maio 01, 2006

Chegou a hora...


Nos primórdios, tempos de outrora, docemente felizes e pueris, era dia de balas , bolos e bolas. Na feérica e colorida barulheira, genuína, bem antes do advento dos intoleráveis animadores, o máximo de maldade permitida, com o passar do tempo, era um estalinho jogado aqui, um cabeção de nêgo detonado ali, um barbantinho cheiroso acolá.


Meias ridículas, camisas menores do que seu número e observações dedsconfortantes sobre crescimento, buço e outras inconveniências mais, chega a hora da ansiada separação do mundo dos grandes. Independência de Cuba Libre. Dancinhas, hoje vemos, lamentáveis, inconseqüências etílicas, descobertas sexuais. E por maior que seja a resistência, a entrada triunfal e melancólica na idade adulta. Opções de estudo, passos equivocados na carreira, angústias interiores, ingenuidade política , frustrações pragmáticas. Anos e ani. Insignificância generalizada vendida como particularidade única. Vida que segue.
Até o choque de realidade pouco antes da derradeira hora: esse papo de velinha, presente, é bom mesmo prá indústria de consumo, jornalista em busca de pauta e portal catando aposta. No mais, é caminho sem volta rumo ao ocaso. A mesma é velha bosta.

Posted by lins at 12:37 PM | Comments (1)

março 31, 2006

Roma ao contrário...

...é sempre uma boa explicação, curta e grossa, sem outros significados adjacentes às quatro letras que brilham, desgastadas, num letreiro de neon encimando o pórtico do motel.

Mas não, neguinho quer mais, sempre mais. Elocubrar em cima do indescritível. Cientificistas de plantão vaõ sempre dizer que tudo não passa de combinações enzimáticas, ensejando reações químicas que resultam em sensações características: palpitação incontrolável, aumento do fluxo sangüíneo, vermelhidão na face e, possivelmente, preenchimento e conseqüente inchaço do corpo cavernoso. Mas aí vem o chato, sempre vem, pra dizer que não que isso é raso, é só paixão, tesão. A coisa é outra, bem outra. É a plenitude do olhar materno sobre o rebento indefeso e puro. Ou ainda algo no estilo Catherine Deneuve, menos "Belle du jour" e mais "Pele de asno", princesa cantando nos jardins do palácio imaginando um desconhecido que lhe garanta a plenitude.
Há também quem garanta que o dito cujo é apenas criação de mentes fanáticas , para angariar fundos junto a fiéis , ofuscados pela imagem de algo maior, bem maior , dizem eles.
Ou seria só um golpe para vender , de tudo um muito e alimentar a indústria do afeto construído. Em cima de planos, promessas e muitas decepções. Afinal de contas, criação humana que se preze tem que ter alguma frustração embutida.
Mas bem que pode ser simplesmente Roma ao contrário, não ? e estaríamos conversados, poupando tempo, dinheiro e palavras ao vento..

Posted by lins at 12:54 PM | Comments (0)

setembro 13, 2005

Limpinha

Lembrar de abrir a porta de manhã.
Oi,repara não mas fui dormir às quatro da matina, esse trabalho me mata. Pra completar , teve tiroteio na Rocinha, o Caveirão subiu a Gávea na madruga, um zaralho. Tem dinheiro aqui prás compras. Não esquece o papel higiênico. Vou precisar de uma camisa branca passada, hoje é sexta. Tem uma lasanha de ontem, boa. Rapidinho no microondas. A lâmpada do banheirinho queimou, acrescenta na lista. Também , passando debaixo do chuveiro, queria o quê ? e não me conformo com essa água caindo em cima da privada. Você toma banho sentada no vaso ? Ontem voltando da pedalada cruzei no elevador de serviço com a Marizete, do 602. Quer falar com você sobre uma vaga de cozinheira no Leblon. Vê lá heim ? vai me deixar na mão não. Sem você essa casa fica um mafuá doido. Sem querer fazer chantagem, não esquece que quando tua filha nasceu e você teve que sair da minha mãe poque não podia mais dormir lá, foi o papai aqui quem aceitou . Esse papo de carteira assinada já é outra história, mas me diz onde é que você ia achar alguém tão gente boa que ainda te dá uma força na passagem ? tudo bem que lá não tinha essas reuniões zoeira e essa sujação no meio da semana, mas nada é perfeito minha nêga. Ah sim, não esquece de limpar o gato. E também de usar o gorrinho na hora de cozinhar, achei outro cabelo. Outra coisa: o síndico, aquela escroto, voltou a reclamar comigo , dizendo que não é pra você subir com as compras pelo social. E que o Zé abandonou mais uma vez a portaria pra te ajudar a carregar os sacos. Vê se dá um tempo esses dias, depois volta a subir pela frente. Sua mãe melhorou ? minha vó voltou a lembrar dela esses dias. Disse que tua coroa chegou de Pernambuco por lá com 14 anos, foi isso mesmo ? e que era tão limpinha que cuidou de todas as crianças. Queria provar aquele sarapatel que ela faz. O Euclydes motorista trouxe uma cachaça paraibana que , diz ele , combina certinho. Olha só, essa bolsa no quarto dos entulhos tem um bando de roupa que eu não uso mais , pode levar. Teu dinheiro tá na geladeira. Diminuí do total aqueles vinte que te adiantei prá história do material escolar. Qualquer coisa tô no quarto , o calor aqui fora tá demais. Se ligarem, saí.

Posted by pimentel at 03:39 AM | Comments (3)

agosto 04, 2005

ANIMAL, ou zoofilia é poesia


animais.jpg
Animal 4X

Os anais divergem, e como divergem os anais... pelo menos quanto ao ano de nascimento da dita cuja. Antes de mais nada aliás, deixem de lado pruridos gramáticos. Aqui o substantivo muda de sexo, passa a nome próprio e vira “a” Animal. Afinal é de uma revista que tratam estas mal batidas. Uma não, A revista. Desde que ela desapareceu nada surgiu para fazer-lhe sombra em qualidade e conteúdo no universo editorial pátrio. Envergonhem-se pois os arrivistas que chegaram depois.

1987, 88, 89, divergem os tais anais, sobre o surgimento da bichinha. Concordam ao menos no ano da morte: 1991, extinta que foi pela conjunção entre o usual pensamento estreito das bestas do mercado publiciotário e uma economia mais afeita a quimeras de sarneyzices colloridas do que à diversidade biológica engendrada pelos bichos animalescos.

Mas não é de morte que se trata, para isso há necrológios e urubus carniceiros. A importância da lembrança está nos poucos anos de vida intensa que chegaram a alimentar esperanças de uma nova era, preconizada nas batidas ritmadas do ska dos Specials (“This is a dawn of a ne-ew era”, cantavam). E trilha sonora é coisa que também alimenta traças de quadrinhos, BDs, fumetti, com direito a isolamento acústico para a farofada que embalou dos pasteurizados Marvels e DCs da vida. A revista era lactobacilo vivo, como o melhor Yakult. Rock inglês e pauladas paulistas fazendo vibrar as grades da gaiola onde a Animal se debatia.

Naqueles anos incertos, crocodilos desciam o rio Nilo levados por Picassos Falsos e o farfalhar das asas de borboletas psicodélicas tomava conta do viveiro, graças ao G.U.E.T.O Enquano isso , Arrigo Barnabé libertava seus Tubarões voadores.

Lampejos originais em meio à abundância de mesmice dos trópicos. Afinada com a banda Fellini e seu Rock europeu, nas bancas, a Animal desfilava a diversidade de seu zoológico particular: ratos sádicos espalhavam sangue e vísceras na série “Squeak the mouse” de Massimo Mattioli, suínos hedonistas chafurdavam num banquete farto (bem antes de Heloísa Helena, a hiena), nas aventuras doentias de “Edmundo , o porco”, de Rochette e Veyron. Felinos perturbados adicionavam nonsense à balbúrdia, com “Calculus Cat”, por Hunt Emerson. Quem hoje simpatiza com macaquices visuais do projeto Gorrilaz, na época já se deliciava com cangurus violentos dos episódios de Tank girl, de Peter Milligan e Jamie Hewlett. O bicho homem não poderia ficar de fora e já no número 1 era representado por Ranxerox, de Tamburini e Liberatore, o cyborg sempre às ordens da piranha-mirim Lubna. E mais e mais.

A mãe Animal assumia-se como “Feio, forte e formal”. E num encarte tosco, bem antes do adjetivo cair nas graças do mundo pop, pobretão, em preto-e-branco, germinava o vírus do fanzine MAU, este sub-intitulado “Feio, sujo e malvado”. Como trepadeiras em paredes úmidas, vicejavam no MAU, figuras como Fábio Zimbres, Nikki Nixon e Rita Hot Pussy, revitalizando a leitura sobre temas tão variados quanto a música dos Ramones, distorções do Dinosaur Jr. ou zoeira dos Ratos De Porão. Em postura honestamente política sem reivindicar bandeiras, repassava com decência comentários sobre drogas, tendências do underground e práticas sexuais menos cotadas, do pompoarismo à zoofilia.

Cores feéricas e acabamento que parecia saído de outro mundo davam à revista um porte e uma classe capazes de rivalizar com qualquer publicação, daqui ou de alhures. Veio então a grande noite e seus carniceiros. Em tempos de patéticos anos 80 revival, sejamos justos, vida longa à Animal.

Posted by lins at 04:51 AM | Comments (6)