A ciência é um ramo da árvore. O sobrenatural é de onde veio a força da semente. Ciência e sobrenatural não são incompatíveis e se tocam mais do que muitos imaginam. A própria natureza está cheia de incompatibilidades aos olhos da ciência. Se tudo fosse simétrico na natureza como parece à primeira vista, teríamos dois corações como temos dois braços, duas pernas, dois pulmões (Chesterton nos lembra disso em seu livro Ortodoxia). A ciência nos mostra uma verificação feita à primeira vista. Em seguida nos mostra uma verificação à segunda, à terceira, à quarta, à quinta vista, e todas elas podem se contradizer e se desmentir mutuamente, pois a neve de longe é branca e de pertinho é meio cinza. A ciência é um método de medir. As leis da natureza têm um legislador. Esse legislador pode burlá-las, pois tais leis não se aplicam a Ele. É da ciência buscar a origem das coisas e ela sabe que a origem da coisa não está na coisa, assim como a energia que move a coisa não é produzida por ela. De onde veio a energia que faz o universo girar? De dentro dele? Não seria científico acreditar nisso. O problema é que o cientista ateu busca a causa das coisas até onde lhe convém. A Causa (maiúscula) ele descarta de cara e, nessa hora, se mostra não científico. A ciência é muito útil para desmascarar falsos milagres. Deveria ser útil também para reconhecer os verdadeiros. Nenhum cristão sério apoiaria o reconhecimento como milagre de algo falso. Ora, seguindo o raciocínio da causa, só podemos dizer que a causa da existência do universo é sobrenatural, pois antes de existir o universo, não se poderia falar em natureza. Se algo está além da razão, esse algo a engloba. Se o sobrenatural existe, ele vê e controla o natural, pois está acima dele. Pode inclusive fazer-se de invisível ao natural. Nada pode o natural afirmar a respeito do sobrenatural sem autorização deste. Só o agnosticismo seria respeitável em tal caso, pois o ateu se coloca na mesma posição anticientífica que ele tanto critica no crente. O crente, porém, não pretende mesmo ser científico. Se a ciência ainda não explica um evento, nós não o podemos atribuí-lo ao sobrenatural? Nesse ponto a ciência toma para si a divindade a se colocar como instância última que tudo sabe ou tudo saberá. É justamente o contrário, tudo deve ser atribuído a seres divinos, até que a ciência prove que não é. A ciência é um instrumento, não O saber. Além disso, existindo o mundo sobrenatural, ele pode muito bem entrar no mundo natural e usá-lo como instrumento. E a chuva, por exemplo, mesmo sendo explicada pela ciência, será uma chuva causada pela vontade de Deus (ou acontecerá algo que Ele não queira?). Vivemos em uma era científica, os cientistas acham isso, mas quão científica essa era é? Usando um raciocínio realmente científico, só podemos responder que não sabemos e que amanhã a ciência pode negar tudo o que afirma hoje. Outra coisa é a falsa dicotomia entre religião e ciência. A religião não é anticientífica e a ciência não deve ser anti-religiosa, pois, assim como a ciência desmascara falsos milagres, a religião também desmascara falsas ciências. A ciência é falsa justamente quando quer se travestir de religião. As verdades religiosas são eternas. As científicas são passageiras. Sempre que uma verdade científica se pretender eterna, deverá ser rechaçada, primeiramente pelos cientistas honestos e pela própria religião. Algumas teorias de Darwin, por exemplo, estão nessa classe de verdades científicas que se pretendem eternas e que a própria ciência já tratou de demonstrar a falta de um método científico ali e colocar tais teorias na caixa das meras hipóteses, apenas uma possibilidade no reino imensurável das possibilidades. Com a verdade religiosa se dá o contrário, pois seria muito estranho se o Papa aparecesse com a notícia de que o sexto mandamento foi revogado (apesar de que muitos gostariam que isso acontecesse). E quando as duas verdades se estranharam, há casos em que a Igreja recuou e há casos em que não recuou e só o tempo disse quem estava certo, mas nada tira a validade das verdades religiosas, pois ninguém discorda que não devamos matar o próximo e que devamos honrar nossos pais. Não foi um extremista religioso quem inventou a bomba atômica e, além disso, os maiores assassinos na humanidade eram ateus. Não posso afirmar que Mao Tse-Tung e Stalin mataram milhões de pessoas por serem ateus, como não posso afirmar que foi o islamismo de Bin Laden que o fez terrorista. O mal existe em qualquer coração. Cristo disse que “só Deus é bom”. A diferença é que um verdadeiro crente sabe que seus atos serão cobrados por Deus. As razões para atos moralmente aprovados de um ateu podem ser bem parcas, têm o limite de seus medos (ou de seu estômago). Talvez por isso, um ateu com muito poder seja mais perigoso do que um verdadeiro cristão com muito poder terreno (há vários exemplos de santos que foram reis e rainhas, mas não me lembro de ateus poderosos e bondosos, o que não significa que não existam). A maldade feita por quem se diz religioso é um desvio em sua religiosidade (o “extremismo religioso” é o que há de menos religioso, extremismo religioso era o de Cristo). Quem mata em nome de Deus desobedece a Deus. Mate a fé dessa pessoa e ela matará muito mais (imagina a bizarrice deste testemunho de um ex-crente: “eu tinha fé e matava, mas hoje, depois que me tornei ateu, sou um homem bom”). Um ateu não pode abrir sua científica boca para culpar a religião pelas violências do mundo e dizer em seguida que Stalin e Mao não foram genocidas por serem ateus, pois não é científica tal análise. Mesmo cientificamente, a fé não é algo que se deva combater, pois já se provou cientificamente que a fé faz bem para a saúde.
Posted by César Miranda at julho 17, 2008 10:59 AM | TrackBackPor isso que eu também "não acredito em cientista ateu. Ele não acredita em Deus e quer que eu acredite nele."
"A voz de Deus nos diz constantemente: uma falsa ciência faz um homem ateu, mas uma verdadeira ciência leva o homem a Deus." - Voltaire.
Posted by: ... at julho 17, 2008 12:07 PMCaro amigo,
Devemos desconfiar de pessoas que somente compartilham as mesmas idéias e ideais em prol de interesses escusos. Ateus levam uma vidinha muito sem graça ( literalmente ) e não têm a quem agradecer no silêncio de seus quartos escuros quando conseguem algo importante em suas vidas.
Fraterno abraço
Posted by: Chico Sena at julho 17, 2008 03:06 PMtudo muito bom, tudo muito bem, but infidels party harder.
Posted by: david at julho 17, 2008 05:27 PMDe um texto do Umberto ECO: Quando as pessoas não acreditam mais em Deus, dizia Chesterton, não é que não acreditem em mais nada, mas acreditam em tudo. Até nos meios de comunicação de massa.
Posted by: Bourbon Açuruá at julho 18, 2008 08:13 PMEste texto é excelente...
Posted by: . at julho 20, 2008 02:38 PMDelicioso este texto, César.
Remeteu-me a Romanos 11:33, quando Paulo,
em êxtase, cheio de graça e de verdade diz:
"Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a Ele, para que lhe seja recompensado?
Porque dele e por Ele, e para Ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente"
Boa semana, querido!