September 03, 2005

Suburbanadas

Num livro que li muito tempo atrás, suponho que de Aldous Huxley, existe a história de um parisiense real que viveu durante a época da Revolução Francesa. Ele tinha um diário no qual escrevia com freqüência, e em todas as centenas de páginas do diário ele nunca faz nenhuma menção à Revolução Francesa. Fala dos insetos do jardim dele, ou das estrelas (não lembro se era entomologista ou astrônomo), ou de ir ao açougue comprar carne. Esqueci o nome dele e em que livro ele aparece – mas é o meu herói, padroeiro deste blog.

Lembro também que perguntaram para Paulo Francis se ele estava sabendo do Ultimo Escândalo - e ele suspirou pesadamente, o microfone fazendo aquele barulho que ele faz quando soprado diretamente, fruummmm, e resmungou: “não, qual foi a suburbanada agora?”. É sempre uma suburbanada – algo envolvendo uma pasta rosa, uma pochete, um anão, uma peruca.

A Revolução Francesa foi uma suburbanada, sim - a Grande Suburbanada da História, por definição. Hitler? Uma suburbanada. Ditadura militar, morte de Tancredo, tudo uma suburbanada. Mesmo esse furacão do qual vocês todos estão falando agora é uma suburbanada do vento.

Meu sonho, meu sonho mesmo, era encontrar alguém que tivesse sobrevivido a um furacão e não dissesse uma palavra sobre o furacão no diário. Voando pela sala, estendendo os braços para pegar o diário flutuante, o telhado subindo em espiral ao céu, ele escreveria: “Me sentindo meio deprimido hoje. Vou jogar pif-paf.”

Posted by Alexandre S. at September 3, 2005 02:56 PM
Comments

Se alguém souber quem é o diarista ou em qual livro ele aparece, me diga-me. Procurei em "Céu e Inferno", "As Portas da Percepção" e em livros de ensaios e não achei. Talvez não fosse Aldous Huxley - dunno.

Voltei de viagem e o computador não travou ainda - torcendo os dedos, aqui. Hullo.

Posted by: Alexandre at September 3, 2005 03:05 PM

E os posts empilhados aí em algum parte do cérebro, nesses dias de ausência, não vai postar?

"Suburbanada" é uma expressão suburbana. É engraçado isso no Francis, o modo como ele mistura elitismo e populacho e se sai bem.

Abraço,

Posted by: ludovico at September 3, 2005 03:09 PM

Olá, Ludovico! Ah sim, tenho uns vinte posts escritos na mente. Mas que preguiça, que preguiça. ;>)

Posted by: Alexandre at September 3, 2005 03:14 PM

Férias de quê, homi? :-)

Posted by: Claudio at September 3, 2005 03:18 PM

My bad! Li "voltei de viagem" e processei "voltei de férias". Aliás, "voltei de férias" seria uma suburbanada?

Posted by: Claudio at September 3, 2005 03:19 PM

Eu tenho que tirar férias da minha rotina exaustiva de cochilos, Cláudio. ;>) Ah, o mundo inteiro é tão suburbano que todo mundo é assalariado, então "férias" é ok. Mas não descanso enquanto não encontrar um mundo menos suburbano pra viver. Tudo bem com você?

Posted by: Alexandre at September 3, 2005 03:23 PM

Está vindo um cheiro delicioso e pouco saudável de fritura da cozinha, vou lá almoçar. Siga-me quem for valente. Até.

Posted by: Alexandre at September 3, 2005 03:25 PM

Olá, li apenas "Admirável Mundo Novo". É interessante um escritor antecipar determinadas comportamentos e refletir as suas consequencias. Agora,em relação ao que você escreveu, penso que determinados acontecimentos não se tem como escapar de suas lembranças. Talvez a rememória seja uma forma de lidar com determinadas situações traumáticas.

hábraços

Posted by: claudio eugenio luz at September 3, 2005 03:41 PM

Estou ótimo, de férias (mesmo!) e arrumando as malas. Serão vinte e poucos dias longe de mensalões e todo o tipo de suburbanada.

Hmm, fritura. (com voz de Homer)

Vê se despacha esses posts acumulados hein!

Posted by: Cláudio at September 3, 2005 04:11 PM

hahahahahaha

Posted by: Marcio at September 3, 2005 04:32 PM

por acaso não foi o próprio luis xvi? pelo que sei, no dia 14 de julho de 1789, constava no diário dele algo como: "nada de novo hoje também", e algumas notas sobre caça. oh, lindo, lindo.

abraço

Posted by: rodrigo de lemos at September 3, 2005 04:33 PM

Lembrei do Bertie cantando "I Lift Up My Finger and I Say Tweet Tweet", depois de estragar o namoro de Chuffy e Pauline.

Posted by: Marcio at September 3, 2005 04:35 PM

Ele se sentiu meio culpado pela própria leviandade e mudou para "Body and Soul".

Posted by: Marcio at September 3, 2005 04:39 PM

Perdão, cantando não. Tocando no banjolele.

Posted by: Marcio at September 3, 2005 04:44 PM

Pobre reclama demais mesmo, é uma desgraça. Com razão, mas reclama. Quanta falta nos faz Paulo Francis.

Posted by: César Miranda at September 3, 2005 05:03 PM

Acho giro que uma pessoa que atravessa uma tragédia sem nome tenha essa atitude. É um bocado como o santo que ao ser tostado vivo pediu aos seus algozes que não se esquecessem de o virar para o outro lado, para ficar bem tostado por inteiro. Mas será que nós devemos ter essa atitude, nós que não fomos tocados pela tragédia? Neles isso é heroísmo, é isso que o torna tão interessante. Em nós que é?

Posted by: Mariana at September 3, 2005 05:05 PM

Bem, nunca vivi um furacão, mas estou vivendo o mensalão e ainda não havia pensado em dizer uma palavra sobre essa "suburbanada". Só não sei jogar pif-paf. Beijo,

Posted by: Pops at September 3, 2005 05:49 PM

A perfect day for bananafish. Claudio Eugenio Luz, hábraços! Claudio Avolio, despacharei. Viajarás? (Não, está fazendo as malas por hobby. Dã.) Marcio old thing, ah, o banjolele. Uma vez procurei por um na internet e encontrei à venda. Quaee comprei, quase comprei. Mas o que é a vida sem um banjolele? Rodrigo, né não, era um botânico or something. Tenho a impressão que a história era contada num livro de Aldous Huxley, mas posso estar enganado. César, sim, mesmo. E me deixe dizer que acho que não deixei claro o meu entusiasmo por aquele seu post sobre a infância. Mariana, olá. Mas é que eu estou defendendo nem tanto o estoicismo-face-adversidades, mas a Alienação Completa. Estoicismo-face-adversidades (se é que há outro tipo de estoicismo - estoicismo em face de mousse de chocolate? estoicismo em face de sonequinhas?) é bacana e okeydokey, no entanto. Lembro da história de dois ingleses (reais, isso supostamente aconteceu) no alto dum morro vendo uma batalha. Uma explosão acontece perto deles. "Good Lord", diz um deles, "you've lost your leg." "Why", diz o outro, "So I have." Pops, e faz muito bem - faço-lhe uma vênia cheio de honest-to-goodness respeito. Olá, todos.

Posted by: Alexandre at September 3, 2005 09:25 PM

Sobre esse assunto, Alienação Completa, Bernardo Soares: "Por enquanto, visto que vivemos em sociedade, o único dever dos superiores é reduzir ao mínimo a sua participação na vida da tribo.

Não ler jornais. (...) O supremo estado honroso para um homem superior é não saber quem é o chefe de Estado do seu país, ou se vive sob monarquia ou sob república."

Posted by: Alexandre at September 3, 2005 09:36 PM

Homem superior é o Catzo!

Posted by: Catzo at September 3, 2005 09:59 PM

Muito bom ;-)

Posted by: Ieda at September 3, 2005 10:01 PM

Alexandre, viajarei sim. A partir do dia 8 estarei curtindo as águas cristalinas do pacífico. Quem sabe eu não esbarro com o Magnum e sua Ferrari? :-)

Espero que nenhuma Katrina venha estragar a festa.

Posted by: Cláudio at September 3, 2005 10:17 PM

Ei, espere aí, de que ciclone suburbano não estamos falando? Daquele história delúbica, do Katrina ou do cisma Goiabal?

Posted by: mauro at September 3, 2005 10:18 PM

Eu ainda leio jornal no domingo, mas só porque é ou isso ou assistir corrida de fórmula 1.
(se bem que agora tenho a opção de jogar golfe no videogame. É o que sobra pra quem não tem uma pequena fortuna disponível para um jogo de tacos e um título de clube.)

Ah, mas é uma sensação realmente boa quando você dá conta que o único texto que leu sobre o furacão foi um artigo do Libération, para o curso de francês :)

Posted by: Footless at September 3, 2005 10:27 PM

Alexandre Silva,

Pela segunda vez lhe deixo aqui uma marca visível (quase invisível) da minha passagem.
É quase dolorosa, de tão sublime, a sua escrita.
Ainda bem que voltou de viagem, como se nunca tivesse chegado a partir... É o seu imaginário que conta, quando na ponta dos dedos traça caminhos tão caligráficos.
Escreva tudo quanto lhe vai já no mapa da cabeça. Escreva-nos 'viagens'.
Consigo é tudo uma viagem permanente sendo que...

"Viajar é muito útil, faz trabalhar a imaginação. Tudo o mais não passa de decepções e de canseiras. Esta nossa viagem é inteiramente imaginária. É essa a sua força. Vai da vida à morte. Homens, animais, cidades e coisas, tudo é imaginado. É um romance, é uma história fictícia e mais nada. Littré o disse, e não se engana nunca. E afinal toda a gente pode fazer o mesmo. Basta, para isso, fechar os olhos. Tudo se passa do outro lado da vida."
[L. Céline, introdução ao Viagem ao Fim da Noite], da minha edição traduzida de 1944.

Obrigada!

Posted by: sandra costa at September 4, 2005 09:11 AM

Ao terminar de ler este seu último post eu soltei um muito sincero P-U-T-A Q-U-E P-A-R-I-U!!! Cara, vc escreve bem.

Posted by: Paulo Paiva at September 4, 2005 11:45 AM

esse livro parece ser 'a náusea', de sartre... li recentemente, e lembro de ser basicamente isso

Posted by: coiote at September 4, 2005 09:33 PM

Suburbanadas ou quando se faz da alienação um modus operandi.

Posted by: Zelix at September 4, 2005 10:56 PM

Catzo, não tenho dúvida. Ieda, mas tenho impressão que não foi surpresa pra você, tantas vezes que te disse que ia escrever esse post. ;>) Cláudio, não estragará. Boa viagem! Mauro, nada suburbano no Comendador, nunca. Mas a verdadeira história do cisma eu contei no post acima. Fooltess, sinta inveja: a única vez que li jornal nos últimos 12 meses foi quando minha cachorra começou a beber água e eu me sentei perto dela, notando o jornal embaixo do portinho de ração. Era um jornal velho - algo sobre "China" e "salvaguarda". Fechei os olhos bem rápido, no entanto. Sandra, não, escuta, eu é que te digo obrigado. Mesmo. Paulo, obrigado também. :>) Coiote, nunca li "A Náusea" - acho realmente que deve ter sido num livro de Aldous Huxley. Zelix, exato. Ei, voltem todos. Sumiram, se foram. Abraços!

Posted by: Alexandre at September 5, 2005 02:38 AM

Foi o detalhe do pif-paf que era inédito ;-)

Posted by: Ieda at September 5, 2005 02:43 AM

Achei quite charming o que você escreveu sobre o estoicismo, e quase desisti de responder. Mas como no paraíso alternarei temporadas em Quaresmeiras com outras em Terra de Descartes (me pergunto em qual das duas acharei Hannibal Lecter), vou colocar aqui a frase de uma das cartas a Lucílio em que Sêneca defende o estoicismo, sim, diante de mousses de chocolate: "Um espírito superior é capaz de utilizar utensílios de barro como se fossem de prata, mas não é inferior aquele que usa os de prata como se fossem de barro."

Abraço

Posted by: Marcio at September 5, 2005 03:19 AM

Engraçado os nomes que dão para esses eventos aí. Ainda quero ver um furacão chamado Rosicleide.

Alienação, para mim, é o mesmo acordar com a Monica Bellucci.

Estou lendo seus arquivos todos. Estou em julho de 2003. Good, very good. Também lhe enviei um e-mail em que comentei sobre o livro Wunderblogs.
Abraços

Posted by: Fernando Henrique at September 5, 2005 04:53 PM

Esta ideia já aparecia no my little blue dress do Bruno Maddox, em que a velhota (que afinal não era tão velhota) sofria de sobreinformação e um dia desiste. De ler jornais, de aprender, escolhe oblivion.

Posted by: Sofia at September 15, 2005 01:11 PM
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