agosto 03, 2008

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER VIII

Eu me sentia só. Muito só. Precisava de alguém para conversar. Até aquele momento, quando abri o arquivo e vi a situação absurda em que estava a coisa toda, não tinha me ocorrido procurar alguém para contar sobre a minha relação com aquela romance fora de controle. A história tinha praticamente dobrado de tamanho. Eu já não tinha mais como escrevê-la, pois levava todo meu tempo lendo a dita. No computador estava lá a hora em que fora alterado aquele arquivo e vi que, de fato, ninguém tocara nele depois que saí. Mas a história andou – e como andou! Vou resumir o andar daquela carroça. Um sujeito da cidade, chamado Alexandre Clark (depois descobri que o nome dele era Aurino, Alexandre Clark era nome “artístico” de pastor "evangélico") abriu uma igreja: “O templo do Grande Autor”. Para quem? Quem era o Grande Autor? Ora, "quem?", este aqui que vos escreve. Eu ficara muitos dias sem tocar na história e o foco do enredo se deslocou totalmente para o fenômeno religioso que ocorria na cidade. O “reverendo” Alexandre Clark (que eu apelidei de "Clark Crente") conheceu o menino Rafael na clínica psiquiátrica e acreditou em sua história. Antes de ser pastor, Clark era um locutor de rádio razoavelmente famoso na cidade, com seu programa de música sertaneja. Depois de ter um caso extraconjugal com uma ouvinte, que também era casada, Alexandre Clark foi vítima de um atentando. Em seguida, matou o marido da mulher e, para se safar, passou a se comportar como doido, truque que funcionou, e foi declarado incapaz pela justiça. Ficou por um tempo em um manicômio judiciário, onde teve problemas psiquiátricos reais, e, ao sair, passou a freqüentar a clínica para onde levaram o menino Rafael para tratamento. Coincidentemente, ele e Rafael, no mesmo dia, foram à clínica e, depois que ouviu a história dos pais da criança, Clark foi para casa e criou todo o arcabouço doutrinário de seu novo projeto. Os argumentos do credo do “Templo...” eram simples. Ora, se Cristo é o verbo de Deus, significa mesmo que Deus é um escritor e nós (eles lá) somos meros personagens que devemos entregar nossa vida e deixar que "Ele" escreva nossa história. E mais: se “no princípio era o verbo”, antes do princípio haveria um autor para verbalizar. Já havia até teses acadêmicas sobre a doutrina do “Templo do Grande Autor”. Li algumas orações dirigidas a mim. Várias. Não sabia se ria ou chorava. Era gente pedindo para vender uma chácara por um bom preço (assinalavam isso), pedindo casamento, emprego, para ganhar na mega sena, aumentar o pênis, diminuir a barriga. Tudo coisa que eu, como autor do livro, realmente poderia fazer por eles. Bastava entrar lá e com um parágrafo enriquecer ou desgraçar a vida de quem eu quisesse. Era muito para a minha cabeça. Eu realmente precisava falar com alguém.
(continua...)

Posted by César Miranda at agosto 3, 2008 12:48 PM | TrackBack
Comments

hehehe, prossegue que eu acompanho
ótimo

Posted by: Rômulo Arbo Menna at agosto 12, 2008 05:42 PM

Ah, isso aqui tá muito bom...etc!
Amitiés,
Beto.

Posted by: Adalberto Queiroz at agosto 8, 2008 10:12 AM
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