agosto 25, 2005
Divino
Não teve jeito. Dia seguinte, no meio do temporal , lembrei do que havia dito a ELE na véspera. "Nínguém faz um calor desses impunemente".
PS
"haVIADITO" podia até ser jeito popular de indicar ou ressaltar a presença de um, em países castellañófonos .
Posted by pimentel at 03:37 PM | Comments (0)
agosto 22, 2005
Migué
Houve um tempo que foi apenas outro dia , quando interesses vários acharam por bem esmagar um governo legalmente constituído nestas paragens tropicais. Logo na primeira paulada, voaram pombos e ratos alados, que não eram bestas de esperar a volta do porrete. Entre tantos, um tal de doutor Migué, que de doutor nada tinha ,mas de Migué bastante, pelo que dizem.
O socialismo , sim sim diziam existir isso naqueles tempos libertários , e ao mesmo tempo enclausurantes, como bem sentia a latinoamérica de entonces,ou o leste europeu mais frio por outro lado, viu nos grisalhos e enfumaçados bigodes do cearenso-pernambucano, restos dos gritos pelos historicamente excluídos trabalhadores braçais da zona da mata canavieira. Dos braços do povo, doutor Migué foi levado aos abraços argelinos, recém-libertados do jugo francês. E de lá achou que poderia comandar , liderar, mobilizar enfim, uma heróica lurta armada aqui. Pelos planos do tal Migué, enquanto ele mandava de lá, seus seguidores restabeleceriam a ordem da história do lado de cá. No final do processo , a lógica dizia que ele se tornaria um líder de expressão nacional, quem sabe até O líder máximo da nação.
Vozes sensatas, de companheiros de longa data, fizeram algumas objeções, alertaram para a loucura de tal projeto. Qual nada, não só doutor Migué resolveu levar adiante a empreitada, como acusou os antigos parceiros de traição, roubo e o escambau.
O tempo passou, a lutar armada fracassou, a história seguiu seu curso claudicante. E no lombo, trouxe de volta o tal Migué. Que não apenas esquecera o radicalismo de antanho, como parecia mais do que disposto a se aliar a antigos inimigos , oriundos do mais retrógado conservadorismo, em nome de que ? de um novo projeto político que o alçaria à condição de líder nacional, quem sabe até virar O líder máximo da nação. Mais anos se passaram ,outras alianças foram feitas, outros companheiros de caminhada largados pelo caminho, arrivistas pegaram carnoa na boléia do Migué,que com o peso dos anos e talvez da consciência foi fraquejando, fraquejando, até que foi-se de vez. Minutos depois , as telinhas de todo o país davam a notícia, incensavam o personagem, transformavam-no em farol das massas, ideólog inconteste. Mais tarde estampava-se em todas as primeiras páginas o exemplo de home que fora, a sagacidade do negociador, a tenacidade do sertanejo, a justiça de suas causas, a nobreza de seus sentimentos. e enfim, doutor Migué alncançou em morte o que não chegou a tocar em vida: a unanimidade de ser um líder nacional.
Posted by lins at 04:05 PM | Comments (0)
agosto 04, 2005
ANIMAL, ou zoofilia é poesia

Os anais divergem, e como divergem os anais... pelo menos quanto ao ano de nascimento da dita cuja. Antes de mais nada aliás, deixem de lado pruridos gramáticos. Aqui o substantivo muda de sexo, passa a nome próprio e vira “a” Animal. Afinal é de uma revista que tratam estas mal batidas. Uma não, A revista. Desde que ela desapareceu nada surgiu para fazer-lhe sombra em qualidade e conteúdo no universo editorial pátrio. Envergonhem-se pois os arrivistas que chegaram depois.
1987, 88, 89, divergem os tais anais, sobre o surgimento da bichinha. Concordam ao menos no ano da morte: 1991, extinta que foi pela conjunção entre o usual pensamento estreito das bestas do mercado publiciotário e uma economia mais afeita a quimeras de sarneyzices colloridas do que à diversidade biológica engendrada pelos bichos animalescos.
Mas não é de morte que se trata, para isso há necrológios e urubus carniceiros. A importância da lembrança está nos poucos anos de vida intensa que chegaram a alimentar esperanças de uma nova era, preconizada nas batidas ritmadas do ska dos Specials (“This is a dawn of a ne-ew era”, cantavam). E trilha sonora é coisa que também alimenta traças de quadrinhos, BDs, fumetti, com direito a isolamento acústico para a farofada que embalou dos pasteurizados Marvels e DCs da vida. A revista era lactobacilo vivo, como o melhor Yakult. Rock inglês e pauladas paulistas fazendo vibrar as grades da gaiola onde a Animal se debatia.
Naqueles anos incertos, crocodilos desciam o rio Nilo levados por Picassos Falsos e o farfalhar das asas de borboletas psicodélicas tomava conta do viveiro, graças ao G.U.E.T.O Enquano isso , Arrigo Barnabé libertava seus Tubarões voadores.
Lampejos originais em meio à abundância de mesmice dos trópicos. Afinada com a banda Fellini e seu Rock europeu, nas bancas, a Animal desfilava a diversidade de seu zoológico particular: ratos sádicos espalhavam sangue e vísceras na série “Squeak the mouse” de Massimo Mattioli, suínos hedonistas chafurdavam num banquete farto (bem antes de Heloísa Helena, a hiena), nas aventuras doentias de “Edmundo , o porco”, de Rochette e Veyron. Felinos perturbados adicionavam nonsense à balbúrdia, com “Calculus Cat”, por Hunt Emerson. Quem hoje simpatiza com macaquices visuais do projeto Gorrilaz, na época já se deliciava com cangurus violentos dos episódios de Tank girl, de Peter Milligan e Jamie Hewlett. O bicho homem não poderia ficar de fora e já no número 1 era representado por Ranxerox, de Tamburini e Liberatore, o cyborg sempre às ordens da piranha-mirim Lubna. E mais e mais.
A mãe Animal assumia-se como “Feio, forte e formal”. E num encarte tosco, bem antes do adjetivo cair nas graças do mundo pop, pobretão, em preto-e-branco, germinava o vírus do fanzine MAU, este sub-intitulado “Feio, sujo e malvado”. Como trepadeiras em paredes úmidas, vicejavam no MAU, figuras como Fábio Zimbres, Nikki Nixon e Rita Hot Pussy, revitalizando a leitura sobre temas tão variados quanto a música dos Ramones, distorções do Dinosaur Jr. ou zoeira dos Ratos De Porão. Em postura honestamente política sem reivindicar bandeiras, repassava com decência comentários sobre drogas, tendências do underground e práticas sexuais menos cotadas, do pompoarismo à zoofilia.
Cores feéricas e acabamento que parecia saído de outro mundo davam à revista um porte e uma classe capazes de rivalizar com qualquer publicação, daqui ou de alhures. Veio então a grande noite e seus carniceiros. Em tempos de patéticos anos 80 revival, sejamos justos, vida longa à Animal.
Posted by lins at 04:51 AM | Comments (6)