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junho 01, 2006

A justiça da bola

Corria o ano de 1978. Muitos de nuestros hermanos argentinos sentiam na pele as agruras do combate ao perigo vermelho de Moscou. Outros se apressavam a maquiavelizar os preparativos para o Mundial, com o prestimoso auxílio do sempre soturno e dissimulado dirigente máximo da FIFA, Jean-Marie Faustin Godefroid d´Havelange.

Por aqui, bem de acordo com os tempos que corriam, um capitão da Aeronáutica ,com pinta de galã de pouca paciência, comandava o escrete canarinho na tentativa de apagar o fiasco da participação na Copa de 74, na então Alemanha Ocidental.
Em 78 abrilhantavam a "seleça" o vitaminado Zico, o contestador Reinaldo, o explosivo Dinamite e o
homoerótico coxudo Leão, apropriadamente debaixo dos paus.
A epopéia terminou com a vexaminosa garfada da milicada local, presenteando a massa azul e branca com o troféu, e estimulando a algazarra que abafava os gemidos dos porões, a representação brasileira voltou pra casa com o duvidoso título de campeã moral.
Mas antes mesmo da bola rolar na Argentina, o corte de um artilheiro nordestino de feições cafuzas passou
despercebido. Para quase todo mundo, menos talvez os mais ferrenhos torcedores do Santa Cruz, cobra coral pernambucana, cientes do potencial de garra e explosão do moço.
Vira a página e chegamos ao domingo 1º de junho de 1980, no mais clássico dos tapetes : o gramado do Estádio Mário Filho, no Maracanã. Frente a frente para a derradeira partida do campeonato brasileiro, Flamengo e Atlético mineiro. Nos dois times, alguns dos personagens de 78..entre eles Zico, Reinaldo e o mesmíssimo nordestino de feições cafuzas, que anos antes, antes mesmo da frustração de 78, havia sido dispensado das categorias de base do rubro-negro da Gávea, do qual ostentava neste domingo de casa cheia a camisa 9.
E aí o filme corre célere: logo aos 6 minutos, passe de Zico, gol dele, Nunes. Um minuto depois, Reinaldo deixa tudo igual. Finalzinho do primeiro tempo, Zico , na área, saco. 2 x 1. Segunda etapa, e Reinaldo, claudicante pelo joelho bichado empata (resultado que dava o título ao Galo) e revive o punho fechado do black power US, protesto solitário contra a decrépita ditadura tupiniquim.
Mas não é hora de política. Aos 36, tensão total, bola pela esquerda da área atleticana, Nunes antevê a redenção, dá um drible radiográfico no zagueiro e manda prá rede. Explosão de euforia no Maraca, no Rio, no Brasil, no mundo.
Na arquibancada, no meio de cento e tantos mil gritando de alegria, entre a Raça e a Jovem, um moleque cabeçudo classe média, eu, aos doze anos , na primeira ida ao estádio sem meu coroa. Delírio nos abraços apertados , presenciando a história, da justiça feita a bola.

Posted by lins at 12:45 PM | Comments (8)