November 19, 2003

Onze pontos sobre literatura

1) O leitor ideal é um detetive. Um detetive cerebral e excêntrico, como Poirot ou Nero Wolfe. Não há crime, nem há criminoso; mas há o que o escritor russo Vladimir Nabokov chamou de “mistério das estruturas literárias”. Na sua poltrona, o leitor de gênio lê e relê o romance em busca de pequenos detalhes - como a bússola no teto da cabine de Ahab em Moby Dick, ou a exata localização do quarto de Skimpole em Casa Sombria. É um ato heróico como uma aventura de Sherlock Holmes; e se esse leitor é também um crítico, ele mesmo registra suas aventuras para a posteridade – Sherlock Holmes e Watson numa pessoa só.

2) Depois de Jorge Luis Borges, todo escritor argentino parece idiota.

3) Durante milênios sempre se achou que a literatura devia ser sobre coisas interessantes: uma espada mágica, uma guerra, uma viagem, um monstro. Por algum motivo isso nunca chegou ao Brasil; nossos escritores recuariam horrorizados se vissem uma coisa interessante; preferem a banalidade interessantemente contada. Um Coração Simples, de Flaubert, é o modelo não-alcançado de toda a literatura brasileira. E no entanto a literatura em prosa de língua portuguesa começou com um livro sobre o objeto mais interessante de todos os tempos: A Demanda do Santo Graal. Se esse livro tivesse sido o nosso modelo, seríamos épicos, ao invés de sermos mesquinhos. Seríamos de meter medo.

4) O crítico americano Harold Bloom ganhou notoriedade pela teoria da Angústia da Influência; dizendo que cada escritor tem que se meter numa batalha de morte contra seus predecessores. Assim Fernando Pessoa teve que lutar, no seu íntimo, contra o espectro barbado de Walt Whitman. Mas já no século I d.c. o grande e misterioso Longino escreveu isto, no Tratado do Sublime:

“...outro caminho leva ao sublime. Que caminho? Como é ele? A imitação e inveja dos grandes prosadores e poetas do passado. (...) Essa prática não constitui furto; é como um decalque de belos sinetes, de moldados, ou de obras manuais. Parece-me que Platão não faria abrolhar tão belas flores entre pontos doutrinários da filosofia, nem acompanharia amiúde a Homero nas selvas da poesia e das expressões, senão, por Zeus! para, de corpo e alma, disputar com ele a primazia, como um competidor jovem em frente de um lutador já de muito admirado; talvez emulasse com demasiado ardor e, por assim dizer, de lança em riste, não, porém, sem proveito; na expressão de Hesíodo, “boa para a humanidade é tal disputa”. Belo, na verdade, e merecedor de coroa de glória é esse combate em que mesmo em ser derrotado pelas gerações anteriores não deixa de haver glória.”

Essa tradução horrível do Professor Jaime Bruna não deixa ver o quanto Longino é mais inteligível e inteligente do que Harold Bloom. Não se sabe muito sobre Longino, cujo tratado às vezes aparece assinado por “Anônimo”, e às vezes por “Dionísio”; mas foi evidentemente um homem de gosto e um crítico de gênio.


5) Depois de ler Jane Austen, durante dias todos os outros autores e até mesmo todas as outras pessoas que você conhece parecem grosseiros como cartolas de futebol. Você se pega olhando seus conhecidos com estranhamento e pensando: “Não é um cavalheiro”.

6) Críticos sempre riem de H.P. Lovecraft, o escritor americano de horror - riem do estilo dele. Riem de coisas como “as estrelas brilhavam sinistramente”. Perguntam como é que uma estrela que brilha sinistramente brilha de modo diferente das outras. Em suma, que o advérbio aí está a mais. Mas não está: o advérbio nos faz sentir que as estrelas brilham sinistramente. Eu consigo imaginar uma estrela brilhando sinistramente – você não?

7) O preconceito contra adjetivos e advérbios vai ser considerado um modismo do século vinte, como a angústia e a incomunicabilidade humana.

8) Robert Louis Stevenson tem gosto de vinho; Colette de champanhe; Chesterton de cerveja.

9) Agatha Christie criou um país, a Christieland. Quem esteve lá não esquece.

10) O realismo só sobrevive, só foi capaz de criar os melhores romances de todos, porque nunca foi puro – algo nele pede pelo fantástico. Assim o sórdido Zola (o Neville D’Almeida das letras) foi responsável pela segunda fase, fantástica e decadentista, do seu ex-discípulo Huysmans; sua sordidez foi tanta que enojou Huysmans e o fez criar Là-bas e À Rebours. Assim também Flaubert se cansou do realismo e escreveu Salambô e As Tentações de Santo Antão; Eça de Queiroz se cansou do realismo e criou O Mandarim. Mesmo Tolstói, o maior realista de todos, tem que escapar para o fantástico na sequência do pesadelo em Ana Karênin.

Nem os realistas aguentam o realismo; só não sei como os materialistas aguentam o materialismo. Como a sequência do pesadelo em Ana Karênin, Deus deveria ser incluído na nossa visão de mundo por uma simples questão de gosto.

11) Da imortalidade de certos personagens:

"Mas não pode haver túmulo para Sherlock Holmes ou Watson... Não viverão eles para sempre em Baker Street? Não estão eles lá neste instante mesmo, enquanto escrevo?... Lá fora, os coches sacolejam sob a chuva, e Moriarty planeja seu último plano diabólico. Dentro, as chamas na lareira, e Holmes e Watson aproveitam seu merecido descanso... Desse modo eles ainda vivem para todos que os amam: numa câmara romântica do coração: num país nostálgico da mente: onde sempre é 1895" (Vincent Starrett, no livro The Private Life of Sherlock Holmes -1933) .

(But there can be no grave for Sherlock Holmes or Watson . . . Shall they not always live in Baker Street? Are they not there this instant, as one writes? . . . Outside, the hansoms rattle through the rain, and Moriarty plans his latest devilry. Within, the sea-coal flames upon the hearth, and Holmes and Watson take their well-won ease . . . So they live still for all that love them well: in a romantic chamber of the heart: in a nostalgic country of the mind: where it is always 1895.)

Posted by Alexandre S. at November 19, 2003 03:36 PM
Comments

Estou republicando alguns dos textos do Digestivo Cultural, mas já vou parar de fazer isso. Esse também foi publicado no jornal Vertigem, editado pelo Bruno "Gauguin" Garschagen, em algum ponto, deixe ver, de 2002.

Posted by: Alexandre at November 19, 2003 03:39 PM

Por que escrevo "Anna Karênin" e não "Anna Karênina"? Ah, porque não finjo saber mais de russo do que Nabokov, that's all.

-Pedante!

Indeed, Sir. That would seem to be a fair description of Mr. Soares, I should say.

-Pára de falar em inglês! Você não passa de um cucaracha aew!

Mas só cucarachas reclamam quando encontram trechos em inglês.

-E os franceses?

Os franceses são os cucarachas - perdão, cafards - da Europa. Nos dois sentidos.

Posted by: Alexandre at November 19, 2003 03:49 PM

Tem mais, peço que reparem no ritmo e na beleza dessa frase aí: "So they live still for all that love them well: in a romantic chamber of the heart: in a nostalgic country of the mind: where it is always 1895."

Perdi isso na tradução.

Posted by: Alexandre at November 19, 2003 03:52 PM

Alexandre, você tinha que ter um defeito. Só em você dá para perdoar o gosto pelo abominável Lovecraft. Ah, dizem que os cucarachas da Europa são os belgas. Pergunte ao Baudelaire. :) Abraços.

Posted by: Ruy at November 19, 2003 03:53 PM

Ah, sim. Eu imagino a estrela que brilha sinistramente. E, definitivamente, não sou uma dama.

Posted by: garota urbana at November 19, 2003 03:55 PM

É sim! Vou até aí desafiar você para um duelo se você repetir isso. ;>) E Ruy, Lovecraft é ruim, eu sei - mas eu adoro a ruindade dele. Que posso fazer? O que ele era capaz de fazer, ninguém mais é. De um modo muito estranho, ele não era deste mundo. Dois abraços!

Posted by: Alexandre at November 19, 2003 04:36 PM

Um convite, Alexandre: visite meu blog comemorativo, antes que acabe.

Abraços.

Posted by: André S at November 19, 2003 04:45 PM

Também nao consigo ler Lovecraft mas, mesmo assim, parabens, Alexandre, esse teu post foi ducacete. Alias, coincidencia, comprei uma coletanea do Borges com Bioy Casares "Os melhores contos policiais". Coisa finissima!

Posted by: Flávia at November 19, 2003 05:17 PM

Gênio.

Posted by: Julio Lemos at November 19, 2003 07:07 PM

Alexandre, não seria perigosa ao texto a inclusão de Deus em passagens onde tal menção não cabe? Acredito que o próprio Tolstoi nos prova isso, no mesmo livro, ao nascimento do filho de Constantino e Kitty. A personagem mais interessante tem sua personalidade completamente modificada não porque seu filho nasceu, mas porque encontrou Deus, numa cena até mesmo forçada - e que deixou o filho em segundo plano. Isso não foi justo com as personagens, não foi justo com a obra.

Nada contra a menção de Deus, mas que não prejudique a narrativa.

Posted by: Etienne at November 19, 2003 09:41 PM

Escreva sobre monstros e espadas mágicas! E não se esqueça dos advérbios!

Posted by: Delance at November 19, 2003 11:36 PM

Alexandre, meu caro, tudo bem você trazer as coisas do Pervertido Cultural para cá, mas o Hélion Povoa Neto você não precisa trazer não, viu. Esse você deixa lá...

Posted by: Flamarion at November 20, 2003 12:45 AM

Alexandre: seu texto, formidável, como sempre. Faço, contudo, uma ressalva mui pessoal. Depois de Jorge Luis Borges, quase todo escritor, argentino ou não, parece idiota. Sim, sim, sou intransigente: para mim, Borges é o melhor prosador do século. O mais elegante, dos mais eruditos e finos. Os outros deste século me dão sempre a impressão de uma palavra a mais, ou a menos.

Abraços

Gustavo Nogy

Posted by: Gustavo Nogy at November 20, 2003 01:14 AM

Nossa, a privada não está entupida, depois de tanta cagação de regra?

O mais engraçado: ainda tem gente que se acha contraponto a sub-Buk e a sub-Rubem Fonseca só porque avançou um tiquinho nas referências. Levianos, levianos...

Chega, já perdi tempos demais por aqui. Amigo que me indicou o site: você é um ex-amigo. A nota de corte aumentou...

Posted by: Paulo Ribeiro at November 20, 2003 01:38 AM

Eu penso há anos numa forma de definir HP Lovecraft. Porque o que eu gosto nem é o texto dele, é mais a sensação que dá depois de ler: aquele medo que parece se alojar nos níveis mais primários do nosso cérebro, um medo que o próprio Lovecraft chamaria de ancestral. Coisa do cão, credo em cruz!

Posted by: Marco Aurélio at November 20, 2003 08:55 AM

O Problema com Lovecraft não é apenas o texto (pois ele constrói bem a trama para simplesmente depois acabar com ela com um desfecho de horror horroroso), mas alguns de seus mais ardorosos fãs.

Salvo honrosas exceções, todos eles podem ser encontrados nas Grandes Galerias com suas roupas pretas, seus cabelos longos, seus vocais agudos e suas peculiares noções de idade média e demonologia, de deixar um Hilário Franco Jr. e um Aleister Crowley de cabelos em pé (este último até se benzeria).

Mas, dos males o menor; alguns dos fãs de Tolkien nos ameaçam detrás de suas barbas postiças com seus machados de papelão...

Posted by: Chapolim Colorado at November 20, 2003 10:31 AM

Poético e enternecedor o trecho do Holmes e Watson. Ainda não consegui, mas um dia poderei dizer "nos meus sonhos, é sempre 20xx", ou tal mês de tal ano, todo mundo precisa ter uma época de ouro.
Não gosto da Austen, mas entendo perfeitamente o estranhamento. Outro dia defendia a idéia que, nesse contexto, só se usa cavalheiro, mesmo para mulheres. Mulheres são desonradas.

Posted by: lisa at November 20, 2003 01:27 PM

A MELHOR REPORTAGEM SOBRE O DEBATE DO OLAVÃO VOCÊ ENCONTRA EM MEU NOVO BLOG DESCARTÁVEL.

Abraços,

André

Posted by: André S at November 20, 2003 06:04 PM

Alexandre, estou adorando seu blog, temos realmente muito em comum. Lovecraft é um escritor de mão cheia, as coisas que ele consegue fazer e criar através da palavra são fenomenais, ele é o mestre do mood. Às vezes acho que nada precisaria acontecer, nenhum C'tulhu dormindo na cidade dos sonhos. Bastava ele narrar um piquenique no parque que já seria assombroso.

O Eça realista era insuportável, o Eça de O Mandarim e, mais ainda, já leu?, da Relíquia, era sensacional. Conhece Galdós? Escrevi um artigo sobre ele (http://www.sitedoescritor.com.br/sitedoescritor_cronica_00032_galdos.html). Ele levou o romance realista aos seus ápices e ele, também, não conseguia se furtar, em seus últimos livros, de inserir elementos mágicos, impossíveis...

Mais do que a Christie, acho que o sucesso do Rex Stout foi ter criado a Wolfeland. O mundo do Nero Wolfe é tão fechadinho, tão perfeito, que parece, realmente, real.

Recomendações: meu artigo Saber Ler Literatura (http://www.sobresites.com/alexandrecruzalmeida/artigos/saber.htm) tem muito a ver com esse aqui, vc deve gostar.

Também li um artigo ótimo seu, no Digestivo Cultural, sobre como a Internet está acabando com a dignidade da profissão de repórter. Todo engraçadinho acha que pode debater tudo. Achei muita graça no que vc falou, pois eu tb tinha escrito sobre isso, pode ser que goste: Quando Um Não Quer, Dois Não Debatem (http://www.sobresites.com/alexandrecruzalmeida/artigos/debate.htm)

Estou viajando no seu blog, fiquei realmente impressionado. Meu próximo projeto agora é tentar encontrar seu livro...

Abraços... Alexandre

Posted by: Alexandre Cruz Almeida at November 20, 2003 08:27 PM

Excelente blog. Quando eu ficar velho quero ser igual a você. E bendito seja quem inventou a ambigüidade.

Posted by: Alexandre at November 20, 2003 10:38 PM

Oh Grande Alexandre!
Quisera eu ver como você vê,
Ler como você lê,
Sentir e
Sonhar como você sonha.
Depois que assisti a
8 Mulheres e 1/2
não consigo mais dissociar
Jane Austen àquela mulher
amante do porco e do cavalo.
Ai de mim
bjokas,
está deliciosa a leitura aqui

Posted by: safiri at November 21, 2003 10:05 AM

No ponto 3, afirmas que o interessante ao escritor brasileiro é um horror. Entretanto, creio, com respeito a tua opinião, que tais "coisas interessantes" são à visão brasileira irreal. Não devendo assim atenção. Sim: a metafísica é parte da vida - a própria vida. Mas não estamos vivendo aqui? Não digo para não nos preocuparmos com mais nada além de nossos olhos, e sim mesclarmos esses conhecimentos.
No ponto 4, concordo, exceto pelo imitar e invejar, que no final da tradução Longino contrapõe, satisfatoriamente: a evolução, o continuar...
Gostei de seu blog, caro Soares.
Um grande abraço.

Posted by: Rodrigo at November 22, 2003 09:24 PM

"Eu consigo imaginar uma estrela brilhando sinistramente – você não?"

Supernovas brilham sinistramente, sem dúvida.

W

Posted by: Wagner at November 25, 2003 03:04 PM

Ah, ontem acabei de ler Emma, da Jane Austen e ainda tô completamente apaixonada por tudo. Não sei dizer como eu me sinto. Mas achei lindíssimo. Comecei domingo à noite e li até quase três da manhã sem conseguir parar, e depois, caindo de sono, ainda na página 208, folheei algumas páginas finais, e li o final porque que não ia aguentar ficar até o outro dia, e só podia continuar depois do trabalho. Dificilmente faço isso, mas é apaixonante o livro, tudo, tudo. Nunca tinha lido nada dela, e li por causa desse seu post, e vim agradecer. :)

Posted by: desafinada at December 9, 2003 09:46 AM

Desafinada - não é bom? Não é? ;>)

Posted by: Alexandre (clique) at August 24, 2004 06:35 PM

Hi Lucy! Photo I received! Thanks!

Posted by: Simon at April 17, 2007 12:39 PM

Hi Sam! Photos i send on e-mail.
Green

Posted by: Green at April 25, 2007 08:33 AM
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