Ando lendo uns livros pelo Daily Lit, que é um serviço que manda livros pra você por email, trecho por trecho. A vantagem é que se você tem preguiça de ler na tela, bom, os trechos que eles mandam são curtos, não dá preguiça de ler.
E fiquei pensando em montar um serviço parecido - só que eu mandaria os livros todos errados sem dizer nada. A pessoa pediria pra receber "Emma", por exemplo, e receberia a minha versão de "Emma". Para o resto da vida ela acharia que Jane Austen incluiu uma cena de tetada no livro.
-Adorei a cena da tetada.
-Hein?
-Emma Woodhouse é uma lésbica que sai dando tetada em todo mundo. Daí um dia ela encontra a Harriet na estrada e as duas começam a brigar de tetada. Harriet quebra um braço e tal.
-Não tem isso no filme.
Um dia a pessoa leria o livro de papel e ficaria desapontada porque não encontra a cena da tetada.
-Cortaram tudo essa bosta.
Não que "Emma" fique melhor com a cena da tetada - é um dos meus livros preferidos do jeito que está. Mas talvez eu colocasse uma cena da tetada em "Dracula". Não sei exatamente onde. Talvez Mina Harker desse uma tetada no Conde? E gostaria de colocar - não sei bem o motivo - marcianos em um romance realista do tipo "As Vinhas da Ira". Faltam marcianos em "As Vinhas da Ira", certamente. Ou você está dizendo que não há espaço para marcianos em "As Vinhas da Ira"?
Estou convicto que a maior parte dos livros melhoraria muito com a presença de marcianos ou com uma bem colocada cena de tetada no meio, mas faltando isso também pode ser:
1) Dálmatas fumando charuto.
2) Combustão espontânea.
3) Traumatismo peniano.
4) Um mestre de Kung Fu.
"O Pai Goriot", "A Cartuxa de Parma" e "Oliver Twist" se beneficiariam de (1); quase qualquer livro se beneficiaria de (2), mas sobretudo "O Primo Basílio"; se Ahab sofresse de (3) em "Moby Dick", todos ficaríamos felizes (o mesmo valendo para Thoreau em "Walden"); e meu Deus, fico feliz só de pensar na aparição súbita de (4) em "Germinal", "Naná" e "A Besta Humana".
Nada, no entanto, me daria tanto prazer quanto a aparição de um Mestre de Kung Fu em "Guerra e Paz", ensinando Kutuzov a lutar no Estilo do Macaco Bêbado. É assim que Kutuzov expulsaria Napoleão de Moscou. Sim, isso e os macacos vampiros.
Mudamos de servidor recentemente e fiquei fora do ar uns dias. Você notou? Sentiu a minha falta? Não, né? Ah, é assim mesmo. Mas aproveitei o tempo vendo uns quinhentos filmes - e postei sobre eles aqui.
* What's that, frog? Birdshit? Ouvi falar deste video pela primeira vez num artigo de 98 da revista inglesa Cult TV. O texto prometia Oliver Reed bêbado sendo entrevistado por um barbeiro francês. E graças ao YouTube, aqui está. Me dá vontade de sair por aí dando socos em espelhinhos e elogiando os mamilos de Glenda Jackson.
* A revista também mencionava outros programas com Oliver Reed, como este debate entre intelectuais (a palavra já por si é tão perjorativa que não requer o desdém canhestro das aspas) em que ele fala incoerentemente e, mesmo assim, faz mais sentido do que todo mundo junto. E ainda ameaça put my plonker on the table if you don't give me a plate of mushy peas, que é o que eu vivo ameaçando também. Na última parte do debate ele dá um beijo forçado numa feminista horrenda e é expulso da sala.
* Isto não vai ser só sobre Oliver Reed, mas este documentário em cinco partes é muito bom.
* Ok, só mais uma: Reed e Peter O'Toole depois de uma noite de bebedeira (Spitting Image).
* Passei quase uma hora no site do ilustrador Tadahiro Uesugi.
* Um golpe que eu queria dar em alguém, algum dia. E o melhor é que saiu no livro e não há como voltar atrás.
* Projetos arquitetônicos soviéticos nunca construídos.
* Propagandas desenhadas pelo Dr.Seuss.
* Uma entrevista de Frank Black com Ray Bradbury (via Incoming Signals, que parece que morreu).
* How to Spot a Jap. Com desenhos de Milton Caniff.
* Kevin Smith X Gays (via Yu-Huang).
* Melhor resposta daquela coisa, corrente, meme, o que seja, de livros, que encontrei.
* Entrevistas de rádio com escritores, feitas por Don Swaim. Têm cerca de meia-hora cada uma. Por enquanto ouvi as de Louis Auchincloss (boa porque gosto dos livros dele, mas meu Deus, ele é um pouco chato e não presta atenção no que os outros falam), Brian Boyd falando sobre Nabokov, e a de Donald Westlake. Mas a lista é suficientemente grande, e boa, para deixá-lo ocupado durante umas horas.
* Nabokov no programa de Bernard Pivot, falando (em francês, lendo as respostas escondido atrás de uma pilha de livros) sobre Lolita, Ada e línguas. E você sabe porque ele tem que ler as respostas: "I think like a genius, I write like a distinguished author, I speak like a child." (via Tiago A.)
* Por falar em YouTube, balonsoes, responsável pelos Nabokovs acima, tem uma seleção muito boa de videos, incluindo trechos de On the Town, The Art of Conducting com (entre outros) Furtwängler, (Jesus, está dando trabalho este post, cheio de links), e entrevistas com Borges.
* Certamente que eu vou.
* Zumbis feitos de, sei lá qual o nome disso.
* O Manobra, 1979 acabou. Não se consegue acessar nem os arquivos. Geralmente não concordo quando se diz que um blog morreu só porque parou de ser atualizado, porque seria um pouco como dizer que os ensaios de Montaigne morreram porque pararam de aumentar em número. Mas se você não pode acessar nem os arquivos, então o blog morreu morrido.
* Não queria falar nisso porque sou modesto e tal, desejando qualquer coisa menos que a atenção seja voltada para mim (por favor, por favor), mas me leia na Bravo! deste mês. Não aparece online. E aproveite e me leia na Atlântico também.
* Ah sim: um esmagador de cabeças.
(via Fliti)