September 26, 2006

Daily Lit

Ando lendo uns livros pelo Daily Lit, que é um serviço que manda livros pra você por email, trecho por trecho. A vantagem é que se você tem preguiça de ler na tela, bom, os trechos que eles mandam são curtos, não dá preguiça de ler.

E fiquei pensando em montar um serviço parecido - só que eu mandaria os livros todos errados sem dizer nada. A pessoa pediria pra receber "Emma", por exemplo, e receberia a minha versão de "Emma". Para o resto da vida ela acharia que Jane Austen incluiu uma cena de tetada no livro.

-Adorei a cena da tetada.
-Hein?
-Emma Woodhouse é uma lésbica que sai dando tetada em todo mundo. Daí um dia ela encontra a Harriet na estrada e as duas começam a brigar de tetada. Harriet quebra um braço e tal.
-Não tem isso no filme.

Um dia a pessoa leria o livro de papel e ficaria desapontada porque não encontra a cena da tetada.

-Cortaram tudo essa bosta.

Não que "Emma" fique melhor com a cena da tetada - é um dos meus livros preferidos do jeito que está. Mas talvez eu colocasse uma cena da tetada em "Dracula". Não sei exatamente onde. Talvez Mina Harker desse uma tetada no Conde? E gostaria de colocar - não sei bem o motivo - marcianos em um romance realista do tipo "As Vinhas da Ira". Faltam marcianos em "As Vinhas da Ira", certamente. Ou você está dizendo que não há espaço para marcianos em "As Vinhas da Ira"?

Estou convicto que a maior parte dos livros melhoraria muito com a presença de marcianos ou com uma bem colocada cena de tetada no meio, mas faltando isso também pode ser:

1) Dálmatas fumando charuto.
2) Combustão espontânea.
3) Traumatismo peniano.
4) Um mestre de Kung Fu.

"O Pai Goriot", "A Cartuxa de Parma" e "Oliver Twist" se beneficiariam de (1); quase qualquer livro se beneficiaria de (2), mas sobretudo "O Primo Basílio"; se Ahab sofresse de (3) em "Moby Dick", todos ficaríamos felizes (o mesmo valendo para Thoreau em "Walden"); e meu Deus, fico feliz só de pensar na aparição súbita de (4) em "Germinal", "Naná" e "A Besta Humana".

Nada, no entanto, me daria tanto prazer quanto a aparição de um Mestre de Kung Fu em "Guerra e Paz", ensinando Kutuzov a lutar no Estilo do Macaco Bêbado. É assim que Kutuzov expulsaria Napoleão de Moscou. Sim, isso e os macacos vampiros.

Posted by Alexandre S. at September 26, 2006 03:59 AM
Comments

Hahahahaha
Dálmatas não, mas bem que o Collie de "Sua Alteza Real" poderia fumar charutos.

Posted by: Gustavo at September 26, 2006 06:53 AM

Ah, obrigado pelo daily lit. Já encomendei minha Divina Comédia.

Posted by: Gustavo at September 26, 2006 06:57 AM

Também gostaria que Becky Sharp desse umas boas tetadas em Vanity Fair. E que sua colega, Amelia Sedley, fizesse o mesmo com George Osborne.

Posted by: David at September 26, 2006 11:32 AM

Todo livro se beneficiária de alguém dizendo: "ai, que preguiça". E não só ficção, mas livros de história.

Bom seria se Lord Nelson dissesse "ai, que preguiça" na batalha de Warteloo, enquanto os homens morriam e as balas passavam ao redor dele.

"ai, que preguiça" poderia ser dito por Dom Pedro no Ipiranga, ao invés daquele clichê chato, burro e mentiroso.

Eu seria capaz de ler Platão se Socrates dissesse "ai, que preguiça" de quando em vez.

"ai, que preguiça" é a única coisa que o Mário de Andrade escreveu que presta.

Posted by: Jorge Nobre at September 26, 2006 11:52 AM

"Ser dito" não, "ter sido dito".

Posted by: Jorge Nobre at September 26, 2006 11:58 AM

Ei, legal isso. Quem sabe parcelando eu consigo terminar Crime e Castigo? Que aliás, até onde eu li, ficaria bem mais interessante com um mestre de kung fu. Ou uma tetada. Ou um mestre de kung fu dando uma tetada.

Alexandre, eu me candidataria a ser sua stalker, mas um bom par de binóculos está pela hora da morte e ouvi dizer que se esconder em arbustos acaba com o cabelo. Sem contar que os horários são péssimos.

Posted by: Alessandra at September 26, 2006 12:25 PM

Para traumatismo peniano, ler "Pornô", de Irvine Welsh (Rocco, 2006).

Posted by: Daniel G. at September 26, 2006 12:43 PM

Bem que Rousseau poderia ter largado mão daquela invejinha anti-inglesa e colocar, sei lá, talvez no "Discurso da Origem das Desigualdades" um capítulo inteiro para refletir sobre as vantagens das tetudas nas lutas de tetas. E refletir sobre o porquê das suiças serem menos tetudas que as inglesas.

Posted by: Ângelo da C.I.A. at September 26, 2006 12:57 PM

Coloca aí: "cangaceiro cômico".
A cada cena dramática o cangaceiro-cômico aparece do nada, inclina-se para trás, coloca as costas da mão na testa e diz: "Oh, a dor! A dooooor!".
Acho que ficaria bom em "A Morte de Ivan Ilitch", "Madame Bovary" e em boa parte dos romances do Evelyn Waugh.

Posted by: Luciano Chaves at September 26, 2006 01:08 PM

Saí pra lá, Alessandra. É meu.

Posted by: Ivana Trump at September 26, 2006 01:54 PM

"Nada, no entanto, me daria tanto prazer quanto a aparição de um Mestre de Kung Fu em "Guerra e Paz", ensinando Kutuzov a lutar no Estilo do Macaco Bêbado. É assim que Kutuzov expulsaria Napoleão de Moscou. Sim, isso e os macacos vampiros."

Sensacional! E olha que não é difícil imaginar o Kutusov fazendo isso. Ainda mais se tivesse mesmo aquela cara de Oskar Homolka, com as sobrancelhos e o sorriso de velho tarado. Podia aproveitar e dar uma voadora no peito daquele xarope do príncipe Pierre. E usar o tal mujique, o Platão, como saco de pancadas.

Posted by: Mário Vilela at September 26, 2006 07:24 PM

Knock knock Mr. writer,
Sorry for the intrusion, hoje li sua coluna em uma revista quase pretensiosa tomando meu café preferido (capuccino, sem creme), na minha mesa preferida (aquela do fundo, no canto esquerdo) do meu café preferido (aquele onde eu costumava passar tardes inteiras escrevendo, mas que desde que deixei de andar a pé nunca mais visitei). Foi um feliz encontro, quase uma perfect afternoon, não fosse a chuva fria que parecia vir de mim.

Procurei seu blog e te descobri já há tempos na minha lista de favoritos. Fiquei intrigued. Achei que deveria agradecer a gargalhada que me proporcionou hoje à tarde, quando eu imaginei a mulher gordinha lendo Agatha Christie enrolada no cobertor. I hug and kiss the books I like, sometimes I sleep with them. And I love my poets so much I cry every time they die. They are few. I guess favorite books are like close friends, can't have too many of them.

Posted by: nicole at September 26, 2006 09:09 PM

Ah, tetadas literárias, que invenção. Tit lit, alguém dirá. E tudo de repente ruirá: uma tetada psicografada pela Gasparetto. A Tetada de Compostella, de Paulo Coleho. "Quem tetou o meu queijo?" Homens são de mamilos, muulheres são de tetas. A Neurotetada. O horror, o horror.

Posted by: mauro at September 26, 2006 10:45 PM

Jorge Nobre,
"Ai q preguiça" podia ser o eslôgã do Brasil, em vez de O&P.

Posted by: Permafrost at September 27, 2006 02:25 PM

Você faz piada, mas macacos vampiros são uma ameaça real e imediata. Tudo bom? Long time no see. Click on me nick.

Posted by: Delance (here!) at September 28, 2006 02:06 AM

Obrigada por não gostar de "O Primo Basílio." Eu não consegui acabar de ler essa treta, nem hei-de tentar.

Posted by: Mariana at September 28, 2006 02:20 AM

recebi essa semana o primeiro capítulo do conde de monte cristo.

belo post. como sempre.

Posted by: alexandre r. at September 28, 2006 12:35 PM

vc ia fazer muita gente se retorcer no caixão...

Posted by: laila at September 28, 2006 09:03 PM

Aliás, folgo em saber q Emma é um de teus favoritos. JAusten recebeu o Plausuto de Ouro por esse livro no FestiPlau de 1816.

Posted by: Permafrost at September 29, 2006 12:10 PM

Jandira e a perseguição aos “pela-vida”

Defensora implacável do aborto enquanto deputada federal, a atual candidata ao Senado Jandira Feghali (PC do B) sente-se mal em falar do tema, tão impopular ao eleitorado do Rio de Janeiro. Diante de uma notícia da revista "Isto é", segundo a qual estariam sendo distribuídos panfletos exortando os eleitores a não votarem nela, a candidata tomou uma atitude extrema. Representou, perante o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) contra a Arquidiocese do Rio de Janeiro, e obteve que fosse feita uma busca e apreensão dos supostos panfletos em poder da Mitra. Para decepção da candidata, os oficiais de justiça nada encontraram, embora vasculhassem o Edifício João Paulo II, sede da Arquidiocese, na quinta-feira, 21 de setembro de 2006.

O adversário de Jandira na luta por uma vaga no Senado, Francisco Dornelles (PP), comentou: "Foi uma brutalidade. Nunca pensei que ela fosse pedir a invasão da igreja" (FRANCO, Bernardo Mello. Jandira e Dornelles travam duelo por vaga no Senado. O Globo, Rio de Janeiro, 24 set. 2006, p. 25).
A candidata não parou aí. Obteve que o TRE intimasse o Cardeal Dom Eusébio Scheid e o bispo auxiliar Dom Dimas Lara Barbosa para que se abstenham de qualquer " de qualquer tipo de comentário ou referência político-ideológica", sob pena incorrerem em crime de desobediência. Nenhum dos dois prelados assinou a notificação.

No presente caso, é de se notar algumas coisas:
1) Durante o seu mandato de deputada federal, Jandira Feghali nunca ocultou seu propósito de liberar o aborto no Brasil. Como relatora do Projeto de Lei 1135/91, Jandira apresentou um substitutivo que pretendia revogar todos os dispositivos do Código Penal que incriminam o aborto com o consentimento da gestante. Se convertido em lei, tal substitutivo permitiria a prática do aborto durante os nove meses de gestação. Nestas eleições, seria de se esperar que ela divulgasse abertamente o que fez no Congresso. Por que ocultar o que é bom?

2) Os panfletos por ela recolhidos e juntados aos autos não fazem qualquer referência à Arquidiocese do Rio de Janeiro. São subscritos pela "Frente Carioca Pela Vida", grupo que tem um blog na Internet. Por que escolher a Igreja Católica como alvo?

3) Impedir os Bispos e párocos de falarem contra o aborto é um disparate jurídico. No exercício regular de seus direitos, eles têm o poder-dever de instruir os católicos a negarem seu voto a qualquer candidato declaradamente pró-aborto.

4) A atual perseguição religiosa está ocorrendo antes da ascenção da candidata ao Senado. Depois de eleita e ocupando a Câmara Alta, imagine-se o que pode esperar a Igreja Católica ...

Posted by: Ricardo at September 29, 2006 01:10 PM

Manera no bagulho, manera no bagulho!!! Sua mãe não dizia que isso derrete o cérebro?! Tudo bem que ler muito, segundo Cervantes, também dá o mesmo efeito colateral...

Posted by: esquadrilha da fumaça at September 30, 2006 04:46 PM

Realmente, é bem interessante este sistema. Eu ja encomendei o meu The Rime of the Ancient Mariner, do Coleridge. Deveria haver algo parecido sobre literatura brasileira.

Posted by: Guilherme Roesler at October 1, 2006 08:13 PM

Faltou ninjas, alexandre, NINJAS!

Posted by: Francis at October 1, 2006 10:40 PM

Ninjas, ninjas, é verdade, Francis. Eu ia gostar de uns ninjas em "Crime e Castigo".

Posted by: Alexandre at October 2, 2006 07:00 AM

muito boa idéia esse Daily Lit, obrigada!

Posted by: Luy at October 4, 2006 12:28 AM

Jogadores de jo-kem-po. São muito pouco estudados na literatura ocidental. As manhas, estratégias e maneirismos deste jogo ancestral poderiam ser acrescentados em diversos clássicos para grande benefício dos mesmos.

Um outro personagem que tem amplas chances de utilização na literatura de todas as épocas é um velhinho magrinho de gorro que fica sempre cutucando os outros e perguntando "Mas, hein? Mas hein?".

E Zumbis, claro! Não creio que exista um só livro no mundo, seja de poesia, direito administrativo ou de anatomia que não se beneficiaria da presença de um zumbi (ou dezenas de milhares de zumbis). A maioria dos musicais também se beneficiaria enormemente com uma horda de zumbies coreografados tentando comer o cérebro dos protagonistas que pulam, rodopiam e se escafedem em grands jetés.

Zumbis são matéria-prima de primeira linha. Todos os livros policiais, por exemplo, ganhariam sempre mais uma camada, mais um plot-twist, mais um elemento surpresa com a inclusão de zumbis - "Não estou certo que aquele cadáver estava realmente morto, senhor Redherring…"

Zumbis dariam razões mais práticas e menos irreais às tramas. Veja Crime e Castigo: Raskolnikof não seria perseguido pela culpa mas sim pela velha usurária e sua filha que, depois de assassinadas, se transformaram em mortas-vivas e o perseguem com machados ensanguentados. Raskolnikof se entregaria ao delegado (após derrotá-lo em uma melhor de três no jo-kem-pô) com a promessa que estaria seguro atrás das grades. Por fim é encarcerado para sempre na mesma cela em que um velho magrelo de gorro que insiste em lhe cutucar as costelas repetindo "Mas, hein? Mas hein?".

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Aliás, Alexandre, tive que copiá-lo junto ao Mirisola no C&P
;)
Sinto muito e obrigado!

Posted by: ratapulgo at October 4, 2006 03:16 AM

Vinhas da Ira poderia ter crop circles - gancho para os aliens.

Posted by: Simone at October 9, 2006 09:47 PM

Que artigo mais maluco!

Posted by: O Sacramento da Eucaristia at July 11, 2007 10:14 AM

AUTHOR: Vilyamhp
EMAIL: Vilyamoe@DarkSites.com
IP: 209.50.74.6
URL:
DATE: 08/26/2007 06:25:10 AM

Posted by: Vilyamhp at August 26, 2007 06:25 AM

AUTHOR: Vilyamhp
EMAIL: Vilyamoe@DarkSites.com
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DATE: 08/26/2007 06:25:17 AM

Posted by: Vilyamhp at August 26, 2007 06:25 AM
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