junho 27, 2008
TRÊS CONTOS CURTOS
VÍCIO - Viciou-se em drogas. Roubava para sustentar o vício. Com o dinheiro que sobrava do roubo resolveu se internar em uma clínica, que o livrou do vício das drogas. De volta à vida, adquirira novo vício. Roubava.
O NOIVO DA DEFUNTA - No funeral, o noivo da defunta levou flores para a noiva. Os outros levaram flores para a defunta.
VIVA SÃO JOÃO - No morro, a polícia invadiu a festa junina e prendeu uns bandidos por formação de quadrilha.
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junho 12, 2008
DOIS FORMATOS PARA UMA HISTÓRIA
FÁBULA – o conto curto
Um dia uma flor ainda em botão foi despetalada e se transformou em uma menina que não via o amor.
FÁBULA - o soneto
Ainda em botão, um dia, uma flor
Foi muito violentamente despetalada
Quando cresceu se viu transformada
Em uma menina que não via o amor.
E ela seguia pelas madrugadas
Lembrando do tempo em que era flor
E era de perfume as suas pegadas
E sem sentir, se ia, semeando amor
E ela pisa o amor enquanto caminha
O amor e todo seu estranho esplendor
Porque ela pensa que está sozinha
E não vê o brilho do sol do amor
O amor para ela é qual erva daninha
O amor é espinho para aquela flor
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junho 05, 2008
ORGULHO E PRECONCEITO
Um paulista (desculpe, um cidadão nascido no estado do São Paulo) morador de Teresina, no Piauí, entrou na justiça contra seu chefe, gerente do supermercado em que ele trabalha, por assédio moral. O fato é que o chefe vivia chamando o empregado de “paulista” e ele se sentiu ofendido. Perante o juiz, o empregado reclamou que não só ele, mas vários empregados oriundos do Sudeste são freqüentemente tratados pelo seu gentílico, o que causa muito constrangimento. O juiz perguntou onde ele nascera e o empregado disse que tinha nascido em São Paulo. O juiz disse que então ele era paulista mesmo e perguntou então porque ficara constrangido e ofendido e ele respondeu ao juiz que o gerente não o chamara de paulista e sim de “paulista”, entre aspas. O problema todo era as aspas, elas desciam como martelo em sua cabeça. “Que aspas?”, quis saber o juiz. “Ora, Doutor, as aspas, o senhor sabe o que estou dizendo”. O juiz disse que não sabia não e que nunca vira aspas saindo da boca de ninguém e principalmente batendo como martelo em sua cabeça. “O senhor nunca viu aspas batendo em sua cabeça como martelo porque o senhor é nordestino”, disse o paulista com um sotaque irritante aos ouvidos do juiz, sugerindo que o juiz nunca sentira o peso de uma aspa no seu cocuruto, pois, sendo nordestino que nascera e crescera no Piauí, jamais sofrera as dores do paulista que sobe para ganhar a vida no nordeste maravilha. “Sou o quê?”, perguntou o juiz. “Nordestino”, disse o paulista. O rosto do juiz esquentou e invadiu-lhe a ira. Pela primeira vez, ele sentira aspas batendo em sua cabeça como martelo. Então, o juiz processou o paulista por preconceito.
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maio 25, 2008
O NÃO-LEITOR
Colecionava livros que não leria. Buscava autores que não se deve ler. Não podia descobrir um autor ilegível, irrelevante, bobo, sem sentido ou meramente ruim que anotava e adquiria toda a obra. Tinha uma grande biblioteca de autores assim, com livros que comprara mesmo para não ler. Feliz, contemplava sua coleção e se regozijava pelo tempo que não perderia lendo tudo aquilo.
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agosto 08, 2006
NO HOSPÍCIO (conto curto)
Após alguns anos morando lá, ele descobriu que ali era um hospício e ele, evidentemente, era um doido. Contou, animado, a revolucionária descoberta para os amigos e ouviu: “tá maluco!” A partir disto, passou a ser tratado pelos outros como um demente. Não era a primeira vez que era tratado pelos seus pares como um matusquela. Desde que nasceu sempre o consideram um lunático, de tal maneira que o internaram no hospício. Agora era a vez dos doidos de verdade o julgarem um doido. Logo agora que possivelmente estava bom, pois pela primeira vez tivera a noção correta de sua situação. Sentiu-se feliz. Era doido sim, porém, na opinião de um bando de birutas. Sentiu-se normal mesmo proscrito e marginalizado pelos amigos. Já estava acostumado. Pensava o tempo todo: “que loucura, meu Deus! Que loucura!”
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julho 06, 2006
OS DOIS PÓLOS (conto curto)
Depois da consumação dos séculos, no céu, Adão e Zaqueu, um cearense vendedor de cocos, se encontram. Foi muito emocionante o encontro dos dois. Um evento decerto sonhado por ambos e escrito nas estrelas. Adão, como se sabe, foi o primeiro homem, feito por Deus. Zaqueu foi (ou terá sido) o último homem nascido. O último indivíduo da raça humana e o primeiro se cumprimentaram com um longo abraço, trocaram emails e emocionados Zaqueu disse, “me liga”, “passa lá em casa uma hora dessas” e se despediram. Jamais se encontrarão novamente, afinal, Zaqueu é brasileiro.
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junho 29, 2006
UM HOMEM ESFORÇADO (conto curto)
O homem se esforça em encontrar Deus. Deus, porém deve também “querer” ser achado. Se Deus não quiser, o pobre do buscador terá trabalhado em vão. E mais uma vez irá desesperadamente atrás do Criador, que mais uma vez se esconderá muito bem dele. O santo homem, então, no fim dos tempos, no julgamento final, será salvo, apesar de, ao dá-lhe a absolvição, pensará Deus com seus botões celestiais “esse chato de novo”. No paraíso, junto aos outros bem-aventurados, se gabará de ser o único ali que foi salvo por esforços próprios e não pela graça e amor de Deus, que, na verdade, foi vencido pelo cansaço. Neste momento o orgulho acomodou-se em su’alma e o leva inopinadamente para o inferno, para largar de ser mal agradecido.
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junho 15, 2006
SANTAS CIRCUNSTÂNCIAS (conto curto)
Um santo nasceu, viveu e morreu em ambientes santos. Morto, foi santificado e foi morar no céu. No paraíso, batia um papo com Santo Agostinho que lhe contava a vida de devassidão que teve no começo da vida e nesse momento ao santo, que nascera, vivera e morrera em ambientes santos, ocorreu que jamais fora tentado de nenhuma maneira e que mesmo um devasso vivendo naquelas circunstâncias em que ele viveu, é provável que também se tornasse um santo. Lá naqueles ambientes santos, seu trabalho de toda sua vida foi cuidar de velhos e doentes, sua maior diversão era ir à igreja. E então, se imaginou no lugar de Agostinho e temeu que pudesse estar no inferno caso nascesse noutro lugar. Agradeceu a Deus pela graça de ter vivido sob condições que lhe levaram naturalmente à santidade, mas lhe nasceu uma ponta de autocomiseração por não ter sido responsável em nada pela própria salvação, ignorando que ninguém mesmo o é. Enquanto isto, Deus achava graça.
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junho 08, 2006
O SOCIALISTA ARREPENDIDO
O homem muito rico tinha muitos empregados. Impregnado de pensamentos socialistas de acabar com as desigualdades, vendeu o que tinha e distribuiu igualmente entre os empregados, tornando-se tão pobre e desempregado como eles. Em três meses foi nomeado culpado pelo desemprego de todos e expulso a pedradas. Chegando em outras terras, se empregou na fábrica da cidade e rezava todos os dias para seu patrão permanecer capitalista.
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junho 02, 2006
O MARIDO QUE PENSAVA EM COMER A MULHER
Um dia passou a mão nas costas da mulher e imaginou que aquele lombo daria um ótimo bife. Mas jamais poderia, era a mãe de seus filhos. Ele a amava, mas sofria do desejo irresistível de comê-la. Salivava quando ela passava. Deixa pra lá, pensava, não vou comer a cozinheira!
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maio 25, 2006
CAÇA (conto curto)
Leões se armam e, preparados, sua milícia vive a caçar caçadores. Os caçadores já chamam a polícia para caçar tais caçadores de caçadores. Mas as formigas, já preparadas caçarão a polícia que caçam os caçadores de caçadores. A polícia, ciente do plano, contrata hordas de tamanduás para caçar as formigas. Pena que os tamanduás estão sendo exterminados pelos carros que cortam a estrada justamente quando o tamanduá cruza a autopista com a língua recheada de formigas. Nos carros que atropelam os tamanduás vão os caçadores, indo caçar leões.
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maio 04, 2006
SUICÍDIO 2 (conto curto)
Dos jornais: “anarquista desobedece à lei da gravidade.”
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abril 16, 2006
SUICÍDIO (conto curto)
Desesperado, o diabético cometeu suicídio com um quilo e meio de açúcar.
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abril 02, 2006
CASSINO DIVINO (conto curto)
Monges no cassino jogam pôquer. Ganha o que tem mais sorte, pois blefar é pecado.
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março 28, 2006
A REBELIÃO (conto curto)
O governo do Estado construiu uma prisão pequenina para os delinqüentes anões. Como toda prisão brasileira, onde se deveriam hospedar cento e cinqüenta, tinham quatrocentos anões. Como forma de protesto, os anões fizeram uma rebelião, queimaram colchões, o fogo se descontrolou e ocorreu a terrível tragédia que resultou na morte de fogo triste e dolorida de todos os detentos. No dia seguinte, a mais curiosa manchete de jornal dizia: “Grande queima de presos baixos”.
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março 24, 2006
O REVISOR (conto curto)
É revisor de livros em braile. Procura por erros que os leitores jamais verão.
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março 20, 2006
CANAL (conto curto)
O menino mudo foi ao dentista. Bastou um tratamento de canal e as palavras fluíram abundantemente.
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março 02, 2006
O NASCIMENTO DA JUSTIÇA (conto curto)
Quando Deus fez as coisas, às vezes delegava poderes e deu a um anjo a incumbência de fazer a Justiça. O tal anjo enrolou um pouco, mas acabou fazendo. Um dia, Deus lhe perguntou “e então, Serafim, fez a Justiça?” Responde-Lhe o anjo, “fiz sim, Senhor, com as próprias mãos”.
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fevereiro 20, 2006
FOBOFILIA (conto curto)
Era a terceira vez que os dois rivais poupavam um ao outro. Pensavam: “Se ele morrer, onde arranjarei rival tão bom?” Amavam-se aqueles dois inimigos, pois somente temiam um ao outro.
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fevereiro 15, 2006
SAPATO NOVO (conto curto)
É por causa do sapato novo que ele não tem andado bem.
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fevereiro 10, 2006
INTESTINO PRESO (conto curto)
Prenderam o intestino. Bem feito, o cara só faz merda!
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fevereiro 06, 2006
TUDO O QUE SE PRECISA SABER (conto curto)
“Beba isto”, me disse o rapaz, “e assim saberá tudo o que se precisa saber”. Eu estava em um bar e conversava com esse desconhecido que me disse saber tudo o que se precisa saber, mas que infelizmente tudo o que se precisa saber não pode ser dito com palavras. No entanto, ele desenvolvera uma bebida que quando eu bebesse saberia tudo o que se precisa saber. Tomei a bebida e subitamente soube tudo que se precisa saber. Ao engolir o preparado, um líquido com consistência e gosto parecido a suco de abacaxi, que o desconhecido tirou de uma daquelas garrafinhas que os viciados levam no bolso de dentro do paletó, foi como se fosse incorporado a minha vida experiência de trezentos anos e cento e cinqüenta anos de leitura ininterrupta. O problema é que tudo que se precisa saber não pode mesmo ser dito com palavras, acreditem. Então me veio à idéia compor uma peça para violão que quando as pessoas ouvissem sentiriam subitamente o que eu senti quando tomei aquele líquido. Depois de alguma pesquisa, teci as notas certas e compus a peça. Foi frustrante, pois, pelo jeito, a partitura também não é um meio adequado para se traduzir a verdade que não pode ser dita com palavras. É que sempre que toco essa peça ao violão, as pessoas depois de a ouvirem costumam exclamar “ah, mas isto é suco de abacaxi!”
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janeiro 31, 2006
COMIDA
O canibal morreu por desnutrição. Não queria comer ninguém.
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janeiro 24, 2006
AS ARMAS DO INIMIGO (conto curto)
Temeroso com o avanço da fé, o diabo resolveu distribuir uma medalhinha que protegerá seus seguidores contra milagres e uma pequena prece diária que ajudará os céticos a se livrarem da tentação de crer.
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janeiro 18, 2006
A GRANJA (conto curto)
Com a epidemia que dizimou sua criação de patos, o dono da granja ficou com quatro patas. Desesperado, meio bobo, perdeu a razão, endoidou. Virou um andarilho e saía com suas quatro patas pelas ruas, pastos e terreiros. Às vezes entrava nas casas e a dona não gostava dos bichos “tire suas quatro patas daqui” e ele saía. Acordava sempre com o barulho das patas que brigavam de vez em quando e voavam para longe e logo voltavam para seus pés. Íntimas do dono, era comum ele acordar com as quatro patas no ar, voando sobre ele. Resolveu um dia treinar as patas para que o protegessem e foi muito bem sucedido, tanto que um dia foi atacado por um salteador e as quatro patas pularam em cima do bandido. O meliante gritava desesperado “tire essas patas de cima de mim”. Nesse momento chegou a polícia e ordenou “tire essas quatro patas de cima do rapaz” e levou o bandido para o xilindró. Um dia alguém lhe deu um emprego em uma casa de farinha, mas com uma condição “não entre no depósito com suas patas e mantenha suas patas longe da farinha”, ele recusou o emprego e seguiu andarilho com suas quatro patas nômades fugindo de epidemias, de ordens superiores, trocadilhos e piadas de duplo sentido, deixando para trás o chão pisado de seus pés e dos pés de suas quatro patas.
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janeiro 07, 2006
CONSTATAÇÃO (conto curto)
Demorou em ele ver que era guia de cego.
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janeiro 01, 2006
DIÁLOGO (conto curto)
Tinham tanto assunto para conversar que não dormiam de noite conversando. Quando ficavam juntos nem comiam, só conversavam. Quando estavam longe, morriam de saudade dos papos e corriam do trabalho para se encontrar e continuar a prosa. Então, resolveram se casar para poder, quiçá, terminar o interminável assunto. Faziam amor entre longos argumentos a respeito de coisas variadas. Tiveram três filhos, um mudo e dois surdos e nem notaram, pois achavam que as crianças apenas prestavam atenção ao animado diálogo dos pais, que nunca acabava. Quando se afastavam, não resistiam e ligavam um para o outro para mais um dedo de prosa. Sofriam muito em eventos como missas, reuniões sérias ou outros lugares que requeria silêncio deles. Então tiveram a idéia de aprender a língua dos sinais. Foi um alívio, nas missas batiam altos papos, faziam cada gesto e chamavam a atenção. Perceberam que estavam ridículos e este também foi um assunto muito conversado. Passaram vários meses com a metalinguagem de conversar sobre a própria conversa (os vários meses foram 15 meses para ser exato). Decidiram então desenvolver uma linguagem própria, baseada em olhares, arquear de sobrancelhas e lábios e balançar de cabeça. Começaram com frases simples, mas fizeram um progresso vertiginoso e em pouco tempo já conseguiam conversar a respeito das diferenças entre o primeiro e o segundo Wittgenstein. Porém ao trazer tal linguagem a público, o resultado foi pior do que a língua de sinais, pois aquelas caretas todas assustavam adultos e crianças. Não era muito fácil falar as paroxítonas sem colocar a língua para fora, por exemplo, sem falar de uma vez em que ela deu um jeito no maxilar enquanto discutiam sobre o argumento ontológico de Santo Anselmo. Sem outro jeito, resolveram tentar a telepatia. Desde então não se falam mais, só trocam olhares perplexos cheios de significados que só eles conhecem, olhares íntimos, secretos e intermináveis. O pessoal do hospício acha ótimo.
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dezembro 13, 2005
FALÊNCIA (conto curto)
Empresa aérea vai à Falência. De carro.
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dezembro 04, 2005
PACÍFICO (conto curto)
Pacífico era o seu nome. De fato, fazia jus ao nome e era a pessoa mais calma e amável do mundo. Um dia deu uma surra em um sujeito que, não se sabe se fazendo piada ou por ato falho, lhe chamou de “pacifista” (“Pacífico, meu nome é Pacífico, entendeu?” Gritava, nervoso, enquanto esmurrava o nariz sangrando do sujeito já caído. “Quem quiser morrer é só me chamar de pacifista, ouviram?”). Nunca mais ninguém lhe xingou de palavra tão imunda e ele seguiu a vida, o Pacífico, a pessoa mais calma e amável do mundo.
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novembro 28, 2005
FLERTE (conto curto)
Trocamos olhares e, desde então, tenho estes olhos castanhos.
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novembro 25, 2005
O SONO (conto curto)
Adormeceu de exausto que estava após uma noite inteira procurando o sono que perdera.
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novembro 17, 2005
A CHUVA (conto curto)
Os habitantes do mar estão meio chateados hoje, pois esperavam um dia lindo, mas amanheceu chovendo. Nas ruas do mar se vêem uma multidão de peixes com seus guarda-chuvas, outros com capas. A água escorre pelas calçadas e forma algumas poças de lama. A peixinha olha pela janela e enxuga uma lágrima que lhe escorre pelas escamas, pois queria estar com as amigas na piscina. A chuva aumenta e alaga algumas ruas na periferia. Alguns peixes têm que usar canoas para sair de casa. Felizmente não se repetiram os fatos trágicos das chuvas do ano passado quando dois peixinhos morreram afogados. Os caminhos que levam ao Mar foram tomados pelas águas e algumas cidades só são acessíveis por barco. Caiu uma ponte, impedindo as aulas do outro lado rio. Todos os programas na televisão só falam nas chuvas inclementes deste ano. Márcia, uma entrevistada, comenta “que coisa desagradável para os habitantes do mar, toda essa água ...”. É assim todo verão. Mas logo o sol brilhará e voltará a alegria ao fundo do oceano, pois um dia chuvoso é coisa triste, principalmente porque o mar já é um lugar tão úmido.
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novembro 14, 2005
A MORTE DE DEUS (conto curto)
Deus morreu. Mas foi pro céu.
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novembro 10, 2005
TEORIA E PRÁXIS (conto curto)
Na escola superior de teologia, o aluno defendia sua tese sobre ética, que tinha trechos que ele plagiara da tese sobre o poder do perdão, de um professor seu. O professor percebeu o plágio, lhe deu zero e o expulsou da faculdade.
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novembro 07, 2005
SORRISO (conto curto)
Ela chegou e trouxe o meu sorriso. Logo depois foi embora, mas meu sorriso ficou.
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outubro 31, 2005
A CIRURGIA (conto curto)
Na mesa de cirurgia com o peito aberto e rodeado de médicos está o homem mais amável e generoso que aquela cidade já conhecera. Tinha um grande coração. Tão grande que espantou os médicos. As veias, aurículas e ventrículos não suportaram tamanho coração. A tentativa desesperada de salvá-lo por meio de cirurgia foi vã. Como costuma acontecer, sua maior qualidade, ter um grande coração, foi a causa de sua morte. Morreu como sempre vivera, de peito aberto.
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outubro 26, 2005
SÓ COM REZA (conto curto)
Depois da terceira queda ao tentar se sentar naquela cadeira, o pai de santo descobriu que a cadeira estava com um encosto. Então se juntou no terreiro a um marceneiro que com martelo, pregos e um galo preto em uma assentada tiraram o encosto da cadeira, que por falta de encosto, agora vive derrubando as visitas.
Posted by César Miranda at 08:39 PM | Comments (3)
outubro 25, 2005
MEIO CASO (conto curto)
Disse meia palavra e o péssimo entendedor não escutou a metade. Fez meio carinho, deu meia volta e o deixou meio triste. “C’est la vie”, ele pensou, “ser atropelado por uma flor não é tão ruim”.
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outubro 17, 2005
O CIMENTO E O SONHO (conto curto)
O cimento concretizou seu sonho ao se tornar concreto, pois o sonho de todo cimento é se concretizar. O cimento e o sonho têm o mesmo sonho, pois se tornar concreto é também o sonho de todo sonho.
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setembro 28, 2005
AS CHINELAS DO PESCADOR (conto curto)
As hóstias estavam em uma despensa suja e começaram a se estragar. O padre porcalhão, com sua bênção, as transformou no corpo de Cristo. Os fiéis reclamaram do gosto estranho, então o padre jogou as hóstias que sobraram no lixo, imaginando que com o estrago teriam deixado de ser pão, único material que se transubstancia no corpo de Cristo. Mas foi um equívoco, pois naquele dia duas baratas chegaram ao céu, mas foram devidamente espantadas a chineladas por São Pedro.
Posted by César Miranda at 08:14 AM | Comments (3)
setembro 22, 2005
O EXCOMUNGADO (conto curto)
Um homem resolveu se tornar cristão, pois tinha muita inveja da felicidade que via nos olhos de sua mulher quando ela chegava da missa. Então passou a freqüentar a Igreja. Conheceu os ritos e aprendeu tudo na Igreja para resolver problemas: novenas, trezenas, jejuns, promessas, orações e toda espécie de penitências. Estranhamente, ele jamais se sentiu feliz e foi reclamar ao padre. Em sua última confissão, falou indignado de sua decepção com Deus, pois fizera duas semanas de jejum para ganhar na loteria, uma novena para que seu sócio morresse e outra novena para que a vizinha se apaixonasse por ele e nada acontecera. O padre, pasmo, recomendou sua excomunhão.
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setembro 15, 2005
O CAROLA
Não saía da Igreja e não tinha namorada, pois só conhecia as velhas, beatas como ele, que iam à missa. Mas já sabe o que vai fazer: uma novena.
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agosto 31, 2005
O PADRE ATEU
O padre fingia bem, mas era ateu. Chorava diante da imagem de Nossa Senhora, de vergonha do segredo que só ele e Deus conheciam. Sofria porque sabia que Deus sabia. Deus sabe tudo.
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agosto 29, 2005
GOOGLE MAPS AO VIVO
No Google Maps ele via a cidade: o estádio, o shopping, o aeroporto, então olha para o prédio de seu trabalho e eis que vê um avião em rota suicida a quase se chocar contra o prédio em que ele estava. Felizmente sua conexão na Internet estava muito lenta naquele dia, o que permitiu que todos saíssem do prédio antes do choque. Se fosse banda larga, teria sido uma tragédia.
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agosto 25, 2005
A CRISE
Na sacola do ofertório, o padre encontrou duas promissórias e uma conta de luz.
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agosto 10, 2005
AS VEZES (conto curto da carochinha)
Era uma vez uma vez. Essa vez permitiu a várias vezes que deixassem que acontecesse outra coisa outras vezes. E quando chegou sua vez, a vez foi feliz para sempre. Ela e todas as vezes.
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agosto 07, 2005
ESTRESSE
O santo foi ao psicólogo. Estava estressado de tanto júbilo.
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julho 12, 2005
NEGÓCIO
Vendeu a alma e comprou um corpo. Depois vendeu o corpo. Ficou sem corpo nem alma, mas está otimista.
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julho 11, 2005
O FILHO DO DONO DA FUNERÁRIA
A mãe sentiu as dores e antes da ambulância chegar ele nasceu em um dos caixões.
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julho 08, 2005
VOCAÇÃO
Fez o teste vocacional e deu: “vagabundo”. Mas ele tinha um emprego estável e seguiu frustrado, o infeliz, até a aposentadoria.
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junho 23, 2005
O ESQUECIDO
Ninguém se lembrava de não se esquecer dele. Era sempre o primeiro quando queriam esquecer alguém. Era um pouco frustrado, coitado.
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junho 16, 2005
A CHEGADA (conto curto)
Ela veio um certo dia, mas não era o dia certo. Era um dia nevoento, com um céu todo encoberto. Nós íamos a um evento, em um lugar quase perto, íamos sem alegria, naquele dia incerto. Um dia que se podia chamar assim de O dia, porque era o dia em que ela aparecia, apagando a escuridão que em nossa alma existia.
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junho 14, 2005
A REVOLUÇÃO DOS AMOS
Uma multidão de amos entra em greve em protesto ao servo malvado. Uma multidão de amos reivindica segurança e estabilidade. Uma multidão de amos foge do país, atrás de servos que reconheçam o seu valor. Uma multidão de amos servilmente segue.
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maio 28, 2005
O VELÓRIO DO HUMORISTA (conto curto)
No velório do humorista riram muito em sua homenagem. Contaram várias piadas, inclusive muitas delas alusivas ao modo trágico como ele morrera. Houve muita risada porque foi assim que ele viveu, gerando gargalhadas. O morto que a tudo assistia ficou chocado e muito triste pelo modo desrespeitoso e pela falta de pesar que todos demonstraram em seu velório. Só por que ele era humorista todos sorriam?! Daquele forma, ninguém convenceu o morto de que perdiam um amigo. O humorista morto ficou muito triste.
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maio 24, 2005
NA FAZENDA (conto curto)
A galinha pediu ao galo para dar uma canja. “Ah, canja de galinha é muito bom, claro, vamos lá minha filha, dê a canja!” disse o galo muito gentil. E a galinha cantou maravilhosamente, acordando os poucos que ainda dormiam na fazenda. E assim, ali, todo dia, após o cantar do galo, tinha a canja da galinha.
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maio 17, 2005
O JÚRI (conto curto)
Por incrível coincidência, dessas que só se vê na realidade, foram sorteados para fazer parte de um júri que julgaria um crime hediondo, os donos de um grande banco. Todos os sócios do mesmo banco se viram como jurados do terrível crime. Na hora da decisão, foi fácil deliberar devidamente sobre o julgamento e quando o juiz lhes perguntou se já tinham chegado ao veredicto, o representante dos jurados respondeu: “sim, senhor juiz. Chegamos a uma decisão unânime, resolvemos que vamos linchar esse desgraçado”. E pularam os banqueiros jurados em cima do coitado do assassino, trucidando-o a socos, pontapés e logo, o pobre facínora havia sido linchado pelo júri. Dali para frente começou novo processo rumo a um novo julgamento por crime doloso contra a vida, desta vez com os ex-jurados agora como réus. O banco de que eram donos quase faliu com gastos advocatícios e ficou conhecido popularmente como “O Banco dos Réus”.
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maio 06, 2005
A TRISTEZA DE UM FATO (conto curto)
Um fato um dia descobriu que contra fatos não há argumentos e impossibilitado de participar da evolução dialética ficou de fato profundamente deprimido.
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abril 27, 2005
CONSIDERAÇÃO (conto curto)
”Considere-se morto”, foi o aviso que lhe deram. “Ok”, ele respondeu e pensou consigo mesmo “considero-me morto”. Em casa, disse à mulher e aos filhos, “considerem-me morto”. A mulher vestiu luto e os filhos choraram. Uma semana depois, ele viu nos jornais que homem que o ameaçara estava morto. Ele pensou “será que devo ainda me considerar morto?” Depois da morte do ameaçador que lhe instruíra que se considerasse morte, ele passou a se considerar um pouco vivo. Acostumado, porém que já estava de se considerar morto, se sentia um morto-vivo, um zumbi esperando alguém que o autorizasse a se considerar vivo.
Posted by César Miranda at 07:51 PM | Comments (2)
abril 26, 2005
O HOMEM QUE NUNCA SORRIA (conto curto)
Traumatizado, nunca mais sorriu. É que seu grande amor morrera de rir.
Posted by César Miranda at 09:13 PM | Comments (2)
abril 23, 2005
HOMENS E INSETOS (conto curto)
Nos porões da faculdade, um mendigo disputa um pedaço de pão com uma barata; Na biblioteca, um aluno disputa um livro com um cupim. O mendigo esmaga a barata e come o pão. O cupim, porém já comera parte do terceiro capítulo. Na luta contra insetos, é mais salutar ser mendigo.
Posted by César Miranda at 11:05 PM | Comments (2)
abril 22, 2005
CANALHA (conto curto)
Era um canalha, aquele farmacêutico. Não tinha remédio.
Posted by César Miranda at 10:04 PM | Comments (2)
abril 18, 2005
O CEGO (conto curto)
Cego, lia em braile. Era viciado em leitura, dependente mesmo. Um dia descobriu que não era cego (eram as luzes que estavam apagadas). Aí, então, não quis mais perder tempo aprendendo ler com os olhos e continuou sua leitura diuturna em braile mesmo. Porém, agora, ele via as letras que acariciava enquanto lia com as mãos. Logo em seguida, já não precisava das mãos para ler em braile. Era cego para as letras do alfabeto comum, mas lia em braile com os olhos. Lia, lia compulsivamente, como sempre lera. Em braile. Com os olhos.
Posted by César Miranda at 08:51 PM | Comments (6)
abril 16, 2005
NO BUCHO DO ANALFABETO LETRAS DE MACARRÃO (ou POEMA CONCRETO)
A sopa de letras que ele comeu não caiu muito bem. Deve ter sido mal redigida. Primeiramente veio uma azia, depois o estômago começou a roncar, e aí a situação ficou gramática, meus amigos! E ele teve que ir ao banheiro fazer um poema concreto.
Posted by César Miranda at 07:15 PM | Comments (3)
abril 15, 2005
SEGREDOS (conto curto)
Foi o fim daquela sociedade secreta o dia em que resolveram brincar de amigo secreto. Nunca mais se falaram.
Posted by César Miranda at 08:06 PM | Comments (0)
abril 14, 2005
O ENTERRO DO COVEIRO (conto curto)
No enterro do coveiro todos os mortos estavam lá.
Posted by César Miranda at 09:55 PM | Comments (4)
abril 12, 2005
O CONDENADO (conto curto)
O condenado à morte já nem ficou tão triste com a notícia da morte de sua mãe. Depois que chegara àquela prisão, se passara cinco anos e já morreram seu pai, um primo e seus dois irmãos. Uns de assalto, outros de acidente de carro e agora a mãe de erro médico. Só ele, ali são e salvo envolto em procrastinações jurídicas, apelações etc. Todo os seus morriam, todos, menos ele, o único marcado para morrer.
Posted by César Miranda at 08:46 PM | Comments (5)
abril 10, 2005
O ACADÊMICO (conto curto)
Suas últimas palavras foram: “eu sou imortal”.
Posted by César Miranda at 08:14 PM | Comments (0)
abril 09, 2005
O ASCETA MORRE (conto curto)
O asceta morre de velho aos 40 anos de idade com o corpo corroído pela fome do jejum diário. Chega ao céu e recusa várias das recompensas pela vida de sacrifícios. Tanto se acostumara com aquela vida, que qualquer banquete lhe era doloroso. “Jamais pensei que o céu fosse um lugar onde o vício fosse a recompensa por nossas virtudes”, pensava o santo.
Posted by César Miranda at 08:53 PM | Comments (3)
abril 07, 2005
CASAMENTO (conto curto)
Era uma vez dois grandes amigos, muito inteligentes e muito simpáticos. Um era gay, o outro não. Um dia o amigo gay disse:
- Meu amigo macho, será que há alguma possibilidade de você se tornar gay? Então poderíamos nos casar.
O outro amigo respondeu:
- Deixa de ser bobo, não é possível casamento gay, a lei proíbe. Você é que deveria se tornar macho.
Então o amigo gay fez um tratamento de desgueisamento com uns religiosos psicólogos e logo virou hétero.
- Agora sim - disse o amigo que sempre fora macho - agora podemos nos casar, pois somos dois héteros e casamento hétero é permitido por lei.
O ex-gay, porém o interrompe:
- Sai prá lá, rapaz, eu gosto é de mulher.
Posted by César Miranda at 09:15 PM | Comments (2)
abril 05, 2005
O CALDEIRÃO (conto curto)
O menino caiu no caldeirão de antídoto. Agora procuram algum veneno para a fim de que lhe salvar a vida.
Posted by César Miranda at 08:00 PM | Comments (2)
março 31, 2005
RECLAMA UM DEMÔNIO (conto curto)
- A imunidade me depravou. Fosse eu mortal, seria um santo.
Posted by César Miranda at 08:17 PM | Comments (9)
março 29, 2005
MENTES GALINÁCEAS (conto curto)
A raposa morreu. As galinhas, então prepararam uma missa em memória da “amiga”. Uma passeata de desagravo foi feita e providenciam o nome de uma rua em homenagem à raposa. Todas as galinhas também se filiaram ao partido da raposa e montaram uma ONG chamada “Raposa Esperança”. As galinhas acreditam que a raposa gostava de comer galinhas por culpa desta “sociedade capitalista” em que vivemos.
Posted by César Miranda at 07:23 PM | Comments (0)
março 23, 2005
OBITUÁRIOS (conto curto)
Morreu de chorar quando soube que o filho morrera de rir.
Posted by César Miranda at 08:03 PM | Comments (0)
março 20, 2005
CRISE (conto curto)
O fiel passou a roubar porque seu salário não dava para as esmolas e para o dízimo que tinha que dar. O pastor descobriu o crime, o fiel pediu perdão, o pastou perdoou e lhe disse que fosse e não pecasse mais. O fiel quis saber “e o dízimo, posso parar de dar? E as esmolas, eu vou parar de dar também”. O pastor disse-lhe que não dissera isto, o fiel deveria parar com os pecados, não com as virtudes. O fiel indignou-se “mas pastor, essas virtudes aí eu só dou conta, pecando!”.
Posted by César Miranda at 08:30 PM | Comments (2)
março 16, 2005
BOCA QUENTE (conto curto)
Casou-se com a mulher que mais lhe causara dores: sua dentista. A dentista, porém como esposa, jamais causou dores a ele, só sofrimento. Eram felizes. Há pessoas que não agüentam dores, mas suportam muito bem o sofrimento.
Posted by César Miranda at 07:58 PM | Comments (2)
março 13, 2005
TECNOLOGIA E EVOLUÇÃO (conto curto)
Será uma vez em uma terra não muito distante onde todos produzirão a própria literatura e a própria música. Comporão as próprias canções, escreverão os próprios poemas e os próprios romances. Todos lerão apenas a si próprios e ouvirão apenas a própria voz. Indignados porque ninguém notará o quanto todos são geniais, definharão de tédio.
Posted by César Miranda at 07:58 PM | Comments (2)
março 09, 2005
OS CEGOS (conto curto)
Viram-se um no outro e se apaixonaram.
Posted by César Miranda at 06:43 PM | Comments (2)
março 08, 2005
IDÉIAS-BOMBAS (conto curto)
As idéias explodem e voam letras para todos os lados. Algumas pessoas se ferem, reclamam, chamam a polícia, prendem o dono das tais idéias. Alguns mandam soltar, acham que o ideal que ele segue e defende é justo. E ele volta para a casa. No meio da noite, na cama, com a mulher, eis outra explosão de idéias. E começa tudo de novo. É assim a rotina de um escritor homem-bomba.
Posted by César Miranda at 08:39 PM | Comments (1)
março 06, 2005
A ESTÁTUA (conto curto)
A uma estátua foi dado o poder de se esculpir a si própria. Então, ela pegou o cinzel e o martelo e se deixou com o formato da rocha que antes era.
Posted by César Miranda at 05:18 PM | Comments (5)
fevereiro 28, 2005
A POUSADA E O CAMINHANTE
Os caminhantes conhecem minha pousada. Eu nada sei do caminho deles.
Posted by César Miranda at 09:28 PM | Comments (0)
fevereiro 25, 2005
PEDRO, UM LEITOR DE INTESTINO SOLTO (conto curto)
Pedro tinha uma mania muito saudável, só defecava lendo. Ora, muita gente faz merda escrevendo, pois Pedro fazia lendo. Se não fosse com algum texto na mão, ele se recusava a se dirigir ao, como se diz, mictório. Certa vez, no trabalho, uma daquelas vontades repentinas e irresistíveis chegou-lhe diretamente do intestino grosso com muita veemência e Pedro, convencido da urgência e relevância da coisa, não duvidou e correu para o micro a fim de entrar na Internet e providenciar algum texto, qualquer que fosse. Não, qualquer não, também não vamos exagerar, Pedro tinha bom gosto, não era de ler merda. Depois de alguma procura, achou um editorial de jornal e tacou-lhe um ctrl-p e correu para a impressora para pegar o texto. Resumindo, a história, no dia seguinte constava no mural da firma um relato jocoso de um escriturário chamado Pedro que "evacuara-se" junto à impressora. Pedro leu aquilo e colocou no mesmo mural sua profissão de fé. Escreveu ele: "prefiro ler que me caguei a cagar sem ter lido". A empresa toda se cagou de tanto rir.
Posted by César Miranda at 09:35 PM | Comments (3)
fevereiro 24, 2005
A LUTA (CONTO CURTO)
Começou uma briga entre dois. Um dos contendedores, então, se transformou em cem. Pausa. Refeitos do susto, os cem começaram a linchar o inimigo único. Este, porém tinha força de mil e transforma o linchamento em genocídio. Após matar noventa e nove dos cem, faltando apenas um, este inimigo restante recupera-se e se transforma em mil. Agora, sabendo que não seria um linchamento e sim uma luta justa de mil contra um com força de mil, o que dá na mesma.
Posted by César Miranda at 10:07 PM | Comments (1)
fevereiro 20, 2005
NA RINHA (conto curto)
A galinha, orgulhosa, assistia a briga dos galos enciumados.
Posted by César Miranda at 10:30 PM | Comments (4)
fevereiro 16, 2005
AGENTE DUPLO (conto curto)
O agente duplo foi condenado à injeção letal. As duas agências para as quais ele trabalhava não eram inimigas. O falso antagonismo era apenas uma fachada para capturar agentes duplos.
Posted by César Miranda at 07:52 PM | Comments (0)
fevereiro 14, 2005
O INIMIGO TRAIDOR (conto curto)
“O inimigo não trai nunca” - Nelson Rodrigues
Costumava fazer um favor oculto aos inimigos. Vigiava-lhes a casa contra algum gatuno, mandava-lhes flor nos aniversários, até limpava o jardim quando viajavam. Chegava a ponto de fazer empréstimo no banco ao saber que um inimigo passava por dificuldade financeira. Uma vez, colocou na caixa do correio um envelope cheio de notas de 100. Sentia-se o maior dos inimigos, aquele que trai até a inimizade, sendo amigo dos inimigos de vez em quando.Posted by César Miranda at 08:52 PM | Comments (2)
fevereiro 10, 2005
A SOGRA (conto curto)
Foi à casa da namorada e esclareceu a verdade:
- Não, Adriana, eu não vim pedir sua mão, vim pedir sua mãe em casamento.
Posted by César Miranda at 07:49 PM | Comments (0)
fevereiro 02, 2005
CONVICÇÃO (conto longuíssimo)
Anselmo morreu sem muita convicção.
- Eu não quero morrer. Eu não quero morrer. Eu não quero morrer – gritava a plena garganta, pois pulmão quase não os tinha.
Ninguém quer morrer, Anselmo tampouco, mas morreu. Morreu e o embarcaram em um carro da funerária, que saiu em disparada como se tivesse pressa.
Perto dali, Felício tentava um suicídio sem muita convicção também. Ninguém quer morrer, embora alguns queiram estar mortos. Felício abriu o gás, enfiou a cara no forno e ficou lá se debatendo. A porta foi arrombada por vizinhos, que o embarcaram em uma ambulância, que saiu em disparada com pressa com toda razão, pois Felício ainda se mexia.
Motoristas de ambulâncias são os donos das ruas. São imunes às leis do trânsito e correm como se tivessem tomado purgante. Ora, ninguém toma purgante se é motorista por profissão. Motoristas têm que ter intestino preso. Um motorista com intestino solto tem sérios problemas na profissão. Enfim, não tomam purgante, mas vivem apressados. Motoristas de carro de funerária são seres meio assustados. Têm medo que alguém lhes bata nas costas - " e aí amigo?!" - então dirigem apressadamente por puro nervosismo advindo do fato de não poder dialogar com o passageiro. O passageiro, embora nada faça ou diga, lhe incomoda bastante. Corre porque quer se livrar do incômodo passageiro que se algo fez foi parar definitivamente de fazer qualquer coisa.
Então, no principal cruzamento da cidade: cataplum! Chocam-se violentamente o carro funerário com Anselmo e a ambulância com Felício. A maca e o caixão foram arremessados e os dois corpos inertes jaziam no asfalto. Chamaram um novo carro funerário e uma nova ambulância que logo chegaram e levaram os dois corpos. Trocados!
Apressada como sempre, a ambulância levava Anselmo – o morto – para o pronto-socorro e nervoso, o carro funerário levava Felício ainda se mexendo para o velório, onde era aguardado por parentes e amigos (de Anselmo). Os dois, Anselmo e Felício eram parecidos fisicamente. A mesma altura, mesma cor e mesmo corte de cabelo. Em um pronto socorro ninguém olha muito na cara do socorrido. Há trabalho demais a fazer e não se pode perder tempo.
Chegando lá, Anselmo tomou logo duas injeções e lhe puseram um soro na veia. Posto no caixão, minutos depois, Felício abriu os olhos e concluiu que morrera e estava no próprio velório. Achou natural. Só mãe gosta de olhar de muito perto a cara de um morto. As pessoas normais vão a enterros por obrigação ou para comer o lanche. Fecham-se os olhos dos mortos para que ninguém se veja neles. Deve ser assustador se ver passando pelo parapeito das janelas da alma de um defunto. Enfim, nem Felício nem os convidados notaram nada demais no suposto velório, que seria de Anselmo. Na madrugada, meio com dor nas costas, Felício se levantou, andou por entre as pessoas, comeu uns quitutes e voltou a deitar no caixão, sem sequer ser notado.
O enterro de Felício ocorreu as dez da manhã. Todos choravam, mas Felício estava feliz, afinal queria morrer mesmo.
Anselmo passa bem e receberá alta na próxima semana.
Posted by César Miranda at 08:44 PM | Comments (0)
janeiro 30, 2005
O CENSOR (conto curto)
O censor viu o filme e o censurou integralmente. Depois saiu da sala de projeção, estuprou a servente, assaltou um banco e se jogou do décimo andar. Enquanto caia, ele um senhor pacato e correto, até ver aquele filme, gritava “eu estava certo, eu estava certo”. Ele estava certo, o filme era mesmo depravador.
Posted by César Miranda at 06:50 PM | Comments (0)
janeiro 26, 2005
PROBLEMA DO TRÂNSITO (conto curto)
Um carro subiu a calçada e invadiu a barbearia. O guarda chegou e multou o barbeiro.
Posted by César Miranda at 08:44 PM | Comments (0)
janeiro 24, 2005
BOM GOSTO (conto curto)
Quando viu a caixa de CD de Rubinstein que custava seis mil reais, ele resolveu dar um jeito na vida. Tinha que ganhar dinheiro ou não poderia jamais adquirir pérolas como aquela e mais, tinha caixa de Bach com Harnoncourt e a integral de Mahler, que custava uma grana que ele não tinha. Não teve dúvida, montou um grupo de pagode. E desses bem ruins, afinal tinha de ganhar logo muito dinheiro, pois queria ver Pierre Boulez regendo Wagner em Bayreuth ainda naquele ano.
Posted by César Miranda at 10:53 PM | Comments (0)
janeiro 18, 2005
APARÊNCIA (conto curto)
Desespera-se a moça linda ao desabafar com a amiga:
- Ele não gostou de mim, não me julgou pela aparência.Infelizmente!
Posted by César Miranda at 08:50 PM | Comments (0)
janeiro 13, 2005
PRISÃO (conto curto)
Depois de cinco anos vendo o sol nascer quadrado, um dia ele viu o sol nascer pentágono. Dois anos depois, o sol passou a nascer hexágono, depois heptágono e aumentando progressivamente os lados, um dia para sua felicidade, seu sonho realizou-se e o sol nasceu redondo. Redondo como é redondo o sol para toda a galáxia. Porém, sair da prisão, nada. Ele continuava naquela pequena cela, enquanto via o sol brilhando redondo, redondo.
Posted by César Miranda at 09:38 PM | Comments (0)
janeiro 10, 2005
AS ESQUISITICES DO MERCADO (conto curto)
A prostituta não conseguia arranjar um namorado, por mais que tentasse. Ninguém queria lhe amar. Porém, como prostituta, era bem sucedida. Pensava tristonha “como é que pode?! Consigo vender caro o que ninguém quer de graça".
Posted by César Miranda at 07:39 PM | Comments (0)
janeiro 06, 2005
O QUE DIZEM AS CARTAS (conto curto)
O rei e a dama se embaralharam e tiveram um lindo valete.
Posted by César Miranda at 08:06 PM | Comments (1)
janeiro 05, 2005
O HOMEM CULTO E O RICO (conto curto)
Um homem muito culto visitou o palácio de um homem muito rico. Depois de mostrar sua riqueza, o rico ouviu a erudição do homem muito culto. Depois que se despediram e se separaram, os dois choraram de tristeza com a própria pobreza. A opulenta riqueza de cada um deprimiu o outro e se sentiram pobre e idiota.
Posted by César Miranda at 08:25 PM | Comments (0)
dezembro 29, 2004
A BATALHA (conto curto)
Clamava por gente à altura de sua coragem, mas todos estão mortos. Senta-se. Está só e triste. É que depois da batalha sobrara ele, único sobrevivente da própria fúria.
Posted by César Miranda at 07:47 PM | Comments (0)
dezembro 08, 2004
O PACIENTE (conto curto)
Impaciente, o paciente abandonou a doença.
Posted by César Miranda at 04:09 PM | Comments (0)
dezembro 01, 2004
A EXECUÇÃO (conto curto)
Um compositor foi traído pela mulher no dia em que acabara de compor uma peça para piano. Resolveu, então, contratar ao mesmo tempo o assassino de aluguel para executar a mulher e o pianista para executar sua sonata. Equivocadamente, mandou os envelopes trocados. O pianista recebeu o retrato da vítima e o assassino recebeu vinte páginas de partituras, ambos com o bilhete: "Execute-a!". Não obstante o engano, os dois, assassino e pianista fizeram um dueto memorável.
Posted by César Miranda at 01:57 PM | Comments (5)
novembro 26, 2004
O PINTOR (conto curto)
O pintor borrou a parede de medo.
Posted by César Miranda at 08:41 AM | Comments (0)
novembro 20, 2004
A HISTÓRIA DA SONATA (conto curto)
Piando de tanto medo, a sonata chora. Lembra-se do tempo em que, com apenas alguns compassos, era ainda pequena. E recorda como tudo se orquestrou. Da capo, se lembra de cada acidente, contraponto, contratempo, interlúdios e consonâncias. Seu prelúdio foi prestíssimo, muito breve, mas era um allegro só. Então os compassos se tornaram compostos e, sabe como é, o tempo voa e não tem concerto (sic). Passaram-se os cravos, cornes, espinetas e a cada escala, harmonicamente, a sonata, cheia de cromatismos e intervalos, vivia uma fantasia giocosa. Levava a vida na flauta, como se diz. Mas em três tempos mudou o ritmo, o tom, as variações e a tessitura. A tônica hoje é outra e os tons vizinhos estão a bocca chiusa. Realidade tosca, trágica, um uníssono troppo triste. Já lhe propuseram uma fuga, mas a sonata recusou, apesar do medo e do choro perene. Está um pouco confusa. Não só com fusa, está também com semicolcheias, semínima e semibreve. Em sua mente giram os pensamentos seriais, dodecafônicos, de um réquiem. Uma marcha fúnebre lhe toca a alma. A sonata tem medo, mas nada poderá fazer. É chegado o dia. Amanhã será executada.
Posted by César Miranda at 11:18 AM | Comments (13)
outubro 21, 2004
O TERMINADO (conto curto)
O terminado sabia muito, mas não dizia. Terminado era seu apelido. O chamavam assim porque ele dizia ser o último iniciado de um rito. De um rito vindo dos Andes que remontava aos Caldeus. Ninguém era digno do rito. Ninguém que ele conhecia poderia se iniciar naqueles mistérios. Este mundo estava mesmo perdido. Ele morreria com os segredos do rito caldeu. Com ele o rito estava terminado. Por isto, Terminado, o chamavam. Além disto, ninguém também tinha a menor curiosidade mesmo e tratavam-no como uma figura folclórica, como as cidades pequenas tratam seus matusquelas. Até que um dia ele morreu. Em seu testamento dizia que morrera de pena da humanidade. E assim terminou a história de Terminado, o último iniciado.
Posted by César Miranda at 08:00 PM | Comments (1)
outubro 20, 2004
O ATEU 2 (conto curto)
Certo de que Deus perdoa tudo, voltou a ser ateu. “Quero ver se Ele perdoar esta”.
Posted by César Miranda at 08:01 PM | Comments (3)
outubro 06, 2004
A ENFERMEIRA (conto curto)
A enfermeira avisou ao hospital que não ia trabalhar. Estava enferma.
Posted by César Miranda at 08:50 AM | Comments (4)
outubro 02, 2004
O MASOQUISTA MAU (conto curto)
Ele sempre soube que era um masoquista. Adorava a dor. Odiava a alegria. Gostava da tristeza. Detestava a felicidade. Amava o ódio. Odiava o amor. Queria o sofrimento. Fugia do bem-estar. Então, como cria nas coisas do outro mundo, forjou a própria eternidade. Resolveu ser ruim. Desobedecia todo mandamento e pecava o quanto podia, pois assim viveria eternamente em gozo no inferno sofrendo as dores que sempre sonhara sua alma de masoquista. No dia do juízo, para sua surpresa e decepção foi conduzido ao paraíso, afinal ali viveria eternamente em suprema alegria e contentamento, como castigo para sua maldade. Eis tudo: os masoquistas bonzinhos é que vão para o inferno.
Posted by César Miranda at 08:15 AM | Comments (8)
agosto 27, 2004
AMNÉSIA
Um dia ele acordou sabendo tudo. Tudo mesmo. Coisas como os nomes das luas de saturno, os afluentes do Amazonas, o apótema das figuras geométricas etc. Sabia tudo, exceto quem era. Sabia quem era a filha, quem era a mulher, o filho, o patrão, o emprego, a empregada, o porteiro, o frentista, o cantor, a canção que tocava no rádio, o compositor da canção, o arranjador, os músicos que tocavam, o produtor do disco, o nome do estúdio, o fotógrafo que tirou a foto da capa, o nome do locutor, da mulher do locutor, da filha do locutor, do prédio onde o locutor morava, o nome do porteiro do prédio onde o locutor morava, o endereço do barraco onde o porteiro do prédio do locutor morava. Tudo, ele sabia tudo. Tudo, exceto quem era. Sabia onde trabalhava, sabia o que deveria fazer, e fazia como nunca. Levava a filha para a escola, trazia, cumprimentava os passantes pelo nome e sobrenome, afinal sabia tudo. Tudo, menos quem era. Sabia quando e onde nascera, sabia o nome do médico que fez o parto de sua mãe, o nome dos filhos do médico etc etc. Mas não sabia quem era. Faltava alguma coisa por saber e essa coisa era a mais importante. Ele, que respondia tudo com exatidão e de tudo sabia com precisão, vivia se perguntando, “quem sou eu, meu Deus?”. Sentia a enorme angústia da falta de cumplicidade consigo mesmo.
Posted by César Miranda at 07:45 AM | Comments (7)
agosto 19, 2004
VOCAÇÃO
Resolveu ser freira quando descobriu que sofria de claustrofilia.
Posted by César Miranda at 08:18 PM | Comments (0)
agosto 09, 2004
O SONHO
Sonhou que morria de sono. Então acordou.
Posted by César Miranda at 07:06 AM | Comments (2)
agosto 02, 2004
O ATEU (conto curto)
Com medo dos castigos de Deus, deixou de ser ateu.
Posted by César Miranda at 07:41 AM | Comments (6)
junho 06, 2004
JÚLIO VERME
(Com a notícia de que "Atirador do shopping é condenado a 120 anos de prisão", lembrei desse texto que escrevi na época e que pensei jamais haveria oportunidade de mostrá-lo. Acho que esta é a última, pois quando o sujeito for solto, em 2119, este blog já deve ter saído do ar.)
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Desde que tomei aquelas três cervejas, comecei a ouvir vozes. Duas horas depois das cervejas, mais ou menos, as vozes começaram. Agora me lembro que não foi a primeira vez que ouvia vozes. Sempre que tomo umas cervejas, duas horas depois mais ou menos, ouço vozes. Elas dizem: "você tem que mijar", "você precisa mijar", coisa do tipo. Naquele dia não foi diferente, as vozes me ordenavam que eu devesse imediatamente mijar. Achei natural, afinal todo mundo deve mijar duas horas depois de três cervejas, isto é, as vozes não diziam nenhuma asneira, estavam certas, por isto concordei e segui em frente. Sei lá, se as vozes dissessem, "compre uma metralhadora e mate uns três no cinema", eu estranharia, discordaria, ponderaria, argumentaria que isto seria uma loucura, que seria preso, mas não foi nada disso, eram vozes sensatas que me instavam a dar uma boa mijada, afinal estava com um bucho cheio de cerva. Então eu deveria escolher o lugar para atender as ordens das vozes. Um shopping me pareceu perfeito, afinal lá tem banheiro.
As vozes aumentavam, ficavam mais altas e insistentes "você tem que mijar agora", "AGORA, AGORA". Pedi para elas, as vozes, me deixarem em paz, afinal não havia motivo para agressividades, eu concordara com elas e estava providenciando o atendimento de suas ordens, elas não quiseram saber, começou um bate-boca entre mim e as vozes, ameacei não mijar coisa nenhuma, ameacei ficar emburrado, o pau começou a quebrar, uma das vozes começou a discutir com as outras, virou uma bagunça, eu tive que botar ordem na casa segurando o fôlego. Trinta e oito segundo sem respirar e elas se calaram. Então me dirigi ao banheiro do shopping. Estava cheio tinha fila em todos os vasos porque eu não mijo naqueles sifões só para homens nem que me matem, fico nervoso e nada sai. Então me ocorreu a genial idéia de fazer o serviço no banheiro do cinema. Entrei no cinema e já tinha começado um filme inspirado em um livro de Júlio Verme (sic), ou coisa do tipo, achei apropriado mijar em um cinema onde passava aquele tipo de filme nojento. Entrei no banheiro, tirei o instrumento para fora e mandei uma golfada de urina na minha imagem no espelho. Então o resto todo mundo sabe, entrei no cinema e na hora da cena em que está havendo um dilúvio de uma chuva amarela, me pus na frente na tela já com o instrumento à mostra e atendendo às malditas vozes, mijei em direção à platéia. Dizem que teve mijo para todo mundo das três primeiras filas. Enquanto eu fazia o serviço ninguém teve coragem de se aproximar. Quando terminei, uns seguranças me dominaram. Agora ouço vozes me dizendo que devo procurar um advogado. Malditas vozes.
(cesar miranda 25.11.99)
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maio 31, 2004
UM IMBECIL NARCISISTA DECIDIDO (conto curto)
Acordou um dia resolvido a um ato radical, mataria todos aqueles a quem ele amava. Fez uma lista dos nomes por ordem de adoração, como era o primeiro da lista, começou suicidando-se. Deixou mulher e três filhos.
Posted by César Miranda at 09:08 PM | Comments (0)
maio 28, 2004
O ATOR SINCERO (conto curto)
Ele dizia “bom dia, o caralho!”, “vá a merda!”, “detestei a piada!”, “larga de ser burro!”, “presta atenção, jumenta!”, “como você é feia, minha filha!”, “fala mais baixo, seu mal educado!”. Ninguém gostava dele. Era sincero demais, mal educado de tão sincero. Era tão sincero que todas as suas frases terminavam com um ponto de exclamação. Dizia “basta fingir em minha profissão, não vou ser ator na vida também nem que me matem!”. ! ! ! ! (isto era ele respirando).
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maio 26, 2004
NOSSA HISTÓRIA (conto curto)
Nascemos de teimosia. Vivemos de esperança. Morremos de medo.
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NOSSA HISTÓRIA - VERSÃO ESPÍRITA (conto curto)
Morro de velho. Nasço de novo. Morro de novo. Nasço de novo. Quanto mais morro, mais nasço. Quanto mais nasço, mais morro. Quando penso que morri, olha eu nascendo de novo. Quando penso que nasci, olha a morte vindo aí... Socooooorro!
Posted by César Miranda at 08:11 PM | Comments (1)
maio 25, 2004
OUTRA PESSOA (conto curto)
- Aurora, eu tenho que lhe confessar uma coisa. - Pode falar, Mário! - Eu quero a separação, doravante dedicarei minha vida a outra pessoa. - Meu Deus, não faça isto, nós somos tão felizes. - Somos, mas eu não consigo viver dividido desta forma e você não caberá mais em minha vida. - Quem é a maldita fulana? - Não é uma mulher. - Meu Deus, Mário!!!! Você quer me matar do coração, já nessa idade, abaitolou-se?!... - Qualé ô Aurora, não sou viado, não, qualé, mulher?! - Que homem é esse a quem você vai dedicar sua vida mesmo sem ser viado? - Bach. Eu decidi, minha vida só terá significado se eu viver para a música de Bach e francamente, não dá tempo de uma pessoa fazer outra coisa, não cabe mais nada além disto em uma vida. Hoje mesmo vou embora.
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maio 17, 2004
SANTO ANSELMO PROFETIZA (conto curto)
Quando escurecia, Santo Anselmo pegava a vela e chegava para mais perto de si enquanto escrevia seu argumento lógico sobre a existência de Deus. Os olhos pesavam, a vela fazia que ia apagar. Ele a trazia para ainda mais perto de si e ficava tão perto da vela e do papel que quase se queimavam. A fronte suava com o calor, mas de outra forma não enxergava direito o que escrevia. E profetizava “ou inventam uma luz artificial mais potente que esta vela ou no futuro chamarão estes tempos de idade das trevas...”.
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maio 11, 2004
O CONVENCIDO - A SOLIDÃO (conto curto)
Estou só e preso. Preso e só. Cercado apenas por braços e pernas de uma ruiva mais alta do que eu. Não sei por que tantos se queixam da solidão e da falta de liberdade. Antes de Nicole, eu não gostava muito da idéia da solidão, ainda bem que ela se separou de Tom e me aprisionou em seus braços e me convenceu do significado supremo da solidão. Mais ainda, da prisão. Um dia, ela me disse, “amor, a solidão é algo valoroso, acredite”. Fiquei convencido. Realmente uma boa solidão não é algo que se deve desprezar. Acomodei-me nos braços de Nicole e fiquei ali, sozinho, sozinho e preso.
Posted by César Miranda at 08:05 AM | Comments (2)
maio 03, 2004
...E AO PÓ RETORNARÁS (conto curto)
Um roqueiro morreu, foi cremado e virou um pó de cocaína de excelente qualidade. Atendendo seu último desejo, foi cheirado pelos outros componentes da banda, ocasião na qual um deles morreu de overdose. Este sim, foi enterrado.
Posted by César Miranda at 08:23 PM | Comments (1)
abril 30, 2004
AS SOLUÇÕES E OS PROBLEMAS CAUSADOS POR ELAS (contos curto)
Legalizaram as drogas. O pequeno traficante não foi procurando mais. Resolveu assaltar, mas não sabendo fazê-lo, foi preso. O grande traficante entrou para a política. Elegeu-se. Hoje ganha bem mais. Os vendedores de armas não foram mais procurados. Fizeram uma promoção. Com o excesso de armas baratas, começou uma guerra civil. O usuário foi à loja comprar sua porção de droga. Foi atingido por uma bala perdida. Morreu. Agora a sociedade tem um novo inimigo, o tráfico de armas. Pensa-se em legalizar as armas.
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abril 27, 2004
O PORCO (conto curto)
E disse o Waldomiro:
- Desculpa, porco, mas o povo aí não é vegetariano não e eu não tenho culpa nenhuma disto.
E enfiou a faca pontuda no flanco do animal que sangrou e gritou até morrer. Acontece que naquela terra era crime matar porco mas não era crime comer sua carne.
Posted by César Miranda at 06:11 PM | Comments (5)
abril 25, 2004
UM CASAMENTO PORRADA (conto curto)
Um sádico e uma masoquista se casaram e tiveram vários sadomasoquistazinhos. As crianças brigavam muito, para felicidade geral e alegria de todos.
- Pai, o Juca me bateu - conta a irmãzinha, com brilho nos olhos.
- Bate nele também, filhinha, não seja má, vai - responde o pai, espumando.
- Mãe, a Lelé me bateu - diz o menino em êxtase.
- Que bom, filhinho, dá um beijo nela - diz a mãe - também quero, Lelé, vem cá, bate na mamãe também...
Adolescente, Juca se tornou um rapaz santo, amava e perdoava a todos. Os pais sofriam, coitados. Os filhos são assim mesmo, só nos dão desgosto.
Posted by César Miranda at 07:25 PM | Comments (2)
abril 22, 2004
O TRECO CERTO (conto curto)
O celular toca e o bandido atende. Na outra linha, sua mulher.
- Como foi o assalto?
- Ocorreu tudo bem, deu tudo certo.
- Conta aí, vai...
- A polícia chegou e prendeu a gente.
- Isto lá é ocorrer tudo bem?!
- Claro, a polícia são os mocinhos, quando eles vencem é por que tudo ocorreu bem, teria dado errado se, nós, os assaltantes, bandidos, portanto, tivéssemos sido bem sucedidos. Liga pro meu advogado, estou no camburão indo para a delegacia.
ps - não sei se repararam, mas a frase – o treco certo - é um palíndromo.
Posted by César Miranda at 07:40 PM | Comments (2)
abril 12, 2004
SONHA QUEM NÃO TEM (conto curto)
O homem que tinha tudo só sonhava com a escassez. Buscava em vão um naco de necessidade. Sonhava com o dia em que já não teria tudo. Sem sonho a vida é triste e ansiar pela escassez também não é bom. Se achasse outro gênio da lâmpada pediria o direito de sonhar sem limites. De novo ficou triste porque só sonha sem limites quem nada tem. Era infeliz o homem que tinha tudo, como também o seria se nada tivesse. O homem é sempre infeliz.
Posted by César Miranda at 08:57 PM | Comments (4)
abril 11, 2004
UM CASAL DE CONTOS CURTOS
A FOME E A VONTADE DE DAR (conto curto)
Um homem santo casou com uma mulher vagabunda. Ela tinha tanto prazer em lhe maltratar quanto ele em lhe perdoar. Viviam felizes. Um dia a mulher se arrependeu de tudo e virou santa. O homem então, começou a beber e a bater na mulher. Agora ele tinha prazer em maltratá-la tanto quando Ela em perdoá-lo mas não eram mais felizes como antes, sentiam-se, sei lá, meio deslocados.
O FASTIO E A INAPETÊNCIA (conto curto)
Ela, apesar de só pensar em traí-lo, comportava-se como uma santa. Ainda bem, pois ele, apesar de se dizer santo, era incapaz de perdoá-la. Viviam felizes? Só ele.
Leia de novo, por favor. É tão curtinho. Lê, vai!
Posted by César Miranda at 07:41 PM | Comments (2)
março 29, 2004
A HISTÓRIA DELES DOIS (conto curto)
Conheceram-se ontem. Casam-se hoje. Amanhã se desconhecerão.
Posted by César Miranda at 07:47 PM | Comments (1)
março 16, 2004
A PRIMEIRA LIGAÇÃO DELA PARA ELE (conto curto)
Falaram-se 11 horas ao telefone, durante a noite toda. Nem fez o desjejum. Saiu atrasado para o trabalho, porém, jamais teve um dia tão produtivo. E jamais esteve tão desperto.
Posted by César Miranda at 09:04 PM | Comments (1)
NO JULGAMENTO FINAL...
O brasileiro “excluído” recebe o veredicto de que vai passar a eternidade no paraíso e comenta meio decepcionado, “de cara, assim?! Não sei se me acostumo não...”
O político recebe o veredicto de que vai passar a eternidade no inferno e comenta animado, “iça! Lá é que eu vou poder sacanear à vontade...” (do outro lado, satanás lambe os beiços pensando no banquete diário que fará com as tripas do ex-parlamentar).
Posted by César Miranda at 08:47 PM | Comments (1)
março 13, 2004
O TAL DO TAO (conto curto)
Um dia saiu ao sol e se deu conta da própria sombra. Imaginou tratar-se de um amigo. Não a associou nem ao sol nem a si, mas as suas andanças por aqueles caminhos. De noite, o sol se foi, levando seu amigo. No outro dia, eis o amigo outra vez. Era um grande sujeito, ia com ele a todos os lugares, respondia a seus acenos, mas nada dizia. De tardinha, sentava-se cansado, virava-se para comentar algo e o amigo sumira. Mal dormia amedrontado com a possibilidade de que o amigo não voltasse. Mas no outro dia lá estava o amigo, às vezes a seu lado, noutras a sua frente, atrás, do outro lado mas sempre por perto gesticulando muito, como ele, mas nada dizia, só ouvia. Era o amigo perfeito. Quando o sol se punha, dizia "adeus meu amigo", e ia dormir.
Posted by César Miranda at 08:07 PM | Comments (4)
fevereiro 26, 2004
NO INFERNO (conto curto)
O diabo castigou uma turma de condenados que foram pegos em um bar do inferno enchendo a cara. Mandou-os para a solitária.
Um deles reclama:
- Mas que diabo, nem no inferno se pode pecar?! Desse jeito isto aqui vai acabar virando um convento e virando um convento corremos o risco de irmos todos pro céu e lá é que eu não vou poder tomar minhas cachaças mesmo, meu Deus, que inferno!
Posted by César Miranda at 10:04 PM | Comments (2)
janeiro 19, 2004
NAUFRÁGIO (conto curto)
Afogou-se escolhendo para qual ilha nadaria.
Posted by César Miranda at 08:12 AM | Comments (3)
janeiro 02, 2004
O LADRÃO QUE ROUBOU, NÃO PÔDE CARREGAR E NÃO SENTIU VERGONHA (conto curto)
Um ladrão colocou sobre os ombros de seu camelo centenas de quilos de jóias roubadas. O pobre animal (o camelo, não ladrão) não suportou o peso e caiu morto no deserto. O ladrão então levou o quanto pode deixando o resto para trás. Não obstante ter roubado e não ter podido carrega, não sentiu nenhuma vergonha. “Vergonha eu deveria ter era de ser ladrão”, filosofava ele, “não dessas conseqüências acessórias e das contingências daquele evento, vou é roubar um camelo melhorzinho”.
Posted by César Miranda at 08:20 AM | Comments (4)
dezembro 10, 2003
SE DEUS FOSSE HOMEM (conto curto)
Deus viu o macho da espécie humana no paraíso tão solitário naquele mundo de beleza e resolveu acabar com sua tristeza e solidão. Fez mais cinco machos e mandou-os à pescaria.
Posted by César Miranda at 10:26 AM | Comments (7)
novembro 05, 2003
DUPLO HOMICÍDIO (contos curtos)
Entrou na sala, encontrou a mulher com o amante por cima. Jogou o amante pela janela do décimo andar. A mulher tentou impedir. Ele se jogou em direção à mulher que se desviou e ele caiu da janela do décimo andar em cima do cadáver do amante. A polícia chegou, prendeu a mulher que hoje cumpre 50 anos de cadeia pela defenestração dos dois.
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outubro 01, 2003
TRAGÉDIA MIRIM (conto curto)
Durante o sacramento a criança escorregou e se afogou na pia batismal.
Os compadres mutuamente se culparam mas ninguém foi preso.
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setembro 25, 2003
O SANTO (Da série "contos curtos")
O sonho do rapaz era entrar para a igreja e ser santificado. Mentiu para o pai, que o queria advogado, e se matriculou em teologia, fez o curso escondido. Cheio de preguiça, matava aula e nas provas, colava. Acreditava que os fins justificavam os meios e cometeu todos os pecados necessários a fim de realizar seu grande sonho: ser um santo.
Posted by César Miranda at 08:05 AM | Comments (0)
setembro 23, 2003
DEPRESSÃO AQUÁTICA
O peixe suicida nadou, nadou até morrer na praia.
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setembro 17, 2003
RECORDAÇÕES DE UM DIVÓRCIO (conto curto)
Ela adorava sardinha em lata. Não sei o que tinha contra os atuns.
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setembro 09, 2003
O OBSTETRA ASSASSINO
Sempre que fazia um parto, matava alguém. Via todo sentido do mundo em tal ato. Dormia feliz.
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setembro 02, 2003
CELULAR (conto curto)
Disse o velho índio:
- Os antigos contavam que em 55 desceu aqui um disco voador e o homem verde saiu de dentro o disse, "não se assustem, vim em paz, só quero uma tomada para recarregar a bateria meu celular".
- Em 55? 1955? - pergunta um indiozinho
- Não, apenas 55 - esclarece o velho.
- Se fosse hoje, eu emprestava o meu para ele - responde outro indiozinho alegre com o novo celular que tira fotos, que acabara de ganhar.
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agosto 28, 2003
SENTIR PENA É ACHAR QUE DEUS É INJUSTO ou SABE-SE LÁ O QUE SE PASSA NAS CABEÇAS DE DEUS E DO HOMEM (conto curto)
Como fizera com Jó outrora (e como faz de vez em quando com seus eleitos, inclusive com seu próprio filho unigênito), Deus mandou um pesado fardo para um de seus amados servos. Estando o tal servo quase na miséria, veio uma bondosa alma e lhe deu guarida, Deus então, aumentou ainda mais o peso do fardo e vieram mais bondosas almas ao socorro do servo e tornaram leve o pesado fardo que Deus, na sua infinita sabedoria, colocara nos ombros do eleito. Depois da quarta tentativa de arruinar a vida do varão, sempre frustrada pela bondade dos que lhe eram próximos, Deus então desistiu: "Malditos benfeitores, quando aqui chegarem se verão comigo, os mandarei todos para o inferno." Bradou o Ser Supremo, confundindo a justiça dos justos e a sabedoria dos sábios.
Posted by César Miranda at 08:05 AM | Comments (0)
agosto 25, 2003
DOIS DE NOVEMBRO (conto curto)
Sentou-se na laje de minha sepultura e cantou um rock que eu odiava.
Nunca me amou!
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agosto 21, 2003
CRIME NO CONVENTO (conto curto)
A freira no terceiro dia de jejum, não teve dúvidas, assaltou o depósito de hóstias.
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agosto 19, 2003
A ENXADA (conto curto)
Disse o campo com os olhos marejados "ela me deixou e foi arar outras almas".
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agosto 15, 2003
O IRMÃO DO PRÓDIGO (conto curto)
Um dia, o irmão do filho pródigo resolveu se divertir como o irmão também fizera. Pensou: “aprendi com a experiência do meu irmão, vou só me divertir e voltarei antes que o dinheiro acabe”. Pediu sua herança ao pai e se foi. Meses depois voltou do mesmo jeito que o irmão mais novo. Aprendeu que longe do pai, acaba-se sempre entre os porcos.
Posted by César Miranda at 10:29 AM | Comments (0)
agosto 08, 2003
ERA UMA VEZ UMA HISTÓRIA
Era uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim: “Era uma vez uma história que começava assim:...
E ia assim até o fim.
Posted by César Miranda at 09:35 AM | Comments (0)
julho 11, 2003
O PADRE NO BORDEL
(Da série "contos curtos")
Uma prostituta devota convidou um padre para rezar uma missa em seu local de trabalho, para parecer natural, o padre começou o sermão assim:
- Se você não acredita que Jesus é o filho único de Deus, você tá é fudido, o caminho sem Cristo é uma merda, viver sem Cristo é foda, minha gente.
Todos:
- Amém!
O padre:
- Certa vez o diabo tentou Jesus, Jesus simplesmente mandou ele tomar no cu; Quiseram apedrejar uma prostituta, Jesus mandou todos à puta que os pariu; Certa vez tinha uns camelôs na frente da igreja, Jesus baixou o cacete e mandou aqueles viados todos para a casa do caralho; Jesus é fodão mesmo, se o seguirem terão sempre o pau de cada dia, quer dizer, o pão de cada dia que no caso de vocês dá na mesma. Agora vamos rezar o pau nosso, quero dizer... o pai nosso, puta que pariu hoje eu tô confundindo tudo, também foda-se...
Todos:
- Amém
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julho 03, 2003
O LIVRO DE UM CARA MUITO PREGUIÇOSO
Um cara muito preguiçoso teve uma idéia genial para um romance. A um amigo, para que desenvolvesse a idéia, preparou 300 páginas com a sugestão do tal romance. O amigo então produziu um ótimo livro de 180 folhas.
Posted by César Miranda at 08:12 AM | Comments (0)
junho 24, 2003
O GAY DESEMPREGADO
Um gay que tinha vergonha de sua condição homossexual foi procurar um emprego, o empregador perguntou, você é gay? E ele com voz e trejeitos de macho disse, não, não sou gay, o empregador respondeu, me desculpe, eu sou e só dou emprego a gays...
Posted by César Miranda at 08:21 AM | Comments (0)
junho 16, 2003
O VÍRUS (conto curto)
Na aldeia dos índios tapuias, o indiozinho saiu da rede e foi correndo queixar-se ao cacique de um vírus que tinha pego. O cacique disse-lhe, "Curumim, esse negócio de vírus é com o pajé, vá até ele". O indiozinho foi com o caso do vírus ao pajé que reuniu os anciãos da tribo, fizeram a dança da chuva e o kuarup, regado a cauim, invocaram Tupã e passaram ao indiozinho a fórmula para debelar o vírus. Disse-lhe o pajé: "curumim deve acessar o site dábliu dábliu dábliu ponto norton ponto com e faz o download do antivírus mas tem que ser no máximo até amanhã que é o último dia em que o programa zipado estará como freeware".
Tratava-se de um vírus que atacara seu laptop quando o indiozinho estava balançando na rede e navegando na internet. Não conseguindo acesso ao antivírus a tempo, o indiozinho o comprou de um pirata que aportara no litoral perto de sua taba e mais tarde com mais três naus lotadas de outros piratas dizimou a tribo e vendeu a aldeia à Microsoft que fez ali um sítio com um enorme portal.
Posted by César Miranda at 08:07 AM | Comments (0)
junho 12, 2003
SÓ DE SACANAGEM...(contos curto)
...Deus, confundindo a ciência dos cientistas, proibiu o consumo da maçã mesmo sabendo ser essa fruta rica em elementos anti-radicais livres. Sabendo também que um irmão mataria o outro, o Senhor deu um casal de filhos a Adão e Eva. A primeira idéia que lhe ocorreu, que descartou por considerar por demais diabólica, era a de dar-lhes um casal de filhas com a conseqüente tragédia em que uma tomaria o namorado da outra.
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junho 10, 2003
QUE MORRA A HUMANIDADE!
Ele teve que optar entre salvar a humanidade ou o amigo. Claro que optou por salvar a humanidade.
Claro que a humanidade lhe condenou à prisão perpétua pela morte do amigo.
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junho 06, 2003
A TELEVISÃO
Na Índia, deram uma televisão para o faquir, ele não fazia mais nada, só assistia. Chamou seus três amigos, ermitão, guru e místico, todos caíram de quatro frente à tela. Hoje o faquir é camelô. O ermitão vende maconha. O guru tá lançando um livro de auto-ajuda e o místico virou web-designer.
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maio 21, 2003
O HOMEM QUE ODIAVA OS CATÓLICOS
Certa vez em uma cidade de católicos, havia um homem que odiava os católicos, aproveitando-se da visita do Papa à capital, fato que deixou a cidade dos católicos quase deserta, o homem que odiava os católicos tramou um atentado terrorista que matou quase todos os católicos. “Agora viverei em paz sem católicos na minha cidade pois estão quase todos mortos”, pensou o homem que odiava os católicos. Hoje a cidade vive repleta de católicos de todo o mundo que vão fazer promessas e rezar pelos ex-habitantes, hoje, quase beatificados.
Posted by César Miranda at 08:22 AM | Comments (0)
maio 16, 2003
SUPERCINE METALINGÜÍSTICO
Era o vigésimo trago em um copo pequeno. Assistia ao supercine, um atestado de fracasso pois vê o supercine quem fica em casa sábado à noite. Bebendo suportaria o filme. Aproveitou para escrever sobre um cara que bebia o vigésimo trago na porra de um copo muito pequeno enquanto via a porcaria de um filme horrível. O filme piorava mas fez questão de vê-lo até o fim, pois quem vê o supercine merece ver o supercine. Bebeu muito, apesar da porra do copo muito pequeno.
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maio 06, 2003
O DIVÓRCIO DO HOMEM E O DIVÓRCIO DA MULHER
- Largou a mulher. Sentiu-se só. Comprou um cachorro. (Tá de olho na veterinária);
- Sentiu-se só. Comprou um cachorro. Largou o marido. (Tá de olho em mais um cachorro).
Posted by César Miranda at 08:40 AM | Comments (0)
abril 30, 2003
A CRÔNICA ANACRÔNICA
Vinha eu de onde ia e lá chegando encontrei quem ia comigo. Nos olhamos e falamos o que tínhamos dito e nada entendemos, por isto tivemos que repetir até o outro esquecer tudo. Satisfeitos, nada dissemos, pois agradecidos que estávamos, nos entendemos perfeitamente. Dali partimos à procura um do outro. Ninguém nos disse onde estávamos mas desconfiávamos que era ali mesmo onde nos encontrávamos. Seu silêncio me ensurdecia e o meu lhe espantava em todo o caminho. Lá chegando, me lembrei que estava lá, de onde tinha saído. Então indiquei para outro onde deveria acharia e segui meu caminho. Nunca mais nos vimos.
=[=
BURRO OU LADRÃO?
Vi em um carro um adesivo que dizia "Ajude a nação, não vote em ladrão".
Vou fazer a campanha "Ajude o Brasil, não vote em imbecil".
É preferível um ladrão inteligente do que um honesto burro. Tirando a contradição dos termos (se é ladrão não pode ser inteligente pois alguém inteligente encontra um meio honesto de viver...), a vantagem do ladrão sobre o burro é visível:
Primeiro, ninguém é ladrão 24 horas por dia, burro é, o tempo todo;
Alguém com fama de ladrão passará o tempo todo tentando provar que é honesto, já o burro quanto mais fizer, pior será; e
Caso o ladrão roube, há dispositivos legais para barrá-lo, de impeachment a pau-de-arara mas contra a burrice e seus efeitos não há lei, só resta ao povo sentar, chorar e esperar o tempo passar.
=[=
O MEMBRO
Candidatou-se para membro da "Sociedade dos Seres Humanos Livres". Quando leu o estatuto, rasgou a inscrição. "Ah, rapaz, eu não ia mesmo obedecer tais regras, nem danado". Não estava preparado para ser livre. "Preparado, caro narrador? Como assim? Sou o mais livre dos seres...". E então, por quê rasgou a inscrição? "Bem, talvez eu não esteja preparado é para fazer parte de uma sociedade com esse nome, que raio de liberdade é essa, com estatuto?!?" Pois é, caro personagem, até a liberdade tem seus estatutos. "Esta eu não sabia!". Pois é, ele não sabia.
Posted by César Miranda at 10:55 AM | Comments (0)
abril 25, 2003
NADA E COISA ALGUMA
Diz o vagabundo que ficou tetraplégico:
"não tá tão ruim não, eu já não fazia quase nada mesmo..."
Posted by César Miranda at 03:25 PM | Comments (0)
abril 23, 2003
OS PIOLHOS
Durante muitas gerações uma família de piolhos vivia na barba de um velho, viam poucos outros insetos e ansiavam pelo progresso da região. De vez em quando aparecia uma ou outra pulga com notícias de alhures mas era tudo. Um dia o velho morreu, o progresso chegou e o lar foi invadido por insetos próprio dos mortos. Primeiro vieram os mosquitos, depois as moscas, as baratas, umas formigas e alguns vermes, porém acabou o sangue fresco para alimento dos piolhos. Pegaram carona em uma barata, depois em uma mosca e se mudaram para a cabeça de um menino onde esperam começar novas vidas. Não reclamam mais da solidão mas sentem saudades da barba do velho.
Posted by César Miranda at 08:36 AM | Comments (2)
março 26, 2003
...E FORAM FELIZES PARA SEMPRE...
E na eternidade, os amantes, entediados, maldizem o autor da fábula que os condenou à perpétua felicidade.
Posted by César Miranda at 11:49 AM | Comments (0)
março 11, 2003
DUAS BARATAS DISCUTEM CULTURA
Uma barata chegou com uns livros debaixo do braço na casa da vizinha:
- Comadre trouxe-lhes uns livros, ouvi dizer que você gosta.
- Gosto sim, pode deixar aqui, depois eu preparo e como, sente-se, vamos conversar sobre comida, a senhora gosta de filme, eu adoro filme.
- Ah, eu também gosto, tem uma traça amiga minha que trocamos muito figurinhas gastronômicas. Menina, ela tem umas receitas com filmes que são uma beleza, essa receita leva pergaminho também...
- Pergaminho?! O que é isso?
- Ah, é um dos ingredientes da receita.
- Ah, eu quando tem ingredientes difíceis, eu pulo de receita, gosto de receitas simples com cadernos, livros...
- Eu tenho uma filha que usa livros para ler
- Argh!
- Essa juventude não preserva as tradições.
- A minha vizinha prefere dinheiro, adora uma nota antiga ao óleo...
- Essas burguesas...
- Pintura, a senhora gosta?
- Ah, muito, eu gosto muito de artes em geral, gastronicamente eu sou muito culta.
As duas riem muito.
- Minha barriga é uma sopa de letrinhas.
- Sopa de latrinas, perdoe o trocadilho...
- Queisso?! trocadilho é um barato...
Rolam de rir.
- A minha barriga é um museu. Vamos beber alguma coisa. Um brinde aos artistas, nossos fornecedores de comida.
Riem desbragadamente.
- Viva os artistas.
- Saúde.
Posted by César Miranda at 08:12 AM | Comments (0)
fevereiro 11, 2003
O HOMEM QUE VIA EM PRETO E BRANCO (conto curto)
O homem que via em preto e branco após uma cirurgia passou a ver em azul, vermelho e verde. Nenhuma das inúmeras cirurgias que fizera chegou tão perto do ideal. Resignou-se e estudou a química das cores. Sabia o resultado da mistura de todas as cores, na proporção e combinação que fosse. Imaginava-as. Tornou-se um gênio no trabalho com as cores. Todos admiravam a altíssima perícia dele que vendo apenas as cores primárias criou várias tonalidades até então desconhecidas. Modesto, dizia "Ora, gente, Beethoven era surdo..."
Posted by César Miranda at 07:16 AM | Comments (0)
janeiro 28, 2003
ENQUANTO ISTO NO INFERNO (conto curto)
"Aumenta o som, eu adoro essa música, lembra minha infância" disse o diabo, ao ouvir "Ave Maria", peça que o Todo-Poderoso mais tarde soprou a Schubert e que embalava o sono de Lúcifer quando era criança e morava no céu.
Posted by César Miranda at 12:44 PM | Comments (0)
SÍLVIO RODRIGUEZ NO TÚNEL DO
- Que bela canção, de quem é?
- De Sílvio Rodriguez
- Ah!, não conheço essa música, não
- Nem ele, ainda não foi composta, ele ainda não a escreveu
- !!!
Posted by César Miranda at 06:58 AM | Comments (0)