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abril 10, 2008
A calma dos ignorantes
Enquanto o rubro-negro sapecava , cheio de fôlego, o cientificismo de araque nas alturas do Peru, mais novo integrante do safadíssimo e risível clube do " investment grade"..
..do meu lado enxugava uma lágrima renitente e culpada, que teimava em se multiplicar. Não era para menos . Horas antes tinha dado um adeus envergonhado a um bom amigo, grande homem, bela figura. Era o gentleman do Leme, o prosador do calçadão, o último pensador sóbrio do Nova Capela. Um cosmopolita de padrões holandeses que, no Rio, comprovou nossa tola incompetência para a vida. Um homem ético e reto, no país das trapaças curvas. Morto pelas inépcias sabidas e convenientemente esquecidas dia após dia e, mais do que isso, vítima de um mal que teima em nos peseguir, uma injustificável e imperdoável acomodação.
Entre o diagnóstico da doença no fígado e a hora derradeira, foram cinco anos de incertezas e sofrimento, os três últimos, na fila de um transplante, que afinal chegou tarde. Acompanhando o drama, amigos esclarecidos, gente bem nascida e bem pensante, parentes dedicados. Alheios, todos, ou pelo menos muitos, à nuvem negra que pairava mais acima, impiedosa e certeira : a calma dos ignorantes. É ela que alimenta a apatia das massas desprezadas, patrocina o cinismo desenfreado e garante a hipocrisia cotidiana.
Em momento algum o estóico amigo tentou valer-se de contatos, muitos nas altas esferas, para burlar a fila, só pediu que ela andasse. E pela falta de transparência, tão característica na nossa história de nação embrionária, talvez nunca tenha sabido de fato onde estava nessa fila. Quando enfim a gravidade do caso nos tirou da inércia, em duas semanas surgiram duas possibilidades de transplante. E foi feita a cirurgia. Mas não deu. Fica o vazio, mais um, e a certeza de que se não enfrentarmos esta calma sórdida e corrosiva, o vácuo tende a aumentar.
Posted by lins at 12:20 PM | Comments (3)
abril 05, 2008
Idos
Outro dia , sumiu o prazer genuíno de acreditar numa linha ideológica a ponto de defendê-la com gosto e, em casos extremos, com a vida. Numa nota bem mais leve, foram-se também os cônicos copinhos de papel onde, na pureza juvenil, degustávamos laranjadas, mate ou a prosaica ainda que fundamental água gelada.
No embalo, sumiram os seios fartos naturais, o Electra da ponte aérea, a Cantina Gaúcha ,onde comia-se à sorrelfa a melhor paca com feijão tropeiro do Centro do Rio. Quando caímos em nós, sumira a brisa circular que bafejava o Maraca em dia de clássico, turbilhonada a partir do anel superior, por onde aliás a massa escoava folgazona antes desses abjetos camarotes apartheidicos. Isso sem falar, falando, no triste desaparecimento do verdadeiro camisa 10, clarividente virtuose, organizador do diálogo a partir do meio de campo. Agora , foi-se o América para a segundona. Para nunca mais. Danado.
Posted by lins at 10:41 PM | Comments (0)
abril 04, 2008
De aparências e realidade
Se a oposição no Congresso e na imprensa tivesse para as artimanhas políticas um décimo da competência de alguns dos muitíssimos blogueiros neocons têm, ou julgam ter para explicitá-las...
,este governo já não seria. Como não tem, e apesar das muitas mazelas e do absoluto descaso com as artes da comunicação (para Zelites, bem entendido, que com a massa ele se entende) Lula continuará surfando na onda de popularidade que construiu, a largas doses populismo, alguma fundamental distribuição de renda e um certo "laisser-faire" na condução da política econômica. E terminará o mandato como o melhor presidente dos últimos quarenta anos, pelo menos ,com os mais altos índices de aprovação já registrados e elegendo o sucessor com alguma facilidade. Quem quer que seja o dito cujo. A esta altura do campeonato, ninguém nem lembrará que um dia uma Dilma existiu.
Aos tucanos (menos o Aécio que de bobo tem pouquíssimo), pavões, corvos e outras aves menos cotadas restará pegar na mão do ex-pefêlê, para tentar, uma vez mais, entender que o Brasil não é Higienópolis.
Posted by lins at 11:12 AM | Comments (3)
abril 02, 2008
Triste piada
A piada mais sem graça do primeiro de abril completou 44 anos esta semana.. o golpe militar de 1964 . E mais de quatro décadas depois, as peguntas seguem pertinentes: o que teria sido da democracia brasileira se os fardados
(aloprados úteis da época..hoje maridos trtaídos, amantes abandonados, pedintes envergonhados) não tivessem encampado a idéia da " Redentora" ? estaríamos pior do que estamos ? haveria alguma possibilidade de radicalização à esquerda ? teríamos feito a reforma agrária e alterado substancialmente o cenário medieval no campo? conseguiríamos, de forma menos traumática, consolidar o processo de industrialização ?
Mais uma vez o assunto passou batido na imprensa, ainda que as conseqüências nefandas do dito cujo sejam sentidas até hoje ...ou não ? No entanto, uma breve passada no sítio do Clube Militar, do Rio de Janeiro ainda nos brinda com pérolas tipo isso aqui, da lavra do general da reserva Ulisses Lannes:
(...)
" Em março de 1964, a desordem e a intranqüilidade atingiram novos patamares. Sucediam-se as greves, e aumentavam as arruaças e ameaças de intervenção de grupos armados ligados a Brizola. A população sofria com o desabastecimento, os freqüentes e inopinados cortes de energia elétrica e a quase diária paralisação do transporte público.
Arregimentada pela grande imprensa, pela Igreja católica e por líderes políticos, a opinião
pública começara a protestar e a participar, maciçamente, de manifestações contra aquele estado de
coisas. Em tão conturbado ambiente, três eram os cenários mais prováveis para a evolução do quadro
nacional: a implantação de um regime ditatorial de esquerda; o agravamento do anarquismo sindical; e
a eclosão de uma guerra civil com conotações ideológicas. Claramente, a sucessão democrática
normal, prevista para ocorrer no ano seguinte (1965) tornava-se a cada dia mais distante e implausível.(...)
A incitação ao motim; o estímulo à quebra da hierarquia e da disciplina, a virulência de Jango; e a clara intenção de aprofundar a anarquia e a desordem despertaram nas forças vivas da nação a necessidade de pronta e enérgica reação, ainda que à custa da quebra da ordem constitucional. A destemida e intrépida decisão dos Generais Mourão e Guedes de iniciar, em Minas Gerais, com absoluta inferioridade de meios, o deslocamento em direção ao Rio de Janeiro e a Brasília, aglutinou e catalisou a resposta da sociedade brasileira aos desmandos e à subversão. A rapidez com que o movimento se fez vitorioso, sem encontrar a menor resistência de nenhum setor da sociedade, constitui a melhor prova do repúdio popular ao esquema golpista engendrado por Goulart e
seus aliados.
A momentânea quebra da ordem institucional, respaldada e legitimada pelo Congresso e pelo
imenso apoio popular, salvou a democracia, ameaçada pela intimidação do parlamento, pela pressão
das massas sindicalizadas e pela anarquia das Forças Armadas. Desse modo, o 31 de Março de 1964
... é, primordialmente, um fato político e não uma quartelada, como insinuam seus adversários e
detratores...*
Não pode, pois, ser rotulado como golpe militar, como, aliás, atestou o jornalista Roberto Marinho,
em editorial do jornal O Globo de 7 de outubro de 1984:
"Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de
preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica,
greves, desordem social e corrupção generalizada... Sem o povo, não haveria revolução,
mas apenas um “pronunciamento” ou “golpe” com o qual não estaríamos solidários." "
Neste mundoe neste país, onde insistem em decretar a morte das ideologias e a pasteurização hegemônica das fórmulas políticas e econômicas, também teimam em ignorar o tanto ainda por faze . Isto, claro, se houver algum interesse de fazer disso aqui um lugar digno de viver.
Posted by lins at 11:47 AM | Comments (0)