August 21, 2005

Pequeno Episódio na Vida dum Dândi

Em 1893 Auguste Vaillant jogou uma bomba na Câmara dos Deputados em Paris, fazendo com que o poeta dândi Laurent Tailhade desse três saltinhos anarquistas no seu gabinete decorado à Andaluza e gritasse: “Que importam as vítimas, se o gesto é belo?”

Alguns meses depois, no Foyot, enquanto Tailhade jantava pato à Semíramis com sua amante gasconha e patusca, uma bomba explodiu na rua e (ah, que timing) uma lasca da vitrine do restaurante entrou, mesmo sem gravata, passando pelos garçons esnobes com a petulância arrivista dos cacos de vidro, e arrancou o olho direito do poeta.

Sem um olho, coberto de sangue e minúsculos cacos de vidro grudados nos cabelos e pescoço como areia, poucos segundos antes de desmaiar, Laurent Tailhade deu um soquinho na mesa, vexado porque Paris ia rir dele. Enquanto desmaiava, pouco antes do seu rosto quicar uma única vez no peito estufado do pato à Semíramis, Tailhade reclamou: “Garçom, tem um olho no meu prato!”. Dizendo isso desmaiou aliviado, achando que Paris riria do seu witticism à anglaise e não de seu destino ridículo.

Mas sua amante, além de gasconha e patusca, era um pouco surda; o garçom estava quatro mesas adiante; o murmúrio de Tailhade foi mais baixo que a ainda surpreendente vibração da bomba nos copos de cristal das mesas próximas à rua; e ninguém soube da presença de espírito do poeta esquerdinha.

Paris riu:

hahahahaha

Eu ri, quando soube da história, que veio com caricatura e tudo no “Le Canard Fâché”:

hahahahaha

Passados dias, todos riam ainda. No seu quarto neoflorentino do hospital da Ile de la Cité, Tailhade se recuperava da perda do olho, mas não do riso de Paris - que entrava pela janela e, ricocheteando nas paredes amarelas, freqüentemente derrubava uma jarra d’água ou um vasinho de copos-de-leite. A quem o visitava, Tailhade dizia: “... e então eu disse ao garçom, “Garçom, meu caro! Há um olho na minha sopa!...”" - e suas visitas riam, mas não acreditavam na sua presença de espírito.

A explosão no Foyot aconteceu numa terça. Quando chegou a sexta, os membros mais sóbrios da burguesia parisiense – o banqueiro Follard, o industrial Heifetz, o magnata da bolinha de gude Duclos – consideraram o assunto e chegaram, cada um de pantufas, no canto mais privado de sua cachola, à conclusão de que dois dias era o limite imposto pelo bom-tom a que se risse duma perda de olho. “Chega, chega”, disse Follard em voz alta, enquanto punha a peruca de manhã. “Se fossem os dois olhos, eu riria até a segunda. Duas pernas, até quarta. Um olho apenas, chega! Follard, meu caro - ao trabalho!”

E quando viram o exemplo sisudo do banqueiro coberto de vitiligo e maçom, Paris resistiu um pouco, e deu ainda umas risadinhas durante o final de semana; de vez em quando, ao longo do sábado e domingo, estranhos se encaravam na rua e voltavam a rir, dizendo “Por Deus!” ou “Ao diabo!”, ou mesmo “Essa é mesmo forte!”, dando uns tranquinhos, umas tossezinhas; mas já na segunda a cidade amanheceu em silêncio, e até mesmo um pouquinho catarrenta. O peito de Paris chiava um pouco; o nariz de Paris escorria; e a boca de Paris se contraía num ricto que indicava sua determinação de parar de rir a qualquer custo.

Na semana seguinte, eis Tailhade que sai do hospital, de tapa-olho catita com motivos florais de William Morris. Paris olha para ele; Paris não ri; Paris pergunta como Tailhade vai; Paris pede para usar o tapa-olho um segundo, sempre quis ver como ficava; Paris pergunta se não dá dor de cabeça; Paris não espera pela resposta e vai se ver refletida numa vitrine. A todas essas, encantado por ouvir ao redor de si um silêncio notavelmente livre de risadas, Tailhade alisa sua dignidade restituída com amor de dândi e diz baixinho: ulalá, ulalá, ulalá.

De que pequenas coisas – o tédio duma cidade, o azar alheio – depende o destino de cada um! Na semana seguinte, Paris ria de outra pessoa: um químico chamado Tanguy que, dizem, havia perdido o nariz ao fazer sexo oral numa escandinava chamada Bertine. Oh, Tailhade ria também, escondendo o próprio nariz e perguntando à amante: “Quem sou eu? Quem sou eu?”. Ao que sua amante gritava: “Tanguy!...”, e caía para trás na cama magenta, rindo gordinha e campônia.

Bertine, Bertine,
Onde está o meu nariz?
Meu pince-nez, minha tartine?

Tanguy, Tanguy,
Deve estar bem
Aqui –

cantavam os dois, com Paris fazendo coro a noite toda.

Vou aproximar a câmera imaginária do meu estilo uma última vez sobre o rosto de Tailhade, para mostrar que nosso dândi agora, rindo, usa um tapa-olho com motivo de Hokusai - Ponte sobre riacho, com tertulhões. Naquele verão uma certa romancista, socialista, dândi, chegou a querer perder um olho para usar algo igual; e eu também. Poucos dandies recusarão a oportunidade de usar um tecido estampado na cara, mesmo ao preço dum olho.

Posted by Alexandre S. at August 21, 2005 02:51 PM
Comments

Hokusai, hein? :-)

Imagino como não seria um tapa-olho com motivos de Turner. Ou William Blake, o inventor das revistas em quadrinhos.

Posted by: Pedro Sette Câmara at August 21, 2005 03:27 PM

Se a História não registra,como você sabe?

Posted by: martin at August 21, 2005 04:05 PM

Alexandre, Alexandre: te agradeço por tanta imaginação. Por alguns minutos, escapamos ao domínio do Domingo tedioso e rimos desse anarquistazinho. ;-)

Abraço, my dearest

Posted by: ludovico at August 21, 2005 04:53 PM

Oh! Comprarei seus cds! Ficaras rico!
Ha!

O texto de hoje? Pois é, é sempre bom rir um pouco das desgraças alheias para esquecer as nossas próprias.

Posted by: J. Alencar at August 21, 2005 11:14 PM

o tempo que eu perco quando não estou aqui lendo seu blog. o tempo que eu ganhei estudando dandis loucos do início do século passado, e revolucionarios loucos - da arte e da política. boa memória vc tem.

Posted by: fil2 at August 22, 2005 12:29 PM

Pato à Semíramis custa os olhos da cara, ho ho ho.

Posted by: FDR at August 22, 2005 02:22 PM

Olá,
Muito poético e tudo isso mas, que diabos são tertulhões!? Peixinhos coloridos que viviam nos riachos, sob pontes ?
Assaz periclitante...

Posted by: Braulio Jorge at August 25, 2005 09:45 AM

Deixa ver se eu entendi: Tailhade seria o precursor do arte-nuvô?

Posted by: Kommentator at August 26, 2005 03:41 PM

Ótima idéia, estava cansado de ter que assobiar toda vez que ouvia o Chato Buarque. Outra ótima idéia seria lançar uma coleção internacional para o Radiohead.

Posted by: Kommentator (comentando o post anterior (sempre atrasado!)) at August 26, 2005 03:46 PM

Eu vou lançar uma colecção chamada: "Músicas de Chico Buarque para ouvir enquanto ouve os discos da colecção Música para você ouvir enquanto ouve Chico Buarque". O primeiro volume inclui em modo "repeat" a música: "Samba e Amor" com o verso "e o trânsito contorna nossa cama" em volume suficientemente elevado para abafar o trompete de Louis Amstrong mesmo nos dias mais difíceis. Boa sorte (o meu sucesso depende do vosso).

Posted by: D. at August 26, 2005 08:03 PM

Eu disse Radiohead? Quis dizer Bob Dylan.

Posted by: Kommentator (insistindo num assunto que já perdeu a graça) at August 26, 2005 10:17 PM

*entra, senta naquela cadeira que fica ali no cantinho, olha para os lados, vê as horas no relógio de bolso e tamborila no caixilho da janela*

Posted by: Marcio at August 27, 2005 01:48 PM

*tira da sacola um volume de contos do Isaac Bashevis Singer e começa a ler sem muita concentração, volta e meia erguendo os olhos e suspirando pelo nariz*

Posted by: Marcio at August 27, 2005 07:45 PM

o poeta esquerdinha era um agente monarquista infiltrado nas hostes libertárias. riram tanto dele porque já havia sido descoberto... a bomba foi intencional, para ele mesmo. ah ah ah...

Posted by: Bakunin at August 28, 2005 01:09 AM

Cara, parabéns pelo blog e pelos textos... caí de para-quedas aqui, indicado por uma amiga - surpreendente!

Se depender de mim, a coleção de CDs vai ser um sucesso, principalmente como presente de natal!

Abraço!

P.S.: estou colocando um link pra cá no meu blog, ok?

Posted by: Thiago Rocha at August 29, 2005 11:51 AM

Hum... bem escrito, mas estou com uma dúvida prática: como se perde um nariz fazendo sexo oral?

Posted by: Daniel at August 30, 2005 08:07 AM

Daniel, não faço idéia. Uma vez perdi o monóculo, mas perder o nariz já é exagero. ;>)

Posted by: Alexandre at August 30, 2005 09:25 AM

Thiago, obrigado - e claro que não tem problema. Volte sempre.

Todo mundo, olá, hail e tal. Estou fora da cidade, mas devo voltar logo e respondo os comentários com mais tempo. Adeus, adeus.

Posted by: Alexandre at August 30, 2005 09:27 AM

morreu, fiii?

Posted by: Mairena at September 2, 2005 01:09 PM

Texto bom feito o diabo. Sempre achei que adereços cabiam bem somente nestas categorias de homem: dandis e piratas. Até vc me apresentar esta simbiose dos dois..
Abço

Posted by: Evelyn at September 7, 2005 12:02 AM
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