Não falamos apenas em prosa; falamos em não-ficção. O que significa: todo mundo, o mais tacanho dos seus primos, está preparado para gostar de ler prosa de não-ficção. Entre o que Hobsbawn escreve e o que um frentista diz há uma diferença de complexidade, mas não de natureza: ambos são prosadores e não-ficcionistas.
Mas a ficção! Ela surgiu num estágio muito avançado da humanidade; ela pede sofisticação do leitor. Ela pede que ele dê valor a pessoas que não existem, coisas que não aconteceram. E para se ter uma idéia de como isso é sofisticado, pense nas pessoas, até mesmo pessoas educadas, que desprezam tal ou tal filme ou livro porque ele é “fantasista”, ou que elogiam tal filme ou livro porque ele “é baseado em fatos reais” e “fruto de muita pesquisa”.
Lembre-se também daquele caubói, nos primeiros anos do cinema, que levantou da platéia e começou a dar tiros no vilão. Entender o que a ficção é, e gostar dela pelo que ela é, é o gosto mais raro e mais sofisticado que se pode encontrar num leitor.
Qualquer idiota de terno lê biografias ou história. Idiotas lêem as formas mais baixas de ficção, sim, mas com desprezo – a menos que acreditem que não é muito ficção, que é verdade. Mas ser capaz de apreciar a mentira cuidadosamente trabalhada, não porque se acredita na mentira, mas porque foi cuidadosamente trabalhada – disso só um em quinhentos leitores é capaz.
Eis uma breve história da sofisticação do pensamento humano: começamos dizendo coisas, depois dizemos coisas falsas, depois contamos histórias, depois contamos histórias falsas, e depois – último estágio de sofisticação, Billy Boy – apreciamos histórias falsas que sabemos que são falsas.
Gente muito burra não mente. São sempre penosamente sinceros e gaguejam ao dizer a verdade doída. E se lhe contamos uma história de dragões e mais tarde eles vêm a saber que dragões não existem, ficam muito vermelhos, quase terrosos na sua indignação, enquanto exclamam, “Você mentiu! Você mentiu!”
O leitor que só lê não-ficção é o proletário, o vendedor de pamonha da biblioteca, sempre a um segundo de dizer ao ficcionista, “Você mentiu! Você mentiu!”
Posted by Alexandre S. at May 3, 2003 04:31 AMYou're the top, old top!
Posted by: FDR at May 3, 2003 11:27 AMAlexandre: É uma pena mas a maior parte do tempo de leitura das pessoas é gasta em jornais e revistas, ou textos relacionados ao trabalho. E, no que diz respeito aos livros, a maioria de nós lê mais textos de não-ficção do que textos de ficção. E entre os livros de não-ficção, os mais populares são aqueles que, como os jornais e as revistas, lidam jornalisticamente com assuntos de interesse contemporâneo. O problema de saber como ler literatura imaginativa é inerentemente MUITO mais difícil do que o problema de saber como ler livros expositivos. Conclusão: nosso espírito fica mais pobre sem as leituras imaginativas. Um abraço,
Posted by: Sidney Vida at May 3, 2003 07:01 PMGrande Alexandre, concordo contigo. Mas uma obra totalmente fictícia seria impossível, pois precisamos de analogias e de outras coisas concretas, que dão aquela faísca de vida a qualquer texto de ficcão.
E creio que assim que alguém pensa ou cria algo, aquela coisa é tão real quanto as balas perdidas do rio de janeiro. Por isso, o que há é um equívoco na definição de ficcão, pois tudo é ficcão (ou não ficcão). O problema são as pessoas que levam as coisas a sério de mais.
Queria aproveitar para te falar que acabei seu livro (no avião vindo pra inglandia até. Foi meu companheiro de viagem :). Gostei e ri muito. Lembro de uma descrição do vermelho de uma das partes da casa de Cupra, que foi hilária.
O livro é muito bom mesmo. E não sei se você conhece Douglas Adams, mas, de alguma maneira, lendo seu livro fez me lembrar dele. Para mim ele é um mestre da ficcão, e se não o conheces, dê uma olhada no seu livro "hitchhiker's guide to the galaxy", que é simplesmente genial.
abraço.
Posted by: Pedro Teixeira at May 3, 2003 09:28 PMMuito bem dito. Aliás, seus últimos posts andam inspirados, heim? É entusiasmo da casa nova? Melhor que tocar num ponto que vale a pena é fazê-lo de uma forma que vale a pena...
Acho que dá para dizer que toda arte é uma mentira, no fundo. Mas é fascinante perceber o quanto essa mentira nos é absolutamente fundamental.
Posted by: Joseph Kern at May 3, 2003 11:19 PMNo, old top, you´re the top! You're a Bendel bonnet,
A Shakespeare Sonnet,
You're Mickey Mouse!
And your post about those artists that are "artists", old top,
made me REALLY look like a worthless check, a total wreck, a flop!
Sidney! Bom te ver por aqui. Concordo completamente, é claro. Precisamos combinar aquela cerveja com o Evandro. Mas mesmo antes disso, passe por aqui e se abanque. Abraços,
Posted by: Alexandre at May 4, 2003 01:43 AMSenhores, sinceramente: depois de Kafka e Jorge Luis Borges, eu confesso ignorar, solenemente, os tênues limites entre a ficção proposital e a ficção involuntária à qual colamos o tal nome - Vida.
A Vida, convenhamos, não tem lá muita graça. As desgraças são muitas e os bons momentos de alegria talvez não superem uma peça de Bach.
Que seria do meu mundo sem Dante, Pessoa, Borges e Kafka?
Sei: seria apenas o Brasil do Lula.
Posted by: Gustavo at May 4, 2003 01:45 AMPedro, thanks a bunch, eu sei a que passagem você se refere, mas não repetirei aqui por extrema e patética pudicícia... Gostou então? E como vai a vida aí em Warwick? Ou não está em Warwick ainda? Conheço Douglas Adams, sim - meu irmão comprou todos os livros - e vou usar aquela citação que você deixou aqui no outro post, ah se vou. Volte sempre, Pedro. Boa sorte com o blog, estou gostando...
Posted by: Alexandre at May 4, 2003 01:49 AMJoseph, você não acha que os últimos posts têm sido um pouco longos? Ei, tenho visto seus comentários no Luís - você escreveu o miniconto que ele queria? Seu blog é muito bom, by the way. Continue, continue. E volte. Sempre.
Posted by: Alexandre at May 4, 2003 01:53 AMGustavo, mas Dante, Borges, Kafka, e Cole Porter (mesmo quando it´s too darned hot) não fazem a vida valer a pena? E o Sidney Vida vale a pena também. (Humm, foi fraquinha. Desculpe, desculpe.) A distinção entre a ficção e a não-ficção é tênue, historiadores mentem também, mas mentem sem a menor arte...
Posted by: Alexandre at May 4, 2003 01:57 AMOs historiadores modernos talvez, a coisa já foi melhor.
Sofro ao ler, detesto me apegar a personagens, e infelizmente isso acontece muito facilmente -- eis uma das razões por que não acompanho esporte; as pessoas se tornariam personagens de uma história provavelmente repetitiva, mas eu ficaria nervoso com tudo aquilo.
Até entendo que a vida nos fira e ameace constantemente, mas, tornando à ficção ficção, quando se judia gratuitamente de um personagem que aprecio, fico muito chateado. Tenho vontade de processar o autor e não posso.
Li a TT, ainda não reli, mas achei meio sem sal -- o "sem sal" é mua brincadeira entre meus amigos, faz parte das chamadas "críticas irrefutáveis"; o que se pode responder a isso? Talvez que o não seja comestível, como a Saraiva diz a respeito de ACND...
Embora o livro tenha suas qualidades, pareceu-me não pertencer a nenhuma idade. Qualquer dia desses, quando reler, tento organizar as idéias, para oferecer uma visão externa e você poder rir um pouco...
Além disso, ACND está pra chegar... e, como já dizia o garotinho de Minha Vida de Cachorro, é preciso comparar. Ele também dizia que era preciso estar distante para comparar, dizia um monte de bobagens, mas eu gosto daquele filme. E blablablá...
Posted by: mozart at May 4, 2003 12:12 PMAlexandre:
Não, seus últimos posts não estão longos demais. São longos o bastante para assustar uma pessoa que tem preguiça de ler ou caiu por engano no seu blog esperando algum diário de trivialidades. Mas, acredite, são curtos o bastante para um leitor interessado ler durante um "coffe break", e isso acho que é um bom parâmetro, eh eh...
Ainda não tive tempo de escrever o miniconto... mas gostei mesmo da idéia, espero fazê-lo em breve a avisar o Luis... e obrigado pelos comentários sobre meu próprio blog!, para mim é bastante motivador, acredite.
Complemento: gostei dos dois primeiros capítulos. E a descrição do autor ao final também é muito legal, pena que não seja possível utilizá-la em obras maiores...
Posted by: mozart (chato, burro e feio) at May 5, 2003 03:06 AMHerr Mozart! Achou TT sem sal, humm? No problemo. Eu até gosto desse livrinho, que é melhor do que AODIC, mas acho que ACND é melhor. Bem, é mais a minha cara pelo menos. Promete ser brutal sobre ACND? Estou exercitando a equanimidade porque me disseram que ela é bacaninha, coisa e tal, então prometo que serei cordial se você não gostar e torcer a cara. Juro, juro. E se você gostar serei igualmente cordial, mas mais feliz, temo eu. Me diz, está bem? Com detalhes? Puede ser? Um abraço,
Posted by: Alexandre at May 5, 2003 04:31 AMJoseph, escreva o miniconto, escreva... Está certo que, justamente por ser curto, demora um bocado... Conhece a história do escritor que sempre escrevia livros de 400 págs ou mais, e um dia alguém perguntou por que ele não escrevia livros mais curtos, e ele respondeu, "Porque não tenho tempo?" É velha, não é? Um abraço,
Posted by: Alexandre at May 5, 2003 04:34 AMCom licença, posso entrar?
Só para comentar a frase:
"Historiadores mentem, mas mentem sem a menor arte"...
Vou citá-lo em minhas aulas de Métodos e Técnicas de Pesquisa em História, para elogiar os positivistas. Você acha que é fácil ser historiador?
O esforço dos historiadores do século XIX para rezar a cartilha do racionalismo científico, deixaria Michelângelo e os renascentistas todos admirados. Um esforço inútil, sem dúvida, mas indiscutivelmente artístico. E há os que dizem que história é hoje só um gênero literário, um exercício de prazer. Fictício, sim. E quem não é?
Um grande abraço,
Posted by: Atena at May 5, 2003 01:20 PMÉ claro que pode entrar, Atena.
No entanto, se você concorda comigo que a ficção, a mentira (e não há motivo para concordar, discorde) é uma superioridade, concorde que ela é típica do gênero ficção - que é o romancista e contista que faz disso sua arte específica; e que se o historiador o faz, não é isso que faz dele um historiador. Ele mente como um dentista mente, digamos. É o romancista que faz da mentira algo essencial à sua arte. Ele vive disso.
Ou minto? Seria típico.
Volte sempre, Atena.
Posted by: Alexandre at May 6, 2003 04:38 AMAlexandre,
Os historiadores "novos" estão muito próximos da literatura(é, amigo, vocês ganharam concorrentes).
G.Duby,um historiador da terceira geração desse movimento, afirma que nós, historiadores(no fundo uns grandes neuróticos que se refugiam no tempo),devemos"imaginar"ao preencher as lacunas documentais e interpretar.
Concordo que a ficção seja superior,
só não concordo que seja mentira.
Afinal, toda verdade é analógica e toda escrita é filha de quem a escreve e do seu tempo.
Assim penso.
Obrigada pela recepção.
Um grande abraço,
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