Duas pessoas comuns têm um só assunto para conversar, que é o quão comuns elas são. Superficialmente o assunto pode parecer outro, mas toda conversa delas se resume a “Eu sou comum, e você?” “Eu sou comum também.” Por exemplo: um amigo meu reclamou de um estagiário dele, porque esse estagiário é uma pessoa comum. Aparentemente meu amigo estava num táxi com ele quando o estagiário disse de repente: “Este ano tem Salão do Automóvel.” Meu amigo pensou em despedir o estagiário na hora, mas essa é considerada uma abertura permissível entre pessoas comuns. Mesmo entre desconhecidos. Não é à toa que conversam tão facilmente em bares, supermercados etc. Eles têm a própria normalidade como assunto comum e, sim, inesgotável.
Já a anormalidade não é um assunto apropriado entre estranhos; você não pode ir para um bar e dizer para o vizinho “Eu sou anormal, eu gosto de litzlitz”, nem algo menos alarmante como “Jules Renard não gostava de Marcel Schwob”. E também não pode tentar se passar por pessoa normal, eles percebem. Se fosse eu tentando essa abertura do Salão do Automóvel com um desconhecido num bar, por exemplo, o desconhecido imediatamente perceberia a falsidade da situação e me olharia como se eu fosse uma lagosta tentando falar de carros.
Posted by Alexandre S. at July 19, 2006 07:10 AM