A literatura pertence às artes visuais. As palavras são o meio. As imagens o fim. Um romance está mais perto de um quadro ou de um DVD do que de um livro de filosofia. Ponha um ao lado do outro, e parecem iguais. Mas um tem dentro dele uma tempestade em Hong Kong.
Escritores interessados em palavras à exclusão de tudo o mais são como massagistas interessadas nas próprias mãos à exclusão de tudo o mais.
O que é que sobra de um romance, cinco minutos depois de terminado? Não são palavras - são imagens, sons, emoções, talvez até sensações táteis. Mas não palavras. O que sobra principalmente é uma estrutura no ar - uma imagem da estrutura do romance - com imagens específicas nos cantos: uma fábrica, uma piscina de hotel - até mesmo alguma coisa de tato – a sensação de um roupão usado num hotel em Frankfurt... Tudo isso é palavras no romance, mas uma vez lido, as palavras se descolam da estrutura e o que sobra é a estrutura do romance, não-verbal, cheia de imagens, cheiros, gostos - a Imaginação.
Como, então, é possível que "não haja nada fora do texto"? Um romance é uma estrutura não-verbal no ar antes de ser palavras, e depois de ser palavras.
Posted by Alexandre S. at April 29, 2003 01:02 AMLindo, Alexandre!
Posted by: Assunção Medeiros at April 29, 2003 01:15 AMQuando a literatura se encerra na forma fica gaga (sem acento, ô revisão!). Ri à beça domingo quando Ferreira Gular disse que Finnegan´s Wake era literatura gaga. É preciso haver histórias.
Posted by: Bruno Garschagen at April 29, 2003 01:37 AMÉ, rapaz. Não à toa eu havia dito que te achava um dos mais inteligentes a circular pela rede.
Belíssimo texto.
Posted by: Gustavo at April 29, 2003 01:41 AMMuito bem colocado Alexandre, tu está virando mestre em revelar verdades esquecidas ou escondidas.
Mas não concorda comigo? não é apenas a alusão das imagens e sons e perfumes que escoam de um texto que aproximam mais a literatura à realidade do que um tratado de filosofia. Mas também a forma, a cadência, as pausas as palavras com o tom certo combinando com a enfase do texto, o silêncio reverêncial quando se toca em certos assuntos. O texto fica musical, fluídico como os rios, sonoros como as florestas, povoados como os mares, enfim, vivo, vivo.
Mas certamente estou falando obviedades aqui, desculpe pelo meu deslumbramento juvenil de quem pouco a pouco descobre que pode "escutar" um bom texto como se escuta Bach (ele era bom nisso não é? De fazer soar a letra da música com a sua melodia, por isso era um gênio, por isso era Bach)
Quanto a o que escreveste so posso dizer: Bravo! Bravo!
Posted by: M.R. Sudo at April 29, 2003 02:29 AMAjudem-me por favor, existe algum emoticon para ovação prolongada em pé?
Posted by: luis at April 29, 2003 08:46 AMAlexandre,
vc por acaso esta escrevendo um ensaio sobre literatura? Se nao, deveria. Cogite a ideia.
Abraço
Alexandre: Talvez o seu texto não seja sobre a literatura em si - com suas formas de expressão ou conteúdos de idéias e emoções -, mas sobre os efeitos que ela causam na consciência do leitor. Para ser mais específico, os efeitos que ela provoca em nossa alma. Claro que o texto não existe por si mesmo; ele é apenas um mapa para uma aventura muito mais profunda. O resto cabe à imaginação do leitor que, por algum milagre, entrou em contato com a imaginação do escritor. O grande escritor não é o que impõe exatamente as características de um personagem ou a descrição de um ambiente; é o que deixa a imaginação e a memória do leitor preencher as lacunas que o próprio texto sugere. Este talvez seja o mistério da literatura que, por sua vez, é o mistério do Verbo: a realidade total, mas que, por ser fundada no Todo, possui espaço para brechas, momentos de silêncio, que estimulam à meditação sincera e implicam numa transformação do próprio sujeito. Abraços, Martim
Posted by: martim vasques at April 29, 2003 09:35 AMAlexandre, ótimo post. Sempre tive essa impressão também, de que um romance é um filme que levamos no mínimo duas semanas para assistir todo. Como não tenho muita paciência, prefiro um bom filme, que dura só duas horas. E o que sobra depois que lemos um bom livro de filosofia? Não são imagens certamente. Depois de ler um livro de filosofia, você pega toda a sua vida e contextualiza em face daquilo que leu e vê se dá para encaixar... Acho um exercício mais interessante por isto sou um leitor débil de literatura.
Posted by: César Miranda at April 29, 2003 11:14 AMBelo texto Alexandre. Há tempos que acompanho seus belos textos e fico devendo-lhe comentários e aplausos. Comecei a pagar a minha dívida hoje.
Willy.
Isso me lembra um escritor americano costumeiramente denominado "pós-moderno", David Barthelme. Ele disse algo como: "Não leia nas entrelinhas; não há nada nas entrelinhas", ecoando o desconstrutivismo francês, uma espécie de estruturalismo blasé e cansado da vida. Engraçado como os textos dele só fazem sentido quando lemos nas entrelinhas. Assim, o lado positivo das teorias pós-modernas, da semiótica ao deManismo, é que elas são desmentidas completamente na prática, autodestroem-se.
Suas impressões são uma prova disso. Abraços.
Alexandre: A leitura, liberta! Um abraço, Sidney Vida.
Posted by: Sidney Vida at April 29, 2003 12:40 PMGrande, Alexandre! Concordo em gênero, número e grau com o seu post. Esse negócio de "levantar as teorias" só estraga o prazer do texto (se eu lesse o seu texto sob a luz de teorias - que prazer eu poderia tirar dele? Só esquemas, esquemas, esquemas...). Acho, mesmo, que literatura é pate desta vida - a parte que vale a pena.
Um grande abraço deste seu (só mais um) admirador,
Fabio
Muito legal!...
Posted by: Pat at April 30, 2003 12:02 AMAgradeço todos vocês, gentis por virem e por escreverem. Willy, e vocês todos que vieram pela primeira vez ou sempre vieram, continuem vindo...
Posted by: Alexandre at April 30, 2003 03:40 AME Mário, sim, concordo. Claro, palavras são importantes para causar determinados efeitos. Mas me parece que realmente o importante, o que fica, são os efeitos no leitor, não as palavras. E que uma fixação mórbida em palavras é justamente isso, mórbida. Num sentido não-italiano (Humm! Che morbido!)
Posted by: Alexandre at April 30, 2003 03:42 AMAlexandre.
Começo a aprender: Seria então as palavras um arauto da imagem, como um João Batista em relação ao Cristo (convêm que eu diminua para que ele cresça). O importante não é o arauto, apesar dele fazer parte do contexto, mas sim a imagem que ele introduz.
O perigo está em uma fixação no arauto, no mensageiro, a tal ponto que o que ele transmite não importa mais.
Não é por menos que muitos anos depois do Cristo morto e ressureto ainda podia se encontrar seguidores de João Batista, :-)
Como vê estou aprendendo, talvez como os cães da parábola, que por não ter lugar a mesa, aproveitam os restos que caem do banquete, mas como eles, estou satisfeito com o que posso aproveitar, e muito feliz por estar em meio a festança ;-)
Abraços
Lindo! Lindo! Hear! Hear!
Posted by: Luana at May 1, 2003 07:40 PMCerta vez,no meu tempo de colegial(noossa,já posso dizer no meu tempo),comentei com minha professorinha de literatura "Sabe professora,creio que quando lemos um romance;antes de nos confrontarmos com palavras,sintaxe e semântica,devemos formar imagens de lugares,cenas e pessoas nas nas nossas mentes e acreditarmos nelas piamente"...foi mais ou menos isso que eu disse,ao que ela respondeu "Ah,Daniel como vc...ah,mas...poxa!Isso que vc disse será o tema central da minha tese"...ela me amava!Lá se vão cinco anos e até hoje eu daria meu dedo mindinho para saber o que ela escreveu.Desde aquela época até hoje eu ainda tenho sempre que me perguntar"mas a leitura não é isso,ora pois!!?"
Gosto muito de falar sobre um livro com alguém não contaminado pelos excessos acadêmicos,é sempre muito prazeroso.Geralmente falam com paixão e entusiasmo sobre o que leram,é possível até ler trechos engraçados ou culminantes e rir,e interpretar os personagens...aliás,em toda minha vida só consegui fazer um teatrinho de romance uma única vez...tão escasso é o entusiasmo da grande maioria dos leitores,ou escassos são meus amigos que valem a pena?...sei lá!!
hahahahaha, esse povo que anda atacando a sua caixa de comentários está pior do que eu, sou fichinha perto deles. :P
Posted by: a at October 5, 2004 05:24 PM