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maio 13, 2008
Então ?
À primeira vista, não havia o que estranhar . A grande diferença para ontem era o sol, esquentando e secando o que o friozinho tropical molhara e resfriara.
Os tiros, esgarçando a tensão do silêncio na alta madrugada tinham sido até menos intensos do que três noites atrás. E não dava nem para comparar com as horas de tiroteios de alguns anos antes na Usina ( Muda ? ), velando pela esperança( vã, constataríamos tristes) ao lado do velho, no hospital. Aqueles sim foram pipocos, ali sim nêgo sentou o dedo. Dia seguinte nos jornais, nada. Corriqueiro , normal. Ontem ? só uma lembrancinha de que este ainda é o Rio de Janeiro.
Na cabeça , os negros ainda são avassaladora maioria. Mas os branquinhos , renitentes, vão ocupando espaço. Tem jeito não. Deve ser aquele eufemismo do charme gris.
Foi fechar os olhos no lusco-fusco matinal para ver a sucessão de instantâneos: crianças na inocência infantil driblando a tensão do Aeroporto Internacional dos Guararapes, na época em que o Médici apertou e o exílio foi o caminho. O frio parisiense, crèpes de chocolate na rua, na escala em família rumo à ainda mais fria Genebra. E foram cinco anos de notícias pelos jornais, revistas, raros telefonemas, visitas esporádicas e reminiscências de uma terra quente. Uma tia , depois de uns bons copos: " Não somos nem papel higiênico para limpar a bunda dos militares.." A criançada achou graça, mas pensando bem..
Na volta, o reencontro com o Rio, a bagunça e os cheiros da feira-livre, planos, o tal resgate. Lado pessoal, independência, descobertas, hiperinflação, fila do feijão, primeiras duras. Daí prum curso universitário fake em conteúdo e pródigos em amigos e cerveja, a redenção dos botecos. Na seqüência, Londres, e nela Prince´s square em Bayswater, Brixton, Clapham Junction(".. the busiest railway station.." dizia a placa) com esticadas a Paris , Roma, Edimburgo, Dubrovnik, Sarajevo, Sharm-el-Sheik, Jerusalém. Mas de novo, sempre e mais, a velha cidade de São Sebastião, osolavancos de um país em movimento, apesar de tudo. A dura rotina dos proletários da informação, o surrealismo cotidiano, a loucura necessária para levar adiante. A morena amada, os amigos, o milagre da prole. Corta.
O espelho tá meio embaçado, a areia nos olhos ainda incomoda, as rugas são inquestionáveis. Experiências. E mais importante: o fundamental pé no chão, a ausência de auto-comiseração e a tranqüilidade de olhar pra trás. Para um homem de 40 anos, já é um começo.
Posted by lins at 11:41 AM | Comments (3)