julho 30, 2008

DORMIR

A noite é um caminhão que nos leva ao próximo dia. Chegamos ao outro dia com dores no corpo e a cara amassada depois da viagem. É duro viajar no tempo. O tempo é uma estrada esburacada. A pessoa chega ao dia seguinte se sentindo mais velha de tantos solavancos no caminhão da noite que vaga pela estrada do tempo até a cidade do dia seguinte. E você não vai sozinho nesse caminhão. Há seres estranhos lhe fazendo companhia. Centenas deles, milhares deles, pois a noite é um caminhão muito grande. O insone é aquele que perdeu o caminhão. Tateia os bolsos atrás do bilhete do trem que não chega. O que ele não sabe é que ele já está lá dentro do caminhão. Durma ou não, o caminhão da noite vai sacolejá-lo até o outro dia e, se ele não dormiu, pior para ele, que vai chegar à cidade do dia com o corpo ainda mais dolorido e a cara amassada. Dormir é apenas se desarmar, é embebedar-se de si mesmo. É fechar-se ao mundo exterior e abrir-se para o outro mundo. Enquanto o caminhão da noite nos leva.

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junho 19, 2008

TÉCNICA

O progresso da técnica não é o progresso do homem. A técnica apenas aumenta o conforto do homem. O conforto, não raramente, é corriqueiro instrumento de um dos esportes mais praticados pela humanidade: a auto-sabotagem. Uma dessas auto-sabotagens é o niilismo que se apossa da pessoa em seu conforto moderno. Não é à toa que o niilismo filosófico se agiganta no momento da história em que a técnica é entronizada (e a transcendência, aviltada). E assim, o progresso da técnica tira do homem a profundidade filosófica e espiritual. Poder-se-ia dizer “superficial como um cosmopolita”, “superficial como um metropolitano” etc., pois o homem moderno tem a profundidade de um rótulo. Essa superficialidade tem toda relação com o progresso tecnológico entronizado, isto é, endeusado como se ele pudesse, ou viesse para substituir o amor, por exemplo. Antigamente (nos séculos medievos) os pais eram professores dos filhos. Não havia babá, esse papel era da mãe do bebê. Hoje, a televisão é babá e professora. Imagine a diferença de profundidade entre a relação da criança com seus pais e com seu videogame. O progresso tem sido muito eficiente em matar o amor e em glorificar a superficialidade. Enquanto isso, a família anda desvalida, o amor anda miserável, a amizade é uma pobre coitada e a transcendência jaz na sarjeta. A internet nos aproxima dos distantes e nos distancia dos próximos e, assim, quanto mais aprofundamos uma amizade virtual, mais profundo fica o poço de nossa solidão.

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maio 20, 2008

DESPERDÍCIO

O perfume não pertence à flor. O perfume é o que a flor excreta, como sobras da beleza que ganhou da natureza. O perfume é uma beleza em forma de vento. As frutas são expelidas pelas árvores e nos alimentam. De fato, a fruta madura e colhida é uma parte da árvore que ela já não quer nem precisa. Todo alimento é um expurgo. Assim, a natureza cria seus ciclos, onde o desperdício de um alimenta a fome do outro. Produzir até o ponto do desperdício, para alimentar o outro, que precisa de tal desperdício é a função de tudo o que existe. O poeta desperdiça poemas, do compositor brotam canções até caírem de maduras. E assim, de Deus brotou todo o universo e a humanidade, pois somos fontes que transbordam e se tornam rios desperdiçando água, para aqueles que têm sede. Quem sou eu? Para o quê fui feito? Basta responder: o que eu desperdiço? Este texto, por exemplo, é um desperdício meu.

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maio 10, 2008

SAUDAÇÕES

Estava eu no interior de um ontem qualquer, quando o Márcio Guilherme me chamou para o Apostos, falei que seria uma honra participar de tão seleto grupo, porém, o adverti que eu seria um peso morto aqui. Ele disse que estavam precisando de um peso morto, então eu seria bem-vindo (na verdade ele não disse isso, mas eu gostaria que tivesse dito). Eu sou um monumento à preguiça, mas depois disso, sob tão alvissareira possibilidade de fazer parte do portal, pipocou em meu coco um monte de idéias dignas de mim mesmo, se é que isso é alguma coisa. Por exemplo, me ocorreu propor a criação do Dia Mundial de Combate à Porrada ou escrever sobre o prédio que tinha cobertura de chocolate ou inventar uma mistura de Rinossoro com Diabo Verde, que seria um desentupidor de pia e nariz. Mas me sentiria deslocado como Luiz Gonzaga cantando “Oh, Carol”, pois não entendo de porradas, minha rinite está sob controle e nem gosto muito de chocolate (tenho esse defeito). Outro defeito grave que tenho, para um humorista, é que uma das técnicas de humor mais usadas é a autodepreciação, na qual eu, desgraçadamente, sou um desastre. Sou o Rubinho Barrichelo da autodepreciação (lento, porém persistente). Além disso, internet é coisa de quem não tem convite pra sair à noite e eu que não sou pai (e com o passar do tempo não serei nem avô) tenho tempo sobrando, além do fato de que as pessoas do sexo masculino vão ficando infantis na medida em que envelhecem (algumas mulheres também vão ficando mais novas enquanto envelhecem, mas isso é outra história) e ser infantil é importante para quem é humorista. Um velho humorista é uma criança com muita idade, que morrerá por excesso de infantilidade. Um velho que teima em dizer a verdade é isso, um humorista. Tem que ser muito teimoso para continuar dizendo a verdade neste mundo onde tudo o que se faz é caçar níqueis. Ah, inventei um trava língua bem facinho: “típico título caça níquel” (repita isso o dia inteiro). Na verdade esse negócio de ser criança tem seus dois lados. Cristo quando elogiava as crianças evidentemente não estava elogiando a infantilidade. Lembrei desse aspecto da coisa porque ultimamente tenho sido uma espécie de paparazzi. Levo a máquina digital para o trabalho e tiro fotos dos colegas quando não estão vendo. O objetivo é unicamente documental. Acho importante que no futuro olhem para aqueles instantâneos. Há muitos que odeiam aquilo e me odeiam por aquilo e penso nessas pessoas como crianças. Aceitar ser fotografado é sinal de maturidade. Seres infantis não gostam, como os índios que acham que vão ter a alma roubada. Aqui em Brasília tenho me divertido muito fotografando também os turistas. Quase sempre vou à missa dos domingos na Catedral, que é o lugar mais visitado da cidade e fica fácil. O turista fica em frente a uma estátua daquelas dos apóstolos e seu amigo bate a foto, nessa mesma hora eu também bato a minha foto do turista sendo fotografado em frente à estátua. Ninguém desconfia que estou fotografando o turista. Gosto demais de ver turistas. Vou aos pontos turísticos para ver os turistas, não me interesso pelo ponto. Vou à praia para ver banhistas, pois a praia mesmo, eu detesto. Vou ao show para ver os fãs, passeio para ver as pessoas do lugar, afinal a estátua da liberdade vai ficar lá (enquanto o Osama deixar), mas aquelas mesmas pessoas não. Vou ao restaurante para comer (claro), mas quase não como, fico reparando as pessoas que passam. A internet, como quase tudo (do xote ao orkut), foi inventada para que as pessoas se encontrem. Deus criou o mundo para isso. Todo mundo foi criado para encontrar todo mundo. E quando todo mundo encontrar todo mundo deve amar todo mundo e ser amado por todo mundo, pois todo mundo é o grande barato do mundo. Agora, me dá licença que vou escrever um enorme poema em homenagem à prosa. Saudações a todo mundo.

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abril 23, 2008

“PEGA E LINCHA ESSES LINCHADORES”

Um dos eventos mais importantes na vida de Jesus foi quando Ele impediu o linchamento de uma mulher adúltera. Ele ficou lá, escrevendo na areia, não encarou a multidão (e René Girard assinala isso como muito importante, pois se o fizesse poderia até ser linchado) e nem se juntou a ela, apenas mostrou a verdade “quem nunca pecou, atire a primeira pedra”. Ele optou por amar aquela mulher e não por fazer justiça, pois a lei autorizava o linchamento de uma adúltera. A mulher se tornou uma santa seguidora de Cristo e cada um que fazia parte da multidão foi para casa pensar melhor na merda que ia fazer. Multidão é o lugar onde o diabo se infiltra e fazer a festa. Devemos fugir da multidão sempre, ela geralmente está errada. Mesmo uma multidão de santos faria merda. Cristo é a melhor lente que existe para se enxergar as coisas como elas são, afinal Ele é A verdade. Muita gente boa fica indignada com o espetáculo que estão fazendo em torno da sevícia e morte da menina Isabella. Uma horda tosca quer linchar os pais, supostos culpados. Por outro lado, há muita gente boa querendo linchar os linchadores. Parece que foi na última revista Bravo que li a frase de Walt Whitman em que ele diz algo assim “não sou do tipo que fica a se queixar de que as pessoas só ficam se queixando”. Quem julga o povo que quer linchar está cometendo o mesmo erro que eles e nem percebe isso, pois há um raciocínio sinistro (marxista?) também de que os linchadores são “eles” e nós não somos linchadores, “nós” somos bons (o mesmo que eles dizem dos linchadores que lincham como quem afirma “eles são assassinos, nós não”). A análise dessa gente boa do ponto de vista psicanalítico – e marxista - está correta (quem sou eu pra dizer que não?!). Acontece que esse negócio do “pega e lincha” é algo antiqüíssimo. Trata-se do mecanismo do bode expiatório. O bode expiatório é um teatro satânico que consiste no fato de que toda uma população odeia alguém a quem culpa pelos seus próprios (da população) erros. Depois de julgar e executar o “culpado”, a população verifica que aquele era inocente, porém o assassinato leva a população a se recolher e viver certo período de normalidade. Essa história do bode expiatório é um dado antropológico, é um fato presente em todas as civilizações (estudado com profundidade pelo já citado René Girard, escritor francês, antropólogo das religiões). Quem veio para acabar com isso foi justamente Nosso Senhor Jesus Cristo (claro que Ele não conseguiu acabar, pois o demônio não se aposentou e manda seus auxiliares para remontar a peça sempre e sempre e essa peça, pelo jeito, não sai de cartaz tão cedo), justamente se oferecendo Ele mesmo para o papel do bode expiatório definitivo(é por isso que ele morreu por todos nós). Com Cristo, a tal peça muda seu roteiro, pois diferentemente do bode expiatório tradicional, Cristo se oferece voluntariamente à morte, diferentemente do bode expiatório tradicional Ele é não só declaradamente inocente como é o próprio Filho de Deus. E, antes de morrer, deixa um recado, para que paremos de odiar quem quer que seja “amai vossos inimigos e orai por quem vos persegue”. Antes de morrer, Ele perdoa quem o matou. Essa é a fórmula para o fim desse teatro de lúcifer. . Devemos dar um basta ao ciclo demoníaco de odiar. Um psicanalista marxista jamais escreveria que a culpa desse enlouquecimento da multidão é do diabo, ele provavelmente não acredita no diabo (e nem em Deus). Ele jamais assumiria que a solução para esse problema já nos foi dado por Jesus Cristo, isto é, vamos dizer que foram mesmo os pais da garota os assassinos, o que devemos fazer? Amá-los e rezar por eles. Qualquer drama humano tem que despertar em nós enorme piedade, jamais ódio, pois é isso que o diabo quer de nós, que odiemos. Marx é um dos diletos auxiliares do demônio ao convencer muitos de que é a luta de classe a máquina que faz a história caminhar. Para Marx, o pobre deveria odiar o rico, tirá-lo seus bens e se tornar dono de tudo, pois todo rico é mau e todo pobre é bom (como se, ao tomar os bens do rico pra si, o pobre não se tornasse automaticamente rico também e, num passe de mágica, uma pessoa má). Como dizia um psicanalista cristão, o demônio é burro.

Posted by César Miranda at 11:30 PM

ET POURTANT...

Saímos do concerto de Charles Aznavour e chovia pouco, mas já tinha chovido muito. Deixei minha amiga Naza no seu prédio na Octogonal que é um pouco longe de onde moro. Quando saí da Octogonal chovia muito e no tocador de MP3 tocava uma música de Laurent Voulzy, um cantor francês. Coincidência? Vocês não viram nada. Quando acabou essa canção, a chuva aumentou, e entrando no Parque da Cidade começou tocar uma canção do Celso Adolfo que diz “eu quero cair igual a chuva que cai e molha o pé da cidade”. Coincidência? Je ne sais pas. O fato é que chovia muito e eu cantava a canção junto com o coro infantil da gravação agradecido pela coincidência. Brasília tem chovido muito ainda neste fim de abril, que já deveríamos ter um céu muito azul e imenso como só em Brasília há. Quando chovia em março, eu cantava que eram as chuvas de março fechando o verão, como se aquelas fossem as últimas do ano. Não eram não. Hoje mesmo choveu muito e molhou ainda mais o pé da cidade. A chuva são nuvens que emocionadas com o calor se desmancham sobre nós. A chuva é o retrato de minha infância e a Naza, que cresceu no Pará como eu, me dizia que só não gosta de Brasília quando fica muito tempo sem chover. Se Brasília chovesse mais do que chove seria a perfeição dos trópicos. Chegando ao eixo monumental vi um relógio digital enorme informando que faltavam 739 dias para os 50 anos de Brasília. Eu sou mais novo que Brasília 7 anos e 1 mês, façam as contas se quiserem saber quando dias faltam para eu fazer 50 anos. Será em breve, pois os primeiros 90 anos de nossa vida passam muito rapidamente, estarei cantando “hier encore j'avais cinquante ans...”, como hoje cantaria Aznavour, que tem 83, ótima idade para a pessoa se casar. Nessa hora tocava no MP3 uma canção de amor de Mauro Duarte, naquele que é o melhor disco que comprei este ano. Uma obra-prima que não associei a nada, pois não tenho ninguém que tenha me abandonado e eu não queira mais, como diz o samba (pois eu quero sim todas as que me abandonaram). Passando pela rodoviária, entrei na Asa Norte, onde moro. O chão estava menos molhado, a chuva já tinha parado. Começou uma canção que não lembro qual, lembro que naquela hora resolvi escrever este post. O chão ficava cada vez mais seco e quando entrei em minha quadra parece que não tinha chovido nadinha ali. Começava no MP3 Luiz Gonzaga a cantar “já faz três noites que pro norte relampeia e a asa branca ouvindo o ronco do trovão...” (logo no começo da canção se fala em "norte" e "asa"). Eu pensei, “aqui na asa norte pode ter relampeado, mas não choveu nada”. Entrei em casa meio frustrado porque Monsieur Aznavour não cantara “Et Pourtant”. O show foi magnífico, mas nunca se está satisfeito e lembrei da piada do cara que tinha um cachorro que todo dia ia comprar carne para a casa e um dia o dono deu uma surra do animal porque o cachorro foi fazer compras e esquecera de levar a chave da porta. Obrigado pelo ótimo filé, Monsieur Aznavour, pardonnez-moi, je suis três content mesmo sem “Et Pourtant”.

Posted by César Miranda at 08:09 PM

abril 19, 2008

PERCA PESO, ME PERGUNTE COMO!

- César, como eu faço pra perder peso?
- Passa fome, criança! Fome é a única coisa que realmente emagrece e, além disso, é grátis.
Eu perdi uns 6 quilos na última quaresma. Sinto-me um charlatão quando emagreço com jejum. Na verdade, quem está acima do peso, faz jejum com redobrado ânimo. Percebi perfeitamente isso: para emagrecer, nada melhor do que fome. Às 10 da manhã eu estava jubiloso de tanta fome. Não me importava, pois a idéia era aquela mesmo, passar fome. Se não passasse fome, cortaria ainda mais a ração que me mantinha de pé. O resultado foi ótimo, pois eu precisava mesmo emagrecer e eu que já fui gordo e já fui magro sei que ser magro é melhor. E vi o óbvio, que tudo o que fazemos por causa de Deus, os beneficiados somos nós. Passe fome e perca peso, pois a obesidade é um dos dois grandes males que atacam a humanidade. O outro é a fome. Há enorme diferença entre fome e jejum e entre jejum e dieta. Porém, entre dieta e fome há pouquinha diferença.

Posted by César Miranda at 09:37 AM

abril 14, 2008

VERGONHA

Uns meninos invadiram a UNB e comecei a pensar sobre a sedição e a lei com as próprias mãos, impulso de muitos de nós. Boa parte de meus amigos acha que a polícia tinha que ter entrado lá e tirado os meninos à força. Eu sou contra a ocupação de propriedades privadas. Mas das propriedades públicas, não vejo nada demais, afinal a praça é do povo como o sol é do condor. Além disso, é legítimo que o povo vá aos lugares públicos dizer o que pensa ou firmar uma posição, inclusive aquele povo com quem eu não concordo. O que deveria era o povo com quem eu concordo também se unir e invadir uma ou outra propriedade pública de vez em quando, mas isso ia ficar parecendo com coisa do povo com quem eu não concordo. É como o grande encontro dos machões que nunca acontece porque ia parecer coisa de gays. A maioria queria que o reitor saísse. Na verdade, o povo é o superego dos políticos. Se eles tivessem essa parte da personalidade que têm as pessoas normais, boa parte deles já teria, para o bem do país e de sua própria alma, tomado atitudes de gente. Renúncias seriam normais. Suicídios, corriqueiros. Expatriações, banais. Eu, quando era menino, não fazia nada errado porque achava que morreria (literalmente) de vergonha se fosse pego. Achava também que ao se flagrar um ladrão no ato do furto, ele se desmancharia em prantos, esmagado sob o peso da vergonha e se entregaria à polícia aos choros. Achava que os homens de bens tinham, só por serem de bem, autoridade física sobre os maus. Achava que os bandidos usavam máscaras porque tinham vergonha do que estavam fazendo. Eu era uma criança não entendia nada, como diria Erasmo de Niterói. Não obstante, a vergonha continua existindo e as pessoas sentem muita vergonha geralmente do que não deveriam e não sentem do que deveria matar de vergonha. Hoje se vê gente com vergonha de confessar sua real posição política, sua fé (e sua dúvida) e, a pior de todas as vergonhas, a vergonha de amar. Ainda bem que Deus não tem isso ("isso" é “vergonha de amar”, você acha que eu sou doido de chamar Deus de sem-vergonha?!). Depois de grande e vendo o quanto as coisas são diferentes do que eu pensava quando era pequeno, mesmo o mundo não tendo se adaptado a mim, faço o mesmo com o mundo e não me adapto a ele, pois continuo morrendo de vergonha das mesmas coisas da infância e amando sem a menor vergonha, que é para isso que fui feito.

UPDATE: dois dias após a publicação da parte aí de cima deste post, o MST invadiu a empresa em que trabalho, que é pública. Aí, sou contra, pois o MST não é povo, é um bando. O MST bem merecia um estado de sítio (perceberam o chiste?). O que me deixa tranqüilo como empregado da estatal é que o MST, como se sabe, só invade terra produtiva (de preferência devidamente arada e saneada).

Posted by César Miranda at 10:35 PM

setembro 27, 2007

LIVRO TAMBÉM É GENTE

Praticando a verdade que se conhece, merece-se a que se ignora

(A. D. Sertillanges, in “A Vida Intelectual”)


Quem gosta de livro é a traça, eu gosto é de conhecimento. A traça traça o livro. O traço traça a traça (o traço é o macho da traça). Os cupins comem livros de matemática e cagam regras. Não gosto de livros, eles dão hérnia de coluna e também ocorre neles com freqüência algum encontro internacional de ácaros. Essas coisas por onde nossos olhos passeiam, os livros, são o habitat favorito desses bichinhos fomentadores de doenças respiratórias, como a rinitzsche, ai minha santa bárbara! Livros têm orelhas que é aquele lugar que se você ler depois de ler o livro, você ri muito, pois, dizem, não há um livro que justifique a orelha. Tenho um amigo que não lê orelha de livro para não se decepcionar (ou se influenciar). Os adivinhos deveriam ler orelhas de pessoas como lêem as mãos. Santa bárbara... Mas somente os livros têm essa sorte de que lhe leiam as orelhas. Os livros até merecem respeito, pois livro também é gente. Não demora muito, pois, se gente é tratada como coisa, coisas se tornarão gente e os livros estão em primeiro lugar. Pelo que ouço falar, o livro é a panacéia. Livro cura arca caída, frieira, auto-estima baixa, tédio, hemorróidas, dor-de-corno, miopia, vista cansada, saudade, mau-humor, solidão, dor de cabeça, esquerdismo, ateísmo e caganeira. Livro também é gente, pois é vivo, ensina e aprende, nasce e morre (Ler um livro é dar-lhe vida). Livro chateia, livro agrada, livro é banido e é saudado, esquecido e lembrado. Livro melhora e piora. Livro empobrece, livro dá fama e fortuna. O livro é indefeso, precisa que o embalemos entre nossos dedos e apertemos seu dorso e o abramos para que ele fale conosco. Há livros grossos que não são arrogantes. Há livros pesados que têm muita leveza. Há livros finos, bonitos, feios, doces e amargos. Os livros têm corpo e alma. Livros vão pro céu e pro inferno. Livros têm signo, chakras, opinião, aura, íntimo, âmago, âmbito, tudo o que se pensar, livro tem. Claro que há diferenças entre gente e livro. Livro, por exemplo, nasce em árvores. Eu já escrevi livros, já plantei árvores, mas não tenho filhos. É que filhos não nascem em árvores. (Eu sei que vocês vão dizer “filho nasce em árvore sim: árvore genealógica”, no que eu responderei: “não senhor, filho nasce em árvore ginecológica”, mas estou falando de árvore mesmo, árvore vegetal). Um dia desses na aula, o professor explicava quais as profissões e em que situação se deve contribuir para a Previdência Social, então, uma colega, bem séria pergunta: “professor, e o índio?” “Ora, minha senhora, índio também é gente”, deveria ter respondido o professor. Não sei bem, o que ela quis dizer, pode ter sido como algo do tipo: se um índio montar um grande supermercado, ele deve recolher à Previdência Social e a todos os órgãos que oneram a folha de pagamento dos empresários comuns? Ou, se um índio tiver uma empregada doméstica, ele deverá pagar o INSS da moça? Tem gente que fica lavando os pratos enquanto Jesus está na sala tomando chá de cadeira. Jesus que, aliás, também era uma espécie de livro. Jesus era tudo o que Deus tinha a nos dizer. A vida sem rotina também é rotineira. Se você tem razão, muito cuidado para não perdê-la, pois só perde a razão quem a tem. Ganhar razão é mais difícil. As discussões do casal que se ama muito é esquisita, os dois brigam para demonstrar que o outro é quem tem razão, pois o amor é o reino da desrazão. O império do ilógico. O perdão é muito mais bonito do que a justiça. Esperar é sofrer. Nunca espere muito. Nunca espere pouco. Nunca espere. Não é o fim do mundo a solidão que lhe dão de presente e se só lhe dão solidão, agradeça por ela, pois assim como livro também é gente, solidão também é presente. Talvez ninguém esteja preparado para curtir sua eminente presença e se na iminência de sua presença, todo mundo se ausenta, entre para a comunidade do Orkut, “quando eu chego, todo mundo sai”. Ou faça um banho de manjericão, talvez você esteja com algum encosto, como certas cadeiras. Quem vai ao terreiro de macumba leva a demanda ao pai-de-santo e esperar o resultado, depois do despacho. Muito do que se fala no mundo corporativo foi tirado da linguagem do candomblé. Por exemplo, quando o pai-de-santo chama a secretária para um despacho, a coitada se pergunta se deve levar papel e lápis ou cachaça e galinha preta. Claro que eu nunca entrei em um terreiro de candomblé e essa ignorância me permite falar as maiores sandices a respeito do assunto e isso é divertido. Às vezes, é importante ser ignorante para ser engraçado (ignorante às vezes, honesto sempre), pois, às vezes, muito conhecimento impede a pessoa de ser engraçada, mesmo que a verdade, já disse isso, seja muito engraçada (quando o anjo disse que Maria era cheia de graça, essa Graça era o Cristo dentro dela, isto é, a própria Verdade é a Graça, mas não mudemos de assunto). A verdade vista pela ignorância honesta e ingênua é que é mais engraçada. Por exemplo, um dia desses uma amiga maravilhosa que eu tenho foi ao Paraguai. Puxa, como eu dei rata ao fazer um monte de observações maldosas sobre o país irmão e que é, realmente, muito ridicularizado por nós como se fosse aquele vizinho meio freak, que faz churrasco todo domingo com música dos anos 70 na maior altura tocada em sua radiola, pois ele só tem LPs. Minha amiga me mostrou o quanto eu estava equivocado sobre o Paraguai, pois ela era, digamos, sobrinha daquele vizinho e gosta muito dele, e alguns LPs daqueles foi ela quem o presenteou. E que se eu vencesse a ignorância e preconceito e fosse lá um dia, veria o quanto é inesquecível a picanha e o contrafilé que ele faz. Pois é. Meio que fiquei com vergonha dela, mas a agradeci muito pela lição e até prometi que irei ao Paraguay, assim que for a Paris, onde se secarão todas as garrafas. Essa é a verdade. A verdade arrebata, nos golpeia, nos espanta. A verdade se agiganta. A verdade não sugere, a verdade sempre certa, ligeira, nos prende a ela e, em seguida, nos liberta. A verdade é nossa estrada, a verdade nos conduz, é a lua na madrugada, a verdade nos invade, abre a porta, liga a luz e salva a humanidade. A Verdade é o Cristo Jesus. A liberdade é um apelido simpático para a insegurança e a solidão. Segurança é falta de liberdade. Liberdade e segurança não é um problema só do governo, liberdade e seguranças são coisas públicas e privadas ao mesmo tempo. Há ações públicas e ações privadas. Vaiar é uma ação pública. Cagar é uma ação privada. Não convém misturar as duas coisas, mesmo que, quando você vaia um político, está vaiando merda, mas podemos dizer também em tais casos, que eles é quem cagam, eles é quem misturam a coisa pública com a privada. É preciso tapar o nariz e ficar de olho nessas coisas, isto é, o homem público não tem vida privada e sua vida pública é também privada. Tapar o nariz e abrir os olhos. Quem tem olhos profundos gasta muito mais colírio. Quem não tem olhos, tem que ter muita imaginação. Quem não tem imaginação é meio cego. Cego é aquele que só vê a asa da graúna. O olho do cego só serve para guardar lágrimas, pois cego não vê, mas chora. Não é à toa que “graúna” é nome de choro. Um choro de João Pernambuco, gênio da música brasileira, que era o porteiro da escola Villa-Lobos de música no Rio de Janeiro. Quer chorar? Põe pra tocar Françoise Hardy cantando Chanson floue. E o índio? Será que índio também se apaixona como naqueles livros do José de Alencar? O certo é que os índios andam todos nus o tempo todo ou quase nus, isto é, as índias, quando estão se tornando mulher, sentem vergonha e se vestem um pouquinho. Quando a índia aparece vestida, todo mundo pensa “ih, essa menina tá querendo dar”. Eu me criei vendo índio no meio da rua. Eu me criei ouvindo Luiz Gonzaga e tocando violão. Ouvindo tiros de revólver, lendo a Bíblia, ouvindo rádio, ouvindo minha mãe cantar. Criei-me com A Vida de Jesus debaixo do braço. Ah, santa bárbara! (Alguém aí sabe o verdadeiro nome de Santa Bárbara? Desconfio que “bárbara” refere-se a sua origem, pois sua família era de bárbaros). Há livros demais. As pessoas não deveriam colocar mais livros no mundo. Deveríamos sim é cuidar dos que estão aí passando fome. Eu mesmo já abortei uns cinco ou seis livros. Quem vai a feiras, grandes sebos e megastores sabe do que falo. Dá pena ver tanto livro largado por aí, coitados. É irresponsável essa gente que põe tanto livro no mundo só para passar fome e no fim virar lixo. Quem reclama de mim quando falo dos livros que não escrevi, respondo que o autor tem direito ao próprio corpo e deve sim evitar um livro indesejado (e até os desejados). Direito ao próprio corpo é isso. Você vai a um lugar qualquer e bate papo com os amigos e, pimba, sai do encontro grávido de um romance. Uma semana depois aquilo já cresceu bastante em você. Claro que é traumático e a alma daquele livro-feto talvez lhe persiga para sempre, mas pode ser pior, ele pode nascer, destruir você e causar muitas mortes. Livros podem ser mortais. Além disso, com uma semana de gestação, o livrinho ainda não é nada, é só uma coisinha que nem enche uma colher de café e nem precisa ir à clínica nenhuma. Não seria má idéia que se inventasse remédio abortivo para idéias. Algo como a pílula do dia seguinte. O sujeito tem uma idéia para uma novela das oito ou para mais um roteiro de filme nacional, por exemplo, então vai ao médico, que se compadecendo do mundo, receita a pílula que curará o suposto autor, limpando qualquer vestígio de pensamento sobre a grande idéia que ele teve. Ou poderiam inventar o DIC (Dispositivo Intra Cerebral), que quando uma idéia de escrever livros se aproximasse da consciência do escritor, seria desviada e excretada instantaneamente em um espirro. Pessoas inteligentes não sairiam sem seu DIC (lembrei agora do cara que a garota disse para ele que usava DIU e ele começou a cantar no ouvido dela “DIU, como te amo”, ela morreu de rir e tiveram uma noite e tanto). Voltando ao DIC, não seria isso algo como lobotomia, de forma alguma. O escritor usaria tudo o que sabe e conhece para sua vida, mas jamais para escrever livros. As idéias que lhes ocorressem seriam todas para que ele as colocasse em prática e não que saísse por aí dando palestras, por exemplo. A quantidade de livro escrita já dá para abastecer o mundo de leitura por uns cinco séculos ou mais. Seria saudável para humanidade só recomeçar a produção de livros depois que lêssemos os que estão por aí abandonados. Depois desses 500 anos, as pessoas poderiam em pequena medida recomeçar à escrita, desta vez tendo um público muito mais exigente e, o escritor, por sua vez, seria alguém totalmente sem costume de escrever e só o faria quando o livro se impusesse. Só os livros necessários seriam escritos. Livro necessário é aquele que não só pede para nascer como chega a ser mais importante que toda a humanidade, como Cristo, que, não por coincidência, é chamado o Verbo Divino, como se Maria tivesse engravidado de um livro (é bom esclarecer isso, a Bíblia não é a palavra de Deus, a palavra de Deus é Cristo). E todo livro seria sagrado (“A fonte do saber não está nos livros, está na realidade e no pensamento” nos diz Sertillanges). Tradutores brasileiros traduzem “dawn” por aurora e “hill” por colina (quando deveria ser “morro”). Aurora e colina são palavras que ninguém usa no Brasil, exceto em alguma marchinha de carnaval de antigamente. “Dawn” é nome de mulher, em país de língua inglesa. “Aurora” também é nome de mulher por aqui. Mas se “dawn” não for nome de mulher, a tradução razoável seria “madrugada”, “amanhecer” ou qualquer coisa que um vendedor de picolé saiba o que é e não “aurora”. Tem também aquela tradução irritante de “teve lugar” no lugar de “aconteceu”. E traduzir “play a role” por “jogar um papel” no lugar de “desempenhar um papel” no meu mundo ideal daria cadeira elétrica. Acho que tradutores sacaneiam escritores, se esquecendo de que tradutor também é escritor. Eu acho o seguinte: opinião é coisa sem importância. Mas esta é só minha opinião. Isto resume as coisas suficientemente, pois quem acha vive se perdendo, já achava Noel Rosa desde o século passado, o século do progresso, onde o revólver teve acesso pra acabar com a valentia. O fato é que se vê muito poeta dando sua opinião sobre dados estatísticos. Esta é uma das razões da existência de imbecilidades como o sonho socialista: poetas sonhadores, indignados com as injustiças deste mundo, se deparam com dados estatísticos. Pronto, essa é a mistura cujo resultado é porcaria (não dê o resultado de uma pesquisa para um poeta interpretar, pois ele a interpretará de forma poética, quer dizer, irreal, fantasiosa, utópica). Já dizia Noel que qualquer economia acaba sempre em porcaria. Acho que falava do ato de economizar, mas hoje a frase ganhou abrangência e essa economia aí, já pode ser escrita com “E” maiúsculo. Pior é que o pobre poeta sequer dispõe de um economista de verdade para lhe esclarecer os tais dados estatísticos, pois o economista que ele vai procurar (quando vai) é outro poeta, que por falta de dom para escrever versos, entrou na faculdade de economia e também acredita que riqueza se faz tirando de quem tem e dando para quem não tem, como se um ato voluntário de bondade e caridade fosse um princípio da Economia e fosse essa a função do Estado. Mas a culpa de tudo isso é da internet onde todo mundo pode achar o que quiser, graças aos instrumentos de busca. Se você não achar nada sobre um assunto, o Google acha para você. Mas, o que o Google acha ou deixa de achar não tem nenhuma importância. Quem é o Google para achar alguma coisa? É apenas uma criança, nem espinhas na cara tem. Mas é um direito dele achar alguma coisa. Eis o problema do achar: todo mundo tem esse direito. É algo democrático. Quando algo é “democrático” não se deve esperar muita coisa ou simplesmente saber que não tem importância alguma. Sobre “achar”, tenho que falar do cientista ateu. Senhor cientista ateu, primeiramente, vá estudar Santo Tomás de Aquino para ter o direito de se dizer ateu. Você jamais verá um teólogo discordando de teorias sobre Física sem ter, esse teólogo, estudado com profundidade a Física (e se vir, se trata de um teólogo cretino, coisa perfeitamente possível de existir). O cético que nunca estudou Santo Tomás não é ateu, é ignorante. Toda luta por inclusão disso e daquilo é também luta pela desmoralização disso e daquilo, pois estar incluído em algo é ter algo a mais para “achar”. Veja o quanto é grave a questão. Somos e seremos sempre, que Deus nos ajude, governados por políticos. Político é um palpiteiro profissional em quem votamos, para que ele transforme seus palpites em normas para nossa conduta. Democracia é isto, ou isto é apenas um palpite meu (vamos parar com isso, tudo o que eu disse aqui, é o que eu acho e toda opinião que eu der aqui não tem nenhuma importância, mas é apenas uma opinião, o que significa que pode ser que tenha alguma importância, mas isso é só uma opinião, etc, etc, etc). Pois bem, falávamos dos políticos. Político é um tipo de animal que tem algum ressentimento e paixão por determinado tema. Isto é, o animal político é um adolescente. Um homem realmente adulto não se mete em política. O resultado disso é que as estatísticas serão lidas sempre por alguém meio poeta. Não me admira que o mundo da política produza tanto cocô. O que salva o mundo? Os adultos trabalhadores que honradamente trabalham para criar os filhos e que não acham nada, apenas sabem. Sabem que quem não trabalha não come. É isso: somos governados pelo achismo. Muita gente já veio brigar comigo porque eu escrevi na semana anterior uma coisa qualquer que eu achava. Então, explico pra pessoa que já não acho mais aquilo e que agora concordo com ela e que semana que vem posso deixar de concordar. Além disso, que relevância tem minha opinião? A pessoa costuma responder, que isso é apenas o que eu acho, pois ela acha que minha opinião tem sim muita importância e que eu deveria ser menos modesto, pois a opinião de uma pessoa é muito importante sim, é tudo o que ela tem, é o que faz com que ela exista, pois já nos disse o René que o pensamento é prova da existência da pessoa. E eu respondo “ah, isso era o que ele pensava, ele não sabia disso, ele achava”. Toda filosofia é apenas um eterno achar com algum embasamento, às vezes com nenhum. E há filosofias em vários níveis e nenhuma delas é a resposta para toda pergunta. Bem, acho que me perdi um pouco. Estava falando de minha conversa com o sujeito que acha que achar é importante e que eu acho que achar nüntäcünädä. Sei que devo estar errado, mas ouvi isso um dia e achei que a pessoa podia estar certa por achar que achar é algo relevante. Achar o contrário talvez isto sirva apenas para desqualificar Deus e o mundo ou nos chamar para uma vida mais criteriosa em que digamos “eu não sei” com mais freqüência. E diríamos tanto “eu não sei”, que, logo todos diriam apenas “ens”, que são as iniciais de “Eu Não Sei”. O problema é que sempre que alguém perguntasse “o que você acha disso” e você respondesse “eu não sei”, a pessoa responderia, “eu sei que você não sabe, quero saber o que você acha”. E você diria “eu não falo o que eu acho, só falo o que sei”. Talvez você respondesse “eu não sei o que acho, quando eu souber, eu falo”. E o outro: “quando souber o que acha ou quando souber, ponto?” E você: “quando eu souber, ponto!” E a outra pessoa: “eu não quero saber o que você sabe, quero saber o que você acha, por favor, não tire a poesia da nossa conversa, imagine se só falássemos do que sabemos e ninguém desse um mínimo pitaco sem importância em nada? Seria muito sem graça, você não acha?” E você: “eu não sei”. Tá difícil, não é? Quando Einstein falava sobre a velocidade da luz, não era apenas um achismo? Quando Demócrito falava de átomos, não era apenas a opinião dele? Talvez toda opinião tenha alguma semente. E quem acha nem sempre se acha. Apenas acha porque acabaria mudo se esperasse saber. E, apesar do que Noel dizia, só achando é que se encontra. Sigamos achando, achando, até que vejamos que estamos errados (ou não). Talvez o segredo para a opinião ter algum valor é exercitá-la e jamais se fechar no medo de estar errado. O dicionário, parece, foi feito pelos marxistas. Diz ali que eles, marxistas, são progressistas, como se alguma contribuição Marx tivesse dado para o progresso da humanidade. Já o reacionário, isto é, aquele que é contrário às idéias marxistas, é descrito pelo dicionário como antidemocrático, como se alguma democracia houvesse no comportamento dos seguidores de Marx sempre que chegaram ao poder. Marx que pregava como sendo o fim inevitável da humanidade a ditadura do proletariado é posto nos dicionários como guru daqueles que são favoráveis ao progresso da humanidade. Apesar dos dicionários, na prática o que se vê são governos reacionários em países democráticos e ditaduras marxistas. Na prática, o marxismo é o avesso da democracia e segue dando base a ditaduras eternas e o reacionarismo sempre ou convivendo com a democracia ou levando a ela, em ditaduras passageiras. Mas não é o que parece quando se lê o dicionário. “Conservador” é outro termo maltratado pelo dicionário. Segundo o Houaiss, conservador é a pessoa que defende o autoritarismo. Isto mesmo, está lá, só vendo mesmo para acreditar em uma coisa dessas. É como se Reagan fosse um ditador e Fidel Castro um democrata. Malditos tempos estes em que os dicionários são apenas ecos do que a malta ignorante repete. Parece-me óbvio dizer que conservador é “aquele que conserva”. Mas não é só isso, pois isso tornaria Fidel Castro um conservador do status quo cubano, o que é verdade, ele quer mesmo conservar sua política autoritária, mas isso não faz dele um conservador. Ele é um revolucionário e o será sempre. Por falar nisso, veja no dicionário como candidamente se diz o significado da palavra “revolucionário”. É de chorar de lindo. Na prática, sabemos que, revolucionário é apenas um jagunço com ideologia. Mas voltemos ao conservador. Esse sim é um termo por demais ignorado em sua essência e profundidade. Ao estudá-lo devidamente, mesmo alguns marxistas iriam concordar com seus pressupostos e quem sabe mudariam de lado. O conservadorismo é a ideologia contra toda ideologia. Assim, um conservador jamais queima a língua, pois não acredita em soluções humanas para todos os problemas humanos. E, uma vez que, desde que a humanidade existe, ela sempre teve problemas, o conservador pode sempre bater no peito e dizer: “eu não disse? Eu não disse?” O conservador acredita que, enquanto formos governados por políticos, isto aqui irá de mal a pior. Uma grande falha é que muitos consideram o conservador alguém avesso às transformações e à mudança. Nada mais falso. O conservador adere à mudança, desde que ela já tenha provado no tempo que era realmente fundamental, isto é, se a tal mudança for boa mesmo de serviço, ela se impõe e pronto. Isto é, a versão do software que o conservador usa não dá pau, pois ele não sai por aí comprando programas cujos bugs ainda não foram corrigidos só por serem novos. Um conservador pode, com isso, incluir a sua vida uma novidade por dia, mas não será o primeiro a fazer aquilo, ele quer que a novidade se imponha pela necessidade e jamais a quer apenas por ser novidade. É a prudência da mudança. Mudança sim, mas gradual e criteriosa. O passado jamais deve ser desprezado ou odiado. O fato é que o conservador gosta de viver em paz. Por isso defende o costume e a tradição, porque um costume só se cristaliza sob um clima de paz e sem a continuidade, as gerações se desconhecem. Dá para imaginar o povo judeu sem a tradição? Sem tradição é todo aquele povo que não existe. Tenho tradição, logo existo. Não tenho, ninguém me reconhece. Fé e razão não são opostos como muitos querem. Ora, se assim o fosse, falta de fé seria excesso de razão, mas tem muita gente por aí sem fé e sem razão ao mesmo tempo. A realidade, enquanto as duas brigam, assovia e olha para o teto. Se bem que tem muita gente também que vive fora da realidade. Geralmente quem vive sem fé nem razão, vive fora da realidade. Não é coincidência que aqueles que não têm fé tendem a duvidar também da realidade. É como se precisasse de fé para saber algo mais do que a própria existência. Por outro lado, essas pessoas que duvidam até da própria existência, sua “razão” é mais delirante que a razão do mais maluco dos doidos. Nessas pessoas, Deus é apenas mais uma vítima fatal de sua dúvida convicta. O que faz todo sentido, pois a realidade é a voz de Deus, então quem não acredita em Deus é apenas coerente em não acreditar em Sua voz. Compreender um mistério é uma contradição. Explicar um mistério é negá-lo. Acreditar na realidade não requer fé nem razão, basta ter um dos cinco sentidos, nem precisa ser gente. Porém, aqueles que não têm fé, automaticamente, pegam a própria razão e a utilizam para anular os cinco sentidos e ficam, graças ao delírio de sua razão, cegos-surdos-mudos, sem olfato e sem tato. Claro, que assim se acham geniais e acreditam que a eles ninguém engana. Claro, pois eles mesmos já trataram de aplicar em si mesmos doses suficiente de auto-enganação. São sem fé, sem razão e sem realidade. A razão serve bem como instrumento para as questões lógicas, mas a realidade, a voz de Deus, não é lógica nem científica nem matemática. A realidade apenas é e pronto. A fé tem sim relação estreita com a realidade, pois se baseia em fatos. Se Jesus fosse um assaltante e trapaceiro e ainda assim, depois de morto, ressuscitasse, ninguém acreditaria na promessa de Seu retorno. Os cristãos acreditam na volta de Cristo porque Ele se fez digno de confiança por meio de sua vida, morte e ressurreição (e age todo dia na vida do cristão). Então a fé se baseia em fatos. A razão, por outro lado é apenas um retrato bidimensional dos fatos. A razão é um poço de lacunas. Pela razão, você pode chegar aos fatos e pode chegar a lugar nenhum. Não é à toa que a ciência, castelo construído pela razão, viva em permanente alteração de conceitos, sendo a incerteza mesma um de seus pressupostos. Uma afirmação científica geralmente diz respeito aos limites do processo de medição dos fenômenos em determinada época (Ignorar é natural. O grave é ignorar que ignora). Quem não tem fé, repito, aniquila a própria razão, pois quem não tem fé é um ser desconfiado. Mesmo Cristo tendo nascido, vivido, morrido e ressuscitado como um Deus, ele não acreditam na Sua volta. Fé é questão também de boa-fé ou boa vontade. Para ter fé é preciso não ser um jumento. Deus não é para ser entendido. É para ser amado.(as mulheres também, por falar nisso). Eu não acredito em cientistas ateus. Ele não acredita em Deus e quer que eu acredite nele. Quem ele pensa que é? Deus?! Não é muito difícil que um sem-fé se julgue o próprio Deus, pois vive em um mundo muito particular e delirante, onde sua razão é suprema, mais do que a realidade. Se palavras ferem, o mudo é um homem desarmado. Se o olhar diz muito, o cego é um homem meio mudo. Dos três, o surdo é o mais afortunado, pois não ouve nem fala, porém vê e quem vê, ouve o que os olhos dizem. E, por nada falar, é também um homem desarmado. O cego tem a vantagem de não ter a realidade toda ela sobre seus ombros. O cego vive em um mundo virtual. Um mundo em que as coisas são vistas com mãos, ouvidos e olfato. Mundo em que a luz não ofusca, em que o fogo não ilumina (só queima), mundo em que a verdadeira escuridão são os móveis fora do lugar. Mundo em que cães, bengalas e a fé (em Deus e naquilo que lhe dizem os que enxergam) fazem o papel dos olhos. A imaginação é o olho do cego. O cego sem imaginação é um cego míope e precisa de óculos para falta de imaginação. O professor ensina apenas o que já existe, ele é, pois, um porta-voz do mesmismo. Todo professor é um criador de perpétuos repetidores de fórmulas. Só o autodidata inventa. Inventor não tem professor. Por que é chato cometer erros em público, é mais fácil inventar na solidão. A escola amedronta. Quem foi o orientador de Thomas Edson? Qual escola de inventores Santos Dummont freqüentava? A instituição e a obrigação de que se freqüente escolas é o assassinato do poder inventivo. Escola integral, então, meu Deus! Educação não é arroz. Quanto menos integral, melhor. Só o autodidatismo nos salvará. Sugiro que se acabe com qualquer escola em tempo integral e se comece a pensar na escola de meio período um dia sim outro não, de preferência terça e quinta (até a extinção), para que os meninos tenham tempo de exercer seu lado autodidata. Esse negócio de educação nos moldes de hoje é uma daquelas coisas que a modernidade faz parecer aos desavisados que sempre foi assim e que é coisa normal. Não é. Escola para criancinhas é uma das aberrações destes tempos. Os filhos sempre foram alfabetizados pelos pais (na idade média era pela mãe, na Grécia antiga era por algum escravo da família), depois decidiam em que gostariam de se aprofundar e, adultos, iam atrás. Eu era feliz na escola, nunca tive problema e fiz grandes amigos. Isto é, tirando as aulas, tudo era ótimo. Uma coisa que tenho que agradecer muitíssimo a minha mãe é que ela jamais se importou se eu tinha feito minhas tarefas ou não. Ela intuía que aquilo tudo não tinha a menor importância e que eu deveria apenas passar de ano e já tava bom e essa parte de dar conta das atividades escolares sempre foi comigo, o aluno. Tudo o que aprendi de relevante em minha idade escolar, aprendi com meus pais. Não consigo me lembrar de nada que tenha aprendido com professores. Se eu tivesse estudado em alguma dessas escolas que são objeto de promessas de políticos – a tal de freqüência integral – certamente eu seria muito mais bocó do que sou. Só o amor ensina e só o amor aprende. Um pai que podendo ficar com os filhos parte ou todo o dia os manda para a escola é um idiota e péssimo pai. Se eu tiver tempo, meus filhos freqüentarão o mínimo possível de escola e só por que isto é obrigado por lei. Não conheço casos de grandes homens que tenham sido educados em escola integral com professores estranhos. A escola integral fornecerá à sociedade uma quantidade mais que suficiente de maconheiros e vagabundos ou nerds deprimidos, pois são pessoas que foram amestradas mecanicamente e não educadas com amor, pois não se ama tanto assim os filhos alheios e muito menos os pais e mães dos outros. Prevejo que, indignados com o fracasso desse sistema, na geração seguinte haverá uma campanha para acabar com a escola integral e outra campanha pela escola em casa, coisa comum antigamente e atualmente também, em alguns países. Lugar de criança não é na escola. Lugar de criança é com a família. Lugar de qualquer pessoa é com quem a ame de verdade. As reclamações dos professores sobre a terrível vida que levam, de ganhar pouco e ter que agüentar crianças horrendas filhas alheias são muito justas. As reclamações dos pais de que os professores são despreparados são justas e dos alunos que não querem ir para a aula são também justas. Está todo mundo certo, o sistema é um fabuloso exemplo de um processo em que todos perdem. Porém, inexplicavelmente, todos acham que a escola (e mais, a escola em tempo integral) é uma maravilha, um exemplo a ser seguido. É triste este nosso tempo em que a teoria dissociada da realidade é o padrão (“o que acima de tudo nos interessa é o que é, e não o que o escritor diz” é o que nos diz Sertillanges). A escola institucionalizada deveria ser remédio e não alimento. E remédio se dá em doses estritas. Alimento é o amor. O escritor é o primeiro leitor de si mesmo e o leitor é o último escritor do livro lido, pois ler é escrever. Doido também tem razão. O leitor é a crítica personificada, pois maus leitores não costumam ler bons livros. Dá para saber se um livro presta perguntando quem o leu. Entre as linhas de um livro há outro livro escrito pelo leitor. O crítico literário é um gigolô das palavras alheias. Um livro é algo que alguém tem a nos dizer. O nosso improvável é o óbvio de Deus. Creio, porque é óbvio! Barulho é o grito da matéria ao levar um tapa. Matéria também é gente. As filosofias orientais quando chegam ao ocidente se ocidentalizam e se desorientam. Comprar um livro é uma das formas de jamais lê-lo. Nada é sério, exceto a graça. Os frutos do trabalho do pensador são de subsistência. O pensador não exporta. Hegel disse que ninguém aprende a nadar lendo um tratado de natação. Se você tem uma história para contar, mas lhe faltam palavras, faça um filme mudo. Escrever é pensar com os dedos. Escrever é descortinar a própria ignorância, pois, como diz minha mãe, o besta calado passa como sabido. As palavras envelhecem, o significado não, pois não existe espírito velho e a palavra é o corpo do significado. Só os corpos envelhecem. Palavras gritam e uivam são cheias de uis e ais. Alimentam-se e salivam, palavras são animais. Palavras se cheiram e trepam, matam-se e se seduzem, morrem de fome e prosperam. Palavras se reproduzem. Palavras comem e bebem. Palavras dão e recebem e correm atrás de carinho. E depois, cheia de dedos, revelando mil segredos, palavras choram baixinho.

Posted by César Miranda at 09:36 PM

março 14, 2007

POR QUE EU NÃO SOU EU

Só há dois tipos de pessoas neste mundo (e muito provavelmente em todo o universo): eu e você. Dessas duas, a primeira é uma espécie muito interessante, uma terra de todo mundo. Vejamos, somente uma pessoa em todo o universo sou eu. Isso torna a coisa muito difícil para mim (ou para “minha pessoa” como muitos dizem), pois passaria a vida inteira, em vão, procurando outro da minha espécie. Não obstante, todo dia nasce alguém que chama a si mesmo de “eu”. São lunáticos, evidentemente, pois só pode existir um eu. Enfim, sempre quem fala se diz ser “eu”. O euismo é uma seita, uma ideologia arrasadoramente grande e todos se dizem pertencentes a ela. O pior é que todo mundo se diz ser eu e ao mesmo tempo todo mundo diz que todos os outros são “você”. Ora, se todo mundo é você, eu também sou. Esta pequena nota é para declarar a minha saída do euismo. Não sou mais eu, podem me chamar de você. Doravante, eu sou você. Declaro a paz a meus amigos “eus” (todos vocês aí). Podem me chamar de você à vontade, que não vou mais ficar brigando. Já vi muita discussão do tipo: - “hei, você!”; - “eu não sou você, eu sou eu”; -“não senhor, eu sou eu, você é você”; - “ah, você é sua mãe, você me respeita, eu sou é eu, rapá!”; - “vem aqui, que eu te mostro que eu sou eu”: “-ah, eu te mato, desgraçado...”. Pois é, deixem-me fora dessa, vocês que são eus que se entendam... Então, para não brigar, eu sou é você e pronto (mesmo que você saiba muito bem, que eu sou eu). Deus, o próprio Todo-Poderoso, quando perguntaram quem era, Ele disse “Eu sou o que sou”. Até Deus se diz ser eu (ou Eu). Taí uma autoridade. Então se eu não sou eu, ninguém mais é. Você aí, que me lê, pare de se chamar de “eu”. Eu, só Deus é. Sendo Eu, só Ele, então todos nós somos você, pois não pode haver dois deuses. Deus é mais que “eu”, Deus é “eus”, tá lá no nome Dele. D’eus, que significa “de todos os eus”. Assim como “dele” significa “de ele”, “Deus significa de eus”. Taí, a coisa devidamente explicada, límpida como água. O que me faz voltar à primeira afirmação, de que (e agora você também) não sou eu. Eu sou você e você também é você. Claro que você é muito mais você do que eu (e eu, muito mais eu do que você), isso não se discute. Sim, ninguém mais sou eu, pois se nem eu sou eu, quanto mais os outros. Todo mundo é você, inclusive eu, e não tenha medo, deixe de ser eu e seja você mesmo. Eu já deixei.
Pois bem, lendo esse texto para uma amiga, ela me disse que está bastante confuso e que “eu” (“você”, ela disse) deveria desenvolver mais a idéia, para clarificar o assunto. Ainda tentei argumentar que Eu não poderia perder tempo com isso, pois o único Eu que aceito tem mais o que fazer e mais, segundo um filósofo medieval, Deus não fala com palavras. Então, pode esquecer, Eu não vou explicar é nada. Mas como ela disse “você”, então eu, que sou você (já disse isso), vou tentar explicar tudo de novo e rogo sua paciência leitora amiga (imagino que nenhum homem terá mais paciência de ler isto daqui para frente, é preciso ser forte como mulher para prosseguir). Comecemos, é simples. Há muita gente por aí fazendo textos dizendo por que não sou isso, por que não sou aquilo. E são as coisas mais óbvias. Aparece um ateu dizendo por que não é satanista. Um comunista dizendo por que não é de esquerda. Um direitista dizendo por que não é liberal, uma mulher dizendo por que não é feminina, etc. Então, eu, antes que algum gaiato diga, digo eu o porquê de eu não ser eu. A história é velha. Um poeta brasileiro dizia “eu sou trezentos”, o que é querer muito pouco, já que é para alucinar, não sejamos econômicos. Ao me declarar ser você, deixo de ser só eu e sou, assim, bem mais que os meros seis bilhões de pessoas do planeta terra. Sou também os seres extraterrestres e os seres de todos os outros mundos, inclusive os seres de outras dimensões. Pois outras dimensões da realidade existem sim, realidade onde existem seres amorfos sem nenhum contato com a vida e desconhecendo o prazer e a esperança e não estou falando do casamento, embora este seja de fato outra dimensão da existência, mas, do casamento há como retornar às três dimensões naturais, mesmo sendo muito doloroso o processo, sendo inclusive proibido pelas religiões. O fato é que no casamento, duas pessoas se tornam uma. Isto é, dois eus se tornaram um eu. Vejam bem a força desse evento e a relevância dessa questão. Então, como você destrói um ‘eu’? Não pode, pois “Eu” só Deus e não se pode matar Deus, por isso o casamento é indissolúvel, porque foi tocado pelo divino e, assim dois vocês se tornam eu da hora pra noite, isto é, casamento também é gente, gente em que o homem é o corpo e a mulher é a alma (ou vice-versa, dependendo do casal, ou sei lá como quando casal é gay). Quando o casamento morre, você volta a ser você, o que pode ser um alívio para muita gente, principalmente quando o corpo insiste em desobedecer a alma. É obrigação de todo corpo amar a própria alma.
A lógica diz que “A é A” e que “’A’ não pode ser diferente de ‘A’” (o que prova por A + B que a lógica jamais veio ao Brasil). No caso de “eu” não podemos dizer “Eu é Eu”, fica esquisito, não fica? O certo seria “Eu sou Eu”, mas esse ponto é por demais controverso, já que “Eu” mesmo só Deus é. Também não se pode dizer “Eu não pode ser diferente de Eu”, o certo seria “eu não posso ser diferente de mim”, mas não é isso que a lógica quer que digamos, então esqueçamos essa história de eu e a lógica. Porém, se dissermos “Você é Você” e “você não pode ser diferente de você”, dá certo, então não vamos ficar quebrando cabeça e matando neurônios com algo tão simples, pois se “eu é eu” é inconcebível e “você é você” é possível, logo, logicamente, só “você” pode ser aplicado aos seres vivos desta e de outra galáxia. Isso está bem entendido, não está? Esperem um pouco, vou passar o texto para minha amiga, para ver se ainda está confuso. Daqui a pouco, eu volto.
Vamos falar de outra coisa, enquanto isso. A crença em um Deus não se trata de preguiça de pensar, é exatamente o contrário. Preguiça mental tem aquele que, por não ver o invisível, conclui logo que ele não existe. A existência de Deus é uma questão de probabilidade. É mais fácil acreditar que Ele existe por uma questão de bom senso, não de preguiça mental. Digo isso, pois já fui ateu, mas minha fé foi diminuindo, diminuindo, diminuindo e hoje estou desviado das veredas do ateísmo. Assumi que não tenho fé suficiente para ser ateu. Cientistas dizem que Deus não existe e esquecem de dizer que tal afirmação não é científica e sim, no mínimo, religiosa, teológica, isto é, coisa que não é do ramo deles. Deveriam ficar calados sobre esse assunto. Por falar em ramos, em Brasília tem muita árvore e nessas árvores têm muitos pássaros que cantam muito. Gosto muito do canto dos pássaros, só não entendo direito as letras. Piu piu piu piu, que raios de letra é essa?! Os pássaros precisam urgentemente de letristas ou então têm muito que melhorar a dicção ou deveriam ainda ser apenas compositores e deixar o canto para os profissionais do ramo. Só por que eles vivem no ramo das árvores, pensam que são do ramo. O verdadeiro cantor é um pássaro que vive pousado no ramo da música. Ramo, ramo, ramo. A ciência é apenas um ramo da árvore da qual, o sobrenatural é de onde veio a força da semente. Não são incompatíveis, mais se tocam mais do que se imagina. A própria natureza está cheia de incompatibilidades aos olhos da ciência. Se tudo fosse simétrico na natureza como parece à primeira vista, teríamos dois corações. Tudo o que a ciência nos mostra é uma verificação à primeira vista. Em seguida nos mostra uma verificação à segunda, à terceira, à quarta, à quinta vista e todas elas podem se contradizer e se desmentir mutuamente, pois a neve de longe é branca e de pertinho é meio cinza. A ciência é apenas um método de medir. As leis da natureza têm um legislador. Esse legislador pode burlá-las, pois tais leis não se aplicam a Ele. É próprio da ciência buscar a origem das coisas e ela sabe que a origem da coisa não está na coisa, assim como a energia que move a coisa não é produzida por ela. De onde veio a energia que faz o universo girar? De dentro do próprio universo? Não seria científico acreditar nisso.
Ok, voltemos ao assunto, minha amiga acha que agora está tudo esclarecido, então vou terminar esta história. Não insistamos no assunto, vocês (isto é, eu e todo mundo) já entenderam o que eu disse. Isto é, vocês disseram. Outra vantagem de não se ser eu é que, sendo você, nada que faço fui eu quem fez. Tudo o que eu fiz, o culpado foi você, o que torna leitor e escritor a mesma pessoa. Você que lê isto aqui, aviso-lhe que foi você quem escreveu este texto. Parabéns, tá muito bom, embora a parte inicial esteja um pouco confusa, conforme a opinião de uma amiga minha. Você é quem escreve o que publico aqui. Logo, você também é quem deixa de escrever quando não tem nada por aqui. Então, não me culpe, por qualquer coisa, quem faz e quem deixa de escrever o que aqui se lê é você. Eu existo, mas eu não sou Eu. Eu sou você. Chegamos, finalmente, ao ponto que interessa realmente. Demonstrarmos do modo mais insofismável possível, desde Santo Anselmo, a existência de Deus. Pois, prepare-se, lá vai. Ai, me dá uma preguiça esse negócio de provar a existência de Deus, mas vamos lá. Ai, meu Deus, que preguiça de fazer isso. Depois vai aparecer um chato citando Kant para desmerecer meus argumentos, esquecendo o chato que eu não tenho nada com isso, pois quem fez isso foi você. Então, vamos, a culpa é sua mesmo. É o seguinte, eu existo, não é verdade? Até Descartes concordava com isso. Até meu chefe sabe que isso é verdade, embora eu seja meio feito chifre de corno (existo, mas ninguém nunca viu). Mas não falemos de casamento, voltemos à prova da existência de Deus. Eu existo e Eu é Deus, mais que isso, Deus é eus, todos os eus possíveis. Então, pronto, não preciso falar mais nada, preciso? Deus existe, pois Eu, como sabem, é Ele. Só ele é Eu. Eu, por minha vez, sou você. E você também é você. Somos todos você, o que torna a sua conta de luz bastante alta. Enfim, é uma forma interessante que Deus tem de dizer, “Eu sou Eu e o resto é tudo japonês”.
“Você deve ser a mudança que você deseja ver no mundo”, disse-nos Gandhi. Então, se você quiser mudar o mundo, já sabe. Pare de reclamar que o mundo é ruim, porque a culpa é sua. John Donne diz que quando uma pessoa morre, ele se sente menor. Claro, pois se todo mundo é você, quando outro você morre, os vocêses do mundo ficam menores. Então falam muito do egocentrismo, querendo parecer que o eu é centro da vida da maioria das pessoas, mas não é verdade. Você é muito mais importante. A criança pequena, como meu sobrinho de três meses, ele não tem a menor consciência de si ainda, mas da sua mãe ela tem, ele sabe e procura e espera e precisa dela o tempo todo. Quando o vejo virando a cabecinha a procura não sei de quê, já sei, evidentemente que não procura a si mesmo. Quem você pensa que é? É você que ele procura. E você, neste caso, é a mãe dele. Pois, todo mundo é você, inclusive a mãe dele.
Veja você o quanto é prática esta tese. Com ela, tudo se responde. Sendo você o culpado por tudo, de bom e de ruim desta vida, você não precisa mais se torturar com os problemas do mundo. Pois, quem pode resolver tudo o que nos assusta, tudo o que nos deixam amedrontados e tensos? Ora, você! O que se deve fazer para vivermos em um mundo melhor? Bem, “o quê”, não sei, mas “quem” vai fazer, com certeza, é você. Você deve ser honesto, honrado, cumpridor dos seus deveres de cidadão, pai e filho, ou qualquer outro raio de papel você tiver neste mundo. Você é a saída para este mundo em ruínas. Você é a solução, pois você é o problema. E, por falar em John Donne, não pergunte por quem os sinos dobram, pois você já sabe, não é? Aliás, não sei por que os tradutores traduzem “bell tolls” por “sinos dobram”. Como assim, “os sinos dobram?” Dobram de tamanho? Dobram assim como se dobra uma toalha? Como assim? Nunca vi isso. Mesmo assim, se houver um sino por aí e de repente você olha e o tal do sino estiver dobrado, isto é, tiver aumentado de tamanho, não tenha dúvida, esse sino dobrou por você. Ou então, como é muito comum, você está andando pela rua e o vem um sino seguindo você, pulando em seu badalo, sorrateiramente. Você se vira e o sino pára. Você continua e o sino continua. Então dobra uma esquina e o sino também dobra. Não duvide, ele dobrou por você. Pois só você existe, quero dizer, todo mundo é você e você é todo mundo e assim sempre será. Não tem saída, você será você até morrer e quando você morrer, outro você nascerá.

Posted by César Miranda at 09:32 PM

agosto 21, 2006

CAMELOS DESERTAM

Post dedicado à Jules e ao WM
Voltando de férias, afônico de tão rouco pedi a meu amigo André de Oliveira (que tinha um blog maravilhoso e fechou, coisa odioso essa de bons blogs fecharem, o que pede um blog coletivo chamado “sociedade dos blogs mortos” com textos do André, Felipe Ortiz, Juliana Lemos, Marcelo de Polli, Martim Vasquez, Bruno Gripp e tantos outros que, agora que qualquer um, até jornais, tem blog, pararam com essa coisa de blog para, quem sabe, se manterem na vanguarda ou para não se entediar por fazer parte de um “movimento” que aparece na capa da Época. Só pessoas de até 15 anos deveriam ter blogs, o que nos daria mais 3 anos do ótimo Blog do Biga), pois bem, eu dizia, pedi ao André, que é médico, que me receitasse um remédio para a rouquidão e ele, mui responsavelmente, me disse que o melhor remédio para o rouco é o silêncio. Eu lhe respondi que, semelhantemente, o melhor remédio para a pele também é a escuridão, mas as mulheres usam dezenas de cremes e que eu queria algo parecido com tais cremes. Só que para a garganta não existe creme. Tentei ficar em silêncio. Se condenar ao silêncio é como engessar um braço. A diferença é que não me engessaram a boca, então sempre se fala alguma coisa, ainda que com um fiapo de voz. Quando o telefone tocava, não sabia o que fazer. Quando o interfone tocou certa vez, desci para a portaria e perguntei o que era (era engano). Quando nos perguntam algo que a resposta é sim ou não, é mais fácil, mas fica difícil quando a coisa requer algum esforço silogístico, mas ia argumentando aos poucos, sempre falando mais baixo e quando terminava minha explanação, meu interlocutor está falando tão baixo quanto eu, é engraçado (havia também os que falavam comigo gritando e eu tinha que esclarecer "estou rouco, mas com meu ouvido está tudo bem"). O chato é quando vem – e sempre vem – uma vontade enorme de cantar um samba que exige um agudo (“tu não sabes amar, para quê tens um coração, ai meu Deus”), só resta ficar na vontade e imaginar a Teca Calazans cantando a bela melodia. O que ocorre é que as pessoas falam mais do que deveriam. Uma vez fiquei sem buzina no carro e, de fato, não precisei usá-la nenhuma vez até que a consertaram e saí por aí buzinando desnecessariamente, como todo mundo faz, como se no mundo não houvesse barulho demais. (me lembrei de Harpo Marx que fazia um mudo que vivia com uma buzina, como aquela do Chacrinha, que lhe substituía a fala, ele não falava, mas buzinava). Sugeriram que minha rouquidão fosse faringite, mas não era, pois nem comi tanta farinha assim para me atacar uma faringite (pausa para risadas). Pois é, cheguei das férias e tive umas férias maravilhosas, revolucionárias, eu diria. Conheci uma senhora que só come coisas boas para saúde porque só gosta disso. Ela saliva vendo um prato de granola e detesta açúcar. Ouvi uma criança falando para o meu amigo Manelão (que anda descalço há uns 30 anos, como São Francisco ele tem pés descalços e é poeta) que a chinela dele é “natural”. Ele achou engraçado. Visitei praias e cemitérios (tenho um morto novo, um tio muito querido). Conheci e amei pessoas. Fui abraçado e rejeitado pela mesma pessoa (a Tatá, minha sobrinha de 2 anos, seus mente suja). Lembrei de piadas antigas e esquecidas (a mulher na loja de armas: “a senhora tá comprando essa arma para se defender, não é?” pergunta o vendedor. “Não”, responde a mulher, “para me defender, vou contratar um advogado”). Outra, do Falcão que diz que nas rádios do nordeste é comum o locutor anunciar: “e agora vamos ouvir com o finado John Lennon, ‘Imagine’” (tudo pronunciado com sotaque paraibano). Vi a “Funerária União”. Não entendi, pois deveria ser “Funerária Desunião”, pois é isto o que funerária faz, nos desune dos nossos mortos (ou dos nossos vivos). Se bem que a Funerária União pode ser união mesmo, isto é, talvez seja especializada em covas coletivas ou genocídios, suicídios coletivos, chacinas, etc. Deve ter anúncios na tv local do tipo: “Amigo suicida, não tenha medo nem se dê ao trabalho, venha à Funerária União, nós matamos você para você!” Revi amigos que não via há décadas e foi maravilhoso, pois todos me acharam muito bem conservado. Poderia ter ficado mais, pois seria mais divertido com certeza, pois não há nada mais divertido do que ficar na casa de meus pais só os ouvindo conversar com meus irmãos e sobrinhos, pois eu sou a pessoa mais sem graça da casa, todos são mais engraçados e vou lá recarregar meus assuntos e apurar a técnica, embora seja frustrante ouvir uma tirada de meu pai e ter vontade de bater com a cabeça na parede por não ter pensado naquilo antes. Aquilo lá é meu mar, para onde eu, riacho, corro naturalmente duas vezes por ano. Fora o amor insubstituível que sentem por mim e eu por eles. Então, a rouquidão foi até barato. Um dia, com a alma calejada de pancadas de existência, com o espírito dolorido de tanto viver, com as costas arquejadas pelo peso dos anos, a pessoa acorda um dia e descobre que é um adolescente. É assim a vida. Anjos não precisam de chinelos. Aliás, jamais entendi por que o Superman usa sapatos. Se eu pudesse voar, não pisaria no chão. A mãe produzia leite condensado, os filhos eram diabéticos. Sem corpo, a alma dorme. Sem alma, o corpo dorme. O peixe, amestrado por de Heráclito, nunca nadava no mesmo rio. Os filhos de Heráclito nunca nadavam no mesmo rio. O que não se faz por uma idéia! A mulher reclamava, “ai, Heráclito, que exagero, e na piscina, a pessoa não pode se banhar duas vezes na mesma água da piscina?” O velho efésio já arrependido com a bendita frase, respondia “ah, numa piscina, vá lá, mas trocam as águas de vez em quando não trocam, da segunda vez tem urina, não é a mesma água mesmo? No aquário, a mesma coisa. Mas seria ridículo se eu dissesse ‘ninguém se banha nas mesmas águas duas vezes, exceto em piscinas onde não mijam, aquários e afins’, tenha dó!” A mulher retomava “oh, Heráclito, muda o disco, ninguém banha no mesmo rio, além disso, isto valerá pra qualquer coisa? Ninguém vai ao mesmo show duas vezes, ninguém come a mesma lasanha duas vezes, ninguém varre a mesma casa, ah, ninguém vai engolir isto, quer dizer, eu tenho uma amiga que não veste o mesmo vestido duas vezes, mas isto é raro, tem que ter dinheiro.” Pelo jeito, não era só o Sócrates quem tinha uma anta como esposa. Não é à toa que Wittgenstein não se casou, imaginem o que sua mulher não faria com sua frase “o que não se pode falar, se deve calar”? Salvo, evidentemente, caso se casasse com mulheres como as amigas que tenho, todas lindas e geniais. Respirar é uma coisa que ajuda bastante a pessoa viver. Brasília é como um pão-de-queijo, seca por fora, macia por dentro e é coisa de mineiro. Não há muita diferença entre dizer mentalmente e pensar mentalmente. Há pessoas que dizem mentalmente e pensam com a língua. Antigamente de alguns políticos se dizia “rouba, mas faz”. Hoje (nos ensina Reinaldo Azevedo) é “rouba, mas distribui renda”. O raciocínio deve ser sempre o contrário, “faz, mas rouba”, “distribui renda, mas rouba” e se rouba, deve cair fora, não importa se faz ou se distribui renda, babado, roupa usada ou o que quer que seja. Aquela orquestra era tão pobre que parecia uma mulher, só tinha duas trompas. Você não precisa de muito esforço para ter contato com Deus. Basta se abrir e deixar que Ele lhe invada. Ninguém recebe mais conselhos do que os felizes. Basta você estar muito feliz, que logo aparecem dezenas de amigos lhe aconselhando a mudar de vida. A essas pessoas costumo aconselhar que parem de dar conselhos. Mercenários entram em greve em protesto ao acordo de paz assinado pelas duas famílias mafiosas. “Possente, possente thà ,gran sacerdotisa” é uma ária de Aida de Verdi. Lá no meio dela tem uma flauta que toca exatamente uma parte de “A saudade mata a gente”. Se o respeito ao sexto mandamento fosse um valor nosso, tudo seria diferente. Os muçulmanos vêm aí para nos destruir. Eles nos desprezam e somos mesmo desprezíveis. Não obedecemos nosso Deus. Queremos o que há de bom em nosso Deus, mas não queremos amá-Lo sobre todas as coisas e nem reconhecê-Lo como nosso Senhor e com isto caminhamos para nosso fim, caso não mudemos a rota desta carroça. A importância de adotarmos o cristianismo em nossas vidas é fundamental para que mantenhamos aquilo que conquistamos graças a ele. Quando você não quer Deus em sua vida, você não O tem. Deus é um cavalheiro. O que acontece é que, desde Adão e Eva, sempre que Deus dá às costas ao homem (no sentido de deixar o homem se divertir sozinho), este faz merda. Depois volta chorando ao Pai, que, como todo pai, acolhe, perdoa, cura as feridas e tudo recomeça. Assustadora é nossa situação. Há campanhas que querem nos transformar em uma sociedade abortista, outras querem institucionalizar o homossexualismo. Enquanto isto, os muçulmanos vêm aí, sem abortos ou viadagem, encher nosso mundo de muçulmaninhos. A quem clamaremos por ajuda? Quem nos salvará dessa horda? O Chapolim Colorado? O Papa Bento XVI fala em sua primeira encíclica sobre o homem que abandona a Deus e depois quando as armas humanas não resolverem seus problemas, a quem ele vai recorrer? O fato é que hoje combatemos contra nosso Deus. Depois não reclamemos na eminência de sermos aniquilados por um povo que obedece ao seu Deus. Eles de fato não nos aniquilarão. Apenas ocuparão o lugar que era nosso. Nós mesmos nos aniquilamos. Os muçulmanos apenas ocuparão o lugar do cristão que não nasceu porque a mãe tomou pílula, do cristão que não nasceu porque a mãe o abortou, do cristão que não nasceu porque os pais se tornaram gays (portanto estéreis), do cristão que não nasceu porque cristãos já não mais existem. É em Cristo que a mulher ocidental alcançou sua dignidade. É o Cristo que impede o apedrejamento da mulher pega em adultério. E em São Paulo (o apóstolo, não o time) que diz que o corpo da mulher pertence ao marido e o corpo do marido pertence à mulher, pondo definitivamente fim à superioridade masculina sobre a mulher. O ponto da questão é: não basta à mulher moderna achar lindo e digno de ser seguido apenas a parte feminista do cristianismo. Ela deve achar lindo e digno de ser seguido todo o cristianismo, sob o risco de perder também a parte mais confortável da questão. E mais, deve acreditar na promessa de Cristo, enfim, ter fé em Jesus, nosso Salvador e trazer essa fé para a sua vida. Abandonamos Deus quando abraçamos o relativismo e cultuamos a dúvida. Hoje muitos voltam à religião por meio de crenças pagãs, como se Jesus não fosse de fato o que de mais novo há em matéria de religião. Mostrem-me uma religião (ou ideologia, vai) que seja superior a uma que se baseia no amor e no perdão. Hoje no mundo em que vivemos e no estágio em que se encontra a sociedade ocidental, adoramos adorar ideologias e como todas elas são desastrosas, criamos ideologias como o viciado que troca de narcótico, crente que o próximo não lhe causará mal como o anterior. Pegamos um acidente qualquer, como o homossexualismo, por exemplo, e o transformamos em ideologia. Pegamos uma idéia tosca qualquer (um acidente também) como o comunismo, por exemplo, e a transformamos em ideologia. Vamos transformando coisas fortuitas em ideologia e tais incidentes nos aniquilam, pois são mesmo aniquiladores em sua essência, pois se não o fossem, não seriam acidentes e o natural no ser humano seria o homossexualismo, o comunismo e o sexo sem reprodução. Deus quer que quando você fizer sexo, você tenha filhos. Filho é coisa boa. Jamais vi alguém em são estado mental falar mal dos filhos que têm. As crianças de minha família são maravilhosas e graças ao bom Deus que eles nasceram. Pois bem, milhares de crianças, indesejadas no começo da gravidez, hoje fazem a alegria de milhares de pais que abriram mão um pouco do controle que tem sobre a própria vida e confiaram em Deus. Dê uma parte de sua vida a Deus, pelo menos uma parte. Argumentar com os próprios atos, eis o grande desafio! Quem argumenta com palavras geralmente queima a língua. É possível não estar só e sentir-se solitário, diz uma revista. Pois bem, é possível também estar solitário e se sentir acompanhado. Quem tem Deus jamais está só. Do mesmo jeito que o cego enxerga Deus e o mudo fala com Ele, a solidão daqueles que amam o Senhor é uma contradição em termos. Não é impossível a um surdo cantar uma canção. Impossível é ele aprender a música. O destino do surdo cantor é ser compositor também, para ter o que cantar. Prometa a si conhecer as 4 sinfonias de Brahms, é para o seu bem. Jornais não deveriam ter caderno de cultura. Só quando alguém produzisse algo que pudesse ser considerado em importância a, por exemplo, A Sagração da Primavera (que é uma barulheira chata). Estamos sempre esperando reconhecimento, admiração e apreço das pessoas, enquanto isto Deus bate na testa. Burro é para puxar carroça, mas no Brasil eles entram para política. O homem é um animal com quem Deus dialoga. O livro tem a função de ocupar espaço e dar trabalho na hora da mudança. Assim como os teólogos estudam a ciência, os físicos deveriam ter uma matéria chamada “milagres”. Hoje quando alguém diz “cuide-se”, geralmente está aconselhando o uso da camisinha. A vocação de alguns para produzir merda chega a ser admirável, pela eficiência da produção, não pelo produto. Órgão Público são os genitais das prostitutas. O dinheiro não tem o menor respeito pelo dono. A Solidão é a real prisão O melhor lugar do mundo é onde temos quem nos quer. O que comem os participantes no intervalo de um suruba? É difícil uma suruba de canibais porque alguém sempre entende errado e espeta um e põe pra assar. O espelho não vê com bons olhos os narcisistas. Vão acabar com a propaganda de bebidas, como se as pessoas fossem para os bares assistir tv. A estrada da procura do amor humano é calçada com pedras de falsas juras. Se a Bíblia se bastasse e devesse ser levada ao pé da letra, a frase “a letra mata, o espírito vivifica” não seria um versículo bíblico. Preguiça é a covardia sem medo. Liberdade é dominar a vontade. A educação é outra parecida com a coerência. De que adianta uma educação marxista para todos? A educação sozinha não significa muita coisa. Educação para todos sim, seria ótimo, mas que tipo de educação? A que o MST dá a suas crianças? No quesito música insuportável, o Brasil tem produzido obras-primas. A opinião de um artista sobre a própria arte não tem importância. O problema não é crer em Deus. O problema é confiar no deus errado. Abraão, por exemplo, não era monoteísta. Ele acreditava em outros deuses. O Islã precisa urgentemente de um João Gilberto para modernizá-lo, sair dos três acordes. Todos os caminhos que levam até Deus levam também à liberdade. A escravidão é apenas uma coisa: a falta de Deus. Apesar desta vida maluca, eis uma luta diária, a conquista da delicadeza. Após cada comício, deveria haver um contracomício (ou um “semmício”), isto é, o povo deveria ficar para ser esclarecido sobre todas as bobagens, acintes e mentiras oriundas das bocas asininas de quem discursou. Após cada discurso desses de candidatos de esquerda em igrejas protestantes, tenho vontade de estar presente só para subir ao púlpito e falar das palavras fingidas que acabaram de ouvir, ditas por seres que jamais esconderam que são ateus, pró-aborto e que sempre cultivaram agendas escandalosamente anticristãs e em tempos de eleição urdem uma fé mais falsa do que nota de três reais. Ou você é cristão ou é de esquerda, as duas coisas são excludentes. A raiz do esquerdismo é justamente a negação de Deus e a idéia tosca de colocar o Estado no lugar de Deus. O político de esquerda sabe disto, então quando ele entra em um templo cristão para pedir votos, demonstra o quão realmente é ateu e no seu desrespeito ao pedir votos a cristãos nada mais faz do que tripudiar sobre o Deus alheio. Que enorme banquete satanás fará com as tripas dessa laia! Eu toco teclado qwerty (há também o teclado abcdefg, que é o teclado do piano). Não seja movido a internet. Viciado é aquele que não pode consumir algo. Por exemplo, alcoólatra é quem não pode sequer chegar perto da cachaça. Já, nós, que não somos alcoólatras, podemos encher a cara à vontade. O que significa que vício é apenas uma prisão psíquica. Basta você se libertar e voltar ao copo sem medo de ser feliz, amigo cachaceiro. A criação deste instrumento blog resultou na inclusão (ui) de todo mundo que tem acesso à internet e quer ter uma página ali. No começo, achei que era meio coisa de menina ou de gay, mas logo vi blogs com cara de livro bom e resolvi também dar minhas chapuletadas. E é muito bom ter um blog. Você experimenta, experimenta, escreve o que quer até criar uma linguagem parecida com você, é muito divertido. Faz amigos, aprende, descobre que muita gente não gosta de você e no fim das contas o resultado é como em sua vida pessoal, no meu caso, com poucos amigos, mas amigos de nível elevadíssimo, como poucos poderiam ter, o que me faz concluir, que pessoas de alto nível são bem humoradas e que a falta de senso de humor é um tipo de burrice. No começo o pouco que se salvava da blogosfera era o Alexandre, o FDR, o Ruy Goiaba, o pessoal d’O Indivíduo, depois a Meg abriu seu blog e eu criei o Pró Tensão. (Esse nome, que não é um palíndromo, é sim, um trocadilho e uma citação meio enviesada de uns versos do Tao Te-King). Este blog nasceu em 10 de janeiro de 2003, o que significa que faz agora em agosto, 3 anos e meio e já publiquei quase três mil posts (este é o post n° 2.970 - noves fora, zero), coisa bem rara de se ver, pois blogs não duram muito mesmo, por razões várias, mas a principal é, como diria o Jaiminho, a fadiga. Em novembro de 2003, fui convidado pelo Wundermeister Marcelo de Polli para entrar para os Beatles e nosso livro Wunderblogs.com saiu pela Barracuda em julho de 2004, graças a coragem empreendedora do Freddy Bilyk e a paciência, talento e doçura da Isabella Marcatti, nossos maravilhosos editores. Falam muito na relatividade do tempo, que ele passa rápido quando estamos felizes e lentamente quando as coisas estão difíceis. Tenho verificado, porém, que o tempo tem progredido e o que sinto é que o tempo tem voado cada vez mais velozmente em qualquer situação, boa ou ruim, e que os noventa primeiros anos de nossas vidas passam muito rápido mesmo. Há também em nós uma vontade de que o tempo passe mesmo, que nem é auto-sabotagem, pois queremos que as coisas se sucedam, que as fases ocorram, que a hora do almoço chegue, que o gozo aconteça, que o fim-de-semana chegue e quando ele chega, que sábado chegue e quando sábado chega, corremos atrás daquela coisinha melhor do nosso sábado e ela só acontece se o tempo passar e no segundo seguinte pensamos no próximo sábado e assim, puxamos o tempo pelos cabelos, enquanto ele nos leva pelo braço. Uma urgência: devolver a alma de alguém. Na casa mal-assombrada, quem é morto sempre aparece. O passado é um fantasma. O passado é a prova de que fantasmas existem, pois nada mais real do que o passado. De fato, dos três, futuro, presente e passado, só este existe, persiste e há em abundância. Os outros dois são meras miragens. Admiram-se quando digo que não gosto de escrever. Pois não gosto mesmo. Escrever é coisa para secretárias, digitadores, datilógrafos e companhia. Gosto de pensar e o escrever é conseqüência disso. É como se fosse o subproduto do ato de pensar, que tem que ser expelido, para dar lugar a outro pensar. Ora, não acho agradável expelir nada, mas tenho que expelir e me sinto aliviado. Ah, mas eu gosto de brincar com as palavras (como os palíndromos e alguns haicais), mas não creio que fazer palíndromos possa se chamar de escrever. Escrever é se usar palavras para dizer algo. Já essas brincadeiras com palavras e letras, elas são O algo a ser dito. Quem faz um poema concreto, por exemplo, não é um escritor não, pelamordedeus. A cabeça da serpente pessimista pensa que é só rabo. A serpente é uma girafa sem as quatro patas. Quando vão fazer um filme chamado “Nascido em 11 de setembro”? Só o mar atrapalha o pescador. Só a distância atrapalha o corredor. E o atrapalho é tudo o que eles querem. Livro de auto-ajuda para corredores não traz conselhos para que ele pare de correr. Há um só Deus, mas há muitos adeuses. Quisera eu, que, como Deus, só houvesse um, só um e não mais que um adeus. Ou menos que isto. Nenhum. Que só houvesse mesmo Deus e nenhum, nenhum adeus. Eu não sei por que amo um monte de coisa. Amo a música, amo as palavras, um bom livro, uma linda poesia, amo meu Criador, amo Cristo que morreu para me salvar mesmo sem eu merecer, quem amo, amo sem saber o porquê (junto e com acento). Deus nos fez porque (junto e sem acento) Ele é Amor. Um amor que não se conteve e produziu estrelas, planetas, um lindo universo, para então criar um ser, que sopraria nas narinas o fôlego da vida. E esse ser Seu companheiro no exercício da contemplação e do amor. Fomos feitos para amar. Amamos por instinto. E um dia, se alguém tiver muita sorte, Deus criará um outro alguém decretado por Deus para aquele alguém amar. Se eu chamar e alguém não vier, penso sempre que a pessoa não quer nem me ver pintado. É o lado ruim de ser cavalheiro. Um cavalheiro jamais se impõe, é como Deus. Deus não obriga ninguém a amá-Lo. Já um cavaleiro vai atrás de sua donzela que está presa no castelo. O homem ideal é uma mistura de cavalheiro e cavaleiro. As flores são colhidas, expostas depois, recolhidas, pálidas de sol são substituídas e a natureza refaz seu ciclo. A mulher não é uma flor. Não é semente nem fruto que se colhe e põem à mesa. É sim, o supremo invento do Autor da natureza. Se o sol queima a pele dela, vê-se o não fugaz encanto, uma vez que não é flor, pois fica ainda mais bela. Tem arsenais de beleza e o destino de ser mais que flor de mais majestade e esplendor do que toda a natureza. Caprichosa, simples e extravagante, nutrindo-se de vestígios de amor, sempre viva, vai rompendo escuridões. Sincera, sensível e exuberante, florescendo a qualquer tempo, ignorando as estações. O presente só existe, isto é, só dizemos que ele existe justamente quando saímos do tempo e vamos para aquele eterno presente que na verdade não é presente, pois sequer é tempo. Conversando com uma amável amiga dia desses, eu falava que o prazer de tocar um prelúdio de Bach é comparável a ver um ótimo filme e a namorar quem amamos. Em tais momentos, saímos do tempo e experimentamos um pouco o paraíso, quer dizer, a eternidade, onde não há tempo. Um famoso celista disse que tocar Bach sozinho é o paraíso, porém, tocar a mesma peça de Bach em público é o inferno. Sempre senti o mesmo e achava que era coisa de músico amador. Há alguma coisa aí que é própria da música barroca, acho. Namorar também é assim. Se você for obrigado a namorar em um palco para que todos vejam, seria um inferno. Voltando ao tempo. O tempo passa. Mas a verdade não passa. A verdade é o que se passou no tempo, a verdade é o passado, por isto ela não passa, pois se o presente nos escapa o tempo todo (e deixa de ser presente o tempo todo), o passado jamais deixa de ser passado. A pregação igualitarista, as denúncias contra “as desigualdades” quando toma conta da cultura de um país costuma ser muito eficiente na produção de inveja e ódio pelas camadas sociais detentora de menos bens. Geralmente tal cultura de vitimistas é fomentada pelo próprio Estado, suposto detentor do poder de resolver “o problema”. Quando a inveja se transforma em violência, os donos do Estado têm os argumentos que precisam para implantar a tão sonhada (por eles) tirania. No Brasil, país de gente passiva, essa agressividade é diretamente fomentada e financiada pelo Estado a grupos que nada mais são do que o braço armado e violento dos burocratas de plantão. Esquecem-se de que é burra, a idéia de forjar o cumprimento de profecias. Isto é, não que não seja a coisa mais natural do mundo que as pessoas queiram mudar de status (para melhor), o que significa, em algum sentido, que somos mesmo naturalmente invejosos. O invejoso pode se comportar, sob frustração, com violência. Se tal inveja for endêmica, naturalmente hordas de invejosos frustrados sairão por aí, sei lá, depredando o Congresso Nacional. Porém esse tipo de coisas naturalmente não se daria ou até poderia se dar caso se tratasse de um evento profetizado, isto é, decretado pelo destino. Um encontro de invejosos com esse intento só se dá “assim do nada”, quando é forjado por fabricantes de profecias, coisas que os marxistas, para horror de Marx, são especialistas. Se você for de esquerda e achar bonitos os ideais marxistas, ótimo, é um direito seu. Porém, tenha coragem e honestidade de perceber que esse povo aí que está no poder não serve. Coloquem outros esquerdistas no lugar deles. Qualquer esquerdista, menos esses enlameados. A questão aqui não tem relação alguma com esquerdismo ou direitismo, o problema são os alicerces onde bailam a esquerda e a direita. Até em gafieira tem estatutos. Urge que os formadores de opinião gritem essa verdade básica: o básico está sendo desobedecido. Esta verdade óbvia: estão ignorando o óbvio. Por uma fatalidade, dessas que vem do além, a esquerda escreve mal e a direita escreve bem. Deve ser essa a explicação para grande massa de esquerdistas que lê Reinaldo Azevedo, Alexandre Soares Silva e liam Paulo Francis, pelo menos as caixas de comentários de páginas de direita é cheia de comentários de esquerdistas. Imagina se eu perderei tempo lendo blogueiro defensor de uma ideologia que eu discordo? Mas, enfim, o marxismo é mesmo uma espécie de masoquismo, essa pode ser outra explicação para os canhotos vermelhinhos serem grandes fãs de escritores que odeiam. Mas ainda fico com a primeira hipótese, o masoquismo, típico de quem não crê em Deus, pois também o ateísmo é masoquismo. De veio em veio, eu me fiz fonte. De grão em grão, um canteiro. De chão em chão, o horizonte. De meio em meio, fiz-me inteiro. De tanto estrume na cabeça, nossa mente fica fértil. Sou um matuto. O maturo absoluto. Pode ser esquisitice. Contra a qual eu já não luto. Já lutei, mas não tem jeito. Foi assim que eu fui feito. Desse jeito todo bruto. E por mais que eu lapidasse. Ficava inda mais matuto. Ia mais me matutando. Era assim que eu melhorava. Tem gente que pra matuto. Tem que se deslapidar. Já eu, tanto fez ou tanto faz Se melhoro ou se pioro. Não sei se rio ou se choro. Mas desde que sou menino. Trago em mim esse destino. A sina de matutar. Um dia desses recebi um email, uma resposta, do poeta Jessier Quirino, para quem não conhece, ele é, mal comparando, a mistura de Patativa do Assaré, Xangai e Falcão com uma pitada de doçura. Na resposta, danei a imitá-lo, a fazer uns jogos de palavras parecidos com o que ele faz. Temos esse impulso de imitarmos a quem amamos, talvez só assim, acharemos nosso próprio caminho. Mas que é esquisito e até ridículo, isso é. Imaginem um concerto com Luciano Pavarotti e toda a platéia cantando junto com ele. Dá vontade de mandar aquela malta calar a boca e deixar só o grande tenor dar seu show. Imaginem pessoas levando violinos, violoncelos, trompas e clarinetas para também “cantar” junto com a orquestra a que vão assistir. Da mesma forma são os comentadores de blogs. São platéia cantando junto com o Fábio Jr o seu grande sucesso “senta aqui” ou “quero colo”, como se fora o artista que tivesse ido vê-los cantar. Como se o Alexandre Soares Silva, cansado de Nabokov, tivesse feito o blog só para ler seus comentadores. Putz! Enfim, no email seguinte, pedi desculpa ao poeta e me comportei como gente séria e normal e não cantei junto. Não cantem junto, gente. O artista que se preza despreza isso (eu não sou um artista que se preza, pois adoro meus comentadores). A dialética é um dos vícios de nossa raça. Por isto, costumamos agir contrariamente ao que defendemos ou temos a mania de acredita com ardor naquilo que detestamos fazer. Há muitos poemas de suicidas dizendo o quanto a vida é bela. Ao contrário, nem imaginem que quem fala mal do Brasil ou da vida tenham a menor intenção de se livrar de um dos dois. Há mesmo a natureza intrínseca das coisas que obriga que a realidade assim seja. Por exemplo, a política, coisa que mais necessita de pessoas honestas, é geralmente hospedaria de bandidos. Isto é, o bandido, que por temperamento deveria ser tudo menos político, busca nela um equilíbrio de suas tentações e vai lá “dialeticar” na vida. De tensões semelhantes vem o sabor da vida. Pensava nisso quando chamei este blog de Pró Tensão e observando a vida, fiz muita graça, graças a Deus, em cima de nossas graças e desgraças. Fui muito bem recebido por gente muito generosa e amorosa (e de muito bom gosto e charme) e deste blog só ganhei coisas boas em momentos difíceis da vida, que eu precisava mesmo de carinho. Ainda preciso, sempre precisarei do amor de Deus e do carinho dos amigos (todo mundo foi feito para ser amado), porém, atualmente manter o blog se tornou dolorido e em seguida se tornará impraticável. Quem não tem problemas de falta, geralmente se queixa de excesso. Envelhecer é ir deixando de comer coisas e de ir a lugares. A função de um professor é nos impedir de ler os livros errados. Nosso legado cultural só nos ajuda a adquirir os livros, para entendê-los, precisamos do Espírito Santo de Deus. Ocorreu-me outra coisa, que, sendo fábricas humanadas de contradições, deveríamos entender as razões de quem discorda de nós, nesse sentido, Nosso Senhor nos exorta a amar nossos inimigos e rezar por quem nos persegue, até porque nós mesmos somos amiúde nossos próprios inimigos e sabotadores de nossa própria vida. Amar o inimigo é tratar o outro como tratamos a nós, pois se nós, que nos prejudicamos, queremos nossa própria felicidade, àqueles que nos quer prejudicar, também deveremos dar o crédito de compreensão que jamais deixamos de dar a nós mesmos. Quer ver mais tensões? O Brasil, por exemplo, que é um país bonito, então o povo capricha na própria feiúra. O maior problema do Brasil é a pauperolatria. Aqui se cultiva a pobreza por questões estéticas (ou anti-estéticas). A maioria, ricos e pobres (coisas que no Brasil se mistura), acha linda a feiúra. Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito (nos diz o poeta Juraíldes da Cruz). Para compensar a beleza do Araguaia, o povo da beira ouve música ruim. Aqueles poucos que ouvem música bela, nem olham para a beleza da natureza. O povo brasileiro gosta da pior pobreza que existe, a pobreza da beleza e esta é responsável por todas as outras pobrezas. Temos que lutar sempre contra o exílio da beleza de que somos tentados por viver nesta bela terra sem tufão e outras coisas feias. Isso é muito triste. Então, sem tristeza, agora que é lançada esta Antologia, anuncio que este é o último post do Pró Tensão. Obrigado a todos. Que Deus seja louvado!

Posted by César Miranda at 07:59 PM

junho 23, 2006

O PIB DO MARANHÃO

As coisas estão aí para serem usadas. Use direito sua raiva. Use bem sua inveja. Capriche no uso de sua ira. Deus é supremo em tudo e, sobretudo na arte de transformar o mal em bem. Eu por exemplo, sinto uma inveja linda dos sanfoneiros. Devem ser as pessoas mais felizes do mundo. Os palhaços, acho que são tristes. Mas o sanfoneiro parece que vai voar quando sua cento e vinte baixos abre as asas e canta. Há tanto o que se aprender com o sanfoneiro, não sei bem o quê, mas que há, há. Vamos por partes, o “cada um por si” é o natural do ser humano. “Projetos coletivos” é que é algo estranho, é que é uma moda e as tentativas de levá-los ao extremo gerou Stalin, Mao Tse-Tung e Fidel Castro. Isto é, o neoliberalismo não inventou o “cada um por si”, apenas o neoliberalismo é o capitalismo após o comunismo, isto é, o capitalismo sem Deus, e aí, danou tudo. A grande vantagem do capitalismo sobre o comunismo não era o fato de que o capitalismo só sabe gerar riqueza e o comunismo só sabe gastar. A grande vantagem era que o capitalismo era cristão e o comunismo era ateu. O cristianismo é um verdadeiro achado, pois ali há um individualismo bom, isto é, o indivíduo é julgado pelo que fez de bem para os outros. Nesse intento, cada um por si, tentará salvar a própria alma usando as armas do amor ao próximo. Essa noção se some no marxismo, pois é uma ideologia atéia e, mata-se Deus e passa-se para o Estado a obrigação de fazer o bem, putz, não há idéia mais tosca. Como o comunismo não deu certo, o capitalismo declarou-se vitorioso e os países comunistas agora obrigam seus cidadãos a serem capitalistas, então surge um capitalismo esquisito, um capitalismo ateu, isto é, sem a melhor parte do que o capitalismo tinha. O capitalista inteligente (ou minimamente cristão) sabe que enriquecerá se inventar uma coisa qualquer que facilite a vida das pessoas. O caminho para a riqueza é este: facilitar a vida das pessoas. Porém, ninguém faz isto se não for recompensado. A ação humana é dirigida pela recompensa. Se a isto chamam individualismo, então individualismo não é nem defeito nem qualidade, é um fato e contra fatos não há argumentos (não se deve confundir “individualismo” com “egoísmo”, este sim, intrinsecamente mal). O grande erro dos projetos coletivos é esse de querer mudar a natureza humana, pois todas essas ideologias sanguinárias são filhas de Rousseau, que acreditava que “o homem nasce bom”. Não nasce não, o homem precisa da graça de Deus para ser bom. A “França da solidariedade” trata-se de um dos países mais estúpidos da história da humanidade, que desde a Revolução de 1789 vem dando espetáculos dantescos à humanidade. Há um livro chamado “A Fabrica de Desempregados”, em que a autora, uma francesa chamada Beatrice Majnoni D’Intignamo prevê o que ocorreria a França neste dias por causa desse monopólio da bondade que a sociedade deu ao Estado. Não é papel do Estado a administração do bem-estar de seu povo. Um texto do Le Monde reclama que a solidariedade está em frangalhos, claro que está, ninguém mais tem medo de ir pro inferno. A evolução do ser humano sozinho é o mesmo que sempre foi quando o homem virou as costas para Deus. O fato é que ou você serve a Deus ou ao mal, não há meio termo. Não há como ser bom, sem Deus ali lhe lembrando disso o tempo todo. Uma coisa interessante no texto do Le Monde é a frase “Não raro esses militantes da solidariedade se sentem decepcionados com a política, na qual eles não mais encontram o que procuram para satisfazer sua vontade de engajamento coletivo”. De fato, a tal da politicagem é o acento circunflexo da palavrinha cocô (como diz o poeta Jessier Quirino). Eis um dos grandes defeitos dos sábios de nosso tempo: a ingenuidade em acreditar que as ações políticas podem melhorar a vida das pessoas. Jamais melhoraram, não sei por que o fariam agora. De fato, se você tem uma idéia incrível para ajudar seu semelhante, você deve mesmo arregaçar as mangas e, com seu dinheiro, tocar tal projeto. Se você montar uma ONG e essa ONG começar a receber dinheiro do governo, você será o primeiro a torcer para que o tal problema se perpetue. Então esse tal “engajamento coletivo” muitas vezes é mero disfarce para assaltar os cofres públicos. Isto é, não acredito na bondade que quer se institucionalizar. Lobby do bem para mim é uma contradição em termos. Confunde-se muito “esquerda” com solidariedade (basta ver todos os políticos de esquerda quando estão no poder como agem, isto é, do mesmo jeito dos políticos de direita, isto é, o interesse de permanecer eternamente no poder). A solidariedade da esquerda é o famoso cumprimento com o chapéu alheio ou como diria o Lobão é o gozar com o pau dos outros. O tal “interesse geral” tem servido tão somente à demagogia de políticos de direita e esquerda, vem daí a necessidade de um estado pequeno. O fato é que foi por causa da economia de mercado que os países ricos enriqueceram. No fim do século XIX, o PIB do EUA era menor que o PIB do Maranhão. O caminho que os dois países tomaram, um com um choque de capitalismo e o outro com um choque de paternalismo é o que explica a situação dos dois atualmente. Devemos discutir sempre o papel do Estado, principalmente hoje no Brasil em que, parece, a sociedade tem optado mais uma vez por um Estado paternalista. Dias piores virão, principalmente porque os “pais” de plantão, é, na verdade, no dizer do Procurador Geral da República, uma quadrilha que se apropriou do Estado brasileiro. Que Deus nos ajude. O outro assunto é a questão do individualismo moderno que é mesmo fruto do cristianismo e do capitalismo, com ótimos resultados para quem o abraçou com amor, sinceridade e honestidade. Porém, não é crível um mundo de homens livres sem conflito. O conflito (e a guerra, seu mais terrível momento) é fruto do conflito de liberdades. O problema é que algum idiota culpou o capitalismo pela Segunda Guerra mundial e sugeriu que o Estado deveria intervir e cortar as asas do liberalismo econômico instalando-se as ordens de Lord Keynes que nos governará até o fim do mundo. Mas é óbvio que a tal mão invisível do mercado trará conflitos, pois certamente trará progresso, riqueza, dinheiro, muito dinheiro. Não é possível não existir conflito onde exista muito dinheiro. Pois onde há dinheiro há inveja. Os países que adotaram a economia de mercado ficaram ricos, tão ricos que em suas fronteiras não cabiam mais o dinheiro que tinham. Então os ricos daqueles países resolveram investir em outros países. Os países beneficiados com essa grana ficaram putos com isso e começaram a chamar os países ricos de imperialistas e exploradores etc. Enfim, é o que ocorre hoje entre a Petrobrás e o Evo Morales. Eu sendo rico não titubearia em simplesmente tirar meus investimentos de países mal agradecidos. Mas os anticapitalistas acham certo é que os países me tomem o dinheiro que eu investi em seus países. Putz. O certo é que se tem uma coisa que a mão invisível do mercado jamais garantirá é a harmonia entre os homens, pois há muitos males sociais que não têm nenhuma raiz social. Há diversos problemas sociais que sempre existirão e que não têm causa na luta de classes ou qualquer outro tipo de conflito social. Há diversos problemas sociais que não são causados pela pobreza ou pelo analfabetismo. Há diversos problemas sociais que não são causados pela exclusão, má distribuição de renda ou qualquer outro clichê do discurso socialista. Essas centenas de problemas de causas não sociais jamais serão resolvidos pelo Estado, quer dizer, por algum artifício de engenharia social. A política jamais será o remédio de todos os males sociais. A economia de mercado tem sido o remédio de alguns desses males. Abolir a economia de mercado é um remédio que vai matar o doente. E dar ao Estado a possibilidade e o direito de ser um agente mercantil é abolir a economia de mercado, pois a mão deixa de ser invisível e se torna a mão (ou as mãos) do burocrata de plantão e de sua quadrilha. É preciso que voltemos a nosso estágio humano de antes de sermos o animal político ou ainda, antes de sermos o animal cidadão titular de direitos e deveres. Antes disso, há que se perguntar que direitos são esses e que deveres são esses. Só após se estabelecer essa base é que poderemos decidir que tipo de Estado nós precisamos e queremos. Nessa base fixaremos nossa sociedade. É importante que nossa base seja fixa, senão caímos. Aí sim, sob essa base, todos nós seremos iguais, isto é, todos obedecerão aos pressupostos dessa base para que o corpo social não desabe. Então TUDO que diz respeito a uma sociedade deve começar desses pressupostos. Quem não obedece a tais pressupostos são degredados, mandados para a prisão para serem reformados, são enxotados das relações políticas até que provem merecer algum crédito. Não importa se são eficientes, talentosos, se são bonitos, inocentes, gente boa etc. O critério primeiro e eliminatório é O BEM. O que é O BEM no jogo político? É simples, são meras ações baseadas na ética. Então, se há um grupo que trabalha com cocaína e armas, isto é com produtos ilegais e destrutivos, mesmo que esse grupo seja bonzinho para a comunidade, dê segurança, saúde, casa, comida, roupa lavada, deve ser enxotado e digno de repúdio à priori, por todos. Pois, não atenderam ao primeiro pressuposto. Há um grupo no poder que dá bolsa-escola, vale-gás, bolsa-família, casa, comida e roupa lavada para todos os habitantes da nação, mas se esse grupo é uma quadrilha que compra políticos, que tem relações obscuras com regimes autoritários, se vive mergulhado na lama de escândalos, assassinatos, coerção de testemunhas, fortes suspeitas de terem sido eleitos com dinheiro de traficantes dos quais são irmãos ideológicos, esse grupo deve ser repelido e visto pelo povo com desprezo, do contrário significa que vivemos em uma sociedade de cegos ou pior (muito pior), que vivemos em uma sociedade que elegeu uma base podre para se fixar. A coisa mais importante para se fazer uma casa são os alicerces. Não adianta você ter um excelente material de acabamento, sem o alicerce, você pode dispensar todo o resto, pois você não é doido de adquirir ótimos azulejos, excelente esquadrias, caríssimas pias e jogar tudo sobre um alicerce de areia movediça. É isto que tem acontecido neste nosso pobre país. A primeira coisa a fazer seria retirar os atuais engenheiros que nos trazem tal proposta de tentar construir um país sobre a areia movediça. Mandá-los para o limbo com suas carradas de lindos azulejos, belos tijolos e magníficas tintas, enquanto insistirem em usar a areia movediça, o lamaçal e o lodo como base de nosso país. Mas não, o povo, assim como admira e chora a morte dos traficantes de cocaína, se prepara animadamente para reeleger os enlameados que lhes dá duas mariolas todo mês e só por isto, que importa se a mariola vem suja de lama?! Jesus perguntou a um cego de Jericó “que queres que eu te faça?”. O cego respondeu “Senhor, que eu veja”. Deveríamos pedir isto a Deus, que vejamos. Ouvindo os hinos nacionais no começo das partidas da copa do mundo de futebol constatamos o quanto são bélicos todos eles. Ridículos de tão bélicos do tipo, prendemos e arrebentamos, quem nos invadir nadará no próprio sangue, nós é nós o resto é o resto. Chega a ser engraçado ouvir, sei lá, Togo ou a Costa do Marfim arrotando tal valentia. Esses hinos são apropriados para as crianças cantarem, pois aquelas que entendem a letra (coisa rara, só muito recentemente vim a entender parte do nosso hino) podem realmente concordar com aquilo. Bertrand Russell diz que quando era criança acreditava que um inglês com um só braço batia em dois alemães. Os hinos devem ter sido feitos todo na era do militarismo das nações. Se esperassem um pouco mais, pela era do comércio, teríamos hinos falando em superávits primários e câmbios flutuantes. No nosso, cantaríamos, “verás que um filho teu não deixa de aplicar na poupança”. Poderia ser pior, poderiam fazer hinos da era social onde se falaria de ONGs, igualdade social e cantaríamos “verás que um filho teu vota no Lula”. Quando mais construirmos cemitérios, mais os urubus passarão fome, pois o preço da carniça está pela hora da morte. Ah, esta é a página mais importante da internet. É a mais preciosa. Coloque nos seus favoritos e todo dia leia um pouco até o fim. Antigamente só Deus e as lombrigas conheciam a pessoa por dentro, mas depois se inventou a endoscopia e só a pessoa mesmo, o próprio dono do ser é que não se conhece por dentro. O tarado e o casto têm muito em comum. Cícero dizia que o amor é o desejo de alcançar a amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza. Poder-se-ia dizer da amizade que ela é o desejo de alcançar o amor de uma pessoa que nos atrai pela simpatia. Um de meus desafios é dizer coisas desagradáveis sem ser chato. Briga de galo é crime, mas abortos querem liberar. Deus é um juiz que torce pelo réu. Um juiz cujo réu é seu filho. Um ateu é apenas um filho de Deus com baixa auto-estima. A Erudição é apenas um instrumento. Você pode usá-la para qualquer coisa. Vou exigir auxílio-funeral porque eu estou morrendo de trabalhar. Tchau, gente.

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junho 18, 2006

SOÇOBRAR (SÓCRATES)

O rapaz ateniense perguntou a Sócrates se deveria casar ou não. Sócrates respondeu: “não importa o que você faça, vai se arrepender”. É mais ou menos este o resumo de toda ópera. Então o que fazer quando o arrependimento é certo? Ora, faça qualquer coisa, pois não fará a menor diferença mesmo, mas a vida é sua, então não me ouça. O certo é que quando o amor aparece, fazemos o que ele manda e o amor quando acontece, a gente esquece o que sofreu um dia, como diz a canção. E como diz outra canção, se não tivesse o amor, melhor era tudo se acabar. É a mesma coisa com Deus. Se não existisse Deus, melhor era tudo se acabar. Há coisas sem as quais não se admite a existência de mais nada. Jamais o homem viveu sem amor e sem Deus. O Deus dos pagãos era um Deus inventado. Um dia o verdadeiro Deus apareceu para Abraão, o filho de um pagão e mais tarde, o mesmo Deus nasceu do ventre de uma virgem. O amor que vivemos também não é O Amor, é o nosso amor. E o nosso amor, como diz a canção, a gente inventa. Inventa muito mal inventado e resulta no que Sócrates disse, não importa se você case ou não, você vai se arrepender. O objetivo das lâmpadas é atrapalhar a noite. Durante a noite acontecem coisas estranhas, bizarras, assombradas, inacreditáveis e até inadmissíveis. Vivemos na escuridão. Sorte de quem é cego, pois ignoram a escuridão. Quem enxerga apenas levanta as pálpebras e vê o breu e às vezes se faz de luz a fim de atrapalhar a noite. Meu professor de latim acredita que os anjos têm alguma coisa de material. Ele acha que tudo o que Deus fez tem algo de material, pois só Deus poderia ser espírito puro. Enorme maquete é apenas isto uma grande cidade. O verdadeiro cristão acredita que o perdão é mais justo que a vingança. Que o exemplo é mais convincente do que o argumento. Que o amor é mais forte que o mal e a corrupção. O amor de Deus jamais foi um amor verborrágico no sentido humano do termo. Jesus nos disse “sede santo como eu sou santo”. A santidade de Jesus não era um palavrório vazio e muito menos agressivo. Ele sempre foi “manso e humilde”. Uma Igreja de santos e mártires era assim a Igreja dos primeiros séculos. Quanto mais matavam cristãos, mais a Igreja crescia. A caridade deve ser a preocupação do cristão, o resto vem por acréscimo. Sem medo de amar, o cristão segue convicto de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja de Cristo. No momento em que vivemos há a terrível perspectiva da guerra entre judeus e islâmicos que aponta mesmo, segundo profecias, para a terceira guerra mundial. Aquele entrave lá de judeus e islâmicos só teria remédio se eles fossem um pouco cristãos. Motivos para uma guerra de proporções mundiais já houve. Se algo na proporção do ataque ao World Trade Center a ao Pentágono fosse feito pelos EUA, é improvável que a resposta palestina fosse invadir algum país e promover eleições diretas. A democracia é uma dessas coisas que leva todo o jeitão cristão de ser. Até os “paradoxos do cristianismo” há na democracia, coisas como o maior dentre vós seja o menor e o menor ser aquele para quem o maior trabalha. Não é coincidência que jamais tenha havido guerra entre países democráticos. Quando um país democrático entre em guerra é sempre contra algum tipo de totalitarismo. O último olhar, o último gesto, o último riso, o último tudo, o último todo, o último nada, o último nado, o último medo, a última história, a última canção, o último fantasma, o último sonho, o último sabor, a última palavra, a última moda, o último assunto, o último gozo, a última dor, a última sombra, o último esquecimento, entre você e eu, do que ficou pra trás. E Deus disse ao anjinho, “não mexa nas estrelas”. O melhor do Brasil é o brasileiro. E o pior do Brasil também é o brasileiro, pois brasileiros é tudo o que temos. Ah, ouça o Renato Braz e seu CD “por toda a vida” (impressionantemente belo). Toda década tem seu “Código da Vinci”, um dia desses vi na livraria um de tempos atrás, “eram deuses os astronautas?”, virão outros, afinal otários sempre o tereis. Ele lá é Catulo da Paixão Cearense e eu cá, tolo da paixão paraense. Sobrar, soçobrar, soçobrei, sobrei. Minha jornada interior é externa. Meu interior é o mundo. Meu interior é o outro. Meu interior é tudo que não seja eu, nem a mim pertença. Meu interior é do lado de fora. É assim que me descubro, é assim que me conheço é só assim que sirvo para alguma coisa. Vai ter festa junina, não sei se pago para ir ou pago para não ir. Há muitos lugares que muita gente paga para ir, que outros pagariam, prazerosamente, para não ir. O sol emudece grilos, sapos e cigarras. A lua os releva. Dia de jogo do Brasil na copa do mundo de futebol é quase feriado. Há uma comunidade no Orkut fazendo lobby para que se torne de fato feriado todo dia de jogo da seleção em mundiais. Concordo. O interessante é que não se ouve ninguém dizer, como falam nos feriados religiosos: “mas o Estado não é laico?” O Estado é laico, não tem religião, assim como, por ser laico, não tem esporte favorito. Porém as pessoas têm esportes favoritos e professam um credo religioso. O Estado existe para não atrapalhar as pessoas de serem o que são. Um Estado laicista, que é contra a religião, o esporte e toda forma de vida, seria o sonho da gente insossa que nos rodeia. Em Brasília tem feriado do “dia do evangélico”. Criticaram muito o governador que sancionou essa lei, que nada mais é do que um reconhecimento do Estado de que os evangélicos existem e que o Estado respeita todos eles em sua crença. Os insípidos ficam realmente putos com qualquer sinal oficial de respeito a quem tem sangue nas veias. Esse respeito é a base do Estado laico. Toda privada deveria ter uma biblioteca pública. Toda biblioteca pública deveria ter pelo menos duas privadas. Em toda biblioteca pública deveria ter outra biblioteca dentro da privada. Quem sabe nadar também morre afogado. Eu vi você no meu espelho. Se você morrer, não se preocupe, os vivos cuidarão de tudo. Isto é, se morrer, fique quieto, não se mexa. A solidão é um veneno? Não! A solidão não é um veneno, pois não existe veneno, o que existe é dose. Uma dose adequada de solidão, na hora certa, pode ser um remédio. Veneno é a overdose de solidão. E vice-versa. Qual o antônimo de solidão? Fazer-te de meu mar. Desaguar-me em ti. O nadador que nada certo imita o tempo, pois nada como um dia após o outro, nada como viver, nada como uma boa conversa. Já o outro nadador nada errado, pois nada como uma noite de sono. Não ter amigos é uma ótima desculpa para o mutismo. Quem não tem amigos poderia (e até seria preferível) ser mudo, pois o amigo é nossa voz, já que o sentido da vida é mesmo partilhar, isto é, dar e receber. Quem tem muito para dar e não tem para quem dar preferiria ser estéril, quer dizer, não ter nada. Tenho aquele conto cuja idéia me vem sempre e que jamais escrevi. Seria a história do sujeito muito solitário, muito carente de carinho, que costuma forjar circunstâncias que o faça receber carinho. Então, ele costuma ir a pedicuros, onde o acariciarão suas mãos, tira a barba no barbeiro, que o acariciará o rosto, procura por fisioterapias que nem precisa tanto, tudo só para ter pessoas a sua volta que ele sinta que se importam com ele. Falta ao conto um alinhavo qualquer que o faça engraçado, por enquanto só tem elementos meio melancólicos, num é? Eu não quero disco, eu quero é a música que tem lá dentro. Não quero livros, quero a história deles. Antigamente o cara só casava se a namorada antes transasse com ele. Hoje o cara só namora se antes transar com a garota. Chamam-se a isso progresso. Um livro alado pousou em minha cabeça, voou mais um pouco como um satélite em torno de mim e pousou no meu ombro, fazendo meu olho, dentro de minha cabeça parada, acompanhar seu vôo. Preciso comprar mais veneno contra livros, eles não nos deixam em paz, voando em nossas cabeças, nos acordando de noite com o seu bater de páginas barulhentas. Que chato são os livros. Chatos, quadrados, pesados e caros. Porém, há seres estranhos que capturam livros, os colecionam como alguns fazem com as borboletas, aliás, livros e borboletas são muito parecidos, a diferença é que a borboleta é um inseto voador e o livro é um vegetal voador. (Deus diz no livro de Ezequiel "então todas as árvores dos campos saberão que sou eu, o Senhor"). Cristo quer que sejamos a luz do mundo. A luz não existe para si nem por si. A luz existe para que olhemos a estrada ou o quarto escuro onde vivemos. Com a luz acesa, você não erra a porta, mas nada impede que bata com a cabeça na parede. A luz é discreta. Ser luz pode parecer aviltante porque a função da luz é mostrar a verdade, não ser a verdade. A luz se apaga quando quer se comportar como estrada. Jesus é o caminho, nós somos a luz. Quem pergunta é mais esperto do que quem responde. Quem pergunta busca a verdade, foge de ilusões, pois a verdade o rói irresistivelmente e perguntar é apenas coçar a ferida deixada pela falta da verdade. Sábio mesmo era Sócrates que ensinava perguntando. Claro que Sócrates era absolutamente coerente pois perguntava porque, segundo ele, nada sabia. Cada pergunta de Sócrates deixava seus discípulos em êxtase. Depois de dezenas delas, saiam todos mais sábios dos encontros. Tudo começou quando ele perguntou a um grande admirador seu “será que vai chover hoje?”. O rapaz se sentiu abençoado por Sócrates lhe dirigir a palavra e considerou aquela pergunta mais boba o ó do borogodó e espalhou entre os conhecidos, “imaginem você o que Sócrates me perguntou, ele disse ‘será que vai chover hoje’