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outubro 27, 2005
Um ano a filmar
A cabeça da gente é um amontoado de miscelâneas. Sons, palavras, sensações, imagens. Se tudo der certo, a coisa tende a ficar mais confusa com o passar dos anos.Até aqui, tem dado. O tempo tem passado, e eu com ele. Ajustando o foco, com um mínimo de silêncio, no intervalo entre um tiro e outro, rememoro, na esperança vã de buscar uma luz nas memórias enfumaçadas, enebriadas, exaustas, envergonhadas ou esquecidas mesmo.
E por que não 1977 ? ou 77, tous court.
Filas adolescentes pelo mundo , mobilizadas para "Saturday night live" e a parede sonora dos Bee Gees. Latinices e falsetes. Discothèque. Rende até hoje.
Para os chegados à catástrofe, a canastrice kitsch de " Aeroporto 77 ", o terceiro da série, dois anos antes daquele bisonho com o finado Concorde. No início do mesmíssimo ano, dois Jumbos, um da KLM, outro da PanAm, bateram espetacularmente na pista da ilha espanhola de Tenerife. 582 mortos em 644.
Na seqüência, vale lembrar das atuações dos improváveis Baader , Meinhof, na RFA. Quer mais cinema que terrorismo alemão de extrema-esquerda ? Fração do Exército Vermelho ? com direito a filosofia de bar, rua cinza, frio, expressionismo e saco cheio. E suicídios, claro. Estão devendo uma produçaõ com esse mote. Outro, seguindo a linha, seria o grande blecaute de Nova Iorque.E não nessa NY mamãezada de hoje em dia não. 25 horas de puro drama. Reloginho no canto da tela, ticando, percussa. Taí a idéia.
De coisa já feita , 77 foi palco , entre outras, da trama, dos tiros e das lágrimas que foi prás telonas como Seqüestro em Mogadício , que aliás remete aos já citados personagens alemães. E era só uma confirmação do manancial estético e ideológico do casamento entre extremismo palestino e militarismo israelense. Golan e Globus que o digam.
Em agosto, pra quem ainda não tinha se tocado, mais sinais. Maus. Elvis se adianta. Pílulas, pós, sanduíches, maionese, peanut butter. Lantejoulas, ,antiodepressivos. Laquê.Dizem.
Três dias depois, batia asas o homem que redimiu o bigode, a careca, o charuto, os óculos, a fornicação verbal e corporal e o imprescindível non-sense. O preto e branco Groucho Marx voou colorido.
Em setembro, moleques não notamos. Mas morria um tal Steve Biko, depois de devidamente moído pela tortura surreal do apartheid. Biko voltaria anos depois em letra , música e imagens nas salas de projeção, sempre foco de um esperançoso humanismo. Que normalmente fica lá quando as luzes acendem.
E foi indo rumo ao fim do rolo. Não sem antes arrastar em novembro o parisiense Goscinny, alma vocabular de Astérix e os dele. Ficou Uderzo, que não se refez, nem nas páginas, nem em subseqüentes películas.
Faltava o Natal. Irônico presente, morria o papa. Charles Chaplin.
PS
O texto é esquizofrênico, mas 77 dava um filmaço.
Posted by lins at 01:34 PM | Comments (7)