furioso, olhando para a platéia com uma latinha na mão que eu não identifiquei na hora.

Ele pousou uma tabuleta no palco e, com muita dificuldade porque as letras se embaralhavam, consegui entender as palavras ADEUS MUNDO CRUEL. Nesse momento ele começou a se cobrir de espuma de barba, que era o que havia na latinha.

Foi muito dramático. Pessoas começaram a pular de todos os lados em cima dele.

Eu até levantei da cadeira. Ainda me lembro dos gritos. Em pouco tempo ele foi dominado, e eu só via perninhas saindo do meio da barba.
Logo reparei no detalhe do aparelho de barba, que eu não tinha visto antes, caído pateticamente no chão.

No sonho esse aparelho me parecia simbólico, um símbolo da fragilidade humana.
Debaixo da pilha de gente o sujeito vestido de barba ficava gritando "Me deixem, me deixem, aaaaa", e "Seus corno, seus corno". Eu saí para a rua abalado, com muita pena da barba.
Mas depois passou um carro com um professor mulato dirigindo e eu fiquei correndo junto com o carro pela avenida toda e gritando que queria fazer uma tese sobre Mencken. O resto eu esqueci.
Hemingway no início de Green Hills of Africa passa algum tempo dizendo o que pode destruir um escritor - política, mulheres, bebida, dinheiro, ambição e dildos, se estou lembrando direito. Mas eu olhando à volta, do que eu sei dos escritores daqui, que felizmente não é muito, é que não há muitos escritores destruídos - escritores que poderiam ter sido bons mas não foram. A maioria nasce sem talento. Podem ganhar alguma reputação porque as pessoas já não distinguem mais talento de falta de talento, mas nasceram sem talento. Quantos escritores brasileiros você pode citar que tinham talento mas se destruiram com bebida? Não havia nada para ser destruído pela bebida. Há também uns que nascem com talento mas têm uma mente medíocre. Esses são a maioria entre os escritores brasileiros com talento. Eles têm talvez um jeitinho com palavras mas se contentam em escrever livros parecidos com os livros dos outros. Se é austríaco, escreve um livro com cara de livro austríaco. Tem cara de próximo capítulo da história da literatura austríaca do pós-guerra. Os livros brasileiros têm todos (quase todos, não enche) essa cara de livros brasileiros. Não digo que um livro brasileiro deveria ter cara de livro argentino, embora fosse um progresso. Mas se o escritor brasileiro virou adulto nos anos 30, pode apostar que ele escreve sobre paraibanos com sede. Que é do PC e usa gravatinha borboleta. A mera mediocridade marxista-freudiana dessa gente rachou a caatinga em mil pedaços. Tinham que ser marxista-freudianos, vede, porque eram gente de sua época e lugar e escreviam de boca aberta. Se um escritor brasileiro virou adulto recentemente, só Deus sabe sobre o quê ele escreve porque eu não leio autores brasileiros vivos, com a exceção de dois ou três cujo conhecimento eu quis fazer justamente porque eles escreviam melhor que isso. Mas quando abro um livro ao acaso na livraria ele tem aquela cara de todos os outros livros juntos. Da leitura de trechos de livros brasileiros nos cadernos de domingo eu tenho uma impressão de ver os mesmos personagens repetidos, um mendigo, a tia Raimunda, o Pedro, o Mário, o Jabuti. Isso não é influência da vida real, porque na vida real você deve conhecer várias pessoas, uma maioria até, com nomes estrangeiros, Gabriel Halder, Júlia Graziani, Helder Schepke - eu conheço um Helder Schepke, que é que tem? Mas você não vê isso nos livros porque eles ainda copiam os nomes, os personagens e aliás tudo de outros livros com cara de literatura brasileira. Talvez a solução fosse ninguém ler livros do próprio país, nem da própria época, nunca. Isso ajudaria bastante. Isso e ter talento. E ficar longe dos rahat lokums. Serei o primeiro escritor brasileiro a ser destruído por rahat lokum.

Rahat lokum, a.k.a. Delícias Turcas
Estava lendo Cecília Meireles quando me lembrei do motivo de todo mundo sentir um horror instintivo a poetisas. Esse motivo costuma me escapar quando faz tempo que não leio esses monstros marinhos, mas basta ler umas linhas que me recordo:
As palavras aí estão, uma por uma:
porém minha alma sabe mais.
De muito inverossímil se perfuma
o lábio fatigado de ais.
Falai! que estou distante e distraída,
com meu tédio sem voz.
Falai! meu mundo é feito de outra vida.
Talvez nós não sejamos nós.
Isso é um poema chamado "Interpretação".
O problema é que não consigo ler isso sem me imaginar num restaurante jantando com Cecília Meireles. O raviole está demorando, o assunto acabou e ela está dando socos na mesa e me mandando dizer alguma coisa.
- Falai! - ela berra arregalando os olhos - Que estou distante e distraída, com meu tédio sem voz. Falai! Meu mundo é feito de outra vida.Talvez nós não sejamos nós.
A cada soco estremeço de susto junto com os talheres e o vasinho no centro. Ih, rapaz, ela está entediada. Fala uma coisa aí.
- Cê viu aquele video no YouTube do panda espirrando e tal? Me passa a manteiga?
Ela me olha com desprezo, cheia de tédio sem voz, como se o seu mundo fosse feito de outra vida ou algo assim, e eu rapidamente mudo de assunto:
-Seus lábios como estão? Fatigados de ais?
No fundo achei um exagero quando ela disse isso. Quantos ais uma pessoa tem que dizer até que os lábios fiquem "fatigados"? Sério: dois mil? Três? Em sequência? E por que ela fez isso? Caiu a gaveta das meias no pé dela?
Juro, quando ouvi isso a primeira reação foi pensar: "Cê exagerou, né, Cecília Meireles?". Mas depois a vi fazendo uma massagenzinha na boca. Devo sugerir uma pomada pros lábios? Ela me aterroriza. Se eu errar de assunto de novo ela vai dar outra porrada na mesa.
Cecília Meireles chama o garçom e, assim que ele chega perto, berra:
-Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
O garçom olha pra mim discretamente e eu faço que não com a cabeça, em silêncio. Mesmo assim ele pergunta:
-Senhora?
-Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração! - ela berra, e o garçom dá dois passinhos discretos pra trás.
Ele olha de novo pra mim como que pedindo socorro.
-Acho que tem não - diz, depois de algum tempo.
-Então traz só o raviole - eu digo, contornando o problema com savoir-faire de homem do mundo.
Imagino que depois que ele fosse ela esperaria um pouco, depois se curvaria na minha direção e diria baixinho:
-Vê que nem te peço alegria.
-Okeydokey.
-Vê que nem te peço ilusão.
-Tudo bem. Cê esbarrou a manga no molho da azeitona.
Eu realmente interrompi a leitura dos poemas e fiquei imaginando isso. Que pesadelo.
Uma mulher que escreve poemas tem 80% mais de chance de estar calma e, de repente, dar um berro e queimar você enfiando o cigarro bem no seu olho. Quase sem motivo nenhum. Li isso em algum lugar.

A soprano russa Anna Netrebko. Aqui, o site oficial; aqui, o verbete dedicado a ela na Wikipedia; aqui, ela cantando Là ci darem la mano de Don Giovanni com um membro do sexo oposto cujo nome não me dei ao trabalho de cortar e colar; aqui, ela cantando a ária da jóia do Fausto de Gounod com uns trecos na cabeça; aqui, cantando "Chiedi all'aura lusinghiera" de L'elisir d'amore de Donizetti; e finalmente aqui - sim, libiamo, libiamo. Por mim okeydokey.
Não entendo grande coisa de canto, mas guarde para si suas reclamações de coloratura e sei lá mais o quê. Uma palavra contra Anna Netrebko e lançarei raios de ódio diretamente do chacra do meu coração para as suas fuças de crítico de ópera hoity-toity.
* Sim, verdade, me leia na Bravo! de novembro falando sobre como o Brasil aparece em alguns filmes estrangeiros (Audrey Hepburn é de fato uma brasileira chamada Chiquita num filme muito bom), sem contar que digo a verdade doída sobre Ruy Castro e o Rio; e na Atlântico, de novembro também (ué, em que mês estamos?), falando sobre política, que é um assunto no qual eu evito falar aqui. Mas não por muito tempo; pretendo mudar, me levantar desta cadeira e começar a fazer uma oposiçãozinha. Jorge Nobre tem sempre razão.
* A Charlotte não gosta de Henry James. Eu gosto, mas não vou tentar convencê-la porque acho que nunca consegui convencer ninguém de nada. Juro, cinco anos na internet e duvido que tenha arrastado alguém uns centímetros que fosse para a direita - pelo contrário, devo ter criado uns comunistas por aí. Também não tenho a ilusão de que fiz pessoas acreditarem em Deus fazendo piadinhas rancorosas com ateus. Na vida real pior ainda. E depois ela disse que não gosta de Henry James, não que ele é ruim, e portanto eu não posso sair por aí tentando convencê-la de que ela está errada e na verdade gosta de Henry James sem saber, posso? Não. Então por que é que estou escrevendo isto tudo? Porque quis dar uma pausa na tradução que estou fazendo, só por isso. E porque quis dizer olá. E toma um link de volta, Charlotte.
Quando for escrever um livro, tenha o cuidado de escrever uma ou duas linhas muito ruins para colocar a qualidade do resto em contraste; a regularidade torna a perfeição invisível. Não tenho certeza se isso é um bom conselho mas achei que soava espertinho. Amém.
"James’s essential limitation may rather accurately be expressed by saying that he attempted, in a democratic age, to write courtly romances. He did not, naturally, go back for his models to the Roman de la Rose or Morte d’Arthur or Sidney’s Arcadia or the Grand Cyrus. But he did devote himself to those classes in modern society which descend from the classes represented by the romancers of the Middle Ages and the Renaissance. His characters, for the most part, neither toil nor spin, trade nor make war, bear children in pain nor bring them up with sacrifices. The characters who do such things in his novels are likely to be the servants or dependents of others more comfortably established. His books consequently lack the interest of that fiction which shows men and women making some kind of way in the world—except the interest which can be taken in the arts by which the penniless creep into the golden favor of the rich or the socially unarrived wriggle into an envied caste. James is the laureate of leisure. Moreover the leisure he cared to write about concerns itself in not the slightest degree with any action whatsoever, even games or sports. Love of course concerns it, as with all novelists. Yet even love in this chosen universe must constantly run the gauntlet of a decorum incomprehensible to all but the initiate. Decorum is what damns James with the public. In one of Chrétien de Troyes’s romances Lancelot, on his way to rescue Guinevere from a most precarious situation, commits the blunder of riding part of the way in a cart and thereby brings upon himself a disgrace which his most gallant deeds can scarcely wipe out. Sensible citizens who may have happened upon this narrative in the twelfth century probably felt mystified at the pother much as do their congeners in the twentieth who stare at the wounds which James’s heroes and heroines suffer from blunders intrinsically no more serious than Lancelot’s. How much leisure these persons must enjoy, the sensible citizen thinks, to have evolved and to keep up this mandarin formality; and how little use they make of it! Only readers accustomed to such decorums can walk entirely at ease in the universe James constructed. But they have the privileges of a domain unprecedented and unmatched in modern literature. It is not merely that he is the most fascinating historian of the most elegant society of the century. He is the creator of a world immensely beautiful in its own right: a world of international proportions, peopled by charming human beings who live graceful lives in settings lovely almost beyond description; a world which vibrates with the finest instincts and sentiments and trembles at vulgarity and ugliness; a world full of works of art and learning and intelligence, a world infinitely refined, a world perfectly civilized."
Carl Van Doren, The American Novel, Capítulo 8.